Cupcake
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sentiu uma mão empurrá-la e, sem ter onde se segurar, caiu, deixando cair o lanche que havia comprado na padaria do caminho pra escola. Ouviu risadas, as mesmas de sempre, até que pôde ouvir alguém suspirar fundo e dizer “Não tem graça alguma essa palhaçada!”
Ainda sentindo dores, porém vencida pela surpresa, Lorena levantou a cabeça e viu um rapaz alto estendê-la a mão para que levantasse. Sem pensar muito, a garota segurou e ele a ajudou a se colocar de pé, dizendo em seguida “Perdoa meus amigos, eles são bem otários de vez em quando.”
…
Ela chegou em casa, arrasada. Tinha acabado de voltar da festa de despedida da escola, onde nunca imaginou que aconteceria aquilo. Tinha que ter mais preocupações na cabeça, afinal, estava caminhando para o 3º ano do Ensino Médio, um ano que, para ela, seria de grandes decisões. A moça de cabelos platinados e heterocromia entrou no quarto, tirou seu uniforme e sentou-se de frente a penteadeira, apenas com as roupas íntimas. Respirou fundo, passou a mão nos cabelos e logo os puxou, fazendo-os cair por acidente no chão e revelar madeixas castanhas. Colocou o dedo cuidadosamente nos olhos e retirou as lentes de contato: uma azul e outra verde, que escondiam olhos cor de mel.
Lorena fez aquilo durante dois meses inteiros. Saía durante as manhãs para assistir às aulas como sempre fazia, o rabo de cavalo, a face quase sem maquiagem, comum, como se autoavaliava. Quando o sinal batia, ela, em vez de continuar na sala conversando com sua melhor amiga, Gabriela, corria para o almoxarifado com a mochila nas costas, de onde tirava a peruca, as lentes e tornava-se Laura, uma garota de cabelos platinados e heterocromia que gostava de filmes e séries de ficção científica, rock, jogos de horror (ou terror, ela nunca entendeu a diferença) e, o detalhe mais importante para Lorena: parte do grupo de amigos de sua paixão platônica (e sem muito sentido).
Às vezes lhe corria à mente abandonar o disfarce e tentar ser ela mesma perto deles, mas sabia que não daria certo. Eles a odiavam, ou, para ser mais preciso, odiavam Lorena. Ódio? Ódio não. Nojo seria melhor, repulsa de verdade, tanto de Lorena como de sua amiga. Lembrava de como eles as insultavam, riam, machucavam, faziam elas serem infelizes pelo simples fato de serem “garotinhas demais.” Ela não gostava deles, nem um pouco, a única coisa que a prendia ali era Iago.
Iago. Um nome pequeno que pertencia a uma pessoa de 1,87 de altura e que tinha uma importância imensa para ela, mas que, mesmo esforçando-se durante todo esse tempo para obter atenção dele, ela sempre lhe parecia invisível.
Não era que Iago nunca tivesse falado com ela:no grupo, como Laura, eles dificilmente trocavam alguma palavra e ela era a única de turma diferente, o que a deixava em uma posição levemente inferior aos demais. Fora do grupo, como Lorena, ela era desprezada por seus amigos (ou melhor, pelos amigos de Laura) e, embora ele tivesse a defendido algumas vezes, sentia que seu olhar possuía um misto de desprezo, como o dos outros, e pena, o que ela odiava.
Em suma, não havia reciprocidade nenhuma nos sentimentos e isso a deixava decepcionada.
Só de pensar que tudo aquilo tinha sido calculado para impressioná-lo! Ela podia até mentir pra si mesma de vez em quando e dizer que fez aquilo por ela, mas era impossível de até a pessoa mais crédula do mundo acreditar. Quando ele publicou em suas redes sociais (que ela sempre checava) que havia platinado os cabelos, ela não perdeu tempo e logo começou os planos para fazer o mesmo no seu e dizer que tinha sido uma mera coincidência, visto que ele nem sabia que ela tinha seu número salvo na lista de contatos e nem que seu Instagram era a página mais visitada em seu celular. Quando viu que o rapaz havia compartilhado sobre heterocromia no Twitter, logo comprou suas lentes de contato.
Agora, sabendo que nenhum desses esforços teve resultado, ela fica até feliz de ter tido medo de pintar seu cabelo e ter comprado uma peruca, afinal, isso a faria lembrar o quão idiota ela foi em querer se anular para agradar alguém, ainda mais fazendo algo que não gostava.
Olhou para seu reflexo no espelho, a verdadeira Lorenaestava lá, as olheiras aparentes pelas noites mal dormidas, pelas preocupações com provas e por seu stalk diário. A verdadeira Lorena que, antes de se apaixonar, amava a si mesma.
Amava seus olhos cor de avelã, seus cabelos castanhos escuros que quase alcançavam sua cintura, seu sinal no queixo, seus desenhos que ela espalhava pelo quarto, suas maquiagens discretas que usava antes de insistir em ser alguém totalmente oposta a quem ela realmente era… agora que o ano letivo tinha acabado, a única coisa que se passava em sua cabeça era que, com certeza, era louca por ter se transformado tanto para uma razão tão pequena.
Levantou-se e respirou fundo, lembrando do dinheiro que gastou na peruca e nas lentes compradas em um site chinês que podiam tê-la cegado. A peruca ela talvez usaria de novo para algum cosplay caso sentisse vontade, mas as lentes eram certamente lixo. Se tem alguém que amaria vê-la desapegada do “esquisito, debochado e projeto de gambá” era sua amiga Gabriela. Quando disse essas palavras feias, não tinha nada além de razão.
As lembranças doíam muito. Gabriela virou-lhe as costas, ou melhor, ela virou as costas para Gabriela. Naquele momento de pura ira e paixão sem sentido, o fato de sua amiga não tê-la apoiado nesse plano louco lhe pareceu falsidade, crueldade, traição, mas quem estava errada era ela. Desde o começo, insistindo numa coisa banal como um relacionamento com alguém que só simpatizou com ela quando começou a usar uma máscara para camuflar quem realmente era.
Porque demorou para ela aprender que Lorena era Laura, mas Laura não era Lorena.
Continuou de pé, olhando para o nada e deixando os pensamentos inundavam sua mente, principalmente as teorias de como ela estaria se seu plano tivesse funcionado. Provavelmente conversando com ele agora, excluindo as músicas que gostava, modificando todos seus planos de seguir carreira como fotógrafa e visando focar em uma prova para fazer a mesma faculdade de direito que ele quer.
Provavelmente estaria mais uma vez se sacrificando para colocar uma menina totalmente diferente no lugar.
Tirou o celular da mochila e viu as inúmeras notificações de postagens novas de Iago, mas dessa vez nem fez questão de abrir, apenas de bloqueá-lo em todas as contas. Instagram? Aquele rosto que ela admirou um dia já embrulhava seu estômago. Twitter? Tanta besteira em 280 caracteres! Facebook? Fala sério!
Lorena poderia até assumir que, dentro de seu ser, removê-lo de sua vida estava a fazendo se sentir melhor, mas a decepção consigo mesma era enorme. Queria tirar aquilo da cabeça, mas, quando se olhava no espelho, se sentia tão vazia…
Recapitulava seu dia, tentando conter as lágrimas. Ela havia ido na festa de despedida da escola, que faziam todos os anos, vestida de Laura para conseguir se aproximar de seu crush para, logo de cara, vê-lo segurar a mão de outra menina, assumir um relacionamento, tirar foto de casal e inclusive levá-la para um pequeno beco da escola para beijá-la sem seus amigos o zoarem. A garganta deu um nó e, quando se deu conta, já tinha fugido da festa e voltado pra casa. Tudo o que ela queria para ela, aconteceu com outra que nem se esforçou.
E, depois de tanto tempo se prendendo em casa, Lorena sentiu vontade de sair de novo. Afinal, ela havia se programado para se divertir naquele dia.
Pôs-se de pé e correu para se arrumar. Tomou o banho mais demorado de sua vida, fez aquele penteado que há muito não fazia em seus cabelos naturais, usou seu perfume favorito e a roupa simples, mas que amava: uma blusa branca com um gato estampado, uma saia que atingia os joelhos na cor rosa e sapatos discretos, além de uma bolsa rosa claro e uma meia de gatinho que comprou junto da peruca. Podia não ser uma roupa maravilhosa, podiam até tirar foto dela e mandar pro Esquadrão da Moda, mas o que importava era que ela estava bem. Respirou fundo, olhou-se pela última vez no espelho e riu: ela não era a menina gótica do cabelo esquisito.
Colocou seus fones no ouvido, escolheu a sua (e apenas sua) melhor playlist e saiu, com apenas o celular, um pouco de dinheiro e a maquiagem na bolsa, sem sequer comer algo. Precisava colocar as coisas de volta na cabeça, esquecer a existência da Laura, de Iago e da outra menina sortuda. Ou, quem sabe, até azarada.
Caminhou pelas ruas, observando a paisagem. Encontrou vários grupos saindo juntos, aproveitando o primeiro dia de férias, conversando sobre os mais variados assuntos, marcando rolês e dias para se reunir depois da virada do ano.
Ela queria ter um grupinho para fazer isso também. Mas não acha que tem condições pra manter amizades depois de tudo o que aconteceu. Nem fingindo ela consegue ter amigos que a valorizam, quiçá ter um “algo a mais.” Tudo isso nos filmes eram tão bonitos, tinha que ter um alerta que realmente, em hipótese alguma, acontece na vida real.
Ouviu sua barriga roncar, para a sua sorte, não muito alto. Caminhou em direção à padaria onde sempre costumava comprar seu lanche, tirou o dinheiro da pequena bolsa para comprar um dos bolinhos que mais comia ultimamente e lembrou que geralmente comprava dois: um pra ela e outro para Iago.
Pelo menos ele dava o dinheiro.
Ao se aproximar do balcão, pôde rever o rosto do atendente que, sempre que podia, conversava com ela. Sentiu uma pontadinha no coração, afinal, depois de sua paixonite boba pelo platinado, ela parou de falar com ele, inclusive, se não fosse sempre comprar lá, esqueceria de vez da existência do rapaz. Não sabia ao certo o porquê de ter passado a apenas fazer o pedido, pagar e agradecer, ou melhor, sabia: tinha sempre pressa de ver Iago. Ah, se arrependimento matasse! Mas decidiu mudar. Sabia agora o quanto doía ser trocada, descobriu da pior forma.
— Oi! — ela disse, em um tom animado — Tem daquele cupcake de cobertura de chantili? — o rapaz assentiu com um aceno de cabeça e um sorriso falso, sem fazer contato visual, e já ia pegar dois bolinhos quando Lorena interveio — Não, hoje é só um.
Ela viu os olhos do rapaz a fitarem com estranhamento, mas retornou um dos cupcakes ao lugar e lhe entregou o outro. Viu, por algum motivo, um breve sorriso no rosto do rapaz, que devia ter por volta de 18 ou 19 anos. Engraçado que, em todo esse tempo, ela nunca havia perguntado seu nome ou coisa do tipo, mesmo vendo-o com tanta frequência.
— Err… — o garoto interveio nos devaneios de Lorena — Sei que não é da minha conta, mas o que exatamente aconteceu? Teve algum… — pensou em perguntar “teve algum problema com o rapaz?”, mas hesitou. Preferiu soar profissional e menos intrometido — problema com os cupcakes?
— Ah, não, nada disso! — Lorena respondeu, um pouco sem graça, mas agradecendo mentalmente por ele não ter tocado no assunto do segundo cupcake não comprado — Digamos que… a pessoa pra quem eu comprava o segundo bolinho não era o que eu pensava.
— Sinto um cheirinho de desilusão amorosa… — ele disse, não contendo uma risadinha. Algo nessa distância repentina dela o magoou muito e ver que o que ela quis não havia dado certo era maravilhoso. Quando percebeu que a moça desviou o olhar com uma expressão triste, emendou — D-Descul…
— Não, tudo bem. — ela o interrompeu, sorrindo em seguida, ainda que fosse visivelmente forçado — Eu quem peço desculpas. Comecei a te ignorar, a te evitar por causa dessa pessoa e acho que finalmente a vida me deu o tapa na cara que eu merecia. Aprendi que dói, e muito.
Ele abaixou a cabeça, os cabelos escuros descoloridos nas pontas caindo levemente sobre os olhos, mantendo-se em silêncio enquanto as lembranças lhe corriam à mente. Eles costumavam falar de tanta coisa! Nas manhãs, eles trocavam poucas palavras, pois ela precisava chegar na escola no horário, mas, à tarde, quando voltava, ele estava no horário de almoço, quando costumavam conversar mais e fazer companhia um ao outro. Às vezes vinha com a amiga, que sempre escolhia um rocambole de sabor diferente.
Mas, desde quando ela começou a comprar dois cupcakes iguais, as coisas mudaram e ele nunca teve coragem de perguntar o porquê, embora já soubesse. A amiga parou de andar com ela, o silêncio entre os dois passou a reinar e ele sabia que a garota estava infeliz.
— Foi. — ele finalmente respondeu, com um pouco de firmeza na voz — Você virou a cara pra mim e pelo visto para a sua amiga também. Agora que viu que essa tal pessoa não era o que pensava você se lembra da gente? Acha isso certo?
Ela abaixou um pouco a cabeça, deixando o dinheiro sobre o balcão. Olhou nos olhos do rapaz cujo nome lhe era desconhecido e lhe pediu desculpas novamente, dessa vez as mais sinceras que já havia pedido a alguém até o momento.
— Não sei se simples desculpas podem sempre remendar tudo de novo. — ele retrucou — Nem todo mundo tem paciência infinita.
— Tá o.k.. Não vou te encher mais com isso. — a garota entendeu a indireta, não precisava ser tão inteligente pra saber que a paciência finita era a dele — Mas obrigada. Pelo bolinho e pelo conselho. Prometo que vou ser mais responsável da próxima vez. — pensou em encerrar a conversa ali e sair, mas acabou se rendendo à curiosidade — Pode só dizer seu nome?
— Ah, a gente realmente ainda não sabe o nome um do outro. — ele sorriu, um sorrisinho bem discreto, pois não queria que ela soubesse que estava feliz. Tinha esperado muito por aquele momento, e, ainda que não estivesse sendo do jeito que havia imaginado, estava acontecendo, o que era suficiente para deixá-lo feliz — É Michael. Você é a…?
— Lorena. — sorriu — Obrigada de novo.
E saiu, segurando o bolinho com a mão esquerda enquanto ajeitava o cabelo com a outra. Ela sabia que, naqueles olhos verdes de Michael, tinha um pouco de preocupação, como a de um irmão mais velho. Pôde ouvir o rapaz chamá-la novamente, dessa vez pelo nome, e, ao se virar para vê-lo, se surpreendeu com o que ele disse:
— Eu te perdoo, mas só se me prometer ser feliz de novo.
Lorena sorriu, um sorriso de verdade, sentia como se o peso do mundo tivesse sido tirado de suas costas. Acenou para ele e saiu, cheia de uma energia que havia conseguido de um minuto para o outro e destinada a fazer o que não imaginou hora nenhuma que faria: voltar para a festa, mesmo que isso significasse ver Iago de novo. Não que isso lhe fosse ainda uma preocupação: sem a fantasia de Lorena, o máximo que ele faria era a olhar com nojo e continuar vivendo.
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