Cumulonimbus praecipitatio
1 Capítulo único
Notas iniciais
O céu cinzento parecia refletir meu estado de espírito como se o mundo fosse um espelho da minha alma. Sempre gostei de assuntos místicos e desde pequeno acreditava que, quando meu humor encontrava seus pontos baixos, o mundo pequenino de minha cidade média se apiedava de meu sofrimento e amenizava as cores ao meu redor para que nada de vibrante pudesse me arder nos olhos.
No fundo, sabia que era uma crença besta, mas era uma crença que me aquecia um pouco o coração quando nada mais era capaz de servir de consolo. Por isso, ao pisar na rua e perceber que, naquele dia fatídico, o céu se acinzentava aos poucos, anunciando a chegada de uma tempestade, senti no fundo do estômago que algo estava vindo em minha direção para me derrubar da estabilidade que havia, a muito custo, consquitado naquelas últimas duas semanas.
É sempre assim, não é mesmo? Você cansa de chorar no seu quarto, com as cortinas fechadas e decide abri-las, tomar um banho, botar um perfume e marcar todos aqueles compromissos e idas a médicos que você vinha adiando há meses. Você faz aquela faxina no quarto e descobre roupas que não usava há semanas porque sequer lembrava que ainda existiam. Tira a poeira de livros acadêmicos que teriam ajudado muito no semestre recém-finalizado e decide que vai recuperar o tempo perdido se lamentando debaixo dos lençóis.
Por um tempo, você vê que está tudo funcionando; o médico passa uns exames e você faz todos eles. A matéria que estava acumulada de repente começa a tomar forma nos fichamentos que você vem fazendo e sua mesa está tão organizada que dá dó não sentar ali todo dia para uma leitura agradável na companhia de um chá preto ou de um café forte.
O sol bate na sua pele e você sente a vitamina D sendo sintetizada e te enchendo de energia com cada pulsar do sangue nas suas veias e você até decide gastar um pouco daquele dinheiro guardado — por que não? — em um corte de cabelo novo, para marcar uma virada na vida. Nova página, novo eu.
É, realmente está tudo indo bem. Você está até acordando um pouco mais cedo e conseguindo fazer um caminho mais longo até a padaria de manhã para fazer um exercício e sentir menos culpa pelas noites que você passou tomando sorvete do pote ou comendo uma pizza gigante sozinho.
Mas a vida não é feita de estabilidade e uma pessoa não muda da noite para o dia, não é mesmo?
Eu certamente não esperava encontrá-lo naquela parte da cidade. Quer dizer, eu o conheci em uma parte muito diferente e, quando estávamos juntos, ele nunca aceitava me acompanhar em meus programas simplórios no bairro onde nasci.
Dizia que cafés são coisa de pré-adolescente romântica, que bibliotecas são para CDFs e que as praças não eram assim tão interessantes de se observar, mesmo que toda semana eu chegasse com uma história diferente do que havia acontecido enquanto eu fazia desenhos de observação sentado em um banco perto dos pombos e das pessoas.
E ainda assim, lá estava ele, com o braço segurando Margot pelos ombros, sorrindo para ela ao seu lado, no meu café preferido. No cantinho onde eu sempre sentava.
Nossos olhos se cruzaram e, em pânico, fiz a melhor expressão confusa que fui capaz. Torcia para que não me reconhecesse sem os cabelos longos. Havia os cortado e pintado de uma cor mais escura justamente para que ele não pudesse me reconhecer na rua, para que não tivesse mais chance de sequer chamar meu nome. (Não que ele o fosse fazer, não nutria mais esperanças tão vãs).
E ainda assim, ele pareceu fazer menção de levantar. Pareceu fazer menção de abrir a boca para dizer algo. Afrouxou os braços em torno de Margot, ainda com os olhos grudados em mim.
Me permiti apenas uma breve pausa, um momento de choque pelo contato visual, mas continuei andando em meu ritmo, agora um pouco mais lento. Não tinha como passar para o outro lado da rua, senão daria muito na cara, então segui em linha reta. Ia passar ao lado dos dois, então virei o rosto para frente e ergui o queixo, mas por dentro tremia e meu estômago dava nós tão violentos que achei que fosse desmaiar ou vomitar ali mesmo na rua.
— Guilherme? — fechei os olhos, sentindo a bile no fundo da garganta e a queimação familiar do choro tomando meus olhos por detrás das pálpebras. Continuei andando e ele chamou mais alto. — Guilherme!
Virei, com a expressão num misto de confusão e desgosto e devolvi:
— Eu? Acho que você me confundiu, moço… Meu nome é Felipe.
E virei antes que ele pudesse me chamar de novo.
Quando olhei para o céu, com os olhos úmidos e andando o mais depressa que podia, senti as primeiras gotas da chuva em minhas bochechas. As nuvens tinham a cor de chumbo e pareciam tão pesadas quanto meu coração se sentia depois de tão fugaz reencontro.
Minha estabilidade era uma ilusão. Assim como a ilusão que já tivera um dia que Yago me amava. A ilusão que tinha de que o havia superado.
De que não o amava mais. Mas amava.
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