Cupcake
4 Um sonho se realizando

Jimin corria de um lado para o outro, em completo desespero. Eram três da manhã e, mesmo exausto, seu corpo se movia no automático. Ainda havia detalhes para ajustar antes da tão esperada inauguração da confeitaria. Fitas por amarrar, docinhos para finalizar, etiquetas para colar e nenhum sinal de que ele fosse dormir tão cedo.
Foram seis longos meses de muito trabalho e força de vontade. Seis meses desde o dia em que colocaram os pés naquela loja decadente, onde o mofo reinava e o chão rangia sob os sapatos. Mas agora, olhando ao redor, era difícil acreditar que se tratava do mesmo lugar.
A antiga confeitaria dos Park’s havia renascido. Com o investimento da herança deixada pelo avô de Yoongi — não uma fortuna, mas o suficiente —, conseguiram bancar a reforma, comprar os equipamentos necessários e transformar o espaço em algo mágico.
A loja agora parecia saída de um conto de fadas. Era o tipo de lugar que deixava o coração leve só de entrar.
Jimin parou por um instante no centro da loja, respirou fundo e deixou os olhos percorrerem cada detalhe. Sentiu um nó na garganta, mas dessa vez era de emoção. O sonho estava ali, diante dele. Real. Concreto. E em algumas horas, as portas da Magic Shop se abririam para o mundo.
Logo na entrada da confeitaria, os visitantes eram recebidos por um encantador jardim florido, cuidadosamente montado por Taehyung, que insistiu em cuidar de cada detalhe pessoalmente. Margaridas e rosas em tons vibrantes enchiam o caminho com vida e cor, exalando um perfume suave que parecia convidar os clientes a desacelerar e respirar fundo antes de entrar.
A fachada da loja era pintada num tom rosé puxado para o pêssego, transmitindo delicadeza e aconchego. Pequenas flores brancas, pintadas à mão nas paredes, complementavam o visual com um charme sutil. Acima da porta, um toldo listrado de branco e rosa claro emoldurava a entrada como um laço de presente, protegendo os visitantes da chuva e do sol.
O nome da loja, Magic Shop, estava elegantemente escrito em um letreiro dourado de traços delicados, que refletia a luz do dia como se brilhasse por conta própria. A escolha do nome foi um capítulo à parte, houve longas discussões, algumas risadas, e até um leve drama até que os três chegassem a um consenso.
Para Jimin, aquele nome carregava um significado profundo: a loja deveria ser um refúgio, um lugar mágico para aqueles que estivessem tristes, sobrecarregados ou desanimados. Os doces e bolos, preparados com tanto carinho, seriam como pequenas poções de esperança, capazes de aquecer os corações e reacender os sorrisos.
Ele dizia isso com tanta doçura, quase sonhando acordado, enquanto explicava sua visão encantada para Yoongi e Taehyung. Era um momento bonito, cheio de emoção e idealismo... até que Yoongi, sem cerimônia, quebrou a poesia:
— Jimin, são só bolos. Isso aí é açúcar puro. Açúcar é quase cocaína, por isso as pessoas ficam felizes.
— Você estraga tudo, Yoongi, — Jimin respondeu, revirando os olhos, enquanto Taehyung caía na risada.
E assim era a Magic Shop: um equilíbrio perfeito entre a doçura dos sonhos, a delicadeza da amizade e a sinceridade ácida de Yoongi.
A Magic Shop estava quase pronta para abrir suas portas, e cada canto da confeitaria parecia ter saído direto de um sonho cuidadosamente planejado pelos três.
Na parte da frente, logo na entrada, um enorme balcão de vidro se estendia, exibindo os bolos e doces mais lindos que Jimin e Taehyung já haviam criado. Pão de ló, recheios cremosos, coberturas delicadas, e confeitos tão perfeitos que pareciam obras de arte. Era impossível olhar e não desejar provar ao menos um.
Atrás do balcão principal, ficava o caixa, onde Yoongi, já concentrado, organizava tudo com sua precisão metódica: ligava o computador, testava as maquininhas de cartão e checava o sistema de pedidos. Tudo em ordem, como ele gostava.
Em frente ao balcão, estavam dispostas mesinhas brancas e redondas, cada uma com uma toalha cor pêssego, combinando perfeitamente com os tons suaves das paredes. Pequenos arranjos de flores naturais completavam a decoração. Jimin fazia questão de trocá-las regularmente, acreditando que as flores vivas traziam boas energias e um charme único ao espaço.
A segunda parte da loja era ainda mais especial: um cômodo amplo, com janelas enormes de vidro que ofereciam uma vista privilegiada da rua. Mas, se alguém quisesse mais privacidade ou conforto, bastava fechar as cortinas rosa bebê que deslizavam suavemente pelas laterais, criando um ambiente acolhedor e calmo.
Ali, poltronas brancas macias se espalhavam com charme, acompanhadas de sofás em tons pastéis encostados nas paredes. Havia também mesas quadradas, equipadas com tomadas para carregar celulares e notebooks. Era um espaço pensado para que os clientes pudessem estudar, ler ou simplesmente relaxar com um chá ou café ao lado de um bom pedaço de bolo.
Um dos detalhes mais queridos por Jimin e Taehyung eram as prateleiras repletas de livros e mangás, com títulos variados para agradar todos os gostos — de yaois e shoujos românticos e doces a shounens empolgantes. Como o público-alvo da loja eram jovens e, especialmente, otakus, Taehyung chegou a sugerir, com entusiasmo, que Yoongi aparecesse na inauguração vestido de Naruto. Yoongi lançou-lhe um olhar mortal, daqueles que gelam até a alma.
Tudo estava indo bem. A loja estava perfeita, cada detalhe no lugar. Mas Jimin, mesmo diante de tudo aquilo, sentia-se uma pilha de nervos.
Ele andava de um lado para o outro, mordia os lábios, conferia os bolos pela milésima vez. Tinha medo de que algo desse errado, que ninguém aparecesse, que os doces estivessem ruins. Medos irracionais, mas comuns a quem sonha alto e coloca o coração inteiro em algo.
— Respira, Chim… vai dar tudo certo, — disse Taehyung, passando um braço pelos ombros dele.
— Cadê o Yoongi? — Jimin perguntou, equilibrando uma caixa pesada nos braços enquanto olhava em volta.
— Ele tá cansadinho, — respondeu Taehyung com a maior naturalidade do mundo, enquanto terminava de preparar algumas massas para deixá-las descansando. — Tadinho. Deixei ele dormir no carro. Meu bebê não aguenta.
Jimin arregalou os olhos e bufou.
— Vai tomar no cu, Taehyung! Você mima demais o Yoongi. Ele é um homem adulto e saudável, ok?
— Para! — Taehyung fez beicinho, limpando as mãos no avental. — Ele é meu bebê lindinho.
— Ah, vai à merda... — Jimin rebateu, já irritado — e traz seu bebê pra ajudar a organizar isso aqui, caralho.
Taehyung suspirou como quem leva bronca da mãe e, cabisbaixo, foi buscar Yoongi. Gostava de vê-lo dormindo tranquilo, ainda mais depois da correria da noite, mas sabia que quando Jimin estava sob estresse… ele era perigoso. Pequeno, mas violento.
Já eram quase cinco da manhã quando tudo finalmente ficou pronto. Os detalhes estavam perfeitos, as vitrines organizadas, os docinhos alinhados como soldados, e o cheirinho de bolo recém-assado invadia o lugar.
Jimin, apesar do cansaço, se concentrava com precisão em cada movimento enquanto confeitava os últimos bolos. Suas mãos dançavam sobre o chantilly, formando delicadas rosas no topo do bolo como se pintasse uma obra de arte.
Taehyung, por sua vez, já havia desistido de fazer qualquer outra coisa. Yoongi, agora acordado mas completamente preguiçoso, estava agarrado em seu colo feito um gato manhoso.
— Você é ridículo, — Jimin comentou sem olhar, percebendo que os dois não faziam mais nada.
— Sou só uma almofada humana agora, — respondeu Taehyung, rindo baixinho enquanto fazia carinho no cabelo de Yoongi, que já estava cochilando de novo.
Jimin balançou a cabeça, mas não pôde evitar um sorriso. Apesar da tensão, do sono, e do caos, aquela era sua equipe. Sua família.
E em poucas horas, a Magic Shop finalmente abriria as portas.
— Pronto, terminamos tudo! — Jimin suspirou, passando a mão na testa suada, o corpo exausto, mas o coração cheio de expectativa.
— Preciso levar meu bebê pra casa, — disse Taehyung, olhando para Yoongi com um sorrisinho bobo enquanto o marido dormia esparramado em seu colo.
Jimin revirou os olhos.
— Ai deuses... leva logo esse bebê pra dormir e dá leite pra ele mamar… — comentou, inocentemente.
Taehyung deu uma risadinha maliciosa e fez uma careta safada.
— Seu idiota! Para de pensar besteira! — Jimin reclamou, dando um soquinho no braço dele. — Olha, estejam aqui às oito e meia. A inauguração é às nove em ponto. Não quero atrasos, ouviram?
— Sim, sim, senhor. — Taehyung ergueu as mãos em rendição, ainda sorrindo. — Não vamos atrasar. Na verdade, acho que nem vou dormir. Tô ansioso demais pra isso. Só vou tomar um banho com meu gatinho e depois voltamos pra cá. Se não rolar nada além do banho, a gente chega até mais cedo.
— Taehyung! — Jimin o olhou como se fosse lançar uma assadeira em sua direção.
— Brincadeira, brincadeira! Calma, Chim! Não vamos nos atrasar, prometo.
— Assim espero! — Jimin bufou, mas não conseguiu esconder o sorrisinho no canto da boca.
Taehyung se levantou com cuidado, equilibrando Yoongi ainda adormecido em seus braços. Deu um último aceno para Jimin, com um sorriso sonolento, e saiu da loja. Do lado de fora, o ar da madrugada estava fresco, e as primeiras luzes do amanhecer começavam a pintar o céu com tons suaves de azul e rosa.
Com alguma dificuldade, Taehyung abriu a porta do carro e ajeitou o marido no banco do passageiro, colocando o cinto de segurança com delicadeza. Observou o rostinho tranquilo de Yoongi por um instante, deu um beijinho leve em sua testa e então deu a volta no carro, entrando para dar a partida. Ainda tinha algumas poucas horas para tomar um banho, respirar e se arrumar. Não havia dormido nada, mas o dia que estava por vir prometia valer cada segundo de cansaço.
Dentro da Magic Shop, Jimin ficou sozinho por alguns instantes, envolvido pelo silêncio e pela luz suave. Olhou ao redor, observando cada detalhe da loja pronta, cheirosa, linda. Um sonho que, por muito tempo, ele acreditou que jamais se tornaria realidade.
Suspirou com um sorriso cheio de emoção.
Pensou em seus pais. Na antiga confeitaria. No quanto eles teriam ficado orgulhosos se pudessem ver o que ele construiu, no mesmo espaço onde um dia ele correu entre sacos de farinha e forminhas de cupcake.
Aproximou-se do balcão, encostando as mãos nele com carinho.
— Isso é por vocês, pais… e claro, também por mim, — murmurou, olhando para o alto. — Obrigado por me tornarem quem sou. Prometo me esforçar para ser o melhor confeiteiro que existe.
Sentiu uma lágrima escorrer por sua bochecha, e não se incomodou em limpá-la. Era uma lágrima de saudade, mas também de vitória.
— Daqui a pouco é a tão sonhada inauguração... Espero que estejam me acompanhando, de onde quer que estejam… Amo vocês.
Ele ficou ali por mais um momento, olhando para o alto, como se pudesse sentir um calor invisível abraçando-o de volta.
Por fim, apagou as luzes, deu uma última olhada para o interior da loja — agora apenas iluminada pelas luzes suaves da vitrine — e fechou a porta com delicadeza.
Com o coração leve e o peito cheio de emoção, entrou no carro e dirigiu para casa. Em poucas horas, abriria as portas da Magic Shop. E, talvez, abriria também as portas para um novo capítulo da sua vida.
…
Naquela mesma manhã, por volta das oito, Jin estava na cozinha, todo animado, preparando o que pretendia ser um café da manhã especial para ele e Jungkook. Usava um avental florido e cantarolava baixinho enquanto tirava um bolo do forno. O cheiro… era suspeito. Algo entre baunilha e fumaça.
Jungkook entrou na cozinha torcendo o nariz.
— Pai? O que aconteceu aqui? — perguntou, franzindo o rosto ao identificar um cheiro de queimado no ar.
— Ah… eu… fiz bolo, — respondeu Jin, tentando parecer tranquilo. — Queimou só um pouquinho, mas está comível… eu acho.
Ele colocou o bolo na mesa com um sorriso orgulhoso. Jungkook se aproximou com cautela. A metade do bolo estava murcha, como se tivesse desabado, e a outra metade, claramente queimada. Uma verdadeira obra de arte moderna.
— O gosto, pelo menos, deve estar bom, — arriscou Jungkook, forçando um sorriso.
— Sente-se e coma. O café da manhã é a refeição mais importante do dia! — Jin anunciou, como se tivesse servido um banquete digno de chef.
"Não sei se vou estar vivo para as outras refeições," pensou Jungkook, enquanto se sentava.
Com certo esforço, cortou um pedaço do bolo. A faca grudava e rangia, como se estivesse cortando uma mistura de cimento fresco e chiclete velho. Ele se perguntou, por um instante, se Jin havia confundido farinha de trigo com cal.
Respirou fundo, fez todas as orações que conhecia, e colocou o pedaço na boca. A textura era um caos — seca, grudenta e crocante de um lado, mole e esponjoso demais do outro. Engolir foi um desafio.
— Está bom? — Jin perguntou com olhos brilhantes, aguardando o veredito.
Jungkook engoliu com esforço, lutando para manter a expressão neutra.
— Uma delícia! — disse com um sorriso travado. — Até comeria mais, mas... estou de dieta.
— Deixa de ser falso, menino, — Jin balançou a cabeça com desaprovação. — Eu sei que esse bolo tá horrível. Só queria ver se você ia ser sincero. Você foi reprovado no meu teste. — Cruzou os braços, com o nariz empinado.
— Ai, pai… eu só não queria ser insensível e te magoar, — Jungkook disse, encolhendo os ombros — mas sim, o bolo tá… difícil de defender.
— Tudo bem, não ligo, — Jin disse, dando de ombros com ar dramático. — Eu já nasci lindo, inteligente, irresistível, gostoso… se eu ainda tivesse o dom da culinária seria muito triste e injusto pras inimigas.
Jungkook caiu na risada.
— Ok, ok… então vamos combinar que, a partir de hoje, eu fico encarregado do café, beleza?
— Ok! Por falar em café e bolos… — Jin disse, pegando um panfleto que estava dobrado em cima da bancada. — Recebi isso de um rapazinho muito gentil na rua. Parece que vai inaugurar uma confeitaria aqui perto. Sei que você adora doces, então… talvez seja uma boa dar uma passada lá. — Fez uma pausa dramática. — Ah, é… você tá de dieta, né?
— Me dá isso aqui, — Jungkook arrancou o panfleto da mão do pai. — Eu não recuso um bolo. Um bolo comestível, claro.
Ele observou o panfleto com atenção. Era bonito, bem diagramado, com fotos de bolos que pareciam saídos de um sonho com recheios cremosos, cores suaves e irresistíveis.
— “Magic Shop… pães, bolos e doces…” — Jungkook leu em voz alta.
O nome chamou sua atenção de imediato. Havia algo de encantador ali, como se prometesse mais do que apenas bolos. Parecia prometer uma experiência.
— Acho que vou dar uma passada lá. Vai que eu ache algo gostoso pra comer.
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