Cupido
3 Encontro
Não sei como, mas Anthony conseguiu me fazer abrir o bico e contei exatamente tudo a ele.
Cupido estava deitado no meu colo, sentei no banco depois de me acalmar e Anthony havia ficado em pé, encostado na parede.
Seu foco havia me impressionado, os seus olhos pretos fixos em mim sem sinal de julgamento.
— Você era só uma adolescente, mas acabou se auto sabotando — começa a dizer com braços cruzados — Adoraria te zoar agora, mas o momento é sério — Ele não segurava o riso, que safado! Rindo da minha miséria, me arrependi de tê-lo elogiado — Mas mesmo sendo tarde, fico feliz que tenha tomado uma atitude… Quanto que deve a ele?
Hesitei, depois de tudo isso ele iria me chamar de burra e com razão.
— Não vem ao caso — Viro o rosto na tentativa de esconder, mas o infeliz segura meu queixo e me obriga a olhar em seus olhos.
— Vai ter um monte de coisa para resolver, mas se ficar se lamentando vai cair na fossa.
— 1 milhão e paguei nem metade disso.
— Uau. — Foi só o que respondeu — É ele conseguiu te prender como um patinho, mas se lembra do que assinou ?
— Apenas que ele me deu um prazo de dez anos, ou a casa dos meus avós seria pega no lugar — Passo as mãos pelos cabelos — Eu nunca falei nada a eles… E depois que consegui morar sozinha, priorizei em dar a maior parte dos meus ganhos a ele.
Anthony se encosta na parede e pensa novamente:
— Bom você teria de descobrir o que ele a fez assinar, caso consiga encurrala-lo. — Ele se aproxima da porta — Pode ter certeza de que Vinícius se livrou daquele relógio, ou o estaria usando agora. Não dá para contar como uma prova, então precisa saber o que ele impôs sobre você.
Meus olhos já estavam cansados e sabia que poderia me arrepender depois de pensar:
A única forma de fazê-lo falar, era dando exatamente o que ele queria.
Sair comigo. A única pessoa que ele não “pegou”
— Não se preocupe, eu me viro — Coloco Cupido no chão, ele mia em protesto e me levanto. — Agradeço pela ajuda Sr. Dun, e não precisa se envolver ainda mais — Falo séria e me aproximo da porta.
— Senhor? Olha que formal — Anthony me lança nca seu sorriso encantador.
Reviro os olhos e tento forçar uma passagem pela porta, acreditei que com isso ele cederia e sairia do caminho.
Mas ele não o fez, e como se me desafiasse ele não saiu da frente.
Então sem hesitar apoiei a mão em seu peito e o empurrei lentamente até que enconstasse o máximo que desse nela.
Mesmo com o espaço pequeno eu ainda passei em seu meio, e nossos corpos se encostaram, como se fossemos nos abraçar novamente.
Ouvi as batidas do seu coração se acelerar e eu queria rir se não estivesse da mesma maneira.
Ele estava quente em minha palma.
Retiro minha mão de seu peito e agora em zona segura vou me distanciando dele, sem olhar para trás.
Elias me deixou ir para casa, disse que eu precisava descansar a cabeça e isso não seria descontado do meu salário.
A única vantagem de trabalhar num local durante anos é pelo menos seu chefe saber que você não surtaria do nada.
Estava de pijama, sentada no seu sofá com um pote grande de sorvete em mãos.
Já não me lembrava mais do que se passava na televisão, minha mente não parava de ir até o momento do tapa em Vinícius e Anthony me amparando.
Seu queixo apoiado em minha cabeça, a forma como me abraçou…
Me dei um tapa na testa, mas que droga estaria pensando?
Eu odeio Anthony Dun!
Abandonei o pote na geladeira e troquei de roupa, iria analisar o documento do trabalho, se o Senhor Brown ainda me aceitasse, lhe mostraria estar a par do serviço.
Minha esperança se mantinha nos clientes que fiz, aí menos teria meu sustento.
Suspiro: o prédio a ser construído era encantador e belo, faria o melhor trabalho possível, sem erros e quem sabe o próprio senhor Brown me contratasse.
Não havia visto as horas passarem e já era noite.
Tomei um banho e estava preparando o jantar quando meu celular tocou.
Hesitei aí ver o nome na tela, mas por fim atendi:
— Alô?
— Lily, querida como vai? — Meus olhos se reviram com a falsidade.
— Estranho me ligar depois que te dei um tapa, Vinícius… Diga o que precisa.
— A minha e a sua estão na reta se não conversarmos Elias de que foi um mal entendido a nossa briga — Ele responde por fim — E não estou nem um pouco interessado em entregar meu posto.
— Só diga a verdade: você usa bijuteria falsa e atrai pessoas inocentes a sua teia, principalmente adolescentes.
— Teria de provar, querida, coisa que você não tem.
— Então não há necessidade de eu continuar te pagando — Aviso e ouço sua respiração vacilar, o que esse imprestável mais ama é o dinheiro — Afinal a sua “preciosa” herança, já não existe.
— Ah minha querida, existem outros meios…
— Quando ele disse isso ativei o gravador de voz em meu celular, iria começar a juntar provas contra esse bastardo. — No nosso contrato deveria ter lido as pequenas linhas, ou melhor nas entrelinhas — Ele ri sozinho — Você assinou um termo de acordo comigo, é minha cúmplice. Se eu me ferrar você vai junto.
— Não acha justo que só vc tenha essa prova? Como posso me lembrar das regras se você não me deixa ve-las? Eu nem me lembro o que está escrito lá.
— Medidas de segurança para mim.
— Mas não te livrou do meu tapa.
— Só vamos logo combinar uma história e contar a Elias.
— Quero primeiro reler o nosso contrato.
— Mas que mulherzinha…
— Vamos a um restaurante aqui perto, eu só quero ler, nada de fotos ou pegar para mim — Insisto e isso parece que o fez ponderar — Só aí, irei te ajudar.
— Se queria tanto me ver, era só dizer querida…
— Você tem meia hora para comparecer no endereço que vou te encaminhar — Dito isto desligo o telefone e vou me arrumar.
Não iria me produzir para um imbecil, mas também não seria desleixada.
Vesti calça jeans preta, camiseta social e um sapato confortável.
Por precaução, peguei uma pequena câmera que comprei na adolescência, nunca pensei que usaria, mas era em formato de um colar com um pingente de coração.
Me sentia uma verdadeira agente do FBI e na época me divertia ao gravar “filme” de agente secreto.
Os cabelos deixei como estavam, ondulados e uns fios rebeldes, passei um batom e pegando minhas chaves do carro e bolsa me encaminho a saída.
Assim que entrei no lugar, deixei o gravador no celular ligado e o coloquei dentro da bolsa.
Sentei em uma mesa e o garçom me entregou o cardápio.
Escolhi um lanche e quando ele se retirou, logo avistei Vinícius: os cabelos era possível ver um fio branco, penteados para trás e gel que os mantinham na linha.
Seus olhos castanhos observavam o ambiente em busca da sua presa, ajeitando a roupa social, ele parecia um CEO, a roupa marcava um pouco do músculo e ele chamou a atenção que desejava.
Se não fosse tão arrogante, eu o elogiaria.
Quando seu olhar me alcançou, ele hesita um pouco em me analisar e sorri para ele com deboche.
— Poderia ao menos estar bonita não? — Ele fala quando se senta na cadeira.
— Eu disse que não seria um encontro — Aviso ácida — E até parece que iria me arrumar para você… Vamos ao que importa, o papel — Estendi minha mão, mas ele cruzou seus braços.
— Antes disso — Ele levanta seu celular e o deposita no centro da mesa — Nada de brincadeiras, então vamos deixar os celulares aqui — Ele pressiona o botão e o aparelho desliga —Desligados.
— Pensou em tudo não? — Faço que procuro na bolsa meu celular e tiro do aplicativo de gravar rapidamente, o colocou na mesa e na frente dele desligo meu celular — Satisfeito?
— Sim — Afirma cheio de si.
Mal sabe ele…
Ele tira debaixo de seu paletó um documento, guardado numa pasta marrom e entrega para mim.
Pego o documento, e o abro com cautela: pulo apenas as informações iniciais, indicando ser um papel de contrato e os envolvidos, eu e Vinícius.
Não vi nada mencionando sobre o relógio.
Meus olhos se abriram em choque.
— Você me colocou no seu esquema de roubo? — falo para que apenas ele ouça, mas já está a indignada — Aqui diz que eu te ajudo ao desvio de matérias pirata! — Meu tom aumenta, mas ele logo me pede silêncio — “Caso uma das partes desista, e vá na delegacia o outro envolvido irá preso junto” — Repito umas das linhas — Não tinha medo que eu fosse antes na delegacia? Você também seria preso.
— Era fácil te manter na linha — Responde.
— Eu, não faço parte do seu jogo sujo! — Queria euito soca-lo novamente — E aqui diz uma quantia que precisa ser paga para “entrar na gangue” — Aponto ao valor dos milhões — Nada daqui menciona o maldito relógio.
— Por que ele faz parte — Dando de ombros ele se inclina confortável na cadeira — Entende agora? Está presa a mim até que pague tudo ou nós vamos presos, e sabemos muito bem quem vai ser primeiro, coloquei seus bens em garantia e você assinou concordando.
— Maldita hora em que assinei isso sem ler, você estava me botando medo e eu só tinha dezesseis!
— Crianças são mais fáceis de manipular—
Meus dedos ardiam, eu queria dar um soco nele.
— Seria mais fácil se eu caísse na sua não? — Aponto — Por isso o seu “interesse”, seria a boba apaixonada.
— Aprende rápido.
Sua cara de desdém foi substituída por serena quando o garçom se aproxima com meu pedido, e ele faz o dele.
Eu comia meu lanche em silêncio, já imaginando quando entregaria a polícia o vídeo.
— O que vai dizer a Elias? — Pergunta ele quando seu pedido chega — Precisamos entrar em acordo, ele é bem esperto.
— Que você é um galinha e eu estava frustrada, nisso ele acredita com certeza. — Respondo depois de maerigar — Não desejo mentir a ele, afinal foi quem me deu o emprego, mas por enquanto eu aceito isso.
— Então aceita ser uma das minhas princesas?
— Não abusa, não deixarei usar mais de uma vez minha imagem.
Depois que cada um paga sua conta, nos despedimos e sem mais nada sigo para meu carro.
Passo os dedos pelo colar, o vídeo é salvo automaticamente em meu computador e em nuvem, caso eu precise.
Suspiro fundo, não saberia se mostraria a Anthony e logo balancei a cabeça:
— Isso é problema meu — Digo isso e dou partida em meu carro.
~*~
No dia seguinte estávamos na mesa do chefe: eu, Vinícius e o próprio Elias.
— Bem, as boas notícias é que o Senhor Brown ainda a deseja em seu trabalho Lily — Começa Elias — Ele disse que admira mulheres fortes e nunca riu tanto quando presenciou aquele tapa — Inconsciente Vinícius analisa o rosto, como se ainda ardesse.
— Me perdoe chefe — Falo e baixo a cabeça — por causar problemas e obrigada por mais uma oportunidade.
— E o que ocasionou isso?
Antes que eu dissesse, Vinícius se intromete:
— Sabe como é chefe, algumas mulheres não sabem lidar com o fora.
Forço um sorriso a Elias, mesmo que eu já quisesse entregar as provas, precisaria esperar até a polícia.
Vinícius sairia daqui preso e aí sim eu sorriria de verdade.
— Ele estava saindo comigo e mais duas senhor — Falei com um tom dramático — Me senti enganada!
Elias engata Vinícius e acredita na história, afinal todo mundo sabia que ele era um verdadeiro galinha.
— Então imponho uma regra a você Vinícius: se eu ouvir reclamação de outras funcionárias você vai para o olho da rua, é um ótimo funcionário… Mas com um temperamento horrível — Elias passa a mão pelos olhos — Você está proibido de se relacionar com qualquer funcionária daqui, entendeu?
— Sim, senhor — Responde ele a contra gosto.
— Assunto encerrado então, o Senhor Brown virá hoje à tarde, e está livre para continuar com o projeto Lily.
— Muito obrigada senhor, irei agora mesmo — Me despeço e saio feliz.
Pelo menos por enquanto, ele está sob o olhar de Elias.
Mas sinto o coração apertar, Vinícius não passa de um ladrão num esquema que não se sabe quantas pessoas estão envolvidas, sem contar as pessoas que enganou como eu.
Uso o banheiro e aproveito o espelho grande para ver o corpo inteiro.
Meu salto alto azul claro, deixavam um ar delicado, calça social branca e uma camiseta de manga curta.
Meus cabelos estavam lisos e alinhados, maquiagem leve e delineador para chamar mais atenção aos meus olhos coloridos.
Verifico se está tudo certo, e saio do banheiro.
Estava pronta para me desculpar com o Brown ou melhor Peter, como ele havia falado. Só espero que ainda me permita o chamar assim.
Respiro fundo enquanto sigo para o elevador, mas me deparo com uma placa na porta com aviso de “em manutenção”.
Teria de subir dois andares de escadas e com saltos isso iria doer bastante.
Tiro então o salto e subo descalça, Peter já estaria na sala de reunião e quanto mais me aproximava do andar, mais o meu coração queria sair do peito.
Abro a porta e Cupido já estava lá me esperando, ele se espreguiça e mia para mim.
— Olá querido — Falo e me agacho para lhe fazer carinho.
Coloco o salto novamente e caminho com Cupido ao meu lado.
— Me deseje sorte — Falo com ele e entro na sala.
Peter estava sentado numa mesa ao canto da sala, os cabelos alinhados e o terno caro o davam mais ar sério.
Ele estava olhando pela janela e só me viu quando me aproximei o suficiente:
— Com licença, senhor Brown. — Falei com cautela — O senhor me chamou?
— Não precisa se preocupar Lily, eu a quero em meu projeto. Não olho para o pessoal e sim o profissional — Avisa e toma um gole de alguma coisa em sua xícara. — Seus trabalhos são muito bons, e eu não seria louco em não permitir que faça meu projeto.
— Agradeço pela oportunidade senhor — Falei — E já iniciei o trabalho.
— Maravilhoso — sorri — Manteremos contato e Anthony vai ficar como meu intermediário.
Eu queria torcer o nariz, mas aceitei.
— Reportarei a ele então, agradeço novamente Senhor Brown pela oportunidade.
— Ainda pode me chamar de Peter.
— Ok, Peter — Sorrimos novamente.
Como ele ainda iria se encontrar com Elias eu apenas me despeço e me retiro da sala.
Novamente Cupido me esperava na porta.
Isso estava ficando estranho, geralmente ele ficava vagando pela empresa.
— Espero que não esteja aprontando nada carinha — Aperto os olhos ao falar e ele apenas mia na inocência.
Ele cheirou meu salto e deu uma leve batida com sua pata na minha perna esquerda e miou de novo.
— O que foi? Quer colo? — Digo e cruzo os braços — Saiba que seu charme não vai me afetar agora porque preciso voltar ao trabalho — Sorrio a ele e começo a descer as escadas com ele na minha cola miando mais alto. — Cupido, o que você quer…
Antes que pudesse terminar a frase, meu salto quebrou ao pisar no degrau e meu corpo foi com tudo à frente.
Um grito estava preso em minha garganta, e não consegui me firmar, o chão me daria as boas vindas com tudo.
Fecho os olhos com medo do que viria, mas ao invés da dor eu fui recebida por braços fortes.
Um cheiro amadeirado preenche meu nariz e me sinto inebriada.
— Para quem é vaidosa, precisa cuidar dos saltos princesa — A voz debochada de Anthony acusa próxima da minha cabeça.
Iria brigar com ele, quando levanto a cabeça com tudo.
Eu só não esperava que ele estivesse tão perto.
Meus lábios tocaram os dele e nossos olhos se arregalaram.
Eram macios e sedosos, mas o contato só durou um segundo, pois nos afastamos e Anthony me ajuda a ficar em pé novamente.
— Tome cuidado com saltos — Diz depois de coçar a garganta e fico sem resposta.
Ele passa rapidamente por mim e Cupido para ao meu lado.
Tipo o outro salto e me sentei no degrau.
Não sabia o por que, mas meu coração agora saltava com batidas fortes.
Nunca pensei que ficaria sem reação com Anthony e isso me apavorava, afinal não gosto dele.
Subo os dedos aos lábios e não consigo evitar um sorriso bobo.
O que está acontecendo comigo?
Fale com o autor