Cullen

1 Por Carlisle Cullen...


Eu lembrava de seu cheiro, de seu cabelo dourado, de seus olhos azuis arteiros que me investigavam quando pisava em casa; lembrava de sua gargalhada e da forma que dançava ao redor do fogo, lembrava de como cuidava de mim e de como me pediu para ficar em nosso lar aquela noite.

Poucos se importam com quem eu era antes de ser transformado, na verdade, não é uma parte que as pessoas conheçam, ser o patriarca dessa família me trouxe responsabilidades e uma delas é ser ‘’frio’’, eu preciso ser forte, por eles, por cada vampiro que se juntou à mim nesses séculos; ouço todos se divertindo na sala, ouço algum plano mirabolante da Alice, plano esse no qual não presto atenção, minha atenção está presa no colar relicário dourado, a luz do sol refletia nele como refletia em minha pele, deveria o dar para meu verdadeiro amor, a menina da qual nunca esqueci e não, não estou falando de Esme, falo de Samantha Winterburg e é ela à quem meu coração pertenceu e sempre pertencerá.

~~

Tudo começou quando éramos crianças, Sam era alguns anos mais nova que eu, tínhamos seis anos de diferença, mas nem por isso era mais cautelosa ou medrosa, sua casa era ao lado da minha, nos víamos todos os dias e eu adorava, seu cabelo dourado descia em caracóis por suas costas e reluzia como ouro, seus olhos azuis brilhavam como safiras, seu corpo era perfeitamente simétrico e quando usava seu vestido azul marinho parecia uma boneca, se bem que aos meus olhos ela sempre seria uma boneca.

Naquela tarde eu havia fugido das tarefas que meu pai me impunha, caminhávamos de mãos dadas pela floresta em passos sincronizados e dançantes, o sol nos iluminava fracamente por entre as árvores e o cheiro do cedro impregnava em meu nariz. Sabe, em 1663, Londres não era o lugar mais cheiroso do mundo, mas nenhum lugar era de fato, foi uma época bem porca e fedida para a humanidade, o melhor lugar para passear era a floresta.

—Já pensou viver para sempre, Carl?- sua voz soava como um coral de anjos ao meu lado

—Viver para sempre?- Sam volta e meia vinha com possibilidades estranhas, viver para sempre era uma, bem, eu achava, na época.

—É, ver o mundo mudar, talvez um tempo onde você não precise se arriscar durante a noite para caçar criaturas- inclinou a cabeça para o lado, sua expressão era de preocupação

—Eu não me arrisco- tentei parecer confiante para ela

—Diz isso porque ainda não aconteceu nada de grave- cruzou os braços em frente ao peito

—E nem vai acontecer- peguei sua delicada mão e a girei- Vamos casar, Sam- sussurrei próximo ao seu rosto, esse pedido era contínuo, a primeira vez que o fiz ainda nem tínhamos se beijado ainda

—Você me diz isso faz anos- resmungou virando o rosto, o segurei com os dedos e a fiz me encarar, selando nossos lábios na sequência, sua boca era macia e se encaixava perfeitamente na minha

—Vamos casar na primavera, juro que sim- prometi dessa vez, ela roçou seus lábios no meu calmamente

—Vou acreditar em você, Carl- me abraçou, seus abraços eram como um refúgio do qual não queria sair, nossos corpos quentes tocavam um no outro e nos aquecíamos; beijei seus cabelos demoradamente, a prendendo em meus braços por alguns minutos.

—Eu preciso voltar agora, querida- anunciei pesadamente- Não consegui fugir de todas minhas tarefas- sorri e ela repetiu o ato fracamente.

Nossos passeios eram cursos mas cheios de amor, Samantha era filha de um comerciante e eu era filho do pastor, muitas mulheres procuravam um casamento com um homem de fé, como a maioria dos homens adorariam casar com a filha do comerciante, mas eu e ela não nos importávamos com os dotes ou sobre o quanto o casamento seria vantajoso, só queríamos um ao outro, era tudo que bastava, não precisávamos de muito, poderíamos ter pouco e seríamos felizes. A igreja de meu pai era como a maioria, estrutura de madeira, cor branca, assoalho e bancos longos divididos em dois grupos, a brisa de outono invadia o local com certa violência, logo seria inverno e depois seria meu casamento, ela entraria linda pela porta de arco, como um anjo iluminado e cheirando à flores, diríamos sim em frente ao altar e meu pai abençoaria nossa união.

—Sonhando, meu filho?- papai era um senhor de idade, seus cabelos, que uma vez já foram dourados, agora estavam brancos e seus olhos azuis estavam rodeados de rugas e sua testa estava repleta de linhas de expressão

—Sam e eu casaremos na primavera- anunciei sorridente

—Já era tempo- ele riu, meus pais adoravam Sam e viviam dizendo que teríamos lindos filhos, ter um filho com ela era um dos meus maiores desejos- Logo você assumirá a igreja e terá meus netinhos- comemorou- Ela é a mulher da sua vida- papai tinha razão, Samantha Winterburg era e sempre seria a mulher da minha vida.

Minhas obrigações na igreja eram poucas, eu precisava organizar a igreja, os sermões e ajudar à escrever-lhos, fazia alguns meses que eu havia começado a sair caçar as criaturas com meu pai, logo iria sozinho e eu seria o responsável pelas mortes, isso me aterrorizava, porém, para a sorte dos acusados, eu preferia pensar melhor sobre as culpas ou não, imagine colocar alguém na fogueira porque consegue tingir a lã da ovelha? Loucura não? Eu conseguia ter sangue frio e colocar fogo em alguém visualmente inocente.

*

Era noite, o vento castigava a cidade, o inverno acabava de começar, o frio corria pelas cidades nos castigando, meu grupo andava agasalhado e munidos de tochas, procurávamos vampiros pelos becos, vez ou outra encontrava um mendigo implorando por comida e alguns doentes implorando a morte, eu não conseguia os matar simplesmente por serem doentes, meu anseio era os cuidar, os curar, mas não podia fazer.

Entrei num beco, o fogo assustou um homem que estava ajoelhado bebendo de um homem, o sangue corria pelos cantos de sua boca, seus olhos brilhavam em vermelho vivo, seu cabelo castanho estava bagunçado, era longo, mais longo que o meu e estava porcamente preso; ele me olhou e rosnou, seu rosnado atravessou minha alma arrepiando meu corpo

—Você queimará demônio!- gritei apontando a cruz para o ser que se erguia calmamente largando o corpo nas pedras, ele riu, uma risada misturada com deboche, a criatura correu em minha direção, senti seu corpo se chocar com o meu, minhas costas bateram contra a parede do beco, senti uma queimação na barriga, toquei onde doía, senti meus dedos molhados, era sangue, se aquilo não me matou foi porque não quis.

—Carl!- Sam gritou quando me viu chegando em casa carregado pelos que me acompanhavam- O que aconteceu?- perguntou quando se aproximou, o sangue havia embebido a camisa

—O vampiro o cortou com um vidro- Samuel disse para a acalmar, fui levado para dentro, tiraram minha camisa e limparam a ferida, Sam costurou calmamente o corte, ela era boa em fazer suturas, melhor que eu depois da faculdade, acho que nunca alcançarei tamanha perfeição em suturas e era puro talento, ela nunca havia aprendido a fazer aquilo, ela apenas sabia fazer.

—Não precisava, meu amor- acariciei seu cabelo enquanto Sam me olhava preocupada

—Você precisa parar de ir fazer essas caçadas!- resmungou enquanto colocava uma compressa em cima do machucado

—Eu vou parar- me olhou desacreditada- Depois que a cidade estiver limpa- expliquei num meio sorriso

—Você está rindo, eu podia ter perdido você- segurou minha mão com força e a beijou

—Mas não perdeu- consegui me movimentar e sentar na cama- Venha cá- abri meus braços para a abraçar, a encaixei ali, seu corpo junto ao meu era a única cura que eu precisava.

Um mês passou rápido, a primeira camada de neve caía pela cidade, o tempo estava nublado e cinzento, eu passeava com Sam pelo parque, seu vestido verde serpenteava pela neve fina e ela sorria para as crianças que brincavam ali, a ferida em meu peito havia virado apenas uma linha vermelha que coçava vez ou outra

—Já pensou quando forem os nossos?- sussurrei em seu ouvido

—Quantos pretende ter?- me olhou curiosa e amorosa como sempre era, a beijei, por mim teríamos quantos filhos fossem possíveis, ela era a mulher da minha vida- Mamãe convidou sua família para jantar lá em casa, cordeiro com batatas- comunicou sorridente

Eu fui jantar aquela noite em sua casa, minha sogra preparava maravilhosamente cordeiro, o sabor era singular e muito bem feito, as batatas eram saborosas e muito bem aromatizadas, era a família perfeita da qual eu ansiava por fazer parte. Depois do jantar, sentamos na sala para conversarmos, trocar ideias sobre o casamento que se aproximava à galope, 1663 seria o ano mais feliz da minha vida e eu estava preparado para isso.

—Terei uma última caçada antes do nosso casamento- falei enquanto andávamos para minha casa, meus pais haviam ido na frente e Samantha, muito solicita, insistiu em me acompanhar, mesmo que esse fosse o meu dever como cavalheiro

—E quando será?- arrumou o xale que cobria seus ombros, ele era de tricô e sua cor era branco

—Em um ou dois dias- passei meu braço pela sua cintura e a puxei para perto para mais um de nossos beijos

—Carl, eu estava pensando...- começou quando nos separamos, suas mãos apoiadas em meu peito, seu rosto olhando a neve que começava descer vagarosamente

—No que pensava, amor?- tirei uma mecha loira perdida em seu rosto

—Que nos vamos casar e eu queria fazer uma coisa antes- o que ela sussurrou em meu ouvido na sequência é uma frase que prefiro guardar apenas para mim, Sam me olhou com seus olhos grandes e pidões, corremos em direção ao galpão da igreja, ali, no escuro, no meio das palhas e madeiras, consumamos nosso amor, esquecemos do frio, tudo que havia era o calor de nossas peles uma contra a outra, nossas respirações misturadas e beijos apaixonados, beijos que nunca consegui reproduzir com Esme. Passamos a noite juntos, como marido e mulher, por mais errado que possa parecer aos olhos alheios, era nosso desejo, nos desejávamos como loucos e quase colocamos aquele lugar de cabeça para baixo, era errado perante a igreja, mas, como o conhecimento que tinha, imaginava que deus fosse perdoar dois jovens amantes.

Voltamos escondidos para nossa casa antes do dia raiar, a neve havia aumentado durante a noite e foi a melhor desculpa que podíamos usar, ela disse aos seus pais que minha mãe havia pedido para ela dormir em minha casa por causa da neve e eu havia dito que o pai dela pediu que eu ficasse na casa dela pelo mesmo motivo. Éramos perfeitos um para o outro.

Papai me entregou a autorização para a caçada naquela noite, seria naquela noite. Enquanto organizava os instrumentos necessários para sair, ouvi um caixeiro-viajante se aproximar, ele anunciava suas bugigangas pela rua, saí para ver, eu precisava de um bom presente de casamento, me aproximei com outros interessados do homem magro e alto, as gavetas de sua charrete estavam cheias de itens, alguns mais úteis que outros; em uma das gavetas um brilho me chamou atenção, era um colar relicário dourado com uma rosa desenhada na frente oval, o abri sem muito esforço, não havia nada além do vazio.

—Esse eu achei, acho que não tem muito valor, custa só uma moeda- o viajante desdenhou num sorriso, tirei uma moeda do bolso e entreguei- Imagino que queira conquistar uma bela dama com esse colar

—Na verdade, já a conquistei- sorri confiante, eu conhecia coisas de valor e podia afirmar que aquele colar não valia só uma moeda, mas não falei nada, a guardei no bolo e voltei para meus afazeres.

Estava sentado afiando uma estaca quando senti o cheiro característico de lavanda, me virei, Sam sorria alegre com seu cabelo solto e vestido lilás, segurava em suas mãos um pequeno ramalhete de lavanda.

—Estou pensando em usá-las no casamento- me estendeu um pequeno galho com um sorriso maior que o rosto

—Ficará perfeito- ela se esquivou de meu abraço e seguiu calmamente até o vaso de flores em frente ao altar

—É errado nos abraçarmos tão perto do casamento- sorriu sarcástica por cima do ombro, caminhei até ela e a abracei por cima dos ombros, Sam segurou em minha mão e suspirou- Promete que tomará cuidado?- me olhou de baixo

—Claro que vou- estendi o galho de lavanda para colocar junto as outras flores mas ela me impediu

—Leve com você, para dar sorte- virou para mim colocando suas mãos em meu peito e logo subindo ao meu maxilar para juntar nossos lábios- Eu amo você, Carl- foi a última coisa que ouvi dela antes de sair.

Alguma inquietude corroía por dentro de mim, algum nervosismo me implorava para dar a volta, mas eu era um Cullen, precisava engolir meu medo e caçar as criaturas junto com os outros, eu já vinha calculando mais ou menos a localização deles e só havia um lugar nesse região onde eles poderiam estar escondidos, nos esgotos; nos dividimos em dois grupos, cada um iria entrar por um lado e atacaríamos juntos o que houvesse ali dentro, as tochas iluminavam mal o caminho que havíamos entrado, quinze homens confiavam em minha liderança e eu não queria os decepcionar, agarrei a cruz dentro de meu bolso e senti o colar balançar contra meu corpo e o pequeno galho de lavanda, eu, por algum motivo, havia os levado junto; estendi a cruz para frente como um escudo e segui caminhando na água podre que corria por ali.

Perto do meio do canal surgiu o que tínhamos ido procurar, cinco vampiros surgiram das sombras da água suja e rosnaram, entre eles estava aquele que me cortou da outra vez, seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo bem feito, suas roupas estavam rasgadas; ele virou para mim e rosnou como fez da outra vez.

—Ataquem!- gritei e assim os homens fizeram, os vampiros também, virou uma correria generalizada naquele esgoto, homens correram para todos os lados numa tentativa falha de escapar, vi Richard ser atacado por um daqueles seres. O medo tomava conta de mim, corria em meu sangue por todo meu corpo, nesse momento senti uma mão segurar meu rosto e dentes cravarem em meu pescoço

—Achou que fugiria de mim?- o cheiro metálico de sangue chegou ao meu nariz, senti o líquido quente correr pelo meu pescoço até chegar em meu peito deixando um rastro de pavor, depois disso apaguei.

Quando acordei ainda era madrugada, o esgoto estava vazio e sentia um calor alucinante percorrer meu corpo, cambaleei para fora do túnel me agarrando no que podia, minha visão estava embaçada e mal enxergava um palmo à minha frente; passei um bom tempo me arrastando pelas ruas até chegar em um campo de batatas, imaginei que ali eu poderia morrer em paz, rastejei por entre as plantas e me deixei cair por completo; o inferno começou no instante seguinte, a onda de calor aumentou e meu corpo parecia pegar fogo, um fogo enlouquecedor, um fogo como nos prometem que será no inferno e por um momento imaginei que estava nele, meu corpo incinerava de dentro para fora, pedi perdões mil vezes para todas as pessoas que meu pai mandou para fogueira; eu tentei respirar mas parecia que estava aspirando água fervente, eu tentei me debater mas não consegui me mover, por fim eu rezei para morrer.

Não sei quanto tempo exatamente passou até a dor passar e minha visão voltar ao normal, na verdade, voltou melhor, quando me sente na terra consegui enxergar tudo, absolutamente tudo com perfeição, vi o jeito que os últimos raios de sol do dia batiam na fina neve sobre a folha, vi os pássaros empoleirados nos galhos mais altos, eu não só os enxergava como via suas cores, ouvi o borbulhar de vozes vindo da cidade, o que seria impossível considerando a distância, sentia uma força sobrenatural correndo pelo meu corpo, sentia cada fibra mais forte, eu era um novo homem, ou melhor, eu era um demônio. Minha primeira reação foi gritar de desespero, do mais profundo desespero, a segunda reação foi fugir, mas para onde?

Minhas vestes sujas e pés descalços me levaram até perto de casa, dali eu tinha plena visão do que acontecia na rua mas ninguém poderia me ver graças aos arbustos; entre todas as pessoas que esperavam notícias em frente à minha casa, só uma era meu foco, Sam estava com um vestido preto, um véu preto por cima de seus cabelos loiros e ouvia seu choro inconsolável de onde estava, sua mãe a abraçava numa tentativa falha de a acalmar, toquei em meu bolso, o relicário ainda estava ali, eu deveria me vestir e levar para ela, porém, seu sangue chegava em meu olfato diferente, não era só apetitoso como o dos outros, era mais doce, mais atraente e pensar em a morder era como engolir brasas, não, eu não podia, deveria ficar longe de todos, principalmente de Samantha, eu era um monstro agora e ela não amaria um monstro que tomou conta do seu amado.

Passei os dias seguintes tentando o suicídio, Deus não aprovaria isso mas também não me livrou desse mal; não me alimentei como deveria, coloquei pedras nos bolsos e pulei do penhasco direto para os lagos, nada adiantava, nada me matava, sempre que atentava contra minha vida alguma força ainda mais sobrenatural evitava minha morte, num último ato de desespero, me joguei de peito aberto no canal da mancha, a água fria contra minha pele fria apenas fazia leves cocegas. Atravessei a nado até o norte da França, quando coloquei meus pés em terra firme não estava nem um pouco cansado, na verdade estava numa explosão de adrenalina, o sangue, eu precisava dele, não, não mataria nenhum humano para sobreviver; seja por obra do destino, um rebanho de cervos cruzou meu caminho, por instinto me alimentei deles, por puro instinto, bebi de quantos consegui, alguns fugiram, outros não tiveram tanta sorte.

Quando me dei por satisfeito pude sentar aos pés de uma árvore e respirar fundo, mesmo que inutilmente, em meu bolso um peso me incomodou, o colar ainda estava ali, limpo e brilhoso, sorri para ele e olhei ao redor, a grama de se misturando com a areia, a marola quebrando suavemente, o cheiro da brisa salgada, Sam adoraria esse lugar, quando olhei para o lado percebi um ramalhete de lavandas nascendo ao pé da árvore, talvez eu devesse fazer um amuleto para mim, peguei algumas folhinhas roxas e enchi o relicário delas, onde quer que fosse, uma parte de Samantha ainda estaria comigo.

Passei alguns dias caminhando um tanto perdido, ia de uma vila a outra, de um país a outro e foi só quando cheguei à Itália que encontrei mais vampiros, um rastreador me encontrou, Dimitri era o nome dele, na época eu havia começado estudar.

—Vou te levar à outros da nossa espécie- foi como uma promessa misturada com seu sorriso irônico, mas ele a cumpriu, me levou até os Volturi, esses me explicaram sobre o que eu era agora e me convidaram para ficar com eles por um tempo, aceitei.

—Como você não se alimenta dos humanos?- O loiro, que sempre parecia com raiva, indagou quando anunciei que não me alimentaria de pessoas

—Agradeço a refeição, porém prefiro caçar animais- expliquei calma e respeitosamente

—Deixe ele, Caius- pediu Aro com sua costumeira calmaria psicopata, agradeci mais uma vez a compreensão e sai do salão, os Volturi haviam me dado roupas novas, me dado um lar e, o melhor, me dado as explicações da qual precisava, no fim não éramos repreendidos por cruzes ou palavras de Deus, na verdade, vez ou outra eu ia à capela, mesmo achando errado um demônio no altar de Deus.

*

Aquela noite eu observava a lua em todo o seu esplendor no jardim do palácio, ela brilhava imponente no céu com milhões de estrelas salpicadas ao redor dela, fazia mais de dois anos que eu havia abandonado Londres e todos que conhecia, minha nova vida era o pós morte, e isso soava assustador. O banco de pedra era confortável, o relicário estava pendurado na minha frente e refletia a luz pálida do luar, como estaria Sam? Será que casou com outro? Será que superou? Será que já sorria enquanto dançava? Eram tantas perguntas que não conseguiria resposta.

—Há uma mulher em sua vida, não há?- a voz melodiosa de Athenora soou atrás de um pilar, entre ela e Sulpicia, Athenora era a mais falante, elas passeavam raramente pelo palácio

—Havia- ela se aproximou e sentou ao meu lado

—Havia?- me olhou surpresa- Imagino que ela deva ter morrido e isso pertencia a ela- apontou para a jóia

—Não, quem morreu fui eu- respondi pesadamente, se fosse humano, lágrimas correriam pelos meus olhos, só de lembrar dela, do seu jeito, da sua fala, do seu sorriso, sentia uma facada em meu coração de pedra

—Ela tinha muita sorte- suspirou pousando sua cabeça em meu ombro

—Quem tinha sorte era eu- ficamos os dois conversando sob a lua, falamos de nossas vidas e de como os outros pareciam sérios.

Decidi abandonar os Volturi tempos depois, pedi perdão e agradeci mil vezes por tudo que fizeram por mim até o momento mas expliquei que estava na hora de seguir sozinho, embarquei num navio para o novo mundo munido de meu conhecimento médico e do meu controle diante do sangue humano. Fixei moradia e seguia estudando, seria o melhor médico da região e conseguiria fazer isso.

Logo o ano era 1918, a solidão havia se tornado costumeira para mim mesmo que não gostasse muito disso, naquele pós guerra começou a epidemia de Influenza, eu era ‘’magicamente’’ imune ao vírus, trabalhava em Chicago na época quando ele chegou aos meus cuidados, Edward Anthony Masen, sua mãe me implorou para que eu o salvasse, não resisti ao apelo tão emotivo dela.

Com o passar das décadas, como vocês bem sabem, minha família aumentou, primeiro Edward, depois Esme, Rosalie, Emmett, Alice, Jasper e por fim, Isabella e Rennesmee; não posso dizer que não gosto dessa vida, ou dessa pós-vida, o adoro, tenho uma família completa, até com netos! Claro, o relicário ainda anda comigo para onde quer que eu vá, como está em Salém nesse momento, junto com nossa família, imagino que Sam gostaria de todos, claro, se não houvesse Esme no lugar, não sei se posso dizer que Esme está no lugar dela, o lugar de Samantha é intransferível, seu lugar é meu coração.

~~

Ouço passos vindo do corredor e escondo o colar em uma bíblia dentro da gaveta da escrivaninha, meu consultório é um dos únicos lugares onde ninguém além de mim mexe, meu segredo está seguro aqui, na verdade, o único que sabe de Sam é Edward, por motivos óbvios, não conseguiria esconder dele nem que tentasse, por vezes eu me pegava perdido em minhas lembranças, não preciso dizer que o telepata da família se aproveitava disso.

—Querido?- Esme abre a porta sutilmente

—Oi, meu bem- a respondo sem muito ânimo

—Alice queria que você fosse na sala- ela sorri fracamente, assenti e levantei, a seguindo para a sala, minha família inteira estava reunida, incluindo Jacob, que, graças ao seu imprinting em Rennesmee, nos seguia a partir de agora

—Carlisle, você precisa votar a favor de redecorarmos a sala- ela sorri com seu jeito louco de sempre mas sem perder o encanto de fada

—Claro, Alice, faça como achar melhor- ela bate palmas entusiasmada, diferente de Rosalie, que bufa pesadamente

—Me parece tão distante, Carlisle, algum problema?- Edward sabia o que me ocorria, sabia exatamente quais lembranças passavam em minha mente naquele dia

—Não, nenhum, estou bem- sorri sem confiança no que dizia, não adiantava mentir para ele, Edward sabia a verdade mas confiava nele para guardar esse segredo para mim- Melhor eu ir, está na hora de começar meu plantão- anuncio pegando a maleta de couro que havia esquecido na sala na noite anterior, pelas próximas horas eu ficaria longe de minha família e seria momentos para pensar em paz sobre a sorte que me abateu. Me despedi de todos e especialmente de Esme, que me acompanhou até a porta

—Eu amo você- disse com sua voz doce, sorri para ela e entrei no carro, a mercedes é confortável e se movimenta rápido sobre o asfalto liso da ‘’cidade das bruxas’’, as ruas pacíficas e pouco trafegadas nesse horário me confortam, respiro fundo inutilmente segurando o volante apenas com uma mão, às vezes penso que deveria ter voltado, me assumido para ela, dito o que eu era, Sam me aceitaria, na época pensava que não, porém, agora era uma certeza que sim, era minha Sam, ela iria sempre me amar.

Cheguei ao hospital principal da cidade, estacionei na vaga dos médicos e entrei no prédio passando pela recepção, a moça do balcão sorriu e acenou para mim, caminhei para minha ala, examinando um e outro no caminho; na minha ala havia um rapaz na cama, ele havia feito uma cirurgia que deu errado, era minha atenção especial no momento.

—Carlisle- Philip, o diretor de alas do hospital, chamou, ele era um senhor já, meio gordo por baixo do jaleco branco; me virei para ele, estampava um enorme sorriso- Quero te apresentar sua nova assistente

—Assistente?- indaguei meio perdido, não havia pedido assistente

—É, você trabalha demais e tem uma mocinha que está se formando, achei que seria uma boa ajuda para você- o segui pelo corredor até a ala infantil- Deixei que ela visitasse as crianças- explica abrindo a porta, assim que abriu um aroma familiar chegou ao meu olfato, o cheiro de lavanda recém colhida, era esse o cheiro; em uma das macas uma garota estava de costas, seus cachos dourados caiam pelo jaleco branco bem acinturado- Sam- ela virou quando foi chamada, seu cabelo balançou delicadamente, seus olhos também dourados, como os meus, eles me examinaram e um sorriso brotou em seus lábios definidos, sua pele era branca e pálida, sem nenhum arranhão ou marca, quanto mais ela se aproximava mais o cheiro acentuava

—Quantos anos ela tem?- pergunto curioso, sua aparência não era de mais de dezoito anos

—Uns dezenove, eu acho. Ela é novinha- completou sorrindo no instante que ela chegou

—Sim?- ela sorri doce segurando uma pasta azul claro nas mãos, seus olhos brilhavam curiosos

—Esse é seu tutor, Carlisle Cullen- Philip apontou para mim- Carlisle, essa é Samantha Winterburg

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.