Notas iniciais
Autora: Mellathorne
Censura: +16
Gênero: Amizade, Comédia, Romance, Linguagem Imprópria

N/A: Hey, folks! Sim, eu, Mellathorne, também estou fazendo parte do conjunto de ones especiais de Dia dos Namorados, o que é incrível já que sou a pessoa mais enrolada do mundo mas whatever. Fico muuuuito feliz em fazer parte disso junto com tantas outras autoras talentosas e espero, de verdade, que minha pequena (pequena o escambau porque ultrapassei os 10.000 caracteres) contribuição agrade pelo menos grande parte dos leitores, senão todos. Enfim, espero ter um resultado positivo e comentários, porque well, isso infla o ego de qualquer autora.
Boa leitura.

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O dia começou bem só até o momento em que eu pisei o pé fora da cama.

Uma pequena comparação para te ajudar a acompanhar minha linha de raciocínio: o Super-Homem tem a kriptonita e eu, Peeta Mellark, tenho o Dia de São Valentim. Bobagem? Superstição? Talvez. Desde um pequeno incidente traumático na minha adolescência eu havia prometido a mim mesmo que passaria a odiar o Dia dos Namorados por comemorar algo tão banal e fácil de quebrar e ser quebrado, mas parece que o cupido não gosta de ter sua área sendo ridicularizada.

Mas hoje eu provaria que isso não se passava de idiotice e que a sorte estava ao meu favor.

Hoje, tudo daria certo.

– Puta que pariu! – uivei de dor, fazendo uma careta no espelho quando o barulho do telefone assustou-me repentinamente e a lâmina de barbear abriu um rasgo de uns três centímetros no meu queixo. Não levou nem meio segundo para aquilo começar a sangrar e arder pra caralho, embora a dor fosse o mínimo diante daquela monstruosidade que agora cobria minha cara. Perfeito, pensei, resmungando. E mulher ainda acha que tem vida fácil.

– O que é? – atendi ao telefone, ríspido, zanzando pelo quarto em busca de um curativo rápido antes que algum vizinho enxerido achasse que eu havia cometido algum massacre ou seita satânica pelo jeito que o machucado jorrava rapidamente entre meus dedos.

Uma voz calma respondeu, após uma breve pausa:

É uma bela maneira de se falar com seu chefe.

Meu chefe. Puta que pariu!

– Hã... Er... Desculpe Sr.Abernathy, digamos que não estou tendo um bom dia – agradeci por ele não poder ver o rubor que subia pela minha face no momento. – Algum problema?

Não, não exatamente. Eu sei que disse que hoje seria sua folga, mas preciso que venha até a Corporação fazer parte da reunião que decidirá qual será nossa propaganda do Dia dos Namorados... Você tem algum compromisso para agora, Peeta?

Prendi a respiração. Quando seu chefe pergunta se “você tem algum compromisso” ele na verdade quer dizer “é bom que você não tenha um compromisso.”

– Estarei aí em trinta minutos, Sr.Abernathy.

– Ótimo – ele parecia sorrir. – Não é à toa que você é meu melhor funcionário, Peeta Mellark.

Não mesmo, Peeta Mellark é o melhor funcionário da Abernathy Corporation pelo fato de ter suicidado sua vida social e amorosa há anos e dedicando-se apenas ao seu trabalho; a única coisa em que de fato era bom e jamais iria machucá-lo, partir seu coração em dois, humilhá-lo, zombar de sua cara por ter sido um nerd de óculos fundo de garrafa com a cara cheia de espinhas no colegial e ter quebrado a cara ao se decla... enfim. Isso já passou, você não precisa temer voltar a ser aquele idiota de antes. Agora minha vida era outra, meu corpo era outro, minha mente era outra e... Droga, meu cupido continuava o mesmo babaca de sempre. Era por isso que eu tinha que me prevenir usando meus inúmeros “repelentes anti-cupidos”. Regra número um: se divertir e cair fora. Regra número dois: não se apegar demais a alguém. Regra número três: se as regras número um e número dois falharem, você se fodeu. Porra, eu simplesmente não entendo o porquê de alguém querer comemorar o “Dia dos Namorados”. Se você namora alguém, já não é dia dos namorados todo dia?

Você tem uma nova mensagem na sua caixa de entrada. Mensagem número um: – anunciou a voz robótica da secretária eletrônica enquanto eu lutava contra os botões da calça social. – Hey, Peeta, é o Gale. A propósito, você é Peeta, só pra te lembrar caso você tenha se embebedado na noite passada a ponto de esquecer seu próprio nome que nem na festa de Ano Novo da empresa... Você não se esqueceu do que eu te pedi, não é?

Mordi o lábio, me estapeando mentalmente. Era óbvio que eu tinha me esquecido do que Gale me pedira.

– Você se importaria se eu me atrasasse só um pouco? – perguntei, tentando manter a culpa longe da minha voz; o que era inútil, já que pelo tempo que éramos amigos ele era capaz de detectar o menor traço de enrolação a quilômetros de distância.

Ouvi-o suspirar.

Você se esqueceu.

– Como se você devesse estar com pressa para se casar – ironizei. – Qual é, Hawthorne, você não vai simplesmente me trocar por aquela Barbie versão humana só que mais perfeita. E eu? E nós? O que diabos ela tem que eu não tenho?

Eu sabia que não devia ter deixado você fazer aquelas aulas de teatro no colegial. – resmungou. – Em primeiro lugar, eu amo Madge. É claro, eu também amo você, Peeta, mas é diferente... E em segundo lugar, acredite, ela tem muita coisa que você não tem e que faz muita falta num relacionamento. Peeta, eu sei que você acha que pode viver sozinho sem a companhia de alguém...

– Eu não acho. Eu posso.

Mas a verdade é que todo mundo precisa. E chega uma hora na vida de um cara que ele precisa trocar o futebol pelas fraldas, entende? Esquece, não responde. Você é meu melhor amigo, não é como se eu estivesse te abandonando.

– É o que você diz agora. Quando ela abrir as pernas delicadas você vai se esquecer totalmente de mim. Gale, ainda dá tempo de impedir esse erro. Você não precisa pedir Madge em casamento...

Não, não preciso. Eu quero. – ele disse num tom que não admitia discussões. – E, olha, prometo que não esquecerei você, ok? Uma prima minha está chegando pra passar uns meses em Nova York e já que você é um infeliz solitário mesmo, vou te apresentar a ela hoje a noite.

Fiz uma careta, parando diante do espelho no meio do quarto.

– Prima, é? – perguntei delicadamente, fazendo cara feia para o corte aberto no meu queixo. – Se ela puxou você eu não quero nem saber.

Estou falando sério, Peeta. E ela não é como as garotas que você costuma usar por uma noite e jogar fora, ela é diferente.

Eu? Jamais.

– Claro. Só tem um probleminha. Ela é meio...

– Não me importo contanto que ela seja gostosa. Ela é?

O telefone ficou mudo por um segundo e eu soube que era um sim. Sorri angelicalmente diabólico.

Ahn... Só traz a aliança, ok? Eu quero que esse Dia dos Namorados seja inesquecível tanto para mim quanto para Madge.

– Ah, com certeza você jamais se esquecerá desse dia. Quando ela estiver gorda como a sua mãe e pulando a cerca com seu vizinho vinte anos mais novo – adicionei rapidamente e gargalhei quando Gale murmurou um “vai se foder” abafado antes de desligar o telefone na minha cara.

Colei o curativo por cima do machucado no queixo e encarei o Apolo parado diante de mim no espelho, ajeitando a gola da camisa com um ar superior. No calendário pregado na parede, logo ao lado, um X vermelho ficava permanentemente marcado em cima do dia 12 de junho, todos os dias sem exceções. Eu sei, eu sei, um cara, um adulto que construiu toda uma carreira com menos de vinte e poucos anos não deveria acreditar em superstições, mas porra, é verdade! O Dia dos Namorados pra mim é como quebrar espelhos ou ver gato preto pra outras pessoas, é como se o cupido decidisse me usar como alvo de arco-e-flecha e por sinal, ele é muito bom de mira.

Bufei. Que ele não pensasse que eu iria acreditar em amor só por causa de uma simples e coincidente conspiração universal contra mim todos os anos sempre na mesma data.

Foi quando um sibilo felino irritante arranhou meus tímpanos e me virei a tempo de ver o gato escuro da vizinha, Buttercup, pousar no meu parapeito, arranhando com as unhas a janela do apartamento.

– Sai daqui, seu idiota infeliz – vociferei, correndo para afastar aquela aberração dali, e tudo em seguida pareceu acontecer num décimo de segundo. Soltei um uivo de pura agonia ao sentir meu mindinho bater contra o pé da cama, o carpete se enrolou debaixo dos meus pés e eu caí de cara no chão, batendo o queixo com força bem em cima do machucado da lâmina de barbear. Perdi todo o ar, cego de dor. – Morte eminente, socorro! Puta que pariu! Inferno! Vá se foder, seu cupido filho de uma prostituta!

Rolei para o lado, abafando os palavrões contra o carpete.

Lá fora, o gato miou uma última vez e pulou do parapeito.

Agora é só fechar os olhos e esperar que estrebuche e morra.

O que me consolava era que pior não podia ficar.


Brincadeirinha.

~*~

– Senhor Mellark? Achei que estaria de folga hoje – o porteiro franziu as sobrancelhas quando finalizei os últimos degraus da escada, ofegante, uma vez que o elevador quebrara. E embora minha intenção fosse passar direto sem falar ou ser notado por ninguém, parei onde estava, respirei fundo e dei meia volta com um sorriso sarcástico.

– Bom, alguém aqui tem que trabalhar, não? Abre a porcaria do portão, Flavius.

Ele apenas deu um risinho. Não era a primeira e nem seria a última vez que eu tinha meus ataques de mau humor e descontava tudo em cima dele.

– Sempre doce, Senhor Mellark. Se me permite dizer, senhor, é muita crueldade deixá-lo trabalhando num feriado belo como esse, logo um homem jovem e bonito como o senhor. – suspirou. – A propósito, tem uma encomenda que deixaram pra você hoje de manhã – mas é exatamente por isso que eu estou trabalhando, pensei em responder, mas estava cansado demais para tentar explicar, então apenas olhei impaciente o relógio em meu pulso enquanto ele buscava algo debaixo do balcão. – Ah, aqui está.

Franzi a testa para o buquê de flores que ele colocara sobre o balcão e arranquei a nota antes de qualquer coisa.

– A mulher era bonita. Sua namorada? – porteiro esticou o pescoço para olhar por cima do cartão. Com amor, Delly Cartwright.

Fiz cara feia.

– Não é da sua conta. – e acrescentei rapidamente: – E eu não tenho namorada.

– Então ela pensa que é, pelo jeito que mandou um beijo para o senhor num local não muito apropriado... Assine aqui, por favor?

Flavius estendeu uma prancheta e uma caneta e eu arranquei de suas mãos, resmungando.

– Não está funcionando – grunhi, rabiscando na folha. Comecei a sacudir a caneta freneticamente para ver se saía alguma coisa e aí, bam: ela EXPLODIU na minha mão, melando-a completamente de tinta violeta. Olhei incrédulo para meus dedos, arregalando os olhos.

O porteiro pigarreou com uma careta esquisita.

– Quer saber? Deixe isso pra lá. Depois você assina, quando voltar do trabalho. Tenha um feliz dia dos n...

– Pense bem no que vai dizer, sou eu quem paga seu salário.

Ignorei as pragas que o velho começara a soltar para cima de mim sobre ser um riquinho nojento e mimado e havia começado a correr em direção ao estacionamento do condomínio quando me lembrei que meu carro havia quebrado. Bati na minha própria testa, me sentindo um completo estúpido. Eu já estava em cima da hora e do jeito que era “fácil” se conseguir um táxi em Nova York, quando eu chegasse à Abernathy Corporation, Haymitch já teria deixado herdeiros para comandar a empresa em seu lugar pelas próximas cinco gerações.

– Hey. Táxi – chamei, estendendo o braço para fora da calçada, mas o carro amarelo passou direto quase arrancando meu braço. Grunhi. – Desgraçado. Ou, táxi!

O segundo e o terceiro também passaram como se eu quase não existisse ali, então decidi que já que estava num estado mísero mesmo, não seria assim tão mau apelar. Saltei para o meio do cruzamento e parei, mexendo os braços acima da cabeça. Eu sei, é praticamente suicídio, mas eu já estava começando a ficar desesperado e meu emprego era a única coisa que importava agora.

Um sorriso começou a se formar em meu rosto quando um táxi começou a desacelerar a minha frente – só que por um momento, por uma fração de segundo, algo me chamou a atenção como um farol piscando diante dos meus olhos e eu me vi encarando o outdoor que haviam instalado do outro lado da rua com a foto de um casal vestido com roupas de colegial e logo ao lado o mesmo casal, com uma certa diferença de idade, ambos abraçados com aparências felizes e presentes nas mãos. Eu estava tão profundamente mergulhado na minha própria amargura diante da propaganda enganosa – amor não dura e ponto final – que foi como se tudo ao meu redor não se passasse de um borrão quando ouvi um grito estridente, o som de um carro freando bruscamente e em seguida algo atingiu a lateral do meu corpo, tirando meu fôlego, fazendo com que eu visse outra dimensão sob minhas pálpebras e então, eu apaguei.



– Ai, Deus, de novo não – disse um chiado no meu ouvido, sombras coloridas pairando ao meu redor, minha visão completamente nublada e embaralhada. – Será que eu o matei? Não, não, não, não, você é bonito demais pra morrer, loiro, por favor, acorda. Acorda, seu cretino. Acorda!

O último zumbido se seguiu pelo som de um inconfundível tapa e a coisa sobre mim soltou um gritinho exasperado quando abri os olhos completamente, piscando para focar a visão. Quando olhei pra cima quase perdi todo meu ar ao dar de cara com duas paredes de um intenso cinza nebuloso. Os longos cílios deixavam os olhos ainda mais arregalados, destacados no rosto de traços finos e delicados, os cabelos escuros balançando com a brisa deixando um inegável cheiro de morango e eu quase me perguntei se já tinha morrido e agora estava no céu.

A mulher sobre mim suspirou, parecendo aliviada.

Ela parecia um anjo só até abrir a boca.

– Ah, graças a Deus, por um momento achei que você iria morrer, mas acho que está tudo bem apesar do outro cara da semana passada não ter tido tanta sorte assim – ela riu como se aquilo fosse extremamente divertido. – Quer dizer, você está bem não é? Fisicamente é claro que está, você é extremamente sexy, deve malhar pra caramba por que... Nossa, dá até pra ver os gominhos dos músculos por baixo desse terninho engomado e cara, você é empresário? Porque tipo, eu sempre quis conhecer um e você tem a maior cara de empresário milionário, não que eu seja interesseira, só falta os cabelos grisalhos e tudo mais, mas não acho que você seja tão velho assim, a menos... A menos que tenha feito plástica, afinal você é rico, certo? Quer dizer, você deve ser rico, não tenho certeza, gente rica costuma se suicidar enquanto pega um táxi? Achei que vocês andassem de maleta e limusine com um motorista chamado Alfred... Ah, não, espera aí, esse é o mordomo do Batman, a não ser que seu nome seja Christian Bale. Bom, na minha opinião, você tem mais cara de Robert ou Tony... – a encarei, estupefato. – E mentalmente, você está bem? Não atingi com muita força? Desculpe, não estava mirando em você, mas... Ah, meu Deus, você vai me processar!

Franzi o cenho, sem saber se eu estava com problemas para processar direito ou se ela falava demais e em seguida sacudi a cabeça, tentando organizar meus pensamentos. Só consegui encará-la por um momento e dizer:

– Ei, ei, espera aí, ow, vai com calma – apertei os olhos, tentando me livrar da dor na lateral do meu corpo. – V-você... Você me atropelou?

– Ah, sim! Mas relaxa, você não corre risco de morte eminente, confia em mim, não é a primeira vez que isso acontece.

Engasguei.

– Então quer dizer que você costuma fazer isso com frequência? Atropelar pedestres?

A morena tombou a cabeça para o lado com um ar pensativo, piscando os longos cílios.

– Sim.

– E você ainda está solta? Você me atropelou! Você é um perigo pra nação americana! – me levantei, girando sem sair do lugar até avistar um guarda de trânsito há alguns metros de distância. Comecei a andar naquela direção. – Hey! Hey, você aí! Socorro!

Ela se levantou também, franzindo o cenho.

– Vocês nova-iorquinos costumam muito fazer isso? Você sabe, ficar parados no meio da rua agitando os braços acima da cabeça feito loucos, é algum tipo de esporte ou... Sei lá? Eu sou do interior do Texas embora não veja minha família faz um bom tempo, não sou acostumada a isso, mas desde que cheguei em Nova York ninguém parou para dizer “oi.” Isso é tão triste, não? Ah! Que falta de educação a minha, eu sempre aqui falando só de mim e me esqueço que acabei de atropelar você, devo estar parecendo uma completa idiota– ouvi passos enquanto ainda gesticulava para o guarda e saltei de susto quando notei suas íris me fitando, o nariz levemente arrebitado para me encarar nos olhos, só então percebi sua mão estendida. – Oi. Me desculpe por ter te atropelado, tá? Eu só costumo fazer isso com meus ex-namorados e nas terras do faroeste texano tecnicamente não há leis, mas vocês, da cidade, parecem querer colocar limite em tudo. Nova York é tão cinza, você não acha? Desde que eu cheguei aqui não consegui ver nem o sol e nem a lua, é tudo sempre sem cor, eu nem sei quando é dia ou noite, você não se enjoa disso? Ah, claro que não, você é um empresário, com certeza deve ter um iate cheio de garotas bonitas de fio dental e champagne em baldes com gelo esperando por você na costa nos fins de semana, e é claro, sua rotina deve ser uma loucura. Sabe, esse pessoal é bem apressado, eu percebi, atravessar uma rua é tipo tentar andar de saltos Prada no meio do rebanho ilegal de búfalos do tio Fred. E por falar nisso, não é que vocês se parecem? Quer dizer, é claro que você tem mais dentes limpos, mas você não teria nenhum parente do Texas, teria? Porque seria perfeito pra sua carreira a história de superação do garotinho que saiu do interior pra perseguir seus sonhos e...

– Deus, já te disseram que você fala demais? – arregalei os olhos, por um momento impressionado e fascinado pelo modo que as palavras jorravam facilmente de seus lábios cheios. Por um momento ela não me pareceu mais tão atraente assim.

A garota sacudiu a cabeça alegremente.

– Já, sim, mas falar me diverte e me faz passar o tempo, afinal hoje é Dia dos Namorados e, bom, a única coisa que me falta é um namorado, então enquanto isso, eu falo.

– Desse jeito não vai arranjar namorado nenhum – resmunguei para mim mesmo e só pude ouvir sons abafados saindo de sua boca sem parar por um segundo para respirar enquanto apalpava os bolsos do terno em busca da caixinha vermelha de veludo que havia guardado para Gale há semanas. Senti meu rosto cair, meu corpo todo enrijecendo em protesto quando apalpei o tecido e senti que não havia nada ali. O impacto deve tê-lo feito voar, pensei com um gemido. – Oh merda.

Me joguei contra o chão e me pus engatinhar em direção à calçada, pouco me importando para a sujeira das ruas. Gale ia me matar caso descobrisse que eu havia perdido o anel de diamantes com o qual ele pediria Madge em casamento.

– ...Mas não tem problema. Quer dizer, tem, sempre sou eu, no final das contas – a mulher parou de tagarelar e olhou para mim alegremente, apoiada na frente do próprio carro. – O que está fazendo?

Ergui o olhar com uma expressão irônica e amarga.

– Tentando me comunicar com a Mãe Terra.

Ela pareceu surpresa.

– Oh, sério? Então eu estava enganada com você, você sabe, qualquer um que olhe pra sua cara além de ver que você é bonito e rico também consegue enxergar seus hábitos materialistas de longe. – suspirei em alívio ao achar a caixinha escarlate que rolara até bater num poste à beira da calçada. – Seus olhos são azuis? É difícil saber com esse terno porque sinceramente não te valoriza nada, é muito sério pra alguém jovem como você, acho que você devia usar algo que destaque mais seu rosto e...

– Quem é você pra me dar dicas de moda? – rugi entre dentes. – Olha, você tem sorte de eu estar com pressa, caso contrário eu faria questão de mexer os pauzinhos e te processar por ter me atropelado, além de arrancar o máximo que eu pudesse de você. Mas eu vou deixar essa passar porque é claro que você tem algum tipo de doença mental.

A expressão da garota teria sido a mesma caso eu houvesse lhe dado um soco. Por um momento me senti extremamente mau em soar tão duro; era como machucar um filhote de cão fofinho e tagarela.

– Tudo bem. – ela hesitou, então acrescentou rapidamente. – Não quer uma carona até o trabalho?

– Não. Só me deixe em paz, por favor. Não é um bom dia pra mim, tá legal?

Deu de ombros.

– Tá. – assentiu alegremente, girando até localizar a porta do carro, onde parou e olhou para mim como se fossemos dois melhores amigos que não se encontravam há anos. – Sabe... Tem alguma outra coisa em você que eu sinto, mas não sei dizer exatamente o que é. É algo sombrio que você guarda, alguma força obscura que com certeza te atormenta e te faz soar tão amargo, como se demônios sussurrassem em seu ouvido o que dizer e o que fazer a todo momento – então piscou por um momento e sorriu, afável. – É uma época tão linda essa, não? Feliz Dia de São Valentim.

Ergui as mãos, exasperado.

– Saltando de alegria – ironizei, embora tenha ficado parado na calçada, ajoelhado, enquanto a assistia bater a porta, ligar o MP3 do carro e começar a cantar fazendo uma estranha dancinha no banco e finalmente manobrar para longe, seguindo direto. Nem percebi que havia prendido todo o ar quando o soltei, aliviado. – Maluca... – sussurrei para mim mesmo.

Azar coisa nenhuma, pensei, sorrindo para o anel intacto dentro da caixinha. Comecei a me erguer quando minha cabeça esbarrou em algo – ou melhor, alguém – e ofeguei quando algo líquido e gelado escorreu por meus ombros, me fazendo estremecer. Fiz uma careta quando uma gota desceu até meus lábios e eu percebi que aquilo era algum tipo de bebida alcoólica.

– Olha pra onde anda, cara – resmungou o garoto com o copo meio vazio na mão, fazendo cara feia antes se virar e começar a xingar, sem ajudar nem nada, porque é assim que as coisas acontecem em Nova York.

~*~

Eu podia ver a boca de Gale torcida em desaprovação bem antes de chegar a porta do restaurante onde ele aparentemente havia marcado o encontro com sua futura noiva. O Hawthorne cruzou os braços assim que parei a sua frente e me analisou, esperando por uma resposta.

–Bah. Não me olhe assim – joguei as mãos para o alto, exasperado. – Você não faz a mínima ideia do que eu passei pra chegar até aqui.

Meu melhor amigo ergueu uma sobrancelha, relaxando o corpo antes tensionado, como se por acaso ele botasse algum medo.

– Bem, podia ter feito um sacrifício a mais – deu de ombros embora não parecesse zangado. – O que é isso no seu queixo?

– Corte de lâmina. – sorri amargamente. – Você sabe que dia é hoje.

Gale instantaneamente rolou os olhos.

– Oh, vamos, Peeta. Já se passaram... O quê? Oito, nove anos? Você sabe que essa história toda de carma é bobagem, nós éramos jovens quando fizemos aquele pacto, mal sabíamos direito o que aquilo significava.

– Bobagem? Bobagem?! – minha voz se elevou uma oitava. – Depois daquele dia que Delly me quebrou em pedaços nós juramos não trocar nossa amizade por nada, e desde que você conheceu Madge eu me fodo todos os anos na mesma época! Isso é bobagem, Hawthorne?

Ele franziu o cenho.

– Não seja dramático. Foi só um corte e... Nossa, sua roupa está imunda. Espera, que cheiro é esse? Você andou bebendo, Peeta?

Suspirei, os punhos cerrados na lateral do meu corpo. Testemunhas demais.

– História longa. Não me pergunte.

– Okay, nervosinho – disse com deboche. – Pode me dar o anel, por favor?

– Não.

Gale me olhou como se eu tivesse lhe dado um tapa.

– O quê?

– Você me ouviu. Não vou te dar o anel. Sou seu melhor amigo, não vou deixar você destruir sua vida desse jeito – afirmei, convicto. Ele estreitou os olhos. – Nem adianta, vai ter que me espancar pra tirá-lo de mim, e se tentar eu jogo no bueiro.

– Você não entende, não é? – suspirou, parecendo cansado. – Jamais vai entender, não enquanto não parar de agir feito um idiota. Peeta, nós não temos mais quinze anos. Aquela época foi horrível pra você, eu sei... Mas olha só pra você, agora. É um dos caras mais poderosos de Nova York antes mesmo de completar vinte e cinco, e se Haymitch não te promover hoje, que um meteoro caia sobre minha cabeça. Todas as garotas do trabalho suspiram por você. Delly não é todas as mulheres, Peeta. As mulheres não são Delly – ele apertou meus ombros com um pedido mudo nos olhos. Hesitei.

– Ela te faz feliz?

– Faz. E muito.

– Você realmente a ama?

– Mais do que tudo.

Deslizei a caixinha para fora do bolso.

– Posso ver o pedido? – mordi o lábio, pensando que seria demais, mas Gale apenas sorriu e pegou o objeto aveludado das minhas mãos.

– É claro. Você é o homem da minha vida.

– Não seja tão gay ou vai ter que colocar esse anel no meu dedo.

– E então, se decidiu se vai ou não na minha festa de São Valentim conhecer minha prima? – perguntou, parando na porta do restaurante. Dei de ombros. – Estou dizendo, é melhor tratá-la bem ou eu acabo com sua raça.

Rolei os olhos, erguendo a palma das mãos com uma expressão inocente.

– Achei que me amasse – gracejei, ouvindo-o bufar. Todavia, antes que pudesse entrar, por algum motivo parei ao ver uma garotinha de cabelos presos em duas tranças douradas que puxava a mãe apontar para mim e gritar com voz estridente:

Olha, mãe, um mendigo de olho azul entrando no restaurante!

– Pensando bem, não quero me atrasar pro trabalho. – acrescentei rapidamente para Gale. – Boa sorte em ser infeliz pelo resto da sua vida.

Me virei e não pude deixar de dar língua para a garotinha ao passar por ela, fazendo-a começar chorar.

A mãe dela me olhou como se eu fosse doido.

– Seu cretino! – ralhou a mulher, acertando em cheio um tapa no meu rosto.

Talvez eu fosse.

~*~

– Bom dia, Sr.Mellark... – minha secretária, Cashmere, arqueou as sobrancelhas ao descer e subir os olhos por todo meu corpo. – Peeta, o que diabos... Ah, esqueça. Me recuso a perguntar qualquer coisa desde o dia em que apareceu com aquele chifre de unicórnio colado na cabeça e vomitou em cima das planilhas do mês – suspirou.

Abri um sorriso.

– Boa garota.

– Tem sorte dessas reuniões nunca começarem no horário dito, mas mesmo assim continua atrasado cinco minutos – disse rispidamente, baixando as pálpebras para os papéis em cima da mesa. – É melhor ir, você sabe como Haymitch é rigoroso em relação a horários.

– Haymitch me ama – rebati.

– Não sei, não, Sr.Mellark. Me disseram que contrataram um publicitário ainda mais jovem e com ideias inovadoras para a empre... Oh – Cashmere enrubesceu de repente. – Eu nem devia estar falando nisso. É melhor ir logo e... Ai, meu Deus, nem sei como você continua nesse cargo.

– Eu disse pra você que ele me ama – gritei, disparando em direção as escadas já que não estava muito confiante em elevadores. Só me lembro de estar sem fôlego ao chegar no andar da sala de reuniões, o cheiro do suor se misturando ao da bebida que já secava, impregnando-se em minha roupa, mas eu estava extasiado demais pra pensar em qualquer coisa que não fosse me jogar contra a porta da sala principal. Ou para pensar que alguém pudesse estar ali, uma vez que a porta bateu contra algo que soltou um gritinho agudo antes de cair no chão.

Parei, ofegante.

– Eu me atrasei demais? Desculpe, Sr.Abernathy, eu não queria... – minha voz falhou diante dos olhares dos maiores publicitários e empresários de Nova York que ocupavam as cadeiras, curiosos, outros até se segurando para não rir. Haymitch me encarou com a boca ligeiramente aberta, embora não fosse o tipo de homem que se assustava com facilidade, fechando-a logo em seguida numa linha rígida.

– O que diabos pensa que está fazendo, Peeta? – o tom era baixo, porém firme. – Isso não é uma festa surpresa, é uma reunião de negócios...

– Eu sei, senhor, é que meu dia foi extremamente difícil...

– E o que está vestindo? Porque está tão imundo e... E... Minha nossa, seu olho está roxo e você... – ele se inclinou para a frente, fungou e fez uma careta enojada. – Você está fedendo a bebida. Você bebeu e se meteu em uma briga antes de vir ao trabalho?

Sacudi a cabeça lentamente.

– Eu posso explicar, Sr.Abernathy...

– Oh, Deus, não, não quero saber disso agora. Srta.Everdeen, você está bem?

Meu chefe desviou o olhar para algum ponto às minhas costas e eu soltei um ruído engasgado. Seu burro, pensei no grito feminino quando escancarei as portas sem aviso prévio. Havia alguém atrás da porta.

– Ah, Deus, me desculpe, eu não queria...

Me virei para a garota apoiada nas mãos e nos joelhos no chão que soltou um ruído de desespero quando seus olhos me encontraram, cinza no azul, e tapou o rosto com a pasta que segurava rapidamente. Mas não rápido o suficiente para que eu a reconhecesse.

– Você. Você é a maluca que me atropelou na rua – apontei, arregalando os olhos. – Viu, Haymitch, é tudo culpa dela! Essa... Essa maníaca deve estar me perseguindo, alguém deve tê-la pago pra me fazer papel de idiota na sua frente e...

– Oh, por favor – ele riu com escárnio, se levantando para ajudar a mulher a se levantar. – A Srta.Everdeen está fazendo estágio como minha assistente há duas semanas, ela não é maníaca alguma. É você mesmo quem está se fazendo de idiota, Peeta. – sacudiu a cabeça com um ar decepcionado. – E eu que achei que tinha achado o cara perfeito...

– O quê? Como assim “cara perfeito”? – guinchei. – Está dizendo...

– ...Que ia te promover, sim, isso mesmo. Mas diante das circunstâncias você não me parece maduro o bastante para isso, Sr.Mellark.

Me segurei para não começar a chorar. Parecia que alguém havia acabado de me acertar com um taco de baseball com uma bola de boliche na ponta.

– Então... Não vai me promover?

– Não. Pelo contrário. O senhor parece muito estressado, sei que é bom no que faz, mas ainda é muito jovem, está sobrecarregado demais. Você tem que curtir um pouco a vida, Peeta. Acho que dois meses de folga serão o suficiente. – suspirou.

Engasguei.

– Está me suspendendo?

– Bem, sim, mas vou deixar que fique até hoje mais tarde, se quiser – Haymitch caminhou até o fundo da sala e desamarrou uns balões em formato de coração que faziam a decoração para a data, junto com um ursinho de pelúcia logo ao lado. – Deus, minha mulher acha que ainda temos vinte anos, me faça um favor e suma com isso daqui. Já será um bom começo para quando estiver de volta.

– Mas senhor...

– Peeta – cortou-me num tom de advertência. – Agora não. Finnick – ele se virou para um dos publicitários sentados à mesa. – enquanto o Sr.Mellark aproveita suas férias, você assume as tarefas em seu lugar. Assunto encerrado.

Abri a boca para protestar, mas optei por ficar quieto e apenas assenti com um aceno. Ele empurrou os balões para cima de mim e eu me vi saindo pela porta quase como se estivesse fora do meu corpo, como se aquele fosse um pesadelo do qual eu não conseguia acordar.

– Hey, você! Peter! – chamou uma voz às minhas costas, me fazendo parar. Me virei para conferir quem era mas assim que vi a maluca que me atropelara rolei os olhos e continuei a andar, ignorando-a por completo. Saltei para dentro do elevador e apertei número do andar sem perder tempo. – Espera aí!

As portas se fecharam e eu pude ouvir o “ai” dolorido que ela soltou ao bater de cara contra o metal, deixando-me sozinho dentro do elevador.

– Não me olhe assim – murmurei para o ursinho de pelúcia debaixo do meu braço, dando de ombros. – Você sabe que ela mereceu.

~*~

– Não quer mesmo ir à festa com a gente, Peeta?

– Não, obrigada – murmurei pela milésima vez aos meus colegas de trabalho que me encararam com uma mistura de pena e alegria antes de saírem aos abraços e risadas do escritório. Pelo jeito as notícias corriam rápido naquele prédio, já que de noite todo mundo estava a par das minhas “férias prolongadas”.

Espero que um meteoro tenha esmagado sua cabeça, digitei a mensagem de texto e estava prestes a enviar a Gale quando o celular piscou, anunciando bateria fraca e desligou. Praguejei mentalmente, mas quando me dei conta que o andar estava vazio, me permiti soltar um palavrão alto, berrando, minhas voz ecoando nas paredes do corredor que terminava no único elevador da ala. Soquei os botões e a porta imediatamente se abriu. Voltei a socá-los, furioso.

– São Valentim, eu adoraria enfiar essas suas flechas no meio do seu...

– Hey! Hey! Segura pra mim! – interrompeu uma voz estridente e eu arregalei os olhos ao vê-la de novo. Oh, Deus, de novo não, pensei com um gemido. Apertei o botão do térreo outra vez, atrapalhando-me com os balões e desesperado para que a porta se fechasse quando ela tropeçou se desequilibrando um pouco.

– Não, não, não! Não... – choraminguei quando ela impediu que as portas metálicas se fechassem com o braço, se pondo o quão ereta podia com um dos saltos quebrados e me olhando com um sorriso desafiador, os cabelos completamente bagunçados pela correria.

– Ai, Deus, esses elevadores não esperam por ninguém, que horror. É capaz de alguém perder um braço, uma perna ou algum membro importante do corpo, principalmente vocês, homens, afinal não deve ser muito legal ficar andando por aí com essa coisa pendurada. Sabe, isso me lembra uma vez que meu tio Fred, não o do rebanho de búfalos e sim meu outro tio Fred, o irmão do Fred sem dente, ele veio na cidade grande uma vez pra passar o Natal com a família daqui e ficou preso na porta do elevador. Tipo, minha tia Carmen ficou desesperada porque ela sempre viveu no interior e então achou que o elevador era algum tipo de monstro metálico e...

– Pelo amor de Deus, dá pra você calar a boca?! – berrei, o sangue explodindo em minha face. – Será que você não percebeu que eu não dou a mínima pra sua família caipira, o rebanho de búfalos ilegal do seu tio banguela ou como sua tia é burra o suficiente pra confundir um elevador com algo que nem existe?! Você quase me matou hoje cedo e me fez perder a promoção mais importante da minha vida, a promoção que eu esperava a cada vez que piscava, a única coisa que iria mudar minha carreira para sempre, e então você estragou tudo isso sem fazer nenhum esforço e eu... E eu nem sei seu nome!

Terminei com um soco na parede do elevador, cujas luzes se apagarem imediatamente e houve um som de eletricidade se esvaindo. Meus olhos quase saltaram para fora das órbitas quando me dei conta do que era aquilo e estava prestes a começar a rezar para que estivesse errado, mas a morena apenas olhou para o teto e piscou, distraída.

– Dementadores, eu sabia que esse dia ia chegar – sussurrou em voz baixa, estremecendo.

– Dementa o quê... Não, sua burra, eles desligam os geradores quando não tem ninguém no prédio – rosnei, alcançando rapidamente o celular no bolso da calça. Gemi dolorosamente ao ver o aviso de sem sinal piscando na tela e deslizei com as costas contra o metal frio até estar sentado no chão, os joelhos erguidos até o queixo, a cabeça enterrada nas mãos num gesto de desespero. Milhares de pessoas no mundo e eu fui ficar preso justo com ela. – Eu devo ter sambado em cima da cruz, só pode.

A garota mal pareceu perceber que eu a havia ofendido.

– Reencarnações é realmente interessante a menos que você seja ateu ou um cientista radical – ela deu de ombros, então olhou para mim por cima de um deles. – A propósito, meu nome é Katniss. Você está legal?

– Claro. Fui atropelado, praticamente despedido e vou passar a minha noite trancada com uma doida, mas é claro que está tudo ótimo.

– Sério? Que tipo de pessoa passa a noite de Dia dos Namorados trancada com uma doida? – ela fez um som de desprezo e uma risada amarga escapou dos meus lábios. Deus, ela era tão ingênua que nem entendia minhas indiretas. A garota se sentou ao meu lado, ajeitando a saia.

Voltei a rir para mim mesmo.

– Eu odeio essa droga de Dia dos Namorados – resmunguei, apertando um dos balões com tanta força que ele estourou na minha mão. – Eu odeio o amor.

– Você é tão bobinho. – Katniss riu. – Não se pode odiar o amor, é como tentar amar o ódio, só que ao contrário – ela pensou nisso por um momento. Rolei os olhos, batendo a cabeça contra a parede. – Você não me parece ótimo, mas porque mentiu? Sabe, desde pequena mamãe sempre disse que eu era muito intuitiva e por isso na maioria das vezes eu tirava dez nas provas, bom, menos quando a prova valia nove ou oito, porque nesse caso não se pode tirar dez, é como odiar o amor e amar o ódio, você sabe, mas sempre fui péssima em ler os sentimentos das pessoas... Quero dizer, custa muito você dizer o que quer, mais do que ficar com essa pantomima toda que ninguém suporta? Eu sempre falei tudo que me vem à cabeça, acho que é de família, deve ser por isso que nenhuma mulher Everdeen fica com um cara por muito tempo, eles simplesmente não querem ouvir a verdade – suspirou. – Não sei se você acredita em maldições, deve ser bobagem, afinal gente rica geralmente é realista ou pessimista, mas sempre no Dia dos Namorados...

Pela primeira vez desde que a vi, ela parou de falar. Me sentei ereto, curioso. Katniss estava olhando para os próprios pés agora descalços, balançando os dedos como uma criancinha de sete anos.

– O que acontece sempre no Dia dos Namorados? – indaguei ansiosamente.

Ela se virou para mim, piscando ligeiramente confusa.

– O quê? Ah, desculpa, esqueci o que ia falar. Relaxa, isso sempre acontece, mas uma hora ou outra eu vou me lembrar – murmurou para si mesma. – E você? Por que odeia o Dia dos Namorados? É uma data tão linda, sabe, eu achava que era impossível alguém odiá-la afinal isso lembra que ainda existe amor verdadeiro nos dias de hoje apesar de toda sujeira humana, sabe? Eu acredito que ainda existam príncipes, apesar de sapos estarem em maioria, mas algo no fundo me diz que um dia vou encontrar o cara certo. Você já encontrou? A pessoa certa pra você?

Bufei.

– Não vou falar sobre isso com você.

Katniss pareceu magoada.

– Por que não? Eu sei que você ainda está chateado por eu ter te atropelado logo de manhã, mas me desculpe, eu lhe ofereci uma carona e você não aceitou, não é minha culpa se a vida te odeia e você é um infeliz solitário que desconta as próprias frustrações nas pessoas que conseguem encontrar felicidade em sentimentos puros como o amor. Amor, amor, amor, isso não soa fabulástico? – ela sorriu. – Viu? Fabulástico. É uma mistura de fabuloso com fantástico, afinal você não me parece romântico ao ponto de captar metáforas ou qualquer coisa que não seja extremamente certinha de acordo com seu realismo brutal. Ah, isso é divertido. Maravilhótimo. Perfeitoso. Brilhegal. Tenta você – cutucou-me com o cotovelo.

– Se eu contar, você para de fazer essas combinações ridículas?

– “Ridículas” não conta, você tem que juntar as palavras ou assim não vai ter graça, Peeta. É esse seu nome, não é? É engraçado o modo que soa, parece até mexicano, embora você tenha cara de alemão ou californiano... Ná, você é branco demais pra ser californiano e não me parece do tipo que surfa, afinal nadar no rio Hudson ou no East seria suicídio. E então, do que estávamos falando mesmo? Ah. Me lembrei. Tipo, você com certeza não vai acreditar, ninguém acredita quando eu falo até porque todo mundo diz que eu falo muita abobrinha, mas eu não falo abobrinha, é fisicamente impossível que alguém fale abobrinha, a menos que a pessoa coma e comece a falar, mas então ela estaria cuspindo e não falando abobrinha...

Ela continuou a tagarelar sobre sua teoria e eu me vi fascinado pelo modo que ela conseguia dizer tanta coisa sem parar ou sem perder o fôlego. De alguma forma, aquilo me reconfortou. Talvez fosse a ingenuidade ou a capacidade de se distrair até com uma borboleta – mas havia algo que tornava impossível sentir raiva dela. Não pude deixar de rir, estalando os dedos em frente aos seus olhos para que acordasse.

– Oi?

– Você ia me dizer o que acontece sempre no Dia dos Namorados – tentei manter meu tom suave, já ciente de que sarcasmo não funcionava com ela, ou pelo menos não tinha graça usar com alguém que não o compreendia.

Seus olhos pareciam ainda maiores e brilhantes no escuro quando ela hesitou.

– Quer mesmo saber? Você não... Não vai zombar de mim nem me chamar de burra?

– Ah. Droga, você ouviu. Me desculpe por ter te chamado de burra, você não é burra, você é... Esperta como um peixinho dourado.

– Eu amo peixinhos dourados – Katniss sorriu. – Na verdade, eu amo todo tipo de coisa bonita, porque sabe, acho que é pra isso que a vida serve, qual o sentido de tanto ódio quando você pode amar? É uma questão de coragem, na minha opinião. Pessoas corajosas constroem coisas bonitas e pessoas covardes... Bem, destroem coisas bonitas.

Não pude deixar de sentir que aquilo era para mim, embora ela estivesse com o olhar distante.

– Isso foi profundo.

– Bom, é experiência própria, se você me entende. É algo que eu sempre carreguei desde pequena, os vizinhos sempre diziam que quando crescesse, eu me tornaria bonita e tudo mais, mas quando eu cresci os garotos do colégio simplesmente corriam de mim quando eu tentava falar com um deles como se eu tivesse uma doença ou algo do tipo. Por algum motivo que eu não sei os professores não me queriam nas aulas deles, mas sério, como eu poderia ficar quieta com uma pessoa dizendo História de Duas Cidades ao invés de Conto de Duas Cidades? E então chegou o garoto novo, nós começamos a namorar e logo de cara ele me chamou para ir ao baile que uh, era bem no Dia dos Namorados, e adivinha? Ele foi com a Mary Anne, aquela vaca distribuidora de sífilis do segundo ano, e disse que queria terminar porque eu não era a garota para ele. Eu chorei provavelmente pelos três anos seguintes até conhecer o Jeremy, o capataz do meu tio Fred, o banguela, não o que ficou preso no elevador. Ele foi meu primeiro, se você me entende, então meu pai o obrigou a namorar comigo, mas ele fugiu a pé quando falaram em noivado... Bem no Dia dos namorados.

Franzi o cenho, me sentando com as pernas cruzadas, de frente para ela.

– Continue...?

– E então teve o Jake, e também o irmão do Jake, o Blake, que por acaso era gay e furou comigo na noite do Dia dos Namorados pra sair com um primo do interior que tinha vindo visitá-lo. Bem, não o culpo, na realidade tenho uma mente bem aberta em relação a isso, mas então teve o Darius, o ruivinho com as sardas lá naquele lugar discreto, ele se embebedou e acabou levando minha colega de quarto da faculdade pra minha cama e... Ah, e também teve o Alfie, o vesgo, tipo, ele terminou comigo porque disse que eu era muito estranha, mas como um cara vesgo com o nome “Alfie” pode chamar alguém de estranho? Por mim tudo bem, eu não gostava muito dele mesmo. E então teve o Gloss, o bonitinho que tentou sair com duas garotas ao mesmo tempo no jantar coletivo de Dia de São Valentim, mas ele terminou comigo quando coloquei laxante na comida dele, acho ele devia me agradecer, sempre teve uns probleminhas estomacais que não eram nada legais e poderiam facilmente acabar com um relacionamento com outra garota que não fosse compreensiva como eu fui. E também o Cato, Thresh, Marvel, Solace, William, Oliver e o Lallo, que eu descobrir ser “Lolla” durante os finais de semana – ela contou nos dedos. – Espera aí, tem mais faltando, mas o fato é que não importa o que eu faça, todo cara termina comigo bem no Dia dos Namorados e eu sou obrigada a passar o feriado sozinha com o meu gato, e tipo, eu tenho alergia a gatos, na verdade ele não é exatamente meu, foi o Cato quem o abandonou lá quando fugiu com minha vizinha alegando que ela usava a boca para outros fins ao invés de tagarelar como eu.

– Mas que idiotas – cuspi, repentinamente enojado dos nomes citados. – Como têm coragem de fazer isso?

Katniss sorriu.

– Parece que eu falo demais.

– Mesmo assim – sacudi a cabeça. – Isso não se faz com mulher alguma, principalmente uma bonita como você...

Me interrompi, xingando-me mentalmente. Droga, aquela garota havia ferrado com todo o meu dia e agora eu estava ali, a elogiando. Mas era impossível não querer proteger algo tão imaculado – um coração tão... Puro.

– Não precisa se preocupar, mamãe diz que meu coração é bom demais pra guardar rancor, e acho que é verdade já que nem passa pela minha cabeça desistir do amor. É algo tão lindo, eu já disse isso? Não é como se todos os caras fossem sapos. Às vezes eu fico esperando que numa data dessas alguém que me ame de verdade me peça em namoro com serenata, balões e tudo mais, afinal todo mundo merece ser amado, certo? Não que você saiba, mas não que você não saiba, afinal não sei muito sobre você. E você? Por que odeia o Dia dos Namorados?

– Esquece – sacudi a cabeça, sorrindo. – Já disse que não vou falar nada com você.

– Okay.

Katniss deu de ombros e encostou a cabeça contra a parede, olhando para cima, para as luzes vermelhas de emergência que brilhavam, ofuscadas. Me remexi em meu canto, desconfortável com o silêncio, já que em pouco tempo me acostumara com seu falatório incessante. Talvez eu possa me enforcar com minha gravata, quem sabe?

O gelo perdurou por minutos, talvez até horas, já que minha noção de tempo era mínima ali dentro, pior ainda com ela cantando partes aleatórias de várias músicas diferentes, geralmente trocando uma palavra por outra.

Por fim, já que estávamos mesmo naquela situação juntos, resolvi ceder.

– Tudo começou porque eu gostava de uma garota no colegial e era o maior nerd... – pigarreei ao engasgar no final da frase e pude perceber que ela havia se virado para mim, embora mantivesse meu olhar fixo em meus pés. – Com direito a espinhas, óculos fundo de garrafa e tudo. Eu era um perdedor, e eu sabia que perdedores não podiam se apaixonar por pessoas populares, mas desde a quarta série eu fui apaixonado pela mesma garota, uma líder de torcida. Ela tinha namorado, sequer sabia que eu existia, então, quando eles terminaram pouco antes do Dia dos Namorados, eu achei que... Achei que poderia ter uma chance de falar o que sentia.

– E falou? – perguntou curiosamente.

– Sim. E me ferrei. Eu me declarei pra ela no Dia dos Namorados e toda a escola soube. O namorado dela enfiou minha cabeça numa privada suja e me pendurou de cabeça para baixo nas cordas de escalada do ginásio só que... Sem as calças – senti meu rosto ferver, minha voz se tornando mais amarga. – Foi meu melhor amigo, Gale, quem me tirou de lá. Me recusei a sair de casa por uma semana... Até ele propor um pacto de sangue que jamais iríamos trocar nossa amizade por qualquer garota que fosse. Eu acreditei naquilo e segui fielmente, mas ele quebrou o pacto. É por isso que todos os anos, nessa mesma data, tudo que há de ruim para acontecer comigo, acontece. Quebrar o pacto me deu uma espécie de... Azar.

Ela fez uma careta e então mordeu os lábios, o que eu não pude deixar passar despercebido. Estava com tanta raiva pelos acontecimentos seguidos que nem percebera o quão ela era bonita; as pernas longas, torneadas, a boca carnuda e rosada, as bochechas altas, os cílios longos e os olhos prateados. Desci o olhar para seu busto e logo desviei, sentindo vergonha de mim mesmo por fazer uma coisa daquelas. Apesar de ela ser adulta, aquilo me parecia ser pedofilia ou algo do tipo.

– Está me dizendo que nunca se apaixonou? Isso é impossível.

– Não é. Aprendi que as mulheres são frias, cruéis e calculistas, interesseiras malditas que não dão a mínima para o que você sente. Elas brincaram comigo, hoje sou eu quem brinca com elas.

– Pessoas covardes destroem coisas bonitas – sussurrou Katniss, se afastando de mim até estar encostada na parede oposta.

– Ah, não, Deus! Eu não estava falando de você, eu... – fechei os olhos. Suspirei, olhando meu próprio reflexo desleixado na parede metálica. – Pessoas covardes destroem coisas bonitas – sussurrei. – Não quero que pense que sou como os caras que machucaram você. Olha, eu também não tenho sorte com o Dia de São Valentim. O cupido me odeia. Hoje eu quase perdi um dedo, fui grosseiro com meu chefe pelo telefone sem saber que era ele, a garota que partiu meu coração continua me perseguindo, fui atropelado, quase perdi o anel de noivado do meu amigo, fiz uma garotinha chorar e a mãe dela me deu um tapa, meu chefe acha que eu sou um inútil e eu vou perder um encontro porque fiquei preso no elevador – ri para mim mesmo.

– Você nunca pensou que talvez coisas ruins aconteçam com você porque você simplesmente faz coisas ruins para as outras pessoas?

– Ficar preso no elevador com você não foi assim tão mal.

Ela me olhou, analisando-me, provavelmente tentando decifrar algum gesto de ironia, mas eu estava sendo sincero. Mordeu o lábio, mas riu quando eu sorri.

– Não está chateado por eu ter te atropelado e quase arruinado sua vida? Quer dizer, é claro que estamos quites já que eu fui demitida depois de ter derrubado café por cima do colo do representante da Coréia, afinal ele disse que eu poderia escolher entre nunca mais aparecer na frente dele ou ser procurada pela polícia dos dois países por ato de terrorismo. Infelizmente eu tinha um compromisso, sabe, meu primo arranjou um cara para eu sair porque acha que eu sou muito dramática com essa de Dia de São Valentim, bom pra ele, afinal de contas ele tem a namorada perfeita e vai pedi-la em casamento, eu amo casamentos, é tão bom quanto ir a um aniversário infantil embora eu tenha um fraco por roubar docinhos. Bom, acho que não é tão ruim assim, aposto que esse cara é o maior patife e com certeza daria um jeito de estragar a minha noite.

Ficamos em silêncio por um tempo, o suficiente para ouvir, de longe, o som do relógio da catedral começando a bater meia-noite.

Comecei a me virar para me desculpar por ter estragado seu encontro, e então ela fez algo que eu jamais esperava que faria: me segurou pelo queixo e roçou o nariz levemente empinado no meu antes de seus lábios caírem sobre os meus. Mas ao invés de recuar, levei minhas mãos à sua cintura, puxando-a para cima das minhas pernas. Katniss tinha um gosto doce como ela própria, e era quente, quente e aconchegante como um raio de sol no início da manhã. Seus dedos tocaram minha bochecha e maxilar enquanto a outra mão prendia meus cabelos, sua língua calma massageando a minha me deixando num estado de êxtase que eu jamais sentira antes.

Ela suspirou quando nos afastamos, mordendo o lábio ao me encarar.

– Dizem que dá boa sorte – sussurrou levemente sem fôlego. – Beijar alguém durante a meia noite do Dia dos Namorados... De onde eu venho dizem que dá sorte.

– Mesmo se não for verdade isso foi... Maravincrível.

E como se tudo aquilo fosse ensaiado, nesse exato momento as luzes se reacenderam e o elevador começou a se mover com um tranco, os andares piscando na tela digital. Katniss sorriu para o teto e então se levantou com uma expressão divertida.

– Acho que a sua maldição acabou. É como o conto da Cinderela, a diferença é que seu carro não vai se transformar de volta numa abóbora e bem, você não está usando sapatinho de cris...

A calei com um beijo, imprensando-a contra a parede do elevador, um pouco mais voraz do que pretendia – mas ela não pareceu desgostar. Pelo contrário, senti seu corpo vibrar em calor quando mordisquei seu lábio inferior levemente, sussurrando um “shh” contra sua boca.

– Você fala demais – murmurei, levando um dedo aos seus lábios. A porta do elevador se abriu e eu não contive um suspiro ao olhar para fora. – Bem. Acho que acabamos por aqui.

– Não vamos voltar a nos ver, não é? Sei dessas coisas. Mamãe sempre disse que eu fui muito intuitiva e... Ops. Desculpe. Força do hábito.

Ri pelo nariz, embora quisesse dizer que também queria vê-la de novo, mas me parecia loucura dizer aquilo para alguém que havia acabado de conhecer. Você não reclamou quando ela te beijou.

– Tome. Pegue isto. Pra ter sorte no seu Dia dos Namorados – a entreguei os balões e o ursinho de pelúcia que Haymitch me dera; era melhor do que queimá-los dentro do microondas como eu havia pretendido fazer.

– Obrigada, Peeta. – a garota ficou na ponta dos pés para beijar minha bochecha. – Boa sorte pra você também, Sr.Anti-cupido.

As portas do elevador se fecharam às suas costas. E eu que achava que o cupido não podia ser mais cruel, pensei, batendo com força a cabeça contra a parede metálica. Oito anos de desprezo destruídos por uma maluca tagarela num elevador.

– Você venceu – resmunguei para ninguém em particular. – Maldito, você venceu, seu cupido idiota!

Talvez, no fim das contas, cada um tenha o cupido que merece.

~*~

Minha consciência das pessoas à minha volta era mínima apesar do som alto e as risadas apaixonadas dos casais sentados às mesas do clube que Gale alugara para comemorar o pedido de casamento que Madge aceitara, afinal, minha mente vagava bem longe dali. A noite inteira eu ficara parado ao lado da mesa de bebidas, embora não tivesse tocado numa gota de álcool; o que parecia whiskey no meu copo era, na verdade, refrigerante de guaraná.

– E a tal prima? – indaguei sem muito interesse, tomando um gole da bebida diet.

– Ela está bem aqui... – Gale olhou para trás, confuso. – Oh, droga, ela estava bem aqui a um segundo atrás. Deus, eu não posso nem piscar e ela some da minha vista.

– Tudo bem, eu não estava muito a fim mesmo.

– Sem essa, pode ficar quietinho aí que eu já venho com ela. Não saia daí.

Como se eu pudesse, pensei. Resolvi radicalizar, misturando o refrigerante com um pouco do ponche, tomando minha primeira dose alcoólica naquela noite. Eu ainda não podia parar de pensar do que acontecera no elevador, embora conseguisse processar apenas alguns flashes fragmentados, com exceção aos beijos. Ela poderia muito bem ter saído de um conto de fadas, pensei com um sorriso. Katniss era tão diferente das outras mulheres que eu havia conhecido que quase me convencera que amor real ainda existia.

Senti algo se esfregando contra minha perna e franzi o cenho ao, olhando para baixo, dar de cara com a monstruosidade preta arrastando o rosto contra minha calça.

– Até aqui você persegue, gato maldito? Como foi chegar aqui? Sai, você já ferrou meu dia o suficiente, coisa horrorosa – sacudi a perna para afastá-lo.

Buttercup! Buttercup!– um grito familiar cortou a aglomeração, tornando-se cada vez mais próximo. Pude ver um lampejo escuro se virar em minha direção. – Buttercup, cadê você? Não tem graça, não é hora pra ficar brincando de esconde-esconde. Butter... Buttercup, aí está você, seu gato feio e malvado – disse a dona dos cabelos escuros claramente aliviada, erguendo a máscara preta de gato e agachando-se para segurar o animal em minhas pernas. – Escute aqui, o.k.? É a última vez que você faz isso, estou te deixando permanentemente de castigo até que aprenda bons modos. Sem atum, sem poder dormir na minha cama, sem tv até mais tarde e nem arranhar o carpete caro da sala.

Ela se levantou com o gato no colo, sorrindo.

– Você é um garoto mau, não é? Desculpe por isso, ele é rebelde... – então olhou para mim como se notasse pela primeira vez que eu estava ali. Ela franziu o cenho levemente confusa. – Espera, eu conheço você?

Balbuciei alguma frase indecifrável, sem conseguir me mover. O rosto de Katniss se iluminou momentaneamente.

– Ah, eu conheço você! Você o cara que eu atropelei hoje de manhã! – ela soltou um gritinho extasiado, então largou o gato como se nem o notasse ali e jogou os braços em torno do meu pescoço num abraço. Cambaleei para trás com o impacto. – E eu achei que não ia voltar a vê-lo, o destino não é irônico? Quer dizer, encontrar a mesma pessoa uma ou duas vezes numa cidade pequena é um acontecimento comum, mas encontrar a mesma pessoa três vezes numa cidade grande como Nova York é tipo, mágico, trilegal. Você não acha? Bom, não sei se está feliz em me ver, afinal você está me olhando como se eu estivesse te oferecendo drogas, mas tem que concordar que é muita coincidência... Quero dizer, admito que pedi pra São Valentim que pudesse te encontrar de novo, mas uau, ele é rápido, hein? É claro que meu gato ajudou também apesar das pessoas terem um preconceito idiota para com gatos pretos como se fossem uma peste ou algo parecido, mas pelo contrário, Buttercup sempre me deu muita sorte... Quer dizer, parece que você também.

Ela sorriu, os olhos brilhando ao dizer aquilo.

– Também estou feliz em te ver – confessei, engasgando por ter admitido aquilo. – Mas então... O que está fazendo aqui?

– Eu disse pra você que tinha um encontro, não disse? Tenho certeza que disse, ou quase, não tenho uma memória lá muito boa. Parece que o cara me deu o bolo, mas tudo bem, tenho meu gato pra me acompanhar em mais uma noite de Dia dos Namorados.

– Ah, aí está você – Gale se materializou atrás dela, parecendo irritado. – Que diabos, Katniss, você não consegue ficar quieta?

– Não é culpa minha, você sabe que eu me entedio com facilidade.

Ele resmungou um xingamento.

– Bom, já que vocês dois estão aqui mesmo, Peeta, essa é minha prima Katniss Everdeen, a garota de quem eu falei hoje mais cedo. Katniss, esse é o Peeta, o cara a quem eu disse que te apresentaria.

As peças começaram a se encaixar lentamente em meu cérebro até, finalmente, a ficha. Duas pessoas, dois encontros, duas coincidências. Bati em minha própria testa, me sentindo extremamente estúpido. Como não fui perceber isso antes?

– Então meu encontro é com você? – perguntei, pasmo.

– Coincidências acontecem – ela sorriu. – Seu cupido deve ser um cara legal.

– Vocês já... – Gale começou, mas parou tão rápido quanto iniciou, jogando as mãos para o alto num gesto exasperado. – Esquece, me recuso a perguntar qualquer coisa. Foi por isso que marquei um encontro; vai entender vocês dois.

E saiu deixando um rastro de pragas. Me virei para Katniss, sem conseguir conter o sorriso bobo em minha face.

– Peeta, eu sei que é um pouco cedo pra pedir algo desse tipo já que nos conhecemos há pouco tempo e tudo mais, mas... – hesitou.

Senti meu coração bater forte.

– Sim?

– Será que eu podia ficar com seu copo? Eu tenho alergia a glúten e é o último refrigerante diet que sobrou.

– Ah, claro – estendi o copo para ela, tentando não me sentir ainda mais idiota, e a morena sorriu em agradecimento. – E então... Hã... – pigarreei. – Você trouxe seu gato pra um encontro?

– Ele não gosta de ficar sozinho em casa – Katniss deu de ombros. – Quer dizer, ele fica entediado com facilidade e geralmente fica saindo para atormentar os outros vizinhos, e tipo, quando eu não gosto de trancá-lo, animais devem ser livres, até porque ele começa a miar sem parar e o síndico já disse que se eu não der um jeito de fazê-lo calar a boca ele me coloca na rua. É um gato muito sensível, entende? Ele é tão idiota quanto o dono, pra falar a verdade, o Cato, já te falei sobre ele, não foi? Claro que sim, eu praticamente te dei uma lista dos meus ex-namorados, eu sei que falo demais, mas não posso evitar, é de família, minha boca grande sempre assustou todo mundo. Isso não te assusta? Quer dizer, deve ser chato alguém tagarelando no seu ouvido até ele sangrar e eu entendo se você não quiser sair comigo até porque nem eu mesma iria querer sair comigo e...

– Sim, você fala demais – coloquei um dedo entre seus lábios, interrompendo-a. – E sim, eu adoraria sair com você.

Katniss me encarou, incrédula.

– Sério? E aquela história toda de “odeio o Dia dos Namorados”?

– Nem me pergunte. Não sou o mesmo desde que você me atropelou. Desde... Desde que fui atingido por uma das flechas do cupido.

Ela sorriu, e eu não pude me conter ao vê-la morder o lábio inferior. Antes que ela começasse a falar sem parar, a puxei para um beijo sem pressa, pedindo passagem em sua boca que agora tinha gosto de refrigerante de guaraná, nossas línguas dançando em sincronia. Quem diria que meus batimentos cardíacos estavam extremamente acelerados por alguém como ela.

Talvez eu fosse um sortudo, afinal.

– Peeta... – Katniss sussurrou, cortando o beijo.

– Sim? – sussurrei, abrindo os olhos para olhar nos seus. Ela abriu a boca, parecendo prestes a dizer algo realmente sério. A encarei em expectativa, mas Katniss apenas franziu o cenho e sacudiu a cabeça numa expressão confusa.

– Droga... Esqueci o que ia falar.

Meu cupido tem um gosto bem peculiar, pensei, e só pude gargalhar em resposta.



Notas finais
N/A: So, eu particularmente adorei escrever essa história e espero do fundo do meu heart que vocês também gostem. Até a próxima, folks, e que cada um encontre um Peeta ou uma Katniss por essas esquinas da vida. Ou façam como eu e amem odiar o Dia dos Namorados m/ Mellarkisses da Mell ♥

Nota da Lali: Well guys, espero que vocês estejam lendo, estejam comentando e PRINCIPALMENTE, em todas as ones, certo? Vamos ser bonzinhos com os autores!
Anyway, quero agradecer a Devoradora de livros pela PRIMEIRA recomendação nessa história de louco hahaha
Porque só autor louco entrou nessa confusão, ENFIM, eu amo divagar loucamente, só queria dizer isso.
Além do mais, estou de olho em vocês meu gerenciador diz tudo hein! Vamos comentar e deixar os autores felizes!
Lali ama vocês ♥