Cupcake
2 De volta ao lar

Vinte e sete anos haviam se passado desde a última vez que Namjoon viu Jin. Ainda conseguia se lembrar com clareza do brilho daquele sorriso, do tom avermelhado de seus lábios e do perfume suave que ficava em suas roupas depois de um abraço. Jin foi seu primeiro amor, e o único que realmente importou.
Não havia um dia sequer em que Namjoon não se arrependesse. Seu egoísmo, sua ganância, sua covardia, tudo o levou ao topo, mas ao custo de perder a única pessoa que verdadeiramente amou.
Agora, sentado em sua luxuosa cobertura, ele girava a taça de vinho entre os dedos, observando as estrelas através das enormes janelas de vidro. A cidade brilhava abaixo dele, mas aquele céu infinito só lhe lembrava o vazio dentro de si.
Ele conquistou tudo. Tornou-se milionário, poderoso, influente. Mas também estava sozinho. E essa era a maior dívida que jamais conseguiria pagar.
Namjoon teve um casamento estável, construído sobre amizade e respeito. Sua esposa foi uma grande companheira, alguém com quem compartilhou uma vida tranquila, mesmo que o amor verdadeiro jamais estivesse ali, mesmo que fosse um casamento arranjado, comercial. Namjoon nunca escondeu dela os sentimentos que ainda carregava por Jin. Pelo contrário, em diversas ocasiões, ela até o incentivou a procurá-lo, a reencontrá-lo, a buscar um desfecho para a história inacabada entre eles.
Mas Namjoon nunca teve coragem.
Em vez disso, permaneceu fiel à mulher que esteve ao seu lado até o fim. Quando a doença chegou, ele cuidou dela com todo o carinho que podia oferecer, segurando sua mão até o último suspiro. E, mesmo em seus momentos finais, ela continuava pensando nele, pensando na felicidade que ele sempre adiou. Ele ainda se lembrava do que ela havia lhe dito numa certa noite:
"Joonnie, meu doce marido… seja feliz. Reencontre seu primeiro amor, ao menos para ter notícias dele. Ao menos para ver seu rosto mais uma vez… A vida é curta demais para medos ou orgulho. Seja feliz."
Namjoon sorriu, uma lágrima solitária escapando pelo rosto.
— Jin… você está bem? — murmurou, olhando para as estrelas. — Deve estar ainda mais lindo do que quando era um adolescente… Um homem incrível agora.
Ele imaginou Jin sorrindo em algum lugar do mundo, cercado por amor, por uma família que talvez tivesse construído.
— Nesse momento, deve estar reunido com seus filhos… com sua família. — Limpou as lágrimas discretamente, tomando mais um gole de vinho. O gosto amargo do arrependimento sempre voltava em noites como aquela.
— Se eu pudesse voltar no tempo…
Suspirou, fechando os olhos por um momento.
— Onde você está, Jin?
O silêncio da noite não lhe trouxe resposta. Apenas o brilho das estrelas, como se sorrissem ironicamente para ele.
…
Jungkook caminhava a passos apressados, quase saltitantes, com um sorriso iluminado no rosto e as covinhas à mostra. Em uma das mãos, segurava uma sacola com cuidado, como se carregasse algo precioso. Sua empolgação era evidente, ele mal podia esperar para chegar em casa.
— Olá, Jungkook! — chamou o Sr. Noah, um vizinho que estava na varanda.
Jungkook virou-se rapidamente, ainda sem diminuir o ritmo.
— Olá, Sr. Noah! Como está sua esposa? — perguntou com animação.
— Muito melhor, obrigado. Ela terá alta hoje.
— Que ótima notícia! Passo aí mais tarde para vê-la! — disse Jungkook, caminhando de costas, sem esconder sua ansiedade.
O vizinho soltou uma risada ao ver a energia transbordante do jovem.
— Hoje é o dia, não é? — perguntou com um sorriso divertido.
Jungkook parou apenas por um segundo e abriu um sorriso ainda maior.
— Sim! Hoje é o dia!
E, sem esperar mais, girou nos calcanhares e disparou pela calçada, o coração batendo acelerado de empolgação. No caminho, todos os vizinhos o cumprimentavam com sorrisos calorosos, afinal, Jungkook era querido por todos. Sempre educado, simpático e com uma energia contagiante, ele era o tipo de pessoa que iluminava o dia de quem cruzava seu caminho.
E naquela tarde, sua alegria parecia ainda mais radiante.
Jungkook morava com o pai em um aconchegante bairro de South Kensington, em Londres. Naquele dia, sua empolgação era ainda maior do que o normal, era o aniversário de seu pai, Jin, e ele adorava comemorar essa data especial com uma tradição que haviam criado ao longo dos anos: abrir um bom vinho e brindar à vida. Mais do que pai e filho, Jin e Jungkook eram melhores amigos, tão próximos que muitas vezes eram confundidos como irmãos.
Jin, agora com 44 anos, mantinha uma aparência jovem e bonita. Sempre elegante, discreto e dono de uma beleza atemporal, ele era um homem que chamava atenção sem precisar fazer esforço.
Há muito tempo, aos dezoito anos, ele havia deixado a Coreia para trás e começado uma nova vida em Londres. A mudança veio acompanhada de uma descoberta avassaladora: a gravidez inesperada. Foi um choque, mas Jin nunca hesitou em sua decisão. Com o apoio incondicional de seus pais, enfrentou os desafios da gestação e se dedicou a cuidar do filho e a concluir seus estudos.
Namjoon? Ele nunca soube.
Jin jamais cogitou procurá-lo. Não sentiu necessidade de compartilhar essa informação, nem de reviver os fantasmas do passado. No momento em que soube que carregava uma nova vida dentro de si, enterrou todos os sentimentos que um dia teve por Namjoon no canto mais profundo de seu coração. Seu único foco passou a ser Jungkook, seu filho, sua razão de viver.
E ele não se arrependia nem por um segundo.
Não foi fácil para Jin equilibrar a faculdade e a gravidez, assim como não foi simples conciliar sua carreira com a criação de um filho. Mas ele conseguiu. Com determinação, construiu uma vida plena, vivendo os melhores anos de sua juventude ao lado de seu precioso Jungkook, sem abrir mão de seus sonhos e ambições.
Hoje, Jin era um dos estilistas mais renomados de Londres, conhecido por suas criações impecáveis e sua assinatura sofisticada na moda. Seu nome era sinônimo de elegância e inovação.
Jungkook, no entanto, seguiu um caminho completamente diferente. Formou-se em Economia e Finanças, algo que Jin nunca conseguiu entender completamente.
— Por que alguém escolheria estudar algo tão chato? — ele brincava sempre que o assunto surgia.
Mas bastava Jungkook sorrir, exibindo aquelas covinhas tão familiares, para que tudo ficasse claro. Ele não precisava entender, porque sabia. Jungkook tinha herdado muito mais de Namjoon do que apenas a aparência. Seu jeito, seu brilho nos olhos, até a postura determinada, era inegável. Pai e filho nunca se encontraram, mas o elo entre eles estava ali, evidente. E Jin sabia disso melhor do que ninguém.
Jungkook chegou em casa eufórico, chamando o pai pelos cômodos.
— Calma menino, o que foi? — Jin desceu as escadas.
— Hoje é dia de encher a cara de vinho! — Jungkook mostrou a garrafa que comprou.
— Vinho não é pra se encher a cara, é pra ser apreciado, degustado — Jin examinou a garrafa — Hum! O vinho é bom.
— Sou foda, pai. Tive a quem puxar — Jungkook lhe deu um beijo na bochecha.
— Gosto de vinho, mas não sou tão perito no assunto… — Jin fez uma pausa e sorriu ao se lembrar de Namjoon — Seu pai adorava vinho. Ele roubava os vinhos caros da adega da casa dele pra gente beber juntos — Jin sorriu, balançando a cabeça negativamente.
— É uma pena que eu nunca vou conhecer ele. Mas... ele morreu salvando pessoas, ele foi um herói — Jungkook colocou a mão no ombro de Jin.
— É, sim… ele era um bombeiro e salvou muitas pessoas em um prédio em chamas — Jin forçou um sorriso, essa era a história que ele contava para Jungkook desde criança.
— Mas hoje é um dia feliz. Hoje é o seu dia! — Jungkook sorriu e então o levou até a sala e ligou a lareira. — Vou preparar uma massa deliciosa pra comermos com esse vinho. Sei que não gosta muito de doces então vamos de algo salgado.
— Filho mais perfeito que existe — Jin fez um coração para ele com os dedos — Mas, bebê, por que não comprou um bolo? Sei que você adora doces e usa meu aniversário como desculpa pra comer.
Jungkook fez uma careta pensativa antes de responder:
— Eu meio que enjoei dos bolos daqui… Hum, como posso explicar? É como se o bolo tivesse as emoções e o amor do confeiteiro, e eu não sinto isso quando provo os daqui.
Jin soltou uma gargalhada.
— São só bolos, seu doido.
— Não são só bolos. — Jungkook cruzou os braços, fingindo aborrecimento. — Mas você nem gosta de doces, então não adianta explicar.
— Então se case com um confeiteiro. — Jin provocou, com um sorriso divertido.
— Claro que não, né — Jungkook revirou os olhos. — Eu acabaria com diabetes e sobrepeso! Me conheço, e eu definitivamente não me controlaria se tivesse algo gostoso pra comer todos os dias.
Jin arqueou uma sobrancelha.
— Estamos falando do bolo ou do confeiteiro?
— Pai, pelo amor de Deus! — Jungkook arregalou os olhos — Enfim… falando de bolos, B-O-L-O-S, viu? Eu iria me acabar de comer. Todo meu esforço de manter meu corpinho super fit iria pelo ralo. Vou fugir de confeiteiros.
Jin balançou a cabeça, rindo da lógica exagerada do filho.
…
Na semana seguinte, Jin chegou em casa mais cedo do que o habitual. Procurou por Jungkook, que estava no escritório, imerso em relatórios da empresa onde trabalhava.
— Kook, amor? — chamou da sala.
— Tô aqui em cima, no escritório, pai! — Jungkook respondeu, sem tirar os olhos do computador.
Jin subiu as escadas e parou na porta do escritório, observando o filho por um instante antes de falar.
— Filho… tenho algo importante para te contar. Por isso, vim pra casa mais cedo.
Jungkook parou imediatamente o que estava fazendo e virou-se para encará-lo, a preocupação estampada no rosto.
— O que foi, pai? Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
— Calma, está tudo bem. — Jin suspirou e sorriu — Mas recebi uma proposta de emprego e… teremos que nos mudar.
Jungkook franziu a testa.
— Mudar?
— Sim. Mas eu não quero ser egoísta. Sei que você tem seu emprego, seus amigos e sua vida aqui. Se for um problema pra você, eu posso ir sozinho.
Jungkook se levantou de imediato, cruzando os braços com uma expressão determinada.
— Nem pensar! Não importa pra onde você vá, eu vou junto. Jamais te deixaria sozinho.
Sem hesitar, abraçou Jin com força. O estilista sorriu, sentindo o coração se aquecer diante do amor e lealdade incondicionais do filho.
— Pra onde vamos, pai?
Jin respirou fundo antes de responder:
— Vamos para a Coreia do Sul. Vamos voltar para o nosso país.
O silêncio tomou conta do ambiente por um instante.
Jungkook piscou algumas vezes, absorvendo a notícia. Então, um sorriso leve surgiu em seus lábios.
— Bom… acho que está na hora de conhecer melhor minhas raízes, né?
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