Cupido Estúpido
6 Querido Serial Killer
Notas iniciais
Classificação: +18
Gênero: Romance, Hentai, Violência.
N/A: Oi pessoal, eu sou a autora da vez. Espero não deixar a peteca cair, afinal, todas as ones foram extremamente boas até agora, o que me dá até certa insegurança com relação a Querido Serial Killer.
Só quero deixar avisado que essa one-shot é MUITO diferente de todas postadas até agora, e deixo avisado desde já que não sou a maior fã de finais felizes...
Um beijão.
“Na ética o mal é uma conseqüência do bem, assim na realidade da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angustia de hoje, ou as agonias que são tem sua origem nos êxtases que poderiam ter sido.”
Edgar Allan Poe
A escuridão sempre foi uma espécie de cônjuge para mim, apreciativa e até indispensável. As sombras eram tão intimas a mim que poderiam ser o mais próximo de uma amiga que eu poderia chegar a ter algum dia. Eu não tinha amigos, nunca tive... Nem nunca teria. Relacionamentos humanos eram confusos, complexos demais para que alguém como eu – um monstro inconstante – pudesse entender. E de qualquer forma, não era como se eu me esforçasse para ter algum grande amigo do peito, ao contrário, me esforçava muito para manter uma fachada de bom cidadão suburbano ao mesmo tempo em que não deixava ninguém se aproximar verdadeiramente do que eu realmente era. Um monstro feliz e brincalhão.
O principal motivo para que eu me sentisse tão intimamente ligado a escuridão, era ela ser a única testemunha das minhas aventuras noturnas pelo Distrito 12, e como uma boa amiga, nunca contava nada a ninguém.
Aquela era uma daquelas noites, em que a escuridão estava em seu auge, tão incessante e sólida, era a noite perfeita. No céu escuro, apenas a lua sorridente me olhava, poderia apostar que ela me dava um grande e desdentado sorriso, ela estava feliz, eu estava feliz, nós estávamos felizes. O monstro dentro de mim rugia de felicidade, e com motivos, afinal, era noite de brincar. Noite de caça.
Quase como se estivesse colaborando para os planos da noite, nossa caça apareceu. Era uma garota de pele levemente bronzeada e os cabelos curtos pretos como a noite, seus pequenos olhos estavam bem abertos em precaução. Boa menina, belas garotas não devem andar sozinhas durante a madrugada, pensamos juntos.
A bela garota havia facilitado tanto nossa caçada. O monstro da minha consciência riu suavemente, uma mistura de rosnado com barulho de sinos. Ele gostava de presas fáceis, mas por outro lado, gostávamos da sensação que a caçada nos proporcionava.
Cambaleante, a garota tropeçava na própria sombra enquanto andava, havia linhas pretas abaixo dos olhos, provavelmente a pobre garota esteve chorando. Teria algum humano estúpido quebrado seu frágil coração? Seria aquela explicação para que uma jovem garota bonita estivesse sozinha, saindo de um bar da periferia, bêbada? Não me preocupei em pensar com afinco as respostas para aquelas perguntas. No final da noite ela me contaria tudo que eu quisesse saber e tudo que eu não queria, e ainda mais um pouco. No final da noite, ela imploraria pelo meu abraço, imploraria para deixar-lhe partir deste mundo. Do fundo da minha mente veio um suspiro carregado. O monstro estava excitado com aquela visão fictícia. Era hora de agir.
Ainda tropeçando no vazio, a garota rumou em direção ao ponto de táxi mais próximo, não havia nenhum carro parado ali à sua espera, para sua infelicidade. Ela pareceu notar aquele pequeno empecilho, pois virou a cabeça para os lados, agitando-a freneticamente e deixando-a ainda mais desequilibrada, à procura de um automóvel.
Acelerei o carro de forma casual, não tão rápido, apenas o suficiente para fazer parte da peça. A luz que incidia dos faróis foi projetada alta, bateu em seu pequeno rosto manchado, fazendo-a recuar e semicerrar os olhos, ela ergueu o braço delicado em direção ao rosto para se proteger das luzes fortes. Devia pensar que era apenas mais um motorista passando pela Capitol Freeway, o monstro riu sarcasticamente com aquele pensamento.
Passamos direto por ela e começamos a diminuir a velocidade, parando completamente a poucos metros mais a frente. Então demos marcha ré e paramos ao seu lado. Descemos o vidro elétrico até a metade – pois deveríamos nos mostrar desconfiados. Um humano comum certamente se preocuparia caso ela fosse uma drogada que sabíamos que ela não era. A garota se assustou momentaneamente, preocupada que um homem bonito tivesse parado ao seu lado com seu potente Chevy 2013, para lhe prestar auxilio.
Colocamos nossa melhor máscara de humano suburbano preocupado e sorrimos de forma singela, sem mostrar os dentes, pois não queríamos assustá-la. Precisa de carona? Perguntamos em um tom que deixava claro nossa preocupação, ela respondeu que não com um olhar desconfiado e enevoado pelo álcool. Você está bem? Perguntamos novamente, o monstro inflou-se em orgulho pela atuação genuína. Ela respondeu que estava e que pegaria um ônibus. Há essa hora não encontrará nenhum nas ruas, falamos novamente, posso te dar uma carona até a avenida principal, não está muito longe de carro.
Vimos uma sombra duvidosa passar por seus olhos, já podíamos sentir sua mente ponderando a ideia, mas ainda havia alguma coisa que nos colocava sob suspeita, ela não confiava em nós. Então, como um bom ator, joguei nossa última carta, a jogada que a faria confiar inteiramente em nós de uma vez por todas. Garotas não devem andar sozinhas por aí durante a madrugada, falamos em um tom de voz repreensivo, soando como um pai preocupado; se fosse minha filha eu ficaria seriamente preocupado. Além do mais, minha mulher certamente me mataria se soubesse que deixei uma garota jovem e desamparada andando sozinha por aí há essa hora. Sorrimos em tom complacente e vimos nossa atuação surtir efeito, o que era sinceramente, ridículo. Era incrível que ela não pudesse ver que não tínhamos mais que 25 anos, jovem demais para estarmos casado e obviamente jovem demais para ter filhos da idade dela. Mas ela caiu naquela conversa feito uma criança que acredita no papai-noel. Com a diferença que eu era bem mais real do que o velho barbudo, criado com o único intuito de aumentar vendas e torna-nos consumistas em épocas festivas. Humanos e suas características singulares; eram todos diferentes à sua própria forma, mas mesmo assim, iguais.
Quando a lua começou a deitar preguiçosamente no céu, sorrindo de forma contente, estávamos terminando de separar nossos presentes. De modo metódico havíamos separado partes pequenas e partes grandes e colocado todos os pedaços limpos e secos dentro de caixas de presente com estampas de coraçõezinhos. O monstro estava inteiramente satisfeito, sussurrando de forma bastante feliz que havia gostado daquela brincadeira. Enquanto amarrava a fita rosa Pink envolta de uma caixa grande – uma grande caixa para um grande presente -, assovio uma música clássica, deixei o som pairar pelo ambiente gelado, o ar que saia de minha boca foi transformado em uma névoa esbranquiçada, e a música era uma famosa composição de Thomas Newman.
Quando terminamos o serviço, comecei a guardar minhas ferramentas de trabalho, todas afiadas e brilhantes, certamente eram meus brinquedos favoritos desde sempre, e justamente por isso, limpei-os com cuidado redobrado e os guardei com muito carinho em um estojo preto feito sob medida. Então, ainda assoviando, levei as caixas de presente para o carro do lado de fora do galpão gelado, coloquei-as metodicamente em ordem de tamanho. As maiores iriam à frente, obviamente. Organização e cuidado eram duas regras indiscutíveis, até mesmo aos humanos.
Dei partida no carro, o barulho roncou por um breve momento, começando a esquentar e então engatei a marcha. Rumei para o centro da cidade com cuidado, pois estava carregando presentes especiais e não queria que por algum descuido a polícia nos parasse e cismasse em desfazer todos os embrulhos cuidadosamente arrumados. Por sorte ou intervenção divina de um deus que não existia, chegamos ao nosso local de entrega com segurança e no horário previsto. Depositamos os presentes em um cenário pré-montado, somente dando alguns toques finais e encerramos nosso espetáculo daquela noite. A atração principal da noite havia acabado, mas felizmente, para nossa alegria, ainda tinha uma pequena diversão a caminho.
Assoviando uma nova melodia, um clássico de Liszt, saímos dali rapidamente e rumamos para casa onde faríamos um bom café da manhã – pois toda aquela carne nos deixara faminto -, e assistiríamos o noticiário que certamente faria cobertura exclusiva de nossa mais nova e grande obra. Sorrimos com aquela perspectiva e aceleramos mais, mas apenas um pouco mais. Até porque estávamos ansiosos para começar a nova caçada.
x-x-x
Acordei com a sensação de que o mundo estava se distorcendo ao meu redor, como se um grande mal estivesse pervertendo minha visão. Foi com grande labor que consegui me levantar e ir em direção ao banheiro, onde fiz minha higiene matinal rotineira. Podia ouvir o noticiário já ligado no andar de baixo, o que apenas me avisava que minha mãe estava desperta. Um bipe soou da cozinha, o que me avisou que ela também estava de mau humor.
Penteei meus cabelos rapidamente e vesti um suéter velho, o primeiro que havia encontrado na gaveta de roupas. O ar estava álgido do lado de fora, sempre estava naquele horário da manhã. Quando desci as escadas e cheguei à cozinha o bipe da cafeteira ainda estava ressoando pela casa, minha mãe estava abstraída demais na televisão para se importar com um barulho dissonante daqueles. Suas sobrancelhas estavam arqueadas estranhamente para baixo, se juntando em uma ruga no ponto exato acima do nariz.
– O que há de errado? – indaguei colocando um pouco do café em uma xícara, acrescentei leite gelado e fui me juntar a minha mãe em frente à TV.
– Ele agiu novamente... – informou com a voz grave, na tela exibiam imagens vibrantes e coloridas dos giroflex dos carros policiais -, o serial-killer do dia dos namorados.
E lá estava novamente, um retrato falado feito virtualmente pelas supostas vitimas que supostamente haviam escapado do assassino. Na foto, ele parecia um daqueles bonequinhos de massinha de modelar que davam para as crianças no jardim de infância. Os olhos eram pequenos e pareciam monótonos, azuis esplendorosos, o nariz estreito e o maxilar anguloso, másculo. Certamente seria um homem bonito pessoalmente, e homens bonitos geralmente chamavam atenção. Mas não ele, pois a polícia vinha perseguindo seus passos três anos antes. Ele só agia em uma data específica, o dia dos namorados, e quase nunca deixava pistas. A polícia tinha uma amostra de DNA superficial, mas não constava no banco de dados nacional, ou já o teriam achado. Ao menos era o que se dizia nos jornais. Porém a cada ano, a polícia ficava mais perto de pegá-lo, então, assim do nada, ele sumia como vapor sobre o vento. No ultimo ano, no dia dos namorados, por uma semana, ele matou uma garota por dia, então as deixou em pedaços dentro de caixas de presente com estampas de corações, cupidos, estrelas e arco-íris. Ele nunca as deixava nos mesmos lugares, mas sempre as deixava em um local onde havia muito público e que tinha de alguma forma, conexão com aquela data. Daquela vez fora em uma das casas de chá mais conhecidas de Panem, famosa por enfeitar com esmero sua fachada para o dia dos namorados, com direito a cupidos robotizados que soltavam confetes de coração quando os visitantes entravam.
A fachada era um lugar alegre e divertido, destoava completamente do cenário que agora presenciava, com a polícia e técnicos forenses, investigadores e até mesmo a polícia secreta. Peguei-me pensando se aquele assassino tinha alguma coisa contra a data, e se o cenário escolhido lhe causava algum senso de humor.
– Tome cuidado hoje... – pediu minha mãe virando-se para me encarar pela primeira vez naquele dia. – Hoje foi o marco inicial, amanhã será outra e então mais outra, até...
– O dia dos namorados – completei a sentença. Desde sempre, uma semana antes Panem se preparava para o dia dos namorados, os comerciais entravam em circulação, bem como as promoções, para que os casais não tivessem que deixar as coisas para ultima hora. Como o esperado e seguindo o cronograma regiamente, o assassino do dia dos namorados também se preparava uma semana antes.
Durante três anos, 21 garotas foram suas vítimas, todas seguiam certo padrão, eram jovens, bonitas, universitárias e com menos de 25 anos.
Antes de sair de casa, ouvi o noticiário anunciar as informações da vítima recém identificada.
“- Johanna Mason era uma estudante de Pedagogia da Universidade de Panem, tinha 21 anos e morava em uma república de estudantes só para garotas, na periferia do distrito. Segundo as amigas, havia terminado um relacionamento de dois anos e na noite anterior teve uma discussão com os pais, que notaram que o dinheiro que deveria ser destinado aos seus estudos estava sendo usado para as festas e bares que a garota freqüentava. Nesse momento, os pais que moram no interior do Distrito 10, estão sendo interrogados pela polícia e pelo final da tarde devem chegar ao Distrito 12 para fazer o reconhecimento da vítima e começar o ritual de sepultamento...”
Não fiquei para ouvir o resto, eu sabia bem o que aconteceria agora. Haveria policiais em todos os cantos do Distrito, haveria blitz e paradas para revista em todos os locais públicos e a mídia estaria ainda mais alerta. Toda aquela atenção se apagaria em poucos dias depois do dia 12 de junho. E então o querido serial-killer mais procurado de Panem sumiria sem deixar rastros.
–-
O transporte público estava um caos, como naturalmente era, mas por algum motivo estar aquele dia no ponto de ônibus abarrotado de gente me deixou apreensiva. Um aperto sem motivo no peito me fez ficar quase sufocada, havia algo errado. Quando o ônibus chegou, eu e mais um punhado de gente subiu a bordo, então o aperto no peito diminuiu consideravelmente. O ônibus estava repleto de estudantes como eu, por isso era quase impossível encontrar um espaço no corredor abundante de mochilas, pastas e bolsas.
Para meu alívio, quando o ônibus parou no meu ponto e desci, o ar frio matinal me saudou, afastando o calor e o cheiro de corpos suados e comprimidos em um mesmo ambiente. Porém, para minha infelicidade, logo em seguida o aperto em meu peito voltou, mais intensificado ainda. Um arrepio passou pela minha nuca e desceu pela curva direita da minha cintura. Olhei para a direita, como se alguém houvesse me chamado, mas não havia ninguém conhecido, ninguém estava sequer me olhando. Havia apenas as árvores do campus da faculdade e os carros estacionados no estacionamento mais além.
Franzi o cenho para aquela sensação esquisita e caminhei me aprofundando no campus universitário. Quanto mais andava, mas aquela sensação me subjugava, me deixando consternada. Novamente parei, mas daquela vez, sem saber realmente o motivo, fingi estar parando para amarrar os sapatos. Foi quando percebi.
Uma agitação nas folhas das árvores mais baixas do meu lado direito entregou a presença de alguém, mas quando olhei naquela direção vi apenas um esquilo solitário e o vento a arrancar as folhas das copas das árvores.
Apressei meu passo e entrei no prédio de Medicina, meu horário só começaria dali à uma hora, portanto eu sabia que Clove – uma amiga de longa data – estaria me esperando no laboratório de patologia.
– Você chegou... – constatou o óbvio, minha amiga vestia um jaleco branco com uma caneta girando entre os dedos da mão, os olhos voltaram a se prender em um grosso livro depositado aberto sobre uma bancada.
– Vejo que está de bom humor – provoquei em um sorriso franco.
– Era para estar sorrindo quando tem um assassino serial solto por aí que tem alguma coisa contra o dia dos namorados? – indagou minha amiga furiosa.
– Não realmente, mas não vejo motivos para estar tão brava, a sorte de hoje é: você não era aquela garota – ergui uma sobrancelha e puxei um banquinho para perto dela. – Aliás, você quer um presente de dias dos namorados? Ouvi falar que a Burkins Tea está com um novo desconto, talvez pudesse pedir duas entradas para você e Cato.
Clove virou-se para mim com um rosto sério, mas seu olhar mostrava claramente desaprovação à minha piadinha. Burkins Tea era o nome da loja de chás onde a mais nova vítima do tal serial-killer havia sido encontrada.
– Sempre o sarcasmo... – fungou Clove. Ela era uma garota durona por fora, mas eu sabia que internamente era apenas uma garota que queria ser amada e protegida. Ou costumava ser completamente durona antes de Cato, não saberia afirmar com tamanha exatidão.
No momento em que pensei aquilo, o modelo de revista de polo aquático entrou com toda sua vivacidade de atleta. Eu costumava brincar dizendo que nas horas vagas ele era estudante de medicina.
Ele se aproximou de nós, dando um leve aperto em meu ombro e se inclinando para Clove em um selinho, que logo virou um beijo de língua sem pudor.
– Essa é minha deixa... – murmurei em um tom descontente que mostrava o meu desaprovamento à falta de tato dos meus amigos.
Deixei o laboratório e suspirando comecei a subir as escadas que me levariam a primeira aula do dia. Quando cheguei ao patamar do primeiro andar, virei casualmente para trás, sem grande interesse na verdade, e quase levei um susto quando vi um garoto alto bem atrás de mim, com a mão esticada em minha direção como se fosse agarrar meu ombro ou me puxar escada a baixo.
– Gale – quase gritei. Deixei escapar um suspiro sôfrego e agarrei ainda mais meus livros contra o peito.
– Desculpe... Ou não. Você estragou a brincadeira, eu ia te assustar... – rindo às minhas custas, meu mais novo amigo subiu o restante de degraus que nos separava. No mesmo patamar que o meu, ele era muito mais alto, com pelo menos uns 30 cm de diferença.
– Só iria ter graça se eu caísse e abrisse a cabeça – resmunguei com um olhar debochado. – Assim quem sabe você não conseguiria passar nas provas de identificação das aulas de Anatomia.
– Examinar cada parte do seu corpo seria bem mais interessante do que as aulas do Márcio – respondeu meu amigo ajeitando a mochila por sobre os ombros.
– Certo... Vá na frente, eu irei ao banheiro primeiro – informei dando as costas para Gale que bufou e virou para o outro lado do corredor, seguindo sozinho.
Entrei no banheiro feminino e descansei meus livros e minha mochila em cima da pia de mármore preto. O ambiente cheirava irritantemente a rosas, o que significava que as faxineiras já haviam passado por ali. De qualquer forma, aquele cheiro era bem mais agradável ao odor dos dejetos humanos deixados por pessoas sem qualquer respeito ao próximo. Eu ainda custava a acreditar que aquilo acontecia em um banheiro feminino, mas acontecia de fato.
Após sair do banheiro, segui na direção que Gale tomara, o corredor parecia mais movimentado naquele momento, alguns estandes começavam a chegar. Passei por um par de casais de comentavam soturnamente sobre o assassinato da vez. Estavam falhando miseravelmente em parecerem chocados.
Estava tão entretida julgando-os internamente que quando alguém me esbofeteou na cara quase caí para trás. Olhei para frente, e então para cima, só para constatar que havia esbarrado em um rapaz que mais parecia uma muralha humana. Era alto e esguio, embora os ombros fossem mais largos e os braços mais definidos. Seu rosto parecia ter sido esculpido pelas mãos da própria Vênus, seus olhos eram como duas pedras de topázio azuis. Aqueles olhos grandes e bonitos tinham um brilho incomum e misterioso, e apesar do rosto aparentemente jovem, ele parecia ser bem mais velho e experiente do que eu poderia julgar.
Antes que eu pudesse analisar melhor sua aparência, vi o rapaz à minha frente se transformar quase que da água para o vinho. Repentinamente o brilho de seus olhos desapareceu, sendo substituídos por um olhar azul opaco e o rosto vivaz perdeu sua glória, sendo substituído por algo mais insosso, mais... Normal.
Fiquei momentaneamente confusa com a súbita mudança, era como se fossem duas pessoas distintas.
– Desculpe... – pedi em um fio de voz.
– Sem problemas – me garantiu ele, sua voz apesar de aveludada, era também como uma ordem. Ele parecia ter alguma autoridade. Desci o olhar para seu jaleco e constatei que ele era da minha área. Só não esperava era encontrar um crachá comum de docente preso à sua roupa imaculada. Ele era professor.
Novamente, antes que eu tivesse a chance de analisá-lo melhor, ele desviou-se de mim e começou a caminhar a passos rápidos para longe.
– Espere... – me vi gritando no meio do corredor. Algumas pessoas me olharam curiosas, em seguida voltaram sua atenção para o que estavam fazendo.
O rapaz a quem me dirigi parou, de costas para mim, talvez em dúvida se devesse perder seu tempo com uma estudante como eu, mas ele finalmente virou-se em minha direção. Quando ele me encarou, novamente havia aquele brilho suspeito em seus olhos, o vestígio de um meio sorriso no canto dos lábios, de forma quase maliciosa. De repente, fiquei embaraçada sobre o que iria dizer anteriormente.
– Eu... Você é professor? – lembrei de súbito, me sentindo um pouco ridícula com a pergunta óbvia. Ele apontou para o próprio crachá sobre o peito.
– Ao que parece sim... Precisa de ajuda? – respondeu indagativamente, e por um breve segundo senti que aquela pergunta não era retórica e muito menos inocente, quase balancei a cabeça para espantar aqueles pensamentos infundados.
– Não. É só que... Você me parece novo para isso – falei com sinceridade. Internamente eu gritava por estar sendo tão importuna.
– Sou mais velho do que aparento ser, mas obrigado – o jeito polido como ele respondeu-me fez pensar que parecia uma frase pronta, como se ele já as houvesse respondido aquilo meia centena de vezes.
– Certo – confirmei com um aceno de cabeça, minha vontade era lhe perguntar qual seria sua idade, mas não me parecia certo, eu não tinha direito de fazer-lhe aquela pergunta quando eu nem o conhecia. – Isso é tudo. Nos vemos por aí.
– Nos veremos... – ele prometeu novamente naquela voz que pensei ser repleta de outros significados, embora não necessariamente com malicia. Provavelmente eu estava entrando em paranóia.
O rapaz virou-se e andou para longe de mim, entrando em um corredor logo à frente, desapareceu por completo. Suspirei e refiz meu caminho, aquele homem havia feito algo inusitado, ele havia me chamado atenção, não só pela sua beleza, mas simplesmente por sua personalidade. E ainda que minha mente me fizesse crer que ele era normal como todos os outros, algo no fundo da minha mente gritava com todas as forças para ser ouvido, que ele parecia completamente falso. Seu modo de andar, seu modo de falar e de olhar, até a forma de gesticular, parecia vazio e sem vida. Como um robô programado para fazer aquilo ou como um ator que ensaiou por muito tempo uma peça, mas mesmo assim não havia conseguido entrar na pele de seu personagem.
x-x-x
Quatro dias se passaram em extrema alegria, eu andava pelas ruas e finalmente conseguia ver beleza nos raios do sol, no balanço das árvores, no ganir dos cachorros, até nas moscas que rondavam as lixeiras transbordando nos becos sem saídas do Distrito. De repente ocorreu-me a idéia de que eu era quase humano, afinal, humanos possuem sentimentos, amor, carinho, empatia, tristeza... Alegria. Todas aquelas palavras nunca tiveram significado em minha vida, mas agora, aquele estado de frenesi e êxtase que eu estivera sentindo, quase parecia ser alegria. Estaria o velho monstro se transformando em um insignificante humano? Milagres aconteciam? Talvez sim... Mas não comigo, não conosco.
O monstro feliz pareceu se agitar levemente dentro de mim, como se eu o tivesse zombado. Não vamos por esse caminho, ameaçou com a voz retumbante e eu o obedeci prontamente.
Sob o sol agradável do meio-dia, sentei em um banco do campus histórico da universidade no qual eu trabalhava. A lógica me dizia que eu tinha de ter uma profissão, e se eu tinha que vestir todo dia uma máscara para parecer normal, então eu vestiria a fantasia por completo. Aquele trabalho era apenas uma das várias fachadas que eu havia construído conforme os anos, para esconder quem eu verdadeiramente era, um monstro insensível e apático, mas também um monstro brincalhão e sensato. Nós éramos quem os humanos queriam que fôssemos.
Já havíamos sido uma criança com um QI muito maior do que deveríamos ter em nossa idade. Já havíamos sido um adolescente muito quieto e misterioso, mas que também era respeitado e evitado pelos demais por algo que nem eles saberiam dizer – talvez a auto-preservação, os humanos eram bons naquilo. Já havíamos sido um jovem universitário muito bom no que fazia, que pulara quase três níveis de uma só vez. Já havíamos sido um vizinho bondoso que gentilmente ajudava-os com as compras pesadas do mês. Já havíamos sido o filho honesto e o parente exemplar da família. E agora, nós éramos um professor universitário que sabia exatamente tudo sobre sua área profissional e era um pouco jovem demais para sua idade, o que causava certo alvoroço nas garotas e um certo descontentamento aos garotos, e até alguma surpresa em alguns tantos outros.
Aquela garota humana... Ela parecia alguém bem curiosa a nosso respeito, portanto, durante os dias seguintes, fizemos questão de procurar todos os seus dados, inclusive o tamanho de sapato que calçava. Mantivemos uma distância segura, mas inevitavelmente, ela acabou nos chamando atenção. O que causou certa discussão entre eu e o meu monstro.
Havíamos regras claras e incontestáveis, as quais seguíamos com os olhos fechados, pois eram regras que nos mantinham longe da caixa de concreto e arame farpado e eletrizado nomeado carinhosamente de prisão. Aquelas regras nos permitia viver razoavelmente bem em sociedade e ainda assim nos permitia alguma diversão de vez em quando. Eu e o monstro, nós concordávamos que estragar aquilo era algo realmente chato e nem um pouco sensato.
Uma daquelas regras era não caçar, em hipótese alguma, em territórios onde permanecíamos sob nosso principal disfarce, ou seja, nosso lar e nosso local de trabalho. Porém aquele brinquedo parecia tão brilhante, e sedutor, tão carismático e irresistível. Ela nos chamava como uma ninfa da água clama por suas vítimas, ela nos chamava como uma puta de favela implora para ser metida.
Estávamos tão centrados em saber absolutamente tudo sobre aquele brinquedo, que acabamos deixando de lado a escolha para a próxima diversão. Para nosso contentamento, no entanto, o palco já havia sido montado, somente a espera da próxima atração. Felizmente também, havíamos feito alguns meses antes, todo o levantamento da ficha das nossas supostas caçadas. Foi realmente difícil e doloroso para nós escolhermos apenas 7 jovens e lindas garotas universitárias, dentro de um leque de possibilidades tão gigantesco quanto o tamanho de Júpiter. Parecia quase uma afronta ao nosso potencial artístico, ter que selecionar apenas algumas poucas. O mundo humano precisava ver com mais freqüência nosso trabalho, afinal, era para os humanos tolos e patéticos que criávamos nosso show, eles deveriam nos agradecer no final das contas.
Quando finalmente escolhemos nossa diversão da noite, sentíamos mais satisfeitos. Sabíamos cada passo que deveríamos dar para que tudo desse certo, e enquanto pensávamos na melhor maneira de fazer aquilo, vimos nosso objeto de desejo dos últimos dias passando bem a nossa frente. Embora ela estivesse um pouco distraída para nos notar a princípio, repentinamente ela virou-se em nossa direção, claramente incomodada com algo. Ali estava novamente, a força invisível, seu instinto feminino alguns diriam, ou instinto de auto-preservação, entrou em funcionamento e ela notou que a olhávamos. Exatamente como alguns dias atrás, quando estávamos estacionando nosso carro e ela passava a apenas alguns metros de nós. Tão próxima e ainda assim tão longe. Aquele tipo de situação que vivíamos deixava nossas papilas gustativas em pleno vapor, e era como se precisássemos voltar ao tempo do babador.
Foco, rosnou o monstro, tomando o controle mais rapidamente do que eu. E escondidos sob a sombra de uma grande e frondosa árvore voltamos a trabalhar. Quando terminamos os preparativos, mentalmente, percebemos que todo o instante, ela esteve presente em nossos pensamentos.
Precisávamos dela, precisávamos brincar com ela, precisávamos urgentemente. E ficamos remoendo aquele pensamento durante os dois dias seguintes e mesmo quando chegava a hora da diversão, parecia que algo estava faltando, como se metade de nós não estivesse presente, como se parte de nós estivesse atado a ela. Aquele brinquedo luxuoso que não poderíamos ter, envolvida por uma nuvem rosa e borbulhante, um brinquedo de luxo para monstros mais sofisticados.
Na manhã do sexto dia, um dia antes do nosso espetáculo final, o dia dos namorados. Chegamos à conclusão de que queríamos e precisávamos dela, daquele brinquedo específico. E mesmo que corrêssemos riscos, só existia aquele método para que nos tornássemos o monstro mais feliz da face da terra. E precisávamos mesmo de um brinquedo elegante e digno o suficiente para nosso espetáculo final. Quem melhor do que nosso objeto de desejo existiria? A resposta era ninguém.
x-x-x
Havia algo realmente errado com tudo ao meu redor, naquele momento o pânico ameaçava me sufocar tal era seu tamanho. Eu estava há alguns minutos totalmente calada e com o celular na mão, dentro da sala de aula, sem entender bem aquela mensagem de Clove. A mensagem era simples e curta: ME AJUDE KAT ELE VAI ME MATAR.
Nenhum ponto de exclamação, nenhuma vírgula, com palavras que pareciam incompletas. Aquilo não se parecia com nenhuma mensagem que Clove me mandaria, no entanto, ali estava a mensagem com o remetente da minha amiga. A mensagem parecia ter sido escrita às pressas, e definitivamente se parecia com um pedido de socorro. Mas por quê? Por que Clove? Quem era ele? Era uma droga total e eu não conseguia me decidir de começava a gritar por ajuda, se chamava a polícia, ou se apenas despertava de um longo e cansativo sonho.
Antes que eu pudesse responder, no entanto, outra mensagem apareceu na tela do meu celular: VENHA RÁPIDO. E finalmente a minha ficha caiu.
Pude sentir vagamente os olhares curiosos que os meus colegas de turma me lançaram quando me levantei com violência da carteira e saí em disparada da sala para o corredor. Eu precisava contar para alguém, precisava contar para a polícia, precisava contar para o reitor. Eu sabia que poderia fazer tudo aquilo na sala do mesmo, então fui diretamente para lá. Desci dois degraus em direção ao primeiro andar, quando senti uma dor lancinante no meu pescoço. Como se uma abelha tivesse me mordido, coloquei uma mão no local dolorido e pelo canto do olho, por puro reflexo, vi um movimento atrás de mim. Não deu tempo de me virar, mas enquanto meus olhos se fechavam sozinhos e uma névoa cobria todo meu corpo, percebi que caía no colo forte do professor loiro que havia encontrado dias antes no corredor. Era estranho estar caindo no colo dele, mas mais estranho ainda era o sorriso satisfeito em seu rosto, um brilho de conquista em seus olhos e uma seringa com um líquido estranho em sua mão. Apaguei segundos depois de perceber todos aqueles detalhes abstratos.
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E ali estava, nosso brinquedinho favorito, finalmente em nossas mãos. Deitada sobre uma maca de ferro, os olhos fechados e dormindo serenamente. Ela era tão encantadora quanto um ser humano poderia ser. Não. Ela era mais.
Deixamos nossos dedos correrem pela lateral de seu rosto, a pele era macia como um pedaço de nuvem, embora obviamente não soubéssemos qual seria a consistência de uma, elas pareciam fofas e aveludadas, então presumimos que sua pele fosse daquela consistência. Absorvemos cada mínimo detalhe, nunca antes havíamos contemplado tanto nossa presa, mas fazer aquilo com ela tornara-se viciante e uma experiência única. Katniss Everdeen era uma garota sem muita complexidade. Ela era estudante de Medicina do primeiro período, o qual nós completamos em apenas 6 meses; ela vivia com a mãe, pois o pai morrera quando era uma criança, não tinha irmãos e não tinha um bom relacionamento com primos, tios ou avós. Em outras circunstâncias diríamos que estava fácil demais, mas agora parecia quase uma benção que apenas a mãe dela fosse sentir realmente sua falta quando ela partisse daquele mundo e se transformasse em apenas um pequeno troféu em nossa maleta de lembranças. Talvez seus amigos também sentissem sua falta, mas eles eram jovens, eventualmente a dor de perdê-la se apagaria e eles a esqueceriam por alguns anos. Era tudo perfeito, e ela era nossa.
Devagar ela foi abrindo os olhos, a respiração começou a ficar mais acelerada quando seu sistema de autodefesa também acordou e a lembrou que quando apagou estava em posição de perigo. Com um ofego ela abriu totalmente os olhos, nos viu ali, parados ao seu lado, e tentou se mexer e gritar ao mesmo tempo. Uma péssima idéia, pois ela estava deitada e presa por presilhas de elásticos tão firmes quando um cinto de segurança e havia milhares dele. Em sua boca havia um pedaço de fita adesiva, impossibilitando-a de falar e até de engolir sua saliva de forma confortável.
– Aconselhamos você a se acalmar, vai acabar engasgando... – avisamos, mas foi inútil, meio segundo depois ela começou a tossir freneticamente, os olhos marejando e o rosto ficando vermelho. Suspiramos e acenamos para ela de forma extravagante, ainda tossindo ela conseguiu prender seu olhar no nosso. – Vamos tirar isso da sua boca, mas se gritar quebraremos seus dentes.
A ameaça pairou no ar apenas um segundo e então ela assentiu vigorosamente, ainda tossindo, o rosto começando a ficar roxo. Tiramos aquela fica de sua boca e ela inspirou uma grande lufada de ar.
– Devagar... – avisamos novamente, e novamente foi em vão. A rapidez com que ela sugou o ar a fez engasgar novamente e ela choramingou quando aquilo machucou sua garganta. – Nós avisamos.
Quando por fim ela conseguiu parar de tossir e respirar adequadamente, seus olhos arregalados em pavor se prenderam ao nosso. Sabíamos o que ela estava pensando, todas elas pensavam igual... Estávamos usando o plural e aquilo a deixava confusa.
– V... Você vai me matar? – sussurrou ela tão amedrontada que tivemos vontade de largar tudo para o alto e confortá-la como um ser humano de verdade faria. Aquele pensamento nos surpreendeu, nós não éramos um humano ignorante e inútil e pensar naquilo deixou o monstro enjoado e irritado.
– Nós – corrigimos – vamos deixá-la para o final. Você é muito importante para nós.
– Por quê? – indagou com a voz fraca, ela não estava acreditando que aquilo estava acontecendo com ela. – Por que eu?
– Porque você... – sorrimos e sem querer mostramos os dentes, ela se encolheu, mas nós continuamos – é especial querida Katniss. Deveria orgulhar-se de si mesma, por ter conseguido nos obrigar a quebrar algumas regras.
– Eu faço qualquer coisa que você quiser, por favor, eu... Imploro – pediu chorosa.
– Você não precisa implorar por nada, você terá tudo que quiser... – prometemos alegres. – Mas não agora, pois agora temos que ir, temos um pequeno trabalho para fazer, mas prometemos que se você se comportar, e sabemos que irá, assim que voltarmos tiraremos você daí e então poderemos ter uma conversa decente.
Ela pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas não demos oportunidade, recolocamos a fita em sua boca, daquela vez mais frouxa para que ela não se engasgasse e morresse antes do planejado. Ela começou a tremer e por um breve momento pensamos se ela estaria passando mal, mas tudo fez sentido e nos acalmamos quando as lágrimas brotaram nos cantos de seus olhos e escorreram pelo seu rosto, molhando os fios castanhos.
Permitimos-nos ficar admirando-a por um momento antes de partir. Seus cabelos ondulados e castanhos, seus olhos acinzentados como um dia nublado, tão lindos que poderiam ofuscar até mesmo a beleza da afável morte. Limpamos uma lágrima que escorreu pelo canto de seus olhos e soltamos um sorriso de deslumbramento.
Quando voltamos de nossa diversão noturna, o ar parecia mais carregado, tudo parecia mais sólido e mais real, estávamos excitados com a perspectiva de começar uma nova aventura. Havia tanta coisa que queríamos e podíamos fazer com Katniss Everdeen, e sabíamos que ela estaria pronta, somente a nossa espera, quando retornássemos para as paredes seguras do galpão.
E assim fizemos.
Lá estava ela deitada, parecia um pouco mais pálida do que nos lembrávamos, mas provavelmente devia-se ao fato de estar nua em cima de uma maca de ferro em uma noite não tão quente.
– Vemos que se comportou, é uma boa garota Katniss. Agora, se comporte mais um pouco e tiraremos você daí, talvez lhe daremos algumas roupas quentes para se vestir. O que acha disso? Gostaria de roupas quentes? – indagamos para ela de forma casual e um pouco protetora, ela nem notou nossa preocupação, estava amedrontada demais. De qualquer forma, ela assentiu em afirmação.
– Muito bem – falamos e começamos a retirar os elásticos que a prendiam na cama improvisada. Ela acatou todas as ordens sem questionar, e ficamos realmente felizes por saber que era uma boa garota.
Quando soltamos todas as amarras, ajudamo-la a se sentar. Naturalmente, como ser humano e como mulher, ela se encolheu toda, tentando esconder seu corpo nu de nossos olhos, desnecessário, já havíamos visto cada mínimo detalhe que ela possuía, inclusive os pelos púbicos que ela tentava em vão nos esconder, e até aquilo era maravilhoso.
Quando menos esperamos algo atingiu nosso rosto, algo duro e gelado, percebemos tarde demais se tratar de uma bandeja de alumínio que deixamos descuidadamente ao lado da maca. Devíamos ter previsto que ela estava se comportando bem demais. Entretanto, ainda estávamos em vantagem. Ela não poderia achar realmente que deixaríamos a porta aberta, acharia?
Ela tentou em vão abrir a porta, e quando percebeu que havia falhado, tentou nos atacar novamente. Com uma fúria incontida, o monstro rugiu para fora de mim, tomando o controle da situação e de nosso corpo. Ele vociferou em resposta, o que a fez se agachar em um gesto protetor e começar a chorar. Tarde demais, o monstro havia despertado completamente e estava muito bravo com ela. Ele desceu a mão em direção ao seu rosto e deu-lhe um tapa tão forte que fez sua boca sangrar, chateamo-nos com aquele fato. Queríamos que ela estivesse inteira e sem macula quando começássemos nossa diversão. Ali estávamos de bom grado, compartilhando um sentimento tão puro e feliz, tão singular e intimo nosso e ela nos retribuía daquela forma, eu podia entender perfeitamente a raiva do meu monstro consciente.
– Você nos desapontou. Tente novamente e juramos que não terá uma morte prazerosa – prometemos e aquilo pareceu surtir algum efeito, isso ou o tapa, fosse como fosse, ela se calou e assentiu, chorando como uma criança indefesa.
Aquilo mexeu com algo dentro de nós, tanto de mim, quanto do monstro, e subitamente nos vimos nos inclinando em sua direção e pegando-a no colo, fazendo uma espécie de ritual de ninar. Ela era nossa criança, não era? Nosso brinquedo favorito.
– Se acalme, vamos... Não queríamos fazer aquilo, mas precisávamos – falamos em uma voz complacente e gentil, muitas vezes usadas por pais que querem educar seus filhos de maneira correta.
– V-você é doente – falou ela com certa rispidez, e novamente aquilo irritou o monstro que se agitou internamente. Sentimos nosso corpo endurecer e ela felizmente notou aquilo. Com medo de represálias ela desculpou-se e voltou a choramingar, implorando por desculpa.
– Tudo bem, tudo bem, nós entendemos... Poucas pessoas compreendem realmente o que somos, e entenda Katniss, apesar de não haver distinção entre nós. Somos dois completamente distintos, quero dizer, eu e... Meu monstro – aquelas palavras ricochetearam dentro de mim, pela minha consciência gelada e insensível. Era a primeira vez que assumíamos ser dois. Aliás, era a primeira vez que assumíamos ser quem éramos. Katniss pareceu entender aquilo também, e pela primeira vez vi compreensão e entendimento em seu olhar.
– Eu... Eu entendo – ela murmurou por fim. – Eu... Entendo que você e... Tem essa outra pessoa dentro de você. Eu compreendo.
Ela parecia realmente sincera no que dizia, então sorrimos novamente.
– Me desculpe por ter lhe batido... – pedimos, mas notamos uma coisa errada, e ela pareceu notar.
– Você pode lutar contra isso – ela falou se afastando gentilmente, mas demonstrando que ainda estávamos no controle e ela não tentaria mais nada.
– O que... Do que está falando? – perguntamos confusos.
– Você pode separar isso... O seu bem e o seu mal, eu sei que há algo dentro de você, uma segunda personalidade, que toma o controle e lhe obriga a fazer as coisas que faz, mas você pode controlar isso. Pode controlar sua vida – ela explicou e havia gentileza em sua voz. Uma gentileza completamente inusitada.
– Não sei do que está falando – respondemos, e estávamos começando a ficar nervosos novamente. Ela estava cogitando a ideia de eu calar o meu monstro interno? Ela cogitava a ideia de que aquele demônio que havia estado comigo desde minha criação poderia ser controlado? Aquilo sim era uma afronta, não queríamos ser controlados, não queríamos nos submeter às leis humanas estúpidas e ridículas. Éramos um e dois ao mesmo tempo, e gostávamos de viver daquela maneira.
Repentinamente Katniss me beijou e toda aquela batalha interna pareceu se dissipar, e o monstro consciente foi afundado, subjugado e totalmente calado por aquele sentimento esquisito e nunca sentido antes. Aquele beijo de Katniss Everdeen calou todos os meus demônios e toda a vontade de matar. Mas durou apenas alguns segundos, e então parecemos acordar de um sonho, a empurramos para longe e saímos furiosos do galpão. Deixando-a sozinha.
–-
Nas horas seguintes estávamos tão inquietos que mal conseguíamos comer ou dormir, necessidades essenciais para nosso corpo humano de certa forma, fraco. As horas se arrastaram e nos vimos indo de minuto em minuto para o local onde Katniss estava guardada. Eu podia ouvir o choramingo dela atrás da porta, ela também andava pela sala e às vezes clamava por ajuda, provavelmente não sabia que o galpão inteiro era à prova de som. E como saberia?!
Uma ou duas vezes entramos na sala para lhe dar comida e uma manta para se esquentar, mas não demos roupas, gostávamos de vê-la nua, seu corpo era lindo e deveria ser admirado. Eventualmente começamos a pensar na melhor forma de matá-la. Cortá-la em pedaços já não era uma opção, pois o corpo dela deveria se manter intacto, era perfeito demais para ser maculado.
Então uma ideia irrompeu em nossa mente. Katniss parecia um anjo, ela era celestial e quase divina, seu beijo havia provado aquilo, e para ter certeza do nosso plano, fomos até ela e a beijamos novamente, até que ela relaxou em nossos braços e aceitou seu destino.
x-x-x
No começo, eu o achava um louco, um maníaco, doente. Mas Peeta Mellark era mais do que aquilo, ele era um psicopata sangue frio sim, mas ele também era alguém que precisava urgentemente de ajuda. De alguma forma eu sentia que meu tempo estava se acabando, e como uma ultima cartada, decidi que tentaria fazê-lo entender que ele poderia controlar seu demônio. Minha mãe costumava dizer que o amor mudava as pessoas, e até aquele derradeiro momento, eu acreditava que aquilo era a mais pura e deplorável porcaria já dita por ela. Ela tinha razão, ao olhar para Peeta eu sabia que se tratava de um homem que nunca havia tido carinho, um homem que precisava de alguém para apoiá-lo, para amá-lo, para conduzi-lo pelo caminho correto e que calasse aquela voz de sua alma que o obrigava a matar.
Dias atrás, no mesmo dia em que eu esbarrara com ele no corredor da universidade, eu descobrira que ele era um homem inteligentíssimo de 25 anos, morava sozinho, era solteiro e havia ganhado diversos prêmios durante sua curta vida. Ele se formara doutor com apenas 21 anos e desde então trabalhava em uma cura para psicopatia. Eu sabia de tudo aquilo através de horas de pesquisa com afinco, eu era muito boa com computadores e investigação. Como se o destino nos tivesse pregado uma peça, eu também era muito inteligente, com um QI mais elevado que a maioria, embora não tanto quando o dele, de forma que também havia ganhado prêmios estudantis e por mérito. Eu poderia ter me dado bem na área investigativa, mas minha curiosidade para saber como o cérebro humano funcionava, para saber por que eu era tão diferente da maioria, acabei optando pela área de Medicina. Foi quando o encontrei no corredor daquele dia, e sabia de imediato que ele era como eu, fingia ser algo que não era, fingia se encaixar em um lugar que não o aceitaria como ele realmente era.
E foi exatamente o que tentei mostrar a Peeta quando ele reapareceu pela sexta vez naquele dia. Eu sabia que ele me mataria, era questão de tempo e a julgar pelas horas que havíamos passado ali conversando, eu sabia que já era dia dos namorados. Conseqüentemente, o dia da minha execução.
– Por que o dia nos namorados Peeta? – ele já sabia que eu conhecia seu nome, mas estava tão desolado ao constatar que sua voz demoníaca poderia ser emudecida, que nem se atentou tanto para aquele fato. Ele só queria entender.
– Por que... Quando eu tinha 16 anos, eu achei que houvesse encontrado a pessoa perfeita, a pessoa que me entenderia e compreenderia o monstro que eu, que nós éramos. Ela não julgou quando nós mostramos o nosso pequeno cemitério particular, os restos de animais, até nossos troféus de recordação ela não julgou, não se afastou nem temeu. Ela parecia ter nos aceitado, mas era tudo uma mentira. Ela era como eu no fim das contas, e queria apenas me usar como um experimento. Quando eu soube o que ela era, era dia dos namorados. Ela tirou minha virgindade, em seguida tentou me matar, ela era uma viúva negra e me usou. Ela já havia matado seus namorados antes de mim e eu seria o próximo, infelizmente para ela, houve um combate entre nossos demônios, e eu saí vencedor. Eu a matei, e ela foi a primeira. Senti um prazer tão imenso, tão... Imensurável que percebi que queria fazer aquilo novamente, mas primeiro estabeleci algumas regras, a primeira de todas as regras me pareceu bem clara: matar apenas mulheres e apenas no dia dos namorados. Era uma data importante para mim, foi a data que fiz meu ritual de iniciação, o dia em que eu havia aceitado quem eu era.
Então eu consegui entender, Peeta já havia sido alguém que poderia se amar algum dia, ele só havia precisado de alguém para entendê-lo, e não havia tido ninguém.
Era difícil julgá-lo com clareza, certamente que o que ele era havia se transformado com o passar dos tempos, evoluindo aquele sentimento para algo pior, vertendo aquela voz maliciosa em sua cabeça, em uma espécie de monstro que o comandava. De repente, me vi apaixonada por ele, por um assassino, por um monstro em pele de homem. Eu estava perdidamente apaixonada pela ideia de transformá-lo em algo bom e humano novamente. E foi o que fiz, ou ao menos tentei.
Quando Peeta voltou na sétima vez, carregando um estojo de lâminas afiadas e uma seringa contendo certamente algo que me faria adormecer, eu tomei minha decisão.
– Peeta... – chamei e ele me olhou curioso. — Posso pedir uma coisa a você?
Surpreso ele assentiu em afirmação e eu continuei, dando um passo cuidadosamente para frente.
– Me faça sua. Faça-me sua enquanto ainda estou acordada e posso senti-lo. Faça-me sua antes que eu saia desse mundo – pedi com a voz determinada. Eu precisava mostrá-lo.
Aquilo sim pareceu ter pegado ele de surpresa, ele deu um passo hesitante em minha direção.
– Como é? – indagou ele, mais para si mesmo.
– Me faça sua – pedi uma ultima vez e abri os braços, me entregando de corpo e alma ao meu carrasco.
Segundos se passaram até que Peeta largou a seringa e o estojo na pia e me puxou para si, envolvendo-me em um abraço apertado e repleto de luxuria. Deu-me um beijo lascivo e quando dei por mim, estava gemendo de prazer com os movimentos dos dedos ágeis de Peeta em meu sexo. Estávamos no chão e ele estava por cima de meu corpo, mesmo o chão gelado pareceu prazeroso quando a língua de Peeta passou pelo meu pescoço e ele mordeu a pele nua dali. Estremeci de prazer quando um dedo dele me penetrou, então outro e então mais um. Quando finalmente consegui convencê-lo que era aquilo que queria, abri sua calça com rapidez e o guiei para dentro de mim.
Foi algo como um desejo carnal se realizando, Peeta preencheu-me completamente de uma só vez e eu gritei pela ultima vez, de prazer. Nossos gemidos se misturaram e sua língua duelava contra a minha em uma batalha que eu sabia, ninguém sairia vencedor. Ele estava sedento e totalmente selvagem, eu não saberia dizer se fazia amor com ele ou seu monstro, pois os dois mesclavam-se completamente. Ele rugiu, ou a fera dele, ou os dois juntos, quando atingimos o clímax e senti a semente dele ser plantada em mim. Foi como se o mundo explodisse em cores vibrantes e sons desconhecidos, tudo parecia cem vezes mais real, todos os meus sentidos estavam cem vezes mais sensíveis. Peeta arfou sobre mim e me olhou com atenção.
– Eu preciso te matar – ele falou, mas sua voz mostrava que ele não queria aquilo. – Eu preciso.
Apenas fiquei olhando-o, e quando eu não disse nada, mostrando a ele que aceitara meu destino ele fraquejou. Ao se levantar para pegar a seringa, passei uma perna envolta de seu corpo e ele caiu de joelhos, seus olhos cintilaram perigosamente, enquanto eu sabia que seu monstro estava tomando conta de seu corpo, levantei-me e alcancei a seringa primeiro.
No entanto, Peeta, mais hábil e muito mais acostumado com aquela ferramenta e com aquele tipo de situação, conseguiu me empurrar de encontro ao chão, enquanto praticamente me esmagava sobre seu peso na luta para tomar aquela ferramenta de mim.
Chutei seu baixo ventre e ele rugiu de dor, os olhos semicerrando-se e seu corpo se contorcendo. Vi uma oportunidade, senão a única que teria, de me manter viva. Com a coragem redobrada, me aproximei dele com a seringa na mão. Estava a poucos milímetros de distancia entre a agulha e sua pele quando meu braço foi torcido no ar de forma bizarra. Uma dor abominável subiu pelo meu antebraço e um sonoro crac foi ouvido. Meu braço estava quebrado. Naquela luta, a seringa foi parar longe de mim, aparentemente com seu conteúdo intocado, o que significava basicamente que eu falhara e agora morreria de forma bastante dolorosa e não prazerosa.
Pra minha surpresa, Peeta levantou-se para acabar com aquilo de uma vez por todas e caiu, levantou-se novamente e deu dois passos em minha direção, então caiu novamente. Arfando e com os olhos semicerrados ele tentou engatinhar em minha direção, falhou novamente e por fim caiu no chão com estrépito. Ele havia desmaiado. Demorei alguns segundos para entender o que havia acontecido, mas quando me aproximei o suficiente para observá-lo, notei que havia uma pequena gota de sangue em seu pescoço, bem pequena mesmo. Eu havia conseguido furá-lo, e mesmo que apenas um pouco do conteúdo da injeção tivesse lhe corrido pelas veias, foi o suficiente para fazê-lo desmaiar. Só mais tarde eu perceberia que o conteúdo todo daquela seringa teria me matado.
Ele havia resolvido me matar de forma tranqüila e pacifica, ele não queria me matar de forma brutal ou violenta como acontecera com suas outras vítimas. Mesmo aquele pensamento me deixou um pouco mais em paz. Lembrei-me dele dizendo que não macularia meu corpo, seu altar particular.
Quando a policia chegou ao galpão que ficava no começo da Capitol Freeway e perto das áreas das usinas abandonadas, ficaram assustados com o meu testemunho. Encontraram evidencias o suficiente para provar que Peeta Mellark era o assassino do dia dos namorados. Ele havia acordado e imediatamente foi levado em uma camisa de força para um carro reforçado, para o presídio de segurança máxima. Ele não me olhou nenhuma vez, embora eu o tivesse visualizado pelo menos três vezes enquanto o tiravam do galpão e o colocavam no camburão.
No jornal matutino daquele dia, no mundo inteiro, sua foto era exibida. Foto que não tinha nada a ver com o retrato falado feito pelas suas supostas vitimas. Três meses depois ele confessou ter cometido pelo menos meia dúzia das mortes que lhe culparam. Ao perguntarem por que confessara os assassinatos ele respondeu: Porque quero reduzir minha pena, porque há alguém lá fora que quero rever antes de deixar esta vida.
Aquela frase permeou minha mente pelo resto da minha vida, mas Peeta Mellark jamais saiu da cadeia, ele morreu aos 61 anos por causas desconhecidas, talvez seu monstro o tivesse deixado por fim, e sua alma não conseguiu viver por si só.
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Já havia se passado um ano desde que havia sido preso. A capital havia me oferecido uma espécie de emprego, embora eu gostasse de pensar naquilo como uma espécie de segunda chance.
Eu havia aceitado, e aquele emprego consistia basicamente em ser deixado utilizar para experimentos para cura da psicopatia. Eram feitos testes físicos e mentais, mas nenhum realmente resolveu. Mas eu queria mudar, eu queria pelo menos tentar, de alguma forma eu conseguira algum avanço quando consegui separar o meu verdadeiro eu, do monstro que eu julgava ser. E na maior parte do tempo eu conseguia controlá-lo.
Talvez se Katniss Everdeen me deixasse vê-lo pelo menos uma primeira e ultima vez, pessoalmente, talvez eu conseguisse mudar, talvez eu conseguisse me transformar em algo mais humano. Mas Katniss se recusara, mesmo quando a advogada de defesa e a psicóloga foram juntas tentar lhe convencer. Ao invés disso, prestes a completar um ano de prisão, no dia dos namorados, ela me mandou uma carta e uma foto.
Na carta havia apenas poucas palavras, dizendo que ela jamais se esqueceria do que eu fizera a ela, e que apesar de ter entendido que eu precisava de ajuda e que eu era doente, dependente de um monstro assassino, ela também guardava remorso e medo de mim. De qualquer forma, ela dizia na carta que algum dia haveria de me perdoar por ser quem sou e que para acalmar meu animo e dar-me alguma motivação para seguir em frente, mandava um presente de dia dos namorados.
A foto estava em boa qualidade o que me permitiu ver os lindos olhos azuis do bebê que nela estava representada, a pele era alva e delicada como a de Katniss e embora eu soubesse que aquela foto havia sido tirada há meses atrás, também poderia apostar que o bebê era loiro dos cabelos cacheados. Ele era meu espelho, de forma invertida. Ele era um milagre, meu milagre e também era um legado meu ao mundo, o bebê na foto estava com uma touca de diabinho, o que me fez pensar se aquilo era proposital. Não pude deixar de rir com a ironia, o pequeno bebê me representava em duas formas, ele representava o duplo Peeta.
Notas finais
Eu sei que hoje foi uma oneshot de chocar o coração de todos, mas eu amei! Whatever, eu realmente vim para agradecer a mais duas recomendações que recebemos!
Sasa e likeavirgin vocês são umas lindas! Obrigada!
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