Cupido Não
10 10 - Quando o inimigo tem razão
Notas iniciais
Capítulo dez
Quando o inimigo tem razão
”Você não faz ideia de como é ter sua vida
inteira reduzida a um único momento.”
(Bridgerton — série)
Todavia isso só me fez ter curiosidade e vontade de conhece-lo mais, descobrir quem é o verdadeiro Dan. O que briga, humilha e não se abala com nada? Ou aquele que ficou triste pela Emma e consegue escrever coisas lindas?
Lá estava eu novamente no banco de trás do carro do James, já que a doce Quinn estava ao lado dele. Ela se maquiava e eu só torcia para que borrasse quando subíssemos alguma lombada, mas infelizmente ele foi bem do cuidadoso na estrada.
— Droga! — Sussurrei para mim mesma.
— Alexis, sei que não é da minha conta. — Se começou assim, então por que abriu a boca? — Está namorando o Aidan? — Caso tivesse bebendo algo, teria espirrado tudo na cara dela pela surpresa.
— Nunca. — Rebati na hora para não imaginar nem mais um segundo nós dois juntos de maneira séria.
— Então por que estava usando seu celular e vendo suas conversas? Isso não se faz, é muito errado. — Quem é ela para dar sermão? — Nem eu e o James temos a senha um do outro.
Nessa hora eu já não pedia mais para que ela estragasse a maquiagem, mas sim que chegássemos logo à escola. É exigir demais será?
— É por isso que eu pedi desde sempre para ficar longe dele. — Estava dirigindo e eu percebia que apertava com força, como se estivesse se segurando. — Mas não irei falar mais, se não vamos brigar de novo.
A Quinn nessa hora fez o que mais queria, que foi acariciar seu cabelo em sinal de conforto. Eu confesso que sentia era inveja de tudo isso, pois apesar de estar com quem amo, não conseguia achar algo tão grave nela que me fizesse a odiar.
— Vira essa boca para lá! Era difícil te aguentar quando estavam separados. — Seu comentário parecia sincero, rindo depois da cara que ele fez. — Mas se ele for metade do que dizem eu concordo, soube até que o Aidan te deu uns beijos no corredor do colégio. Você queria? — Como ela sabe? Nem estudava aqui. Só que ao olhar para outra pessoa a resposta era simples, meu melhor amigo foi o fofoqueiro dessa vez.
— Beijar é elogio, se pudesse teriam ido além. — Nessa hora eu até congelei lembrando de sua mão quase tocando meu seio. — Ela claramente não estava gostando.
— Se for assim você deveria denunciar, esse Aidan é um criminoso. — Como?
A cena me passava pela cabeça e a cada momento a minha boca se abria mais, pois nem sequer pensava o quão péssimo era. A única coisa que ouvia disso era “queria ser você”, “aproveitava mais”, até da minha Anastasia, também recebia olhares feios das outras meninas por causa disso.
— Desculpe, mas não quero falar disso. — Respondi sem muito ânimo.
— Agora que começou é preciso terminar. — Comentou. — O melhor mesmo é se afastar, pessoas como ele não tem salvação. — E foi dessa maneira, me fazendo engolir em seco.
Agora estávamos em uma loja perto de onde a Quinn estudava e foi deixada ali sem nem poder saber o resto, vi que até seu sorriso murchou por causa disso e me senti na vontade de depois mandar mensagem com o resto. Será que já estou me simpatizando com minha rival?
— Como assim pessoas como ele? — Perguntei quando voltou a dirigir.
— Você sabe muito bem, que não segue as regras, vive fumando e transando com qualquer um. Ele não respeita ninguém, muito menos você. — Foi falando tão rápido que demorei a entender do que comentava, mas não parou por aí. — Se ele te beija sem querer, o que mais poderia ser capaz?
— Por que acha que não deixei? Outro dia mesmo brigou com ele por ter me “traído” com a Emma! — Relembrei.
Agora eu estava ao seu lado e podia ver cada expressão sua e o quanto se sentia chateado com a minha colocação, até pensativo com o que tinha afirmado. James, se você soubesse o quanto te amo e por isso não ia querer nada com ele, que cara faria?
— Eu pensei melhor e percebi que você nunca ia ficar com ele. — Confessou. — Além de que o odiava tanto quanto eu, não faz seu tipo. — Quê?
— E quem é você para saber que cara eu gosto? — Alguém tão lerdo que não vê o que sinto nem deveria falar isso, mesmo tendo razão.
Ainda bem que agora estávamos na frente da escola e pude abrir a porta para sair correndo como a covarde que sou. Não me leve a mal, mas é que estava de saco cheio dessa história de amor, sem falar que a conversa naquele carro alugou minha mente de um jeito que nem quis ficar mais tempo com ele.
— Já vi que hoje não posso brincar. — Começou o Aidan ao me ver passar pelo corredor com a cara mais fechada possível. Nem respondi e fui direto para um dos bebedouros, mas pelo jeito foi atrás. — Não mereço nem um “oi”? — O jeito que ele me olhou depois disso quase me fez vacilar, só que segui em frente para a sala, mesmo que recebesse algumas encaradas de umas garotas. Vocês que se decidam, querem que eu seja amigável ou não?
Acho que viu que não estava com humor e desistiu de me seguir, assim poderia finalmente relaxar e deitar minha cabeça na carteira enquanto digeria tudo aquilo sem pirar. O que eu fiz? Passei mensagem para a pior pessoa nesse caso.
“O Aidan me beijou sem consentimento, não foi?” — Alexis.
Poderiam perceber a minha urgência por ter colocado essa pergunta em caixa alta para a Anastásia, justamente minha melhor amiga que apoiou isso, porém não sabia para quem enviar. O James me daria sermão, já a sua namorada nem pensar.
“Quando isso?” — Anastásia.
É, outra desocupada antes das aulas. Mas ela achou que tinha algum outro dia? Gente, que as pessoas pensam de mim? Ele é um mulherengo.
“Aquele dia no corredor.” — Alexis.
A sorte é que a pessoa atrás de mim ainda não tinha vindo, pois ia ser muito constrangedor se visse a minha conversa. Fiquei dando uma lida na apostila para entender mais o que ia ser ensinado nessa aula, porém era só para não ficar mais ansiosa com sua pergunta.
“Eu ia amar, mas só você sabe a resposta. Sei que foi de surpresa, mas depois quis? Qualquer coisa vou na direção contigo.” — Anastásia.
Fiquei chocada com o que comentou, realmente apenas eu poderia entender mais que ninguém se eu gostei daquilo. Claro que ele beija bem e tudo, só que não ao ponto de retribuir ou sentir algo além de dúvida. Precisava mais do que nunca conversar com ele sobre isso, mas não agora, pois só o que vejo ao enxerga-lo é a Quinn dizendo “é um criminoso”.
— Não, não, não. — Repeti para mim mesma enquanto via o próprio indo em minha direção quando bateu o som do intervalo. Eu sem nem pensar direito fui correndo até o meu melhor amigo e o levei para a cantina.
— Que foi? — Perguntou enquanto esperávamos na fila para comprar algum lanche.
— Não quero falar com o Aidan. — Implorava com as mãos e fomos até o nosso canto, que ele nem sabe que já o batizei assim. No meio do caminho eu até o vi me olhar sem entender nada, mas não tentou outra aproximação.
Sentamos em um degrau da escada e ele colocou algum vídeo curto para nós vermos enquanto o sinal não batia. Enquanto isso aproveitava para experimentar um dos salgadinhos mais apimentados.
— Quer? — Ofereci e ele aceitou na hora, mas logo depois fez uma careta e eu ri disso. Na tela ainda passava a mulher falando sobre o filme que estreou essa semana e ele assistiu com a namorada.
— Fico feliz por você finalmente ficar longe desse cara e tal, mas em algo ele está certo. Eu deveria ter te convidado para ver o cinema com a gente, era como uma tradição já, não é? Desculpa. — Praticamente sussurrou pela vergonha.
— Quem sabe quando eu começar a namorar não levo para ver Barbie? — Eu disse, mas em meu coração nós dois estaríamos juntos e vendo essa obra de arte.
— Assim não dá, Alex, você prometeu que ia comigo. — Fez uma cara de bebê chorão que me fez dar outra gargalhada e um sinal de “sim” com a cabeça, era impagável. — Como consegue sorrir depois de provar essa coisa apimentada? É horrível. — Apontou para o que tinha nas mãos.
— Só se horrível for o novo ótimo. — Discordei enquanto lambia meus dedos cheios de farelo vermelho.
Via algumas imagens e até trechos do que achava da continuação, pegando alguns spoilers. Se fosse outro ano eu estaria bem irritada por isso, mas como ele já tinha assistido nem queria mais acompanhar. Perdeu a graça para mim.
— É um dos melhores da franquia, talvez top 3 da lista. — Quando disse isso eu fiquei sem saber o que fazer, tão bom assim? Agora fiquei curiosa.
“Eu e meu professor de química transamos de vez em quando em troca de notas, mas estou me apaixonando por ele, é tão lindo e carinhoso, mas é casado. O que faço? Me declaro?
— A desesperada”
Recebi essa mensagem e na hora já sabia quem provavelmente era estava a ponto de responder, só que quando vi alguém espiava meu celular. Fiz sinal com as mãos para se afastar e olhou para o outro lado.
— Que foi isso? Está dando uma de Dan é? — Falei ao James por ter invadido minha privacidade assim.
— Dan? Não posso e ele sim? — Não acredito que vai entrar nessa.
— Você não ouviu a sua perfeita namorada dizer que isso é muito errado? — Revidei e até parou nesse momento. — Se ela souber pode terminar contigo. — Uma ameaça que eu não ficaria tão triste se acontecesse.
— Tem razão, me perdoe. — Segunda vez só hoje, é um recorde.
Se acham que parei de comer aquele lanche que me fazia quase soltar lágrimas, estão enganados, pois o que eu me empenhei foi em acabar com ele todo antes do intervalo. Missão cumprida.
— Desculpas aceitas, de novo. — Alfinetei sim, ainda aproveitei para ir na frente e jogar a sacola vazia na lixeira mais próxima.
Infelizmente não consegui aconselhar a colega angustiada, mas faria isso depois com toda a certeza. Bateu sinal para aula e aquela matéria de português só entrava no meu ouvido como um belíssimo “blá, blá, blá” mesmo que tentasse me esforçar. Bem, talvez eu devesse ter prestado atenção e até ficar na hora da saída para não dar de cara com um certo alguém.
Não me critiquem, tentei até correr ou fingir que não tinha visto quem era, porém nem em mil anos conseguiria competir com um atleta. Quando sua mão pegou em meu braço lembrei de vários momentos em que me tocou, parando justo nas palavras da minha rival.
— Precisamos conversar. — Teve mesmo a audácia de soltar essas palavras que são como um pesadelo para qualquer um?
Talvez se fosse há alguns dias essa frase não me traria impacto nenhum, pois não somos namorados, se não precisasse mais de mim para conquistar a Emma seria um alivio, porém com o que aconteceu ontem e ter aberto meus olhos pela manhã me faziam praticamente tremer para saber o que falaria.
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