- Não vai abrir? – Charlie quebrou meus devaneios confusos com um tom de voz suave. Dei os ombros – Você quis tanto saber disso...

- Eu sei papai. – murmurei voltando a fitar meu tênis perfeitamente limpo – Estou nervosa.

- Posso te dar uma prévia do resultado? – perguntou-me sorrindo.

Assenti meio confusa e ele virou sua enorme cadeira do escritório em direção a parede de vidro que dava para o centro da cidade dos anjos. Nosso reflexo estava ali e eu entendi o que ele quis dizer. Mesmos olhos castanhos, mesma tonalidade de cabelo, pele e expressão facial. Eu era a sua versão feminina.

Também sabia que era filha biológica de Charlie. Meu coração sempre me disse isso, mas o modo no qual fomos unidos nunca me deixou dormir em paz. Minha mãe, Renée, teve um breve romance com Charlie e desapareceu, voltando meses depois com um pequeno embrulho nos braços, entregando a meu pai e voltando ao mundo. Ela disse que não queria ser mãe.

Charlie apenas me contou isso quando tive idade o suficiente para compreender. Minha babá, Zafrina, sempre cuidou de mim. Ela tinha uma filha, nós brincávamos juntas quando criança, mas eu tinha inveja dela. Inveja que todos os dias, no fim da noite, era pra ela quem Zafrina voltava. E eu não tinha ninguém para voltar por mim.

Isso me fazia odiar Renée.

Relutante, abri o teste de DNA e lá estava escrito positivo. Charlie deu aquele sorriso de quem já sabia e me pegou no seu colo. Devia ser vergonhoso uma menina de 13 anos ainda amar sentar no colo do pai... Mas não me importava muito.

- Você é minha garotinha.

- Eu te amo, papai.

...

- Bella? BELLA! – Jane gritou estalando os dedos na minha frente. Ela tinha uma fruta na mão, vestindo nada além que uma camiseta comprida de Alec. – Em que mundo você estava? Aconteceu algo?

- Estava lembrando o meu pai. Estou com saudades. – respondi relaxando no sofá e dei tapinhas para que ela parasse de pular feito uma louca e sentasse do meu lado – Seu pai respondeu meu e-mail. Ele descobriu o paradeiro da minha mãe.

- Sério? – arregalou os olhos azuis e largou a fruta. – O que você vai fazer?

- Ir até ela. Como ela ousa ligar para Charlie depois de tanto tempo? – respondi decidida. – Você quer fazer as malas? Nós estamos indo para a Espanha.

Independente do motivo da nossa viagem, que era um tanto estressante, Jane pulou do sofá deslizando com as meias pelo meu piso de madeira bem encerado, em direção ao quarto, cantando alguma musica em espanhol apenas no intuito de me deixar mais nervosa.

Nossa amizade navegava entre o amor e a vontade de matar uma a outra.

Em menos de cinco horas estávamos com tudo pronto e conseguimos que o jatinho particular dos Volturi chegasse ao aeroporto do Florença bem rápido. Jane estava tirando foto e falando sem parar.

Eu ria porque isso era sinal do seu nervosismo, somado com a vontade de me deixar relaxada. Jane era órfã de mãe e teve várias madrastas durante a vida. Ultimamente, Aro não tinha oficializado nada, porque acho que a menina é ainda menor de idade, mas é modelo e conheceu na festa de Jane. Hoje, nós éramos inimigas declaradas.

- Meu Deus. Nós vamos fazer compras em Madrid. A última vez que vim aqui foi com Alec e Demetri e você sabe, meus irmãos são estúpidos. – quicou no lugar, colocando o cinto para nosso pouso. – Vai ser tudo tão incrível – bateu palminhas e ficou séria – Depois de colocarmos certa pessoa em seu devido lugar.

- Nós não podemos ficar muito, Jane. Semana que vem volta as aulas.

- Eu sei estraga prazer. Vamos para o hotel, vestir roupas sexys e jantar em algum restaurante badalado.

- Eu pensei em comer enrolada no roupão, deitada na cama e prontinha para dormir. — sorri docemente para seu olhar assassino. Era preciso muito pique para acompanhar o ritmo de Jane.

- Bom, só porque a viagem é sua. – resmungou emburrada – Amanhã, você não me escapa! Quantas vezes nós viajamos assim? Quase nunca! – exclamou ultrajada. — Ragazza molto bella e prigi. – murmurou baixinho.

- Eu ouvi Jane Sophie Volturi.

- Eu seeeeeeei. – cantou piscando os olhinhos.

O jantar seguiu tranquilo, dentro do quarto, depois de uma ligação para Charlie e avisar onde estava. Ele pareceu meio nervoso e pediu uma camisa do Real Madrid autografada. Charlie não sabia que Jake havia me contado sobre a ligação de Renée. E eu sabia que ele não iria me contar.

Era injusto essa mulher aparecer depois de tantos anos e eu ia acabar com a palhaçada.

- Vamos dormir, Barbie. – sussurrei para Jane, que tinha os olhos pregados na tevê. – Amanhã teremos um longo dia.

- Sim, Tereza. – sorriu deitando-se na sua cama, de frente pra mim – Você sabe que vai dar tudo certo, não sabe? – sussurrou no escuro. – Eu estarei lá com você.

- Eu sei. Obrigada.

No dia seguinte, com as pilhas renovadas, Jane estava correndo pelo quarto a todo vapor. Escolheu suas roupas falando, tomou banho falando, escovou os dentes falando e tudo que eu fazia era rir. Definitivamente, ela estava mais nervosa do que eu.

- Jane, você precisa ficar calma. – bati na sua perna que sacolejava o carro – Vai ser uma conversa. Relaxa.

- Se ela falar algo, estou pronta para voar no pescoço dela. – resmungou fazendo bico.

- Estou contando com isso. – pisquei fazendo-a relaxar.

Renée tinha uma floricultura no centro de Madri e segundos relatórios, estava com muitas dividas. Aro se ofereceu para cuidar disso, mas nem ao meu inimigo mais odiado deixaria que ele cuidasse de algo. Ele podia ser um amor de pessoa, mas era perigoso demais. Não saberia viver comigo mesma sabendo que ele emprestou dinheiro a Renée e depois “deu seu jeito” quando ela não pagasse a divida.

Charlie me mataria se fizesse algo como isso.

Renée também era casada e tinha dois filhos. Que, ressaltando, não eram meus irmãos.

O motorista contratado ficou esperando quando eu e Jane sentamos no banquinho do outro lado da floricultura e esperamos abrir. Nós dividimos um saquinho de biscoito doce apenas olhando pra frente. Quarenta minutos depois estava aberta, funcionando a todo vapor e meu coração queria sair pela boca.

Eu ia ficar de frente a ela. Eu ia ver minha mãe pela primeira vez.

Com raiva de ter sido abandonada, atravessei a rua, deixando Jane na calçada. Não reparei nada ao meu redor. Fui direto nela. A mulher da foto que Aro me enviou.

- Renée Dywer? – perguntei a loira, de cabelos curtos e olhos azuis.

- Sim? – respondeu virando-se e seus olhos se arregalaram quando me viu. Ela me reconheceu. – Ai meu Deus.

Parte de mim ficou feliz por ter sido reconhecida. Outra parte de mim, mais forte e mais sensata lembrou o que eu realmente fui fazer ali.

- Sou Isabella Swan e gostaria de conversar com você agora, tem um tempo? – continuei séria, tentando esboçar nenhuma reação a não ser avalia-la milimetricamente.

- Claro, por favor, por aqui. – disse meio gaguejante. Jane escolheu esse momento para entrar com o enorme segurança que nos acompanhou na viagem. Ela sabia como fazer um drama nas coisas – Eles estão com você?

- Sim.

Renée nos conduziu a uma área externa, onde tinha uma pequena lanchonete e várias mesinhas. Ela parecia nervosa, como se tivesse visto um fantasma.

- Mãe? Está tudo bem? – perguntou um rapaz loiro, de mais ou menos 15 anos. Ele nos olhava confuso e desconfiado.

- Sim, querido. Essa é Be...

- Por favor, vamos apenas conversar. – cortei não querendo ser apresentada a irmãozinho nenhum.

- Claro. – sorriu meio triste – Querido, está tudo bem. Pode ir.

- Sra. Dywer serei rápida. – disse assim que me sentei – Recentemente você entrou em contato com meu pai, Charlie Swan. Posso saber o motivo dessa ligação?

- Ao longo dos anos, sempre liguei para Charlie para saber sobre você. Não era sempre, mas ligava.

Isso me pegou de guarda baixa.

- Você precisa de dinheiro ou algo assim? – perguntei diretamente.

- Eu não liguei para pedir dinheiro nenhum!

- Acho ótimo. Nós duas sabemos que seu estabelecimento está com algumas dívidas e seria um tanto constrangedor para meu pai ouvir você pedindo algo relacionado a isso. – sorri cinicamente. Eu estava odiando essa mulher. – Nunca mais ligue para Charlie. Para saber de mim ou qualquer outra coisa. Entendeu?

- Mas por que isso?

- Simples. Quando você me entregou recém-nascida para ele, perdeu todos os direitos sobre mim. A sua sorte que meu pai tem um bom coração, mas eu não. Isso eu puxei de você, não é? A crueldade de abandonar uma menina, sua própria filha e sumir no mundo.

- Eu não tinha condições de criar você. – sussurrou meio chorosa.

- Não diga financeiras, porque Charlie tem dinheiro para nadar. Se você não tinha condições, ao menos, viesse me visitar, passasse dias comigo e me devolvesse a Charlie. Muitas crianças são criadas assim e não morrem... – meu veneno estava escorrendo sem piedade – Pensando bem... Charlie fez um ótimo trabalho sem você. – sorri dando meu melhor olhar inocente.

- Bella... Eu era jovem...

- Imatura, inconsequente... Eu sei. Seu problema era bem simples: Fechar as pernas. – cortei irritada – Estou avisando pela última vez, Renée. Não entre em contato com qualquer pessoa da minha família. Não apareça e não se faça de boazinha. Você não tem o direito de bancar a mãe arrependida.

- Bella, eu me arrependo amargamente de ter deixado você. Dói em mim todos os dias.

- Esse é o seu castigo. Conviva com ele. Não posso fazer nada.

Existia algo dentro de mim que era extremamente cruel quando eu me sentia ferida. Renée era a fonte de muitos traumas e cicatrizes que tinha adquirido com o decorrer da vida. Eu nunca iria perdoá-la, nunca iria brincar de mamãe e filhinha.

Reconhecia em mim uma maldade além dos limites. Eu me tornava um ser diabólico quando alguém chegava perto de Charlie para machuca-lo. Ele nunca superou o desaparecimento dela. Ele não casou-se novamente e me criou sozinho, dando o seu melhor.

Eu seria capaz de destruir esse pequeno negocio com um porrete de tanta raiva que borbulhava no meu sangue toda vez que pensava em seu casamento e novos filhos. Adolescente inconsequente maldita.

- O que vamos fazer agora? – Jane perguntou depois que caminhamos um bom tempo em silencio.

- Comer alguma coisa e fazer compras. Eu prometi a Charlie uma camisa autografada. – respondi entrelaçando nossos braços.

O sorriso dela foi enorme e brilhante e também começou a pular e falar sobre as melhores lojas que tinha pesquisado.

- Você sabe que foi um pequeno demônio com sua mãe, não sabe? A mulher ficou assustada.

- Eu sei. E sinceramente? Me sinto melhor. Charlie é tudo que preciso na vida.

- Então vamos encher papai Charlie de presentes! Ele merece o mundooooooooo – rodopiou feliz com os olhos brilhando para as vitrines.

Ela tinha razão. Charlie era meu mundo.

N/A: Essa Bella não é a pessoa mais doce do universo. E agora? Vocês sabem que Bella foi criada apenas por Charlie ~ alguém aí se candidata para ser a nova senhora Swan? ~ e também criou laços afetivos muito forte com Jane. Onde será que isso tudo vai chegar? Se não quiserem esperar até segunda-feira para o capítulo 3, só deixar reviews. Somando 25 eu volto xD