Cupcake

23 Tocando na ferida



Alguns dias haviam se passado, e Jimin continuava ignorando todos os e-mails da Corporação Kim. Não era falta de educação, era pura sobrevivência. Ele estava ocupado demais tentando salvar sua pequena confeitaria, mergulhado em contas, cálculos e possibilidades que pareciam cada vez mais escassas.

Mas Namjoon não era o tipo de homem que aceitava um “não” silencioso.

Se não tivesse uma resposta por e-mail, ele mesmo buscaria pessoalmente.

Naquele momento, Jimin estava na cozinha, concentrado em preparar recheios, quando o celular vibrou sobre a bancada. Ele limpou rapidamente as mãos no avental e atendeu.

— Alô?

— Alô, Senhor Park Jimin?

— Sim, ele mesmo. Quem fala?

— Aqui é o Kim, presidente da Corporação Kim. — A voz saiu firme e ao mesmo tempo amigável — Tenho uma proposta para o senhor. Gostaria de marcar uma reunião, sem compromisso.

Jimin fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro leve, impaciente.

— Se eu aceitar essa reunião… vocês param de me encher?

Do outro lado da linha, um breve silêncio, seguido de um tom quase divertido:

— Sim, Senhor Park. Garanto que será algo do seu interesse. Prefere que eu vá até sua loja ou…

— Não — Jimin o interrompeu, apoiou o quadril na bancada, olhando para o nada enquanto pensava. — Eu vou até aí. Sei onde fica.

Houve uma pausa breve, como se Namjoon avaliasse aquela resposta.

— Perfeito. Qual dia seria melhor?

Eles combinaram um horário em comum. Formalidades rápidas. A ligação foi encerrada com um “obrigado” educado de ambos os lados.

Jimin deixou o celular de lado e voltou para a bancada, mas já não estava tão concentrado quanto antes.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Namjoon observava a tela do celular ainda acesa por alguns segundos, um leve sorriso surgindo no canto dos lábios.

Ele estava confiante. Dessa vez Park Jimin não escaparia.

…

Quando o dia da reunião chegou, Jimin decidiu ir sozinho. Jungkook insistiu em acompanhá-lo, preocupado, mas Jimin preferiu resolver aquilo por conta própria. Aquela luta era dele e ele precisava encará-la de frente.

Assim que entrou no imponente prédio da Corporação Kim, foi imediatamente reconhecido. Bastou dizer seu nome, e a recepcionista já se levantou com um sorriso profissional, conduzindo-o até o último andar.

A sala de Namjoon era ampla, elegante e silenciosa. E ele já o aguardava.

— Senhor Park — Namjoon se levantou assim que o viu, fazendo uma leve reverência. — Sou Kim Namjoon, CEO da Corporação Kim. Fique à vontade.

Ele indicou a cadeira à sua frente com um gesto calmo.

“Kim Namjoon?”

Jimin arqueou discretamente as sobrancelhas.

“O mesmo nome do pai do Kookie… mas isso deve ser coincidência. Deve ter milhares de Kim Namjoons por aí.”

— Obrigado — respondeu, sentando-se.

Namjoon observou cada movimento com atenção.

— Aceita um café?

— Não, obrigado. Prefiro ser breve.

— Claro — Namjoon assentiu, cruzando as mãos sobre a mesa. — Então vamos direto ao ponto.

Ele sorriu e as covinhas apareceram. Por um instante, Jimin travou. Aquele sorriso lembrava Jungkook.

— O que quer comigo, senhor Kim? — perguntou, retomando a postura firme.

Namjoon não hesitou.

— Sei que a Magic Shop está enfrentando uma dívida considerável — disse, com uma naturalidade fria. — E também sei que o senhor não possui meios para quitá-la.

Jimin apertou levemente os dedos sobre o colo, mas não interrompeu.

— O terreno onde sua loja está localizada faz parte de um projeto milionário que estamos desenvolvendo. — Namjoon inclinou-se levemente para frente. — E, para isso, precisamos da sua propriedade.

Fez uma breve pausa.

— Estou disposto a pagar cinco vezes o valor da sua loja. Com esse dinheiro, o senhor poderia recomeçar em qualquer lugar. Abrir uma nova loja. Crescer ainda mais. — Seu olhar se fixou no de Jimin. — É uma excelente proposta.

Jimin sustentou aquele olhar por alguns segundos. Então respirou fundo.

— Eu não vou vender a minha loja.

A resposta veio firme e sem a menor chance de negociação.

— Sua loja vai falir se você não a vender — disse Namjoon, ainda com aquele sorriso controlado, tentando manter o tom cordial.

Jimin sustentou o olhar dele sem recuar.

— Eu vou dar um jeito para que isso não aconteça.

O tom frio da resposta fez o sorriso de Namjoon vacilar por um instante.

— Sinceramente, não entendo sua relutância em vender aquela loja, Senhor Park. Com o dinheiro que estou oferecendo, você poderia abrir cinco lojas maiores e muito melhores do que aquela.

Jimin inclinou levemente a cabeça, analisando-o.

— Você não entende minha relutância… mas eu entendo perfeitamente por que você não entende.

Namjoon franziu as sobrancelhas.

— Como assim?

— Não preciso conhecê-lo pra saber que você só enxerga números.

O silêncio pairou entre eles por alguns segundos. Namjoon respirou fundo antes de responder.

— Senhor Park, não se trata de enxergar apenas números. Trata-se de ser realista. Se você não me vender sua loja, vai perder tudo. É isso que você quer?

— Claro que não — respondeu Jimin com firmeza — Mas eu confio no meu gerente. Sei que ele vai encontrar uma solução para salvar a Magic Shop.

Namjoon soltou um pequeno suspiro, quase impaciente.

— Não quero desmerecer seu gerente… mas eu sou especialista em negócios. Pode ter certeza de que pesquisei profundamente sobre a sua loja. E, sendo bem direto, o senhor não tem mais como recuperá-la. — Ele apoiou os braços na mesa, olhando Jimin com uma calma quase irritante. — Lamento dizer isso, mas é a realidade. Por isso estou fazendo uma oferta tão generosa. Porque eu sou a única pessoa capaz de transformar aquele lugar em algo lucrativo e gerar empregos de verdade.

Jimin desviou o olhar por um momento e suspirou, encarando o chão. Por mais que odiasse admitir, Namjoon não estava totalmente errado. E aquilo o assustava.

— Eu sei que você tem razão sobre a minha loja estar à beira da falência… — Jimin começou, mais contido — mas ela tem um valor sentimental pra mim.

Namjoon inclinou levemente a cabeça, como se considerasse aquilo por um segundo.

— Entendo seus sentimentos, Senhor Park. — Sua voz veio calma — Mas sentimentos não pagam dívidas.

Jimin o encarou, incrédulo. E então soltou uma risadinha curta e debochada.

— Não… o senhor não entende nada sobre sentimentos.

Seu olhar percorreu a sala rapidamente. Nenhum porta-retrato. Nenhum detalhe pessoal. Nenhum sinal de vida além do trabalho. Voltou os olhos para Namjoon.

— O senhor é casado? Tem família? Filhos? Ou pelo menos… amigos?

A pergunta atingiu como um golpe. Namjoon contraiu os lábios, por um instante perdendo a compostura. Aquilo não era um território seguro. Todas as noites solitárias, o eco da casa vazia, a ausência de calor humano, tudo pareceu pesar de uma vez.

— Não, Senhor Park. — respondeu, recuperando o controle, ainda que com esforço. — Não tenho família e nem filhos.

Forçou um sorriso.

— Então como pode dizer que entende? — Jimin se levantou, agora completamente determinado. — Como pode falar de valor sentimental?

Deu um passo à frente, o olhar duro.

— Eu conheço pessoas como o senhor. Pessoas que acham que podem comprar tudo com dinheiro. Mas não sabem o quanto estão erradas.

Namjoon permaneceu em silêncio.

— O senhor parece o tipo de pessoa que venderia amigos, família e até um grande amor, se isso trouxesse mais poder ou status. — A voz de Jimin continuava firme, mesmo sem precisar elevar — E é por isso que não tem ninguém.

Aquelas palavras ficaram no ar.

— Pode ter construído um império… — Jimin continuou — mas eu duvido que não se sinta sozinho quando volta pra casa à noite.

O silêncio agora era denso e o ar parecia irrespirável.

— Eu não quero ser assim. — Jimin respirou fundo. — Prefiro falir do que vender algo que tem valor pra mim.

Jimin ajeitou a postura.

— Espero que eu tenha sido claro. Eu não vou vender minha loja. E acredito que, a partir de agora, o senhor vai parar de me incomodar. Foi esse o combinado.

Deu meia-volta.

— Com licença. Tenho coisas mais importantes para fazer.

E saiu da sala sem esperar resposta.

Namjoon permaneceu parado, completamente estático, observando Jimin sair a passos apressados e fechar a porta com força. O som seco ecoou pela sala, mas o que realmente reverberava era o peso das palavras que tinham sido ditas. Ele sentiu o ar faltar de repente, como se o ambiente tivesse se tornado pequeno demais para comportar tudo o que estava acontecendo dentro dele. Levou a mão até a gravata, afrouxando o nó com certa pressa, e abriu os primeiros botões da camisa na tentativa quase desesperada de respirar melhor. Ainda assim, a sensação de sufocamento permanecia, sua garganta parecia fechada por um nó invisível e seus olhos ardiam, denunciando o impacto que aquelas palavras tinham causado. Jimin havia tocado exatamente onde doía, sem saber ou talvez sabendo muito bem.

Fechou os olhos lentamente e recostou a cabeça na poltrona, buscando algum tipo de equilíbrio, alguma forma de se recompor. Mas, em vez de silêncio, vieram lembranças que ele nunca conseguiu calar. Sua mente começou a vagar por um caminho perigoso, daqueles que ele evitava trilhar há anos. Pensou em Jin. Pensou em como tudo poderia ter sido diferente se, há mais de vinte anos, tivesse feito outra escolha.

Se permitiu imaginar uma vida que nunca existiu, mas que sempre pareceu tão possível. Visualizou os dois na cozinha, dividindo um espaço pequeno, preparando um lanche simples enquanto trocavam olhares e sorrisos leves. Imaginou as tardes preguiçosas no sofá, assistindo a qualquer filme, mais interessados na companhia um do outro do que na história que passava na tela. Viu a si mesmo roubando beijos de Jin no meio dessas cenas cotidianas. E, à noite, se imaginou envolvendo-o em um abraço apertado, dormindo colados, dividindo o calor em noites frias, como se o mundo lá fora não importasse.

Naquele cenário, ele não tinha o império que construiu, nem a fortuna que acumulou, nem o prestígio que conquistou com tanto esforço. Mas, ainda assim, era o homem mais rico do mundo porque tinha Jin ao seu lado. Pensou que talvez tivessem construído uma família, que a casa seria cheia, viva, barulhenta, com risadas ecoando pelos corredores e pequenas presenças correndo de um lado para o outro.

Sem perceber, um sorriso surgiu em seus lábios, frágil e nostálgico. Mas ele não veio sozinho. As lágrimas vieram junto, silenciosas, escorrendo sem pedir permissão, revelando uma dor antiga e profunda, daquelas que nunca cicatrizam completamente. Era saudade de algo que ele nunca chegou a viver.

Não havia um único dia em que não pensasse em Jin. Não havia um único dia em que não se perguntasse como ele estava, onde estava, se ainda lembrava dele. E, naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se desejar algo que sempre tentou enterrar: uma segunda chance.

Se algum dia a vida lhe desse essa oportunidade, só mais uma, não iria trocar Jin por nada.