Culpa.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A passadas lentas e dificultosas, seguia em direção ao quarto no último andar. Uma espécie de punição imposta por si, mas não que adiantasse ou cortasse o mau plantado por si no passado... O lance de escadas pela metade havia feito de sua respiração um fio delicado, tal como seus movimentos imprecisos. Tolice acreditar que quando o lance de escadas acabasse ficaria bem, tolice.
Agora... Agora... Agora...
Tão logo se encostou à parede de tijolos puídos, a mão no peito por sobre o coração, uma fisgada mais dolorosa e a vã esperança de que ficaria bem.
- Misericórdia... — a voz cansada e maldita, deixou os lábios murchos e enrugados.
Punição... Punição... Punição...
O ar de repente escasso, saiu em golfadas do pulmão doente. O medo gritante o fazia olhar desesperado para os lados.
Apertou o terço em sua mão e sentiu a cruz que trazia pendurada no pescoço, queimar a pele por cima da roupa pesada e negra. O corpo balançando sem ritmo, a voz falhada e desesperada... Uma oração manchada.
- Perdão, Pai...
O espaço entre uma parede e outra ficara estranhamente menor, os degraus parecendo dentes afiados querendo o engolir, o arrependimento tardio e sem valor.
Arrependimento... Arrependimento... Arrependimento...
Ignorando os sussurros gritantes que enchiam seus ouvidos, se obrigou a caminhar novamente. O que poderia ser pior que seu arrependimento? Os passos voltaram assim como a batida do coração já operado, e, pagava agora os erros que cometeu quando jovem... Ah, se soubesse... Ah, se pudesse...
- Padre Olavo?
Ouviu ao longe a voz de um coroinha, moveu o corpo devagar e fitou o pequeno menino loiro:
- Tudo bem com o senhor? — a voz infantil trouxe lembranças. Como queria esquecer!
Por favor... Por favor... Por favor...
- Me perdoa, filho?
Se pronunciou e com mais esforço do que pensou que usaria, esticou a mão e tocou o ombro do garoto.
- Perdoar? — um sorriso sarcástico se formou nos lábios finos do menor.
O velho inclinou a cabeça para o lado:
- Filho...? — a voz receosa, arrancou risadas.
- Oh, sim, padre querido! — riu sapeca — Me chame do que quiser. — os olhos passando de um verde oliva para o negro noturno, tal como a voz açucarada que se transformara numa mistura amarga e seca.
Um leve arregalar dos olhos parcialmente tomados pela catarata, um salavanco que poderia rasgar o peito e cuspir o coração igualmente doente no chão de pedras áspera.
- Deus! — exclamou levando a mão até a boca.
Uma risada tão alta quanto o som da respiração do velho:
- Oh, não... — um falso pesar na voz do garoto. — Vou te dar outra chance. — sorriu se encostando na parede. — Pense em alguém expulso por desobediência. — piscou maroto.
- Por mil demônios! — exclamou assustado, arrancou a cruz de seu cordão e estendeu à frente do outro juntamente com o terço que segurava.
- Mil não, apenas um. — e o sorriso jocoso não deixava os lábios do loiro.
- O sangue de Jesus tem poder! — falou tremulo.
- Sim, sim... Pai nosso que estás no céu. — rolou os olhos negros — Sei de cor toda essa bobagem. — suspirou cansado.
- Cristo! - berrou num latim enferrujado.
- Maria, José e a turma toda! — desdenhou rolando os olhos novamente e então um ar sério pairou sobre o menor — Podemos falar sério, agora?
Tão atordoado quanto podia estar, o velho se encolheu e a parede fora seu suporte. Apertou os olhos com força, desejoso de que quando acordasse o outro não estivesse diante de si. Abriu os olhos cinzentos e o que vira fora o menino que um dia cuidara e ensinara sobre o Catolicismo, distorcido à imagem do que sempre temeu.
Maldição... Maldição... Maldição...
Com o coração batendo alucinado no peito, negou freneticamente com a cabeça antes de num rompante de jovialidade, se pôr à correr. As pernas levemente tremulas pareciam se embolar entre si, a respiração perturbada escapando em ofegos... As mãos já sem força se apoiando nas paredes como quem busca impulso para continuar.
Nem percebeu quando, mas alcançou o final da escada e se arrastando o mais rápido que conseguiu passou pelo corredor escuro e frio. Abriu a porta se atrapalhando com a massaneta antiga e enferrujada, entrou afoito e bateu a porta. Trancou-a e para garantir puxou a cadeira de sua escrivaninha, prensando-a abaixo da massaneta. Procurou por seu vidro de água benta e quando o achou, jogou sobre a porta, molhando a madeira velha e ruidosa.
Seu peito parecia fazer uma força anormal para segurar o coração que galopava alucinado, o corpo tremulo e assustado se ajoelhou sentindo dor nas articulações, com o terço seguro num aperto pelas duas mãos, rezou e implorou perdão para o Deus que servia.
Socorro... Socorro... Socorro...
Assustou-se ainda mais quando trovões foram ouvidos, a noite antes repleta de estrelas, agora, macabra e solitária. O vento cortante abria e fechava a janela, em sincronia com os raios e trovões.
Não se atreveu a abrir os olhos, se enrolava nas orações praticamente gritadas... Em vão.
A porta se abrindo lentamente, o fez virar a cabeça para trás, temeroso. Andando majestoso o garoto adentrava o recinto, sem pressa. Lágrimas desesperadas riscavam a face franzida e a respiração parecia ter parado por um momento.
- Podemos falar sério agora? — tornou a indagar, a voz branda e estranhamente calma.
O velho voltou a negar com a cabeça:
- Tenha misericórdia de mim, Pai! — a voz tremula, efeito do corpo que se balançava na vã tentativa de se acalmar.
- Ele não terá, Ele não liga. — um sorriso maquiavélico no rosto branquinho e sem pêlos de menino.
- Perdão... Perdão... Perdão... Perdão... — falava desesperado. Engatinhou até o menor e se mantendo ajoelhado, implorava um perdão que não merecia.
- Você se perdoa? — a pergunta saiu calma, a voz macia.
Como se a Terra tivesse parado de girar, o velho parou com tudo. Os braços enfraquecidos pelo tempo caídos ao lado do corpo, a cabeça baixa em sinal de desorientação, a respiração cansada:
- Não... — a voz cheia de culpa, a alma parecendo queimar dentro do corpo.
Um sorriso sarcástico no rosto do menino:
- Hm, acho que as criancinhas também não o perdoariam... — o dedo no queixo fingindo o ar pensador — E nem vou falar das prostitutas. — comentou maldoso.
O velho levou a mão até os cabelos brancos e ensebados, os dedos puxando os fios:
- Pare! — pediu desesperado para esquecer os lampejos do passado.
- Pare! Pare! Pare, por favor, tio Olavo! — a voz subitamente infantil adentrara o ambiente.
A menina moreninha encostada no canto do quarto, abaixada contra a parede. O vestidinho branco e rosa, manchado de sangue e os cabelos cacheados bagunçados.
- Clara...? — a voz apavorada deixou a boca do padre velho.
- Por favor, tio Olavo... — os choramingos enchiam o quarto.
- Não! Pare com isso! Tire-a daqui! — o velho implorava.
- Parar? — o garoto se aproximou da menina e tocou seu rosto — Tio Olavo, parou quando você pediu, querida? — a voz doce para com a menina.
- Não. — tristonha respondeu, o olhar meigo dirigido ao tio.
- Por favor, tire ela daqui... — pediu derrotado.
''A principal e mais grave punição é se sentir culpado por algo feito por si no passado.''
O loiro se afastou da menina que ainda choramingava, se aproximou do velho e se pôs ao seu lado.
- Você tirou seu pau sujo dela? Parou de enfiar-se nela quando gritando ela implorava para que parasse? — indagava acusador — E as prostitutas que encontrava naquele beco sujo e escuro atrás da igreja? Não se importou em enterrá-las no quintal das galinhas? Não teve pena das criancinhas do orfanato, padre Olavo? Não pensou antes de...
- Cale-se! — berrou arrancando os fios do próprio cabelo — Eu imploro! Pare...
- Todos os gritos de dor, o choro das crianças que não entendiam o que era aquilo. O medo estampado nos olhos de todos que matou, o desespero das vadias que tentavam fugir de você, a frieza com que fala com sua irmã que chora todas as noites pela filha violentada e assassinada...
- Chega! — implorou chorando. As lágrimas pareciam tão pesadas.
- Uma curiosidade aqui. — fez uma pausa para sorrir maldoso — É bom realizar a missa após foder o coroinha?
Negou com a cabeça desesperadamente:
- Ah, pensei que fosse bom. — suspirou.
O velho desesperado, se sufocava no próprio choro. A menina no canto do quarto choramingava e gritos de mulheres eram ouvidos ao longe... O loiro continuava a falar acusador.
- Me mate... — murmurou derrotado, o velho Olavo — E-eu mereço, me leve ao Inferno...
A gargalhada fria pareceu rachar as paredes:
- Matar-te? — indagou ainda risonho — Porque o faria? — olhou o padre com desdém.
- Eu mereço! — gritou — Eu mereço... — repetiu num fio de voz.
- Sim, você merece. — concordou frio — Porém, cada um tem o Inferno que merece. — falou vago.
O velho levantou a cabeça e fitou o outro indagador:
- Seu Inferno será em terra, velho podre. — declarou indiferente.
Antes que pudesse responder, Olavo viu a sobrinha morta por si quando criança desaparecer, os gritos cessaram, a noite ficara bela novamente.
- M-mas...
- E depois eu sou o malvado... — o garoto falou encarando o teto.
- O que...?
Não conseguiu completar a pergunta, assustado assistiu a ventania passar pelo quarto, assim como a lâmpada piscando e o garoto caindo no chão. O padre levantou e temeroso se aproximou do loirinho que abria os olhos verde-oliva e sorria gentil para ele:
- O que aconteceu...? — indagou sentando no chão — Minha cabeça dói... — reclamou com uma careta.
- Gustavo?! — o velho praticamente gritou, assustando o menino.
- Sim, padre! — respondeu prontamente, se levantou com um pouco de dificuldades e confuso encarava àquele que tinha como exemplo.
- Oh, Deus! — exclamou e riu — Devo mesmo estar ficando velho! — ria-se.
- Padre...? — o pequeno não entendia nada.
- Tudo bem, filho. — falou calmo — Vamos rezar que esse velho aqui precisa!
E assim a noite passou, após rezar bastante acompanhado do loiro, realizou a missa e quando já passava da meia-noite foi se deitar, rezou novamente e após tomar um gole d'água, fechou os olhos e sentiu o sono chegar. Tranquilo e despreocupado dormiu.
Cobrança... Cobrança... Cobrança...
Preso dentro do sono, se agitava na cama e sentia todas as suas vítimas o torturando, o fazendo sentir o que sentiram. Queria gritar, mas a boca parecia costurada com o nó do desespero. A cama velha rangia e os lençóis brancos estavam empapados do suor do velho, os olhos tentavam se abrir e sem êxito se sentia agoniado.
Implorava para despertar daquele pesadelo maldito! Ouvia a risadinha da sobrinha que assistia às prostitutas abusando do corpo do tio, o enfiando cabos de vassoura e tacando álcool no corpo velho. Sentira uma dor lancinante quando a primeira puta que matou, riscou um palito de fósforo e tacou em seu corpo que queimava, agora, espalhando o cheiro podre de carne imunda pelos arredores... Conseguiu finalmente gritar com o corpo em chamas.
Acordou chorando numa mistura de todos os sentimentos.
- Não aguento... Não aguento... — levantou da cama cambaleante, saiu do quarto batendo a porta.
Pelos corredos cortava a escuridão, enquanto corria para fora da casa paroquial. Os degraus da escada rapidamente ficaram para trás, com pressa foi até o quartinho dos fundos e pegou um corda grossa, um banco pouco alto e correu novamente para o quintal;
As vozes em sua cabeça, as imagens, os gritos...
- Chega! — gritava negando com a cabeça.
Culpa... Culpa... Culpa...
Sem jeito algum buscou força nas mãos cansadas para preparar o laço, amarrou uma parte da corda numa árvore que tinha ali, ajeitou o banco e chorando subiu em cima. Só queria que acabasse!
- Pai nosso que estás no céu... — começou a oração, enquanto ajeitava o laço no pescoço.
Orou tudo o que conhecia, tremia, temia...
- Tenha piedade de minha alma, meu Senhor... — pediu por fim, a voz implorativa.
Com os gritos a mil em sua cabeça, pulou do banco e sentiu todo o seu corpo debater enquanto que o ar fugia de si, o olhar perdido anunciava seu fim. O sino tocou como que por ironia, o Sol começava a surgir no horizonte, o corpo pendurado no quintal das galinhas chamou a atenção dos fiéis que foram assistir a primeira missa.
- Meus Deus! — a beata exclamou ao que viu o padre pendurado pelo pescoço.
O tumulto era grande no quintal e quem via não acreditava.
- Que Deus tenha piedade dele! — um homem ali falou.
Gustavo que estava ao lado deles sorriu de canto e disse:
- Ele não terá, Ele não liga. — falou sarcástico, sorrindo.
Todos olharam assustados para os olhos subitamente escuros daquele loirinho angelical.
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