Cuide Bem do Seu Amor
1 Resquícios de Amor
Notas iniciais
Boa leitura!
“A palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro
No instante que desmoronou.
Palavras duras em voz de veludo
e tudo muda, adeus velho mundo...”
— Os Paralamas do Sucesso
POV. Miguel
Minhas mãos se contraíram de raiva e acabei amassando o papel em minhas mãos. Ler aquela carta foi a coisa mais difícil pra mim. Uma hora você vê seu mundo desmoronando e pensa que não pode haver nada pior, mas há. Nunca duvide disso. É como a lei de Murphy, não? Se algo pode dar errado, dará! E deu.
Eu gostaria muito de não ter acordado nessa manhã.
Não é todo dia que se recebe um pedido de divórcio da mulher que você ama. É como uma declaração do fim de todo o resquício de amor que restou.
Joguei o papel longe. Como pudemos deixar as coisas chegarem neste ponto? É inacreditável. Nos meus trinta e cinco anos, nunca imaginei que faria parte de mais um desses casais que se divorciam. Virou moda agora.
Curti demais na minha adolescência e parte da faculdade e achava que a garota com quem eu casaria seria para toda a vida. Pode me chamar um pouco de romantista, mas penso assim. Fazer o quê? Minha esposa sempre foi totalmente o oposto.
Sempre tive um exemplo dentro da minha casa de que o amor existia, diferente de Carolina que nunca acreditou que o amor pudesse perdurar. Somos um casal bem diferente dos outros, com os papéis um pouco invertidos, talvez até de cabeça para baixo.
Encarei a aliança em meu dedo. Um anel simples e dourado, com o nome de Carolina gravado na parte de dentro. Podia estar um pouco surrada, mas meus sentimentos estavam inteiros desde o momento em coloquei-a.
Pensei em tudo o que representou naqueles oito anos de casados e em como representa todos os quinze anos que estivemos juntos. Tenho feito muito isso ultimamente. Mesmo com todas as brigas, mesmo depois de sair de casa não deixei de usar minha aliança, porque para mim ainda não acabou.
Como assimilar que tudo isso pode acabar com um mísero pedaço de papel? Sabe, eu realmente pensei que as coisas entre nós poderiam se acertar, mas pelo jeito não vão. Depois de todas as conversas que tivemos, não tenho mais esperança alguma.
— Cara, hoje eu fui no mercado fazer umas compras e na sessão das frutas e você sabe como é a sessão de frutas, né? Então, conheci uma garota que... – disse Daniel, entrando no apartamento, com algumas compras e ficou sem palavras para descrever a mulher. — Ó não me espera hoje pra...- ele parou de tagarelar quando viu meu estado. — O que houve, cara?
— Carolina me mandou um pedido de divórcio. – respondi, bufando e passando a mão por meus cabelos.
— Quê?! Onde está a carta? – ele perguntou, parecendo revoltado.
Apontei para o chão do outro lado da sala. Ele pegou o papel e o desamassou, analisando-o.
— Que merda! – ele falou batendo na parede. – O que você vai fazer?
— Eu não sei. – falei, perdido. Senti-me como um cego em tiroteio, sem saber o que fazer.
— Você não pode desistir só por conta dessa carta. – ele balançou o papel, como se não fosse nada. Para mim é um atestado de óbito da minha relação com Carolina. – As pessoas hoje tratam casamento como se não fosse nada.
Nada. É isso que virou tudo o que Carolina e eu passamos juntos. Daniel sentou-se no sofá e me observou por um tempo.
— Eu acho que não posso fazer nada. Ela parece certa do que quer.
— E o que você quer? Já pensou? Você vai aceitar isso numa boa? Você nem ao menos tentou falar direito com ela. – disse Daniel, irritado. — Olha, eu não estou falando isso a toa. Eu sou seu padrinho porque eu creio no amor de vocês. – ele falava seriamente — É sério cara. Te conheço desde os oitos anos. Lembro de cada garota que você ficou e com nenhuma delas você ficou com aquele olhar de idiota, me falando sobre ela como você fica até hoje falando sobre Carolina. Você tem tempo antes de assinar essa merda. –Daniel colocou carta em cima da mesa e pegando sua chave do carro. – Se você quer mesmo continuar casado faça alguma coisa! Tenho que sair agora, valeu? Não me espere, porque não volto hoje.
— Valeu. – falei e meu amigo se foi.
Daniel podia não se dar tão bem quando se tratava dos seus próprios relacionamentos. Porém, quando se trata dos relacionamentos alheios, ele até que dava bons conselhos.
Nos conhecemos quando éramos crianças. Ele se mudou com a família para casa em frente à minha na Ilha do Governador. Tornamos-nos melhores amigos de cara, e mesmo depois de vinte e oito anos de amizade, isso não mudou.
Quando saí de casa para deixar Carolina em paz, Daniel disse que eu poderia ficar aqui em Niterói com ele, já que voltar para a casa dos meus pais não era uma opção.
Aliás, nem sei quando e como contarei para eles que estou me divorciando. Meus pais simplesmente amam Carolina e quando souberem que não estamos mais juntos, eles se intrometeram em nossa relação, ou pelo menos o que sobrou dela. Meu pai tem uma saúde muito frágil, e possui um sério risco de ter um AVC se for submetido ao estresse. Não quero enchê-lo com o meu estresse. Eu já sou grande e tenho que resolver isto sozinho.
Levantei-me do chão e fui para o banheiro tomar um banho. Eu precisava ver meus filhos. Sinto muito falta deles e já faz quase uma semana que não os vejo. Isso para mim é uma eternidade. Porém, nos últimos dias não tenho tido tempo nenhum. Saio do trabalho e venho pra casa, saio de casa e vou para o trabalho. Isso é o que tenho feito nesses dias.
Além disso, preciso conversar com Carolina sobre toda essa merda. Isso não pode estar certo. Como ela faz isso sem nem ao menos falar comigo ou comentar? Não restou um pingo de consideração nesse relacionamento?
Hoje era sábado, minha folga, seria mais tranquilo para visitar minha família, já que agora estou morando bem mais longe deles. Antes de sair da casa, peguei o papel amassado do chão e enfiei em meu bolso.
O trânsito na ponte Rio-Niterói não estava tão ruim. Pelo contrário, fluía normalmente.
Em poucos minutos eu já estava em Vila Isabel. Eu sentia falta de casa, desse bairro, de morar tão perto do Maracanã, de ir toda sexta num barzinho com a minha esposa e tomar uma cerveja. Antes de toda essa confusão, minha vida era maravilhosa. Não tinha do que reclamar.
Estacionei o carro do outro lado da rua e toquei o interfone. Depois de quase meio minuto tocando, finalmente atenderam.
— Quem é? – perguntou Luísa, minha filha mais velha, com treze anos.
Ela era minha princesa. Se havia uma mulher que eu amasse mais que minha esposa e minha mãe, essa mulher era minha filha. Quando Carolina engravidou de Luísa foi totalmente inesperado e complicou um pouco nossa vida na época, mas nada que não fosse resolvido com um pouco de esforço. Não me arrependo de nada.
— Sou eu, filha. O papai. – falei, com um sorriso no rosto.
— Só um minuto! – ela falou e apertou o botão para abrir o portão.
Peguei o elevador e subi até o segundo andar. Carolina estava apoiada no batente da porta, ainda de camisola com Tobias, meu filho caçula, no colo. Com seus cachos caindo sobre seus ombros.
— Sabe que horas são? – ela perguntou bocejando. – Você pelo menos poderia ter avisado que viria.
— Bom dia para você também. – respondi, entrando na casa e pegando meu filho no colo.
Tentei beija-la, mas Carolina desviou, indo fechar a porta. Suspirei. Todas as vezes que eu tentava me aproximar, Carolina se afastava. Estava claro o que ela queria. Cansava-me o fato de querer aproximar-me dela e não poder.
Depois daquele longo mês morando com Daniel, eu esperava poder consertar tudo e poder voltar para a minha vida.
— Pai! – gritou Luísa vindo em minha direção e abracei-a fortemente.
— Oi, minha princesa. – falei beijando sua cabeça. – Tudo bem?
— Tudo sim. – disse ela.
— Vamos passear um pouco hoje?
— Vamos! Estou indo me arrumar. — ela concordou, saindo correndo para o quarto.
— Meu amor, vai lá brincar um pouquinho. Eu e o papai vamos conversar. – disse Carolina para Tobias, que passava seus dedinhos curiosos pelas tatuagens que eu tinha em meu braço. Ele sempre ficava curioso ao vê-las.
— Papai eu vou passear também! – disse Tobias, quando coloquei-o no chão.
— Mas é claro que vai, meu garotão. Escolhe lá um sapatinho bem legal.
— Está bem. Não some! – disse ele correndo para o quarto.
Não some. Aquela frase fez um impacto sobre mim. Será que meus filhos achavam que eu não me importava mais com eles e que poderia desaparecer de uma hora para a outra? Isso não aconteceria nem se eu quisesse.
Carolina suspirou e foi para a cozinha, então segui-a. Nossa relação havia se transformado em várias coisas, mas principalmente em um nefasto silêncio que nos consumia. Não compartilhávamos o que sentíamos, apenas empurrávamos tudo que havia de errado para debaixo do tapete. Eu errei por só querer mudar as coisas agora e não dizer o que estava sentindo antes. Porém, dessa vez será diferente.
Sentei-me na mesa e ouvi patas correndo rapidamente para cá. O pulguento pulou rapidamente em cima de mim, me lambendo e latindo.
— Eu também estava com saudades de você, garoto. – falei fazendo carinho em sua cabeça, abracei-o e beijei-o.
Todos os dias pela manhã saímos para correr. Ele já me foi um grande companheiro, melhor que muita gente. Quando Tobias começou a correr pela casa, Pulguento saiu correndo de volta para sala.
— Achei justo vir aqui sem avisar já que você me mandou isso sem avisar. – falei para Carolina, colocando a carta amassada em cima da mesa da cozinha.
— Ai, não. – disse ela, cobrindo o rosto com as mãos.
— O que significa isso? – perguntei, exigindo uma explicação.
— Eu ia te avisar. Eu juro que ia. – disse Carolina, olhando para xícara de café que havia pegado, sem ter a menor coragem de me encarar.
— Ia me avisar? Então, isso é sério? – perguntei alterando um pouco a voz, mas me controlei para que meus filhos não ouvissem. Comecei a ficar nervoso. – De verdade? Isso está acontecendo mesmo? – ela não respondeu e apenas encarou o papel. Respirei fundo. Eu estava prestes a surtar. – Amor, a gente pode sair dessa. Eu acho que as coisas podem se acertar.
— Não, Miguel. Não podem! Esse é seu problema. Você sempre quer que as coisas se acertem, mas sem mover um dedo. É sempre: Carol faça isso, Carol faça aquilo. Eu não sou sua empregada. No final de tudo sempre sobra para mim. – gritou Carolina. Sua expressão era de raiva e seus olhos estavam marejados.
— Como se você fosse perfeita, não é? Acha que eu não percebi sua frieza e ignorância comigo nesses últimos meses? Você me desprezava e me afastava todas as vezes que eu tentava me aproximar de você como antes. Não fui só eu quem mudou. – falei irritado.
— Me desculpa, mas eu não consigo aguentar mais isso! Eu tenho trabalho demais, eu tenho que cuidar de uma casa, tenho que criar a Luísa e Tobias, cuidar deles, dar o melhor pra eles.
— E quanto a nós? O que vem depois? – perguntei encarando-a. – Eu também quero demais dar tudo do bom e do melhor pra eles. Acha que eu não os amo? Eles também são prioridade na minha vida. Nessa merda de mês que eu fiquei fora, eu só conseguia dormir depois de ter a certeza de que vocês três estavam bem. Acho que só vamos conseguir isso se estivermos juntos. Carol eu ainda te...
— Miguel, para! – ela me interrompeu, nervosa. — Eu não preciso de você aqui para bagunçar minha vida mais do que ela já está bagunçada.
Ai. Recebi muitas patadas de Carolina nesses últimos meses. Eu suportei e até tentei relevar, mas essa perfurou todas as barreiras que eu utilizava para me defender.
— Então vai me botar pra fora da sua vida assim? – perguntei, elevando minha voz.
— Não, nós temos dois filhos juntos. Não posso te botar pra fora da vida deles. Eu sei como você os ama. – Carolina respondeu limpando as lágrimas e respirando fundo.
— Tem certeza que essa é a melhor opção? – perguntei.
— Eu mudei, Miguel! Você mudou. Nós mudamos. Antes podia dar certo, mas agora não dá. – ela falou. – Acabou...
— Belo jeito de merda de se resolver as coisas. Parece que você mudou mais do que acha. – falei. Respirei fundo e passei a mão pelos cabelos, nervoso. – Eu vou esperar as crianças lá em baixo. – Saí da cozinha, pois não aguentava mais ficar ali, ouvindo desculpas. Ouvi seu suspiro e ela nem se deu o trabalho de me responder.
Acabou? Não é de ter durado quinze anos e acabado de uma hora para outra que me desestabiliza, mas sim o fato de que depois de quinze anos, o meu sentimento por ela continua sendo o mesmo e isto não é mais recíproco.
Eu acredito que nós mudamos. Afinal, passaram-se quinze anos. Como não mudar? Não somos mais os jovens e que iam para a balada todo fim de semana. Porém, nós seres humanos podemos nos adaptar as mudanças. Eu me adaptaria a qualquer mudança por ela, até o divórcio... mas não antes de lutar.
Notas finais
Beijos e até próxima!
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