Cumplicidade Amorosa
18 Uma Reflexão Sobre a Vida
Notas iniciais
POV´s Joaquim
– ISABELA – grito em plenos pulmões.
– Ficou louco Joaquim? Deu para acordar gritando – Júlia reclama chutando minha perna
– Isabela – repto suando frio.
– Tá explicado. Você teve um pesadelo com a mocreia?
– Pesadelo? Não! Eu a amarrei, eu... Eu
– Cara, você pirou de vez! Todo mundo está dormindo e a berinjela também.
– Berinjela? – pergunto tentando compassar minha respiração.
– Isabela-Berinjela, rima... – diz tentando explicar – cabelo roxo...
– Você viaja muito maninha – falo bagunçando seus fios.
– Eu não sou mais criança, já tenho idade para namorar!
– E com quem você pretende namorar em Julinha? – pergunto sem esconder a raiva em minha voz.
O mundo está mesmo perdido, a menina mal entra na adolescência e já quer sair pegando geral.
– Não te interessa, agora volta a sonhar com a sua preciosa Isabela, que eu vou beber água.
Ela se levanta da cama, mas eu puxo seu pulso. Júlia cai na cama e me encara com raiva, ela chuta minha perna com mais força que das ultimas vezes...
Irmãzinha agressiva essa minha
– Claro que me interessa! Sou seu irmão mais velho, é minha obrigação cuidar de você.
– Posso me cuidar sozinha, não sou um bebe e nem preciso que troque minhas fraldas.
– Aposto que é o atirado do André – resmungo – aquele cabeça de tomate vive dando em cima de você.
Assim como o cabelo do André, Júlia fica vermelha como um tomate.
– Nada a ver, vai cuidar das suas gêmeas que você ganha mais.
– Minhas gêmeas? Depois quem viaja sou eu! Eu namoro a Manuela, caso não tenha percebido.
– Vai mesmo mentir para sua irmã? Que coisa mais feia Joaquim! Está mais que na cara que rola alguma coisa entre você e a Isabela.
Essa pirralha, sempre se metendo em assuntos que não a interessam... De quem ela puxou isso?
– Júlia, você não queria beber água?
– Não mais, agora vamos falar sobre as gêmeas, quem é mais bonita?
– Elas são exatamente iguais – respondo como se fosse obvio (e é)
– Tenho certeza que para você as duas são completamente diferentes – diz calmamente.
Minha irmã sai do meu colo e senta-se ao meu lado, ficamos cara a cara. Ela amadureceu tanto nesses anos, sua personalidade e aparência mudaram completamente.
Penso em minha resposta, de fato as duas são tão diferentes que eu não acreditaria que são gêmeas idênticas se não soubesse.
– Manuela – digo com sinceridade
– Tem certeza? – me lança um olhar divertido.
– Absoluta, não que a Isabela seja feia, mas com tantos anos de maus tratos seu corpo sofreu muito.
– Então você repara no corpo dela? – instiga maliciosa
Agora quem está parecendo um tomate sou eu!
– Não nesse sentido – engulo seco
– Vou fingir que acredito, fala a verdade Joaquim... O que você sente pela gêmea malvada.
Respiro fundo e encaro o teto do quarto, onde o mofo já toma conta.
– Não sei
– Como não? Prometo que não vou contar para ninguém.
– Eu confio em você mana, mas sinceramente não sei.
– Você está confuso, não sabe se ama a Manuela ou a Isabela!
– Claro que não – respondo de imediato – eu não tenho duvidas que amo a Manu tanto quanto a mim mesmo, mas me sinto estranho perto da Isa.
– Entendo, talvez isso seja pena. Você sabe... Depois de tudo que aconteceu com ela, é natural que você sinta necessidade de protegê-la, mas não pode dar tanta corda assim... Vocês estão tão grudados que parecem um casal.
Não é que a pirralha sabe tudo o que se passa na minha cabeça?
– Valeu maninha! Eu preciso ver a Manu, sinto que estou deixando ela de lado nesses últimos dias.
– E estar!
– Vou nessa – beijo sua bochecha e saio correndo
– Aonde você vai? – ela grita
– Ver minha paixão – grito de volta
– De pijama? – grita novamente.
Como se eu tivesse um freio embutido, paro instantaneamente, mas não percebi que Isabela passava por ali e acabo esbarrando nela.
Nos dois vamos ao chão, ela por cima.
Encaro seus olhos verdes, o brilho deles é diferente dos da Manuela, esses brilham mais.
Sinto novamente a tão estranha sensação
Seus lábios rosados estão tão perto que posso ouvir o som acelerado de sua respiração
Percebo que sua boca está marcada, como se alguém tivesse a amordaçado.
– Se peguem logo – Felipe aprece na sala coçando os olhos.
Saio debaixo de Isabela e encaro o pirralho com ódio nos olhos.
– Mal acorda e já está pegando geral né mano? – ele diz com sarcasmo
– Sempre tão idiota Felipe
– Sou seu irmão, o que esperava de mim?
– Você não tem noção de o quanto ficou idiota no decorrer desses anos – falo irritado
– Apenas segui seus passos.
– Meus passos? Pirou imbecil, você mudou da agua para o vinho, e ainda não sei o porquê!
– Tem certeza que não sabe irmão? Quer que eu revele para todos nessa sala o motivo?
Fico completamente paralisado, ele não seria capaz! Ninguém pode saber o que ouve, teriam vergonha de mim!
Eu fui um completo idiota, e não posso reclamar do Felipe, como ele mesmo disse: “Estou apenas seguindo seus passos”.
– Isso é coisa do passado, eu mudei Felipe, e me arrependo da burrada que fiz – digo com sinceridade.
– Seja lá o motivo da briguinha idiota dos dois, eu estou faminta – Isabela interrompe.
– Pela primeira vez na vida eu concordo com a berinjela, chega de bobeiras e vamos comer – diz Júlia caminhando até a cozinha.
– Isabela me ajude a por a mesa, os meninos irão lavar os pratos.
– Sonha que eu vou lavar prato Julinha – Felipe fala debochado
– Dessa vez to com o pirralho, lavar louça é um saco, quebra esse galho vai Juju – sei que ela odeia quando eu a chamo assim.
Minha irmã nos encara com seu olhar mortal. É como dizem “Os anos passam, mas certas coisas nunca mudam”.
– Sim senhora – eu e Felipe dizemos em coro.
– Assim está melhor! – ela sorri sínica e volta sua atenção para o café da manhã.
Em silêncio, começamos a lavar pratos, talheres e copos. As garotas fritavam ovos e faziam torradas, ou pelo menos a Júlia. Isabela apenas reclamava e punha os pratos na mesa.
– Bom dia família – Anna fala quebrando o gelo. – o que tem para o café?
– Por enquanto nada – digo lavando um garfo – pega um pano e ajuda o Felipe a secar a louça.
– Eu tenho cara de que faz tarefas domesticas? – resmunga batendo o pé
– Não, mas agora você estar na casa dos Vaz, e aqui ninguém faz corpo mole – minha irmã sempre tão delicada quanto um coice de cavalo.
– Deixa de frescura pirralha e vem me ajudar logo – Felipe reclama
– Vocês são um bando de grosseiros, nem sabem como tratar visita – fala (tentando) empurrar um banco do balcão até a pia.
Ela sobe no banco e começa a secar os pratos, de cara amarrada.
E o silencio volta a reinar no ambiente, deixando o clima tenso. Fito pelo canto do olho Isabela, nossos olhares se cruzam, mas ela rapidamente o desvia...
Termino de lavar toda louça e vou até meu quarto, troco de roupa e penteio meu cabelo.
Coloco um casaco de capuz e pego uns trocados em uma caixinha que eu e meus irmãos guardamos trocos.
– To saindo – falo de cabeça baixa e mãos nos bolsos do casaco.
– Posso saber para onde? – pergunta Júlia
– Casa da Manu – falo abrindo aporta, mas antes de batê-la ouço um dos comentários nada confortadores do Felipe;
– Vocês são tão idiotas, ainda acreditam que o Joaquim vai mesmo à casa da Manuela.
– E porque ele mentiria para seus próprios irmãos? Somos todos cúmplices, não existem segredos entre-nos!
– Sempre tão ingênua Júlia, ele é um traidor!
– Se o Joaquim é um traidor, definitivamente ele e a Manuela são um par perfeito – ouço a voz ríspida de Isabela.
Preferi sair antes que escutasse mais insultos dirigidos a mim, por um lado o Felipe tem razão, por outro eu mudei e não preciso que fiquem jogando álcool em minha ferida.
[...]
Depois de pegar um ônibus e caminhar um pouco chego até a casa da Manu. Sempre quando me aproximo dessa mansão um arrepio me percorre todo corpo
– Bom dia, gostaria de falar com Isabela Junqueira – cumprimento Navarro.
– Entra garoto – ele sorri e abre o portão.
Eu e Navarro nos tornamos bem próximos no decorrer desses três anos, algumas vezes ele abria exceções para eu ver a Manu sem que a Regina soubesse.
Descobri que ele é um cara bem legal, tirando o fato de fazer parte do sequestro da minha namorada.
Percebo que a cenoura vingadora está tomando banho de sol, aproveito e passo de fininho pelos arbustos e escalo a janela do quarto da Manuela (sim, eu desenvolvi uma técnica para isso).
Encontro minha princesa com um olho roxo e a boca sangrando em cima da cama.
As lagrimas caem dos meus olhos copiosamente... O amor da minha vida morreu?
– Acorda Manuela – sussurro sem conseguir me mover.
Seguro sua mão gélida e entrelaço nossos dedos, ajoelho-me ao lado de sua cama e choro baixo.
Meu bem mais precioso... Foi tirado de mim.
– Joaquim? – ouço sua voz baixa
– Meu amor? Você está viva? – pergunto acariciando seu rosto angelical
– Claro que sim – ela tosse com fraqueza – você precisa achar a Isabela, rápido.
– Senão ela vai matar sua mãe – beijo sua bochecha
– Não, se a Isabela não aparecer em três dias eles vão me matar – fala quase fechando os olhos.
Uma agonia me percorre, vão matar minha namorada, caso eu não entregue sua irmã gêmea, que morrerá em seu lugar;
– Não pense bobagens princesa, eles precisam de você para se passar pela Isabela.
– Não mais – fala em um fio de voz – Joaquim eles estão me matando aos poucos.
Faço cara de interrogação
– As mudanças de personalidade, os problemas de saúde, a depressão pela morte da minha avó não é a única culpada – fecha os olhos – a Regina está me drogando, colocando drogas nas minhas bebidas desde a morte da minha avozinha.
Por um momento meu coração parou de bater, sinto uma tontura forte na região das têmporas.
Tudo ficou escuro, simplesmente isso.
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