Cupido Não
3 3 - Procura-se uma sala
Notas iniciais
Capítulo três
Procura-se uma sala

“Difícil não cair e chorar
Quando todas as ideias que você teve foram erradas
Mas você deve continuar”
(Les Jours Tristes — Yann Tiersen)
— Fiz algo? — perguntei entre baixo choramingos.
Foi quando eu tive coragem o suficiente para fitar o homem que se encontrava a minha frente. Quem sabe a consequência para ter quase feito sexo com o Aidan foi essa?
— Não querida, mas é que precisamos por outra atividade no lugar. — foi gentil em sua fala.
— Isso quer dizer que tem outra sala para mim?
— Infelizmente não encontramos outra, mas pense pelo lado bom, você vai sair para abrir espaço ao lugar do cochilo. — declarou.
Isso em nada deixou-me mais aliviada.
— É algum sinônimo para biblioteca? — disse enquanto dava um fraco riso.
— Alexis, apesar de achar graça, estou sendo sério ao dizer que vamos fazer uma sala para os alunos dormirem. — decretou.
Não. Não. Não.
— Por acaso consultou os alunos antes? Tenho certeza de qu-
— Já fizemos esse questionário e a maioria aceitou. — declarou.
— Onde que eu não me lembro? — estava realmente descrente com a situação.
As lágrimas deram lugar a raiva.
— Inclusive você foi favorável. — comentou.
Mostrou-me então um documento que tinha a minha letra, meu nome e um “sim” bem grande nas respostas para aquela maldita pergunta.
— Isso é um absurdo! — esbravejei.
— Você acha então melhor ficar juntando casais, que esporadicamente quebram as regras do colégio, ao invés de deixar vago a cama da enfermaria? Porque você sabe muito bem que praticamente todos os alunos inventam desculpas para adormecer naquela sala, deixando os que realmente precisam sem um lugar para se deitar. — deu um sermão digno de missa ou culto.
— Mas eu preciso ser conselheira esse ano, justo o que é importante para eu conseguir uma bolsa na faculdade! — implorei.
— Pare de ser egoísta e pense um pouco melhor sobre o assunto. Quanto a mim, não irei mudar de ideia. — inflexível.
Fechei meus olhos com força, dando um suspiro em rendição.
— Tudo bem. Quando irão começar a mudança? — quis saber.
— Amanhã. — como se desse de ombros.
— Mas eu preciso de mais tempo. — pedi.
— Não é o fim do mundo, ainda tem como administrar pela internet. — consolou-me.
— É inútil fazer um acordo. — sussurrei.
— Se achar um lugar ainda pode ter sua sala. — aconselhou dessa vez.
Depois disso deu uma piscadela e liberou-me. Como se tivesse cortado parte da minha asa de cupido que eu não tinha. Porque o momento mais interessante era ficar sentada no lugar esperando alguém chegar, enquanto usava uma roupa, peruca e maquiagem diferente para não me repararem. Podendo ser quem eu quisesse.
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— E as vadiam praticamente pulam em cima. — comentou a Anastásia ao apontar para o Houston.
“Vou fazer da sua vida um inferno”.
Olhei para onde estava o meu novo perseguidor e o vi com umas seis meninas ao seu redor, sendo que nenhuma delas era Emma Price. Agora tinha a certeza de que no intervalo ele não ia atrás de mim.
— E eu não sou uma delas. — repeti a minha celebre frase.
— Se me permite dizer, depois do que aconteceu cedo a última coisa que deve falar é que não se inclui naquele grupo. — esclareceu.
— Até você está me chamando de puta? — fiquei realmente assustada.
Seu comentário fez-me até levantar do morrinho de grama que nos encontrávamos para mirá-la de frente. Até porque eu estava muito chateada com a sua atitude.
— Me, sinto pela sinceridade, mas se a visse com meus olhos concordaria comigo. — continuou a humilhar-me.
— Então conte-me exatamente o que presenciou. — questionei.
Já cansada de ficar em pé eu me posicionei de novo ao seu lado, obrigando-a a virar o pescoço para explicar a situação.
— Muito bem, ele tocou em seus seios enquanto você gemia e sussurrava algo que ninguém sabia, como se estivesse sentindo o maior prazer de todos. Ninguém esperava que o empurrasse, no entanto que tivessem continuado e protagonizado o mais novo pornô do colégio. — se não fosse tão dramática não seria ela.
— Você me conhece ao ponto de saber que meu santo não bate com o dele, aquilo foi de surpresa! Se eu gostasse do que fez não teria me afastado. Não é verdade? — dei a minha versão.
— Mas admita que foi difícil resistir. Se fosse eu não teria me importado, até consigo imaginar. — confessou aos risos, para depois morder os lábios enquanto fitava o alvo da nossa discussão.
— Seria nojento. — constatei ao passar a cena na minha mente.
— Fala como se fosse a madre de Calcutá. — satirizou.
Agora ela vai ver.
— Posso não ser mais virgem como você, mas tenho modos. — revidei.
Comecei a comer o lanche, assim como ela. Cooper não tinha vindo nos acompanhar. Na verdade desde aquela nossa briga ele nem sequer me mandou mensagem. E eu, com toda a certeza, não estava gostando nada daquilo.
— Que foi? — e ela, como uma vidente, descobriu que estava preocupada só de me olhar.
— O Jam, ele, está chateado comigo. — desabafei.
— Penso que não, só acho que está falando com a Quinn. — tentou aliviar minha tensão.
Apenas fez com que eu ficasse pior.
— Ele nos trocou Ana. — conclui.
— Corrigindo, te descartou. Não sou a melhor amiga dele. — devolveu.
— Você e seu complexo de rejeição. — disse.
— Mas é a verdade. — em seu rosto tinha um sorriso.
Devorava tanto aquele sanduiche que parecia que ia ficar embuchada. Praticamente engolindo um pedaço inteiro ao ver que o Aidan piscava para mim, acenando em minha direção quando percebeu que o notei.
E o rei das garotas me “notou”.
— Agora tenho de ir na biblioteca, irei pegar o livro para a leitura obrigatória antes que até as reservas estejam lotadas. — comunicou.
— Vamos ler mais tarde juntas. Pode ser? — propus.
— Claro, irei trazer o brigadeiro. — como sempre.
— Não esqueça que eu irei passar no teatro mais tarde. Ok? — recordei-a quanto já estava indo.
— Sim, separarei um figurino. — respondeu ao saber do que se tratava.
Sorte a minha que não notou a minha troca de olhares com o Houston, senão falaria sobre isso até eu dizer chega. E, falando nele, estava justamente indo até onde estava – com as fãs em seu encalço.
Por um segundo eu tinha a esperança de que ia para outro lado, ou falar com outra pessoa perto de mim, mas a cada passo que dava tinha conhecimento de que eu era o alvo da vez.
— Alis. — começou com uma voz sensual e rouca.
— Aidan. — correspondi sem animação.
— Tenho de falar contigo depois da escola. — disse entre os risos das gurias que estavam perto de si.
Ele segurava a cintura de uma, abraçava a outra pelo ombro. Era agarrado por uma pelo pescoço. Já as outras apenas esperavam pela vez delas de estar mais próxima dele.
Que elas têm na cabeça para gostarem de um bad boy como ele?
— Vai ficar esperando. — rebati.
— Não tem o que querer! — esbravejou, deixando o tom mais grosso.
— Estamos em um país livre. — neguei de novo.
— Aceite logo que é uma de nós querida. — disse uma delas.
A que estava atrás dele, grudada como se fosse um carrapato.
— Se o cafetão de vocês não esclareceu, mas eu sou muito melhor que vocês. Principalmente do que ele. — impliquei.
— Escute bem Nohen, irá engolir palavra por palavra que teve a audácia de pronunciar. — praticamente rosnou ao pegar no meu braço de forma rude.
— É assim que trata as suas garotas? — quis saber.
— Não, eu, é que você me tira do sério! — declarou ao soltar-me.
— Então vou me retirar. Adeus. — despedi-me sem nem esperar a resposta deles.
Depois disso foi aulas, matérias, assuntos, pi, cromossomo, ribossomo, melanina, DNA, recessivo, ervilha, olhos azuis, albinos, tipo sanguíneo. Por fim eu pude ir ao local que desejava faz tempo ao levantar-me com a mochila em um dos ombros, mas não sem antes ver um papel embaixo da minha carteira.
“Será que ser vagabunda é hereditário?”
Rolei os olhos umas três vezes antes de sair da classe.
Dando passos enquanto abria o armário, sendo recebida por uma enxurrada de bilhetinhos. E sendo que apenas correndo os olhos por entre os recados percebi que era tudo xingamento, como traidora, destruidora de lares e outros “elogios”.
“Tudo pronto!” — Anastásia.
E com um falso sorriso no rosto passei por entre a multidão e me infiltrei no camarim com a maior descrição possível. O que eu não queria era que descobrissem meu disfarce por conta da minha popularidade negativa.
— Uma peruca roxa curta, uns shorts, blusa que aparece a barriga, botas compridas. — foi listando.
— Minha vontade é de te bater! — briguei.
— Entre no personagem Alex. — estava bem humorada.
— Então como esconderei meu cabelo comprido? — constatei.
— Aqui fazemos milagres. — disse a Ana.
Por isso mesmo deixei-a fazer o que devia sem nem dizer nada. Ao olhar-me no espelho parecia ter uns 22 anos, com sombra forte, batom bem vermelho e aquela vestimenta ousada.
— Agora tenho de ir encontrar o próximo cliente. — comentei.
— Vai lá poderosa. — apoiou-me enquanto batia palma e assobiava em meu desfile até a porta.
Só que ao chegar no final dela para ir ao meu último dia naquela sala, percebi duas pessoas se agarrando. Na verdade eram ninguém menos que Emma Hale e o tal de Dylan, o ganhador da competição da natação.
“Então vai atrás de outro, como a puta que é!”
E quando notei que o aluno do outro colégio tinha me notado eu corri rapidamente, esquecendo até que eu estava com o disfarce, apenas querendo me esconder a qualquer custo.
E que venha o outro para aconselhar amorosamente.
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