Culpa
1 Capítulo Único
Notas iniciais
POV Leo
Ele era assustador, mas não era uma má pessoa. Consegui faze-lo rir algumas vezes, o que é ótimo, por que sinto como se estivesse fazendo uma boa ação. Constantemente eu o chamava para me ajudar nos reparos do navio, para tentar animá-lo um pouco, e hoje, era um desses dias.
Nós (le-se eu, pois Nico só me passava as ferramentas) já havíamos terminados de consertar o barco, então dividíamos um brownie furtado. Tudo estava perfeito. Ríamos de nossos rostos sujos, enquanto tentávamos limpá-los.
— Você ainda está sujo aqui! — disse Nico, em meio as risadas, apontando para a própria bochecha.
— Você também! — falo rindo.
— Aqui? — diz Nico esfregando o rosto.
— Não mais pra baixo.
— Aqui?
— Vem cá.
Ele se aproxima de mim e eu estendo minha mão para tirar o sujo. Toco a bochecha dele e tento limpar bem de leve para não machucá-lo, aos poucos, foi se tornando um movimento mais lento, como uma carícia. Quando percebi isso, senti minhas bochechas esquentarem muito. Nico pelo jeito também percebeu, mas reagiu mais tranquilamente ele só afastou o rosto e desviou o olhar para uma janelinha redonda do navio. Queria realmente ter dito algo inteligente depois disso, mas só consegui falar "éééé..." em uma idiota tentativa de mudar de assunto. Falhei muito.
Nico se levantou e estendeu a mão para me ajudar.
— Vamos, devem estar nos esperando. — diz ele, sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
Aceito a ajuda e juntos caminhamos pelo corredor que leva para a "sala de jantar" que é usada também como "sala de reuniões". Ao chegar lá me sentei ao lado de Piper, e Nico ao lado de Hazel. Me senti um pouco desapontado, talvez uma parte de mim quisesse que escolhesse o lugar ao meu lado.
O jantar foi silencioso, afinal, não havia acontecido nenhum ataque durante os três últimos dias (os outros diziam que isso era suspeito, mas eu gostava, porque é bem melhor consertar coisas tranquilamente, do que tendo que espantar grifos ao mesmo tempo). E também estava quieto por causa do luto de... De... Bem, todos já sabem: a queda de Annabeth e Percy no Tártaro. O pior, era que isso era minha culpa, salvei Frank e Hazel, mas com isso, o grupo perdeu dois membros muito importantes.
Terminei de comer e me arrastei até minha cabine, a culpa me consumia cada vez mais. Por mais que todos dissessem que não foi por minha causa, minha mente cismava em dizer que fui eu, que se não tivesse aberto o maldito biscoito, Percy e Annabeth ainda estariam aqui.
Depois de um certo tempo coma cara enfiada no travesseiro da cama, escuto batidas na porta.
— Leo? — chama Nico — Posso entrar?
— Eu... acho que sim.
Ele abriu a porta e me olhou, erguendo uma sobrancelha.
— Você "acha"?
— Pois é, — digo — depois de um tempo se auto-culpando acaba-se perdendo a certeza das coisas.
Ele riu e me encarou.
— O que você falou não tem o menor sentido.
— O sentido é outra coisa que se perde com a culpa.
Então ele ficou sério, assumiu uma expressão meio sombria.
— Na verdade não. — diz — Ela nos deixa loucos e insanos. Porque fica cada vez mais difícil viver com a sua consciência afirmando que é tudo por sua causa.
— Como você sabe disso?
— Porque passei dois longos anos me culpando pela morte de Bianca.
Naquele momento me calei, não sabia exatamente o que dizer. Afinal, o garoto estivera sofrendo por anos.
— Quer dizer que... você é louco? — sei que essa não era a pergunta certa a se fazer, mas fiquei curioso.
— Não. — respondeu — Quero dizer, não sei, afinal, um louco também diria que não é louco — eu ri com o comentário idiota — Mas eu tentava... me suicidar. É meio... estranho contar isso para alguém. Não se assuste por favor, não sou mais tão depressivo a esse ponto.
— Ah.
Eu não sabia que Nico foi suicida uma época. Isso mudava a minha visão dele de "um garoto quieto, tímido e tristonho" para "um garoto emo, depressivo e suicida". Mas mesmo depois de dizer isso ele sorri.
Entendo esse tipo de pessoa que mesmo triste consegue sorri, pelo simples fato que sou assim. Por mais que isso seja sem noção, devíamos ser admirados, porque mesmo sofrendo, continuamos com a porra do sorriso no rosto.
Por falar em rosto, acabo de perceber que estou bem mais próximo do que deveria de Nico. Quero que ele me beije. Espera, que tipo de pessoa eu sou para querer que meu amigOOO (ênfase no "o") me beije? Sinto meus batimentos cardíacos acelerados e minhas bochechas muito quentes. Meus olhos observam aqueles lábios pálidos, e Nico se inclina mais para perto. Não sei o que dá em mim, me afasto e abaixo a cabeça, pois não quero que ele me veja assim, vermelho como um tomate.
Nico começa a rir, olha para mim e me pergunta:
— Você já beijou, Leo?
Que tipo de pergunta foi essa? Não queria, mas acabo falando a verdade.
— É... não.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Você já quis saber como é?
— Hum...
— Posso considerar isso como um sim?
— Hã? Acho que sim.
Então ele me beijou. Admito que fiquei surpreso, mas de um jeito bom. Os lábios de Nico tinham um gosto maravilhoso, e eu me sentia como se estivesse sendo arrancado para uma outra dimensão, um lugar tranquilo e ao mesmo tempo frio e morto.
Nos separamos pela falta de ar. Nico roçou os lábios nos meus e os juntou em um selinho rápido. Nossa, ele beija bem.
— Obrigado por tentar me fazer sorrir várias vezes, por me fazer feliz, por me mostrar o lado bom da vida. Obrigado por ser você.
— Obrigado por me fazer ver como é bom viver, Nico.
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