Cuidados

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Nossa senhora, muito obrigada Kamaitachi por ter feito a música "Chalé em Alaska" e me lembrar de como esse casal é maravilhoso cara... Já dizia minha prima: "existem casais bons não porque são fofos, mas sim porque são fodas e com química". Fanfic clichê, mas bem confortável!

Já tinha dias que Keiko Yukimura andava avoada na escola. Claro que Yusuke não se importaria com isso se ela não fosse uma completa estudiosa, a primeira aluna da sala e coisa e tal.

A verdade é que a garota parecia andar escondendo algo dele, e era hora de entender o que estava acontecendo. Eram melhores amigos desde pequenos, sabia como tirar a verdade dela em poucos instantes.

— Ô Keiko! — Gritou o Urameshi, fazendo a menina se virar para ele. — Dá pra me esperar? Vou almoçar contigo!

— Hã? Como assim? Por acaso bateu a cabeça na sua última missão? A gente não combinou de almoçar junto não.

— Eu sei, mas a minha mãe tá viajando, então ou eu como um miojo ou vou no seu restaurante.

— Ah, tá bem...

A reação dela não era comum. Havia um bom tempo que Yusuke não ia comer nos Yukimura, aquela caminhada conjunta era o momento para conversarem, entretanto Keiko andava em silêncio, ia na frente e deixando o rapaz para trás, parecia querer se isolar ou ao menos parecia estar anestesiada.

— Escuta, dá pra você falar comigo? — O Urameshi disse assim que a alcançou, parando a menina bruscamente. — Qual é Keiko, você não tá legal já tem uns dias, para de esconder.

— Yusuke, me deixa em paz... Sério, vai no restaurante, mas me deixa quieta, eu tô...

— Bem? Não, essa é a última coisa que você tá. — Ele respondeu ríspido. — Se você não me falar, eu vou ser obrigado a te carregar igual um saco de batatas pra minha casa, tá entendendo?

— Yusuke, me deixa... — Ela já segurava o choro.

— Keiko, para. Você tem a mim, à minha mãe, até mesmos os malas sem alça do Kuwabara e da Botan, da pra você contar com a gen...

— MINHA MÃE TÁ DOENTE, TÁ BEM?! — Ela gritou, permitindo que as lágrimas escorressem por suas maçãs do rosto. — EU TÔ CANSADA, PREOCUPADA, SÓ QUE ISSO NÃO PODE ME AFETAR, TÁ LEGAL? EU PRECISO SER FORTE, PRECISO CONTINUAR MEUS ESTUDOS, PRECISO...

A jovem emudeceu ao sentir braços fortes aninhando-a, se permitindo chorar mais. Como era possível se deixar levar quando estava com Yusuke Urameshi? Todos o temiam, porém Keiko sabia daquele lado pouco explorado dele, aquele lado protetor que o mesmo mostrava com quem amava e se importava.

— Para de se pressionar menina, isso não é saudável... — Ele inspirou e expirou calmamente, passando tranquilidade à ela. — Vem, vamos andando e tu me conta tudo, falou?

Keiko apenas afirmou com a cabeça, sentiu os braços de Yusuke passarem para seus ombros, dando apoio para ela continuar andando. Iam lado a lado, sem pressa e em silêncio, ele apenas a aguardava para falar, pois sabia que precisava ser no tempo dela.

— Minha mãe desmaiou semana passada. — A Yukimura começou após alguns minutos, mantendo o semblante sério. — Meu pai e eu levamos ela pro hospital, eles fizeram testes e descobriram um problema no pulmão. Desmaiou por causa da dor no peito.

— Como vocês estão? Você e o seu pai?

— Ele não pode deixar o restaurante, então passo o dia com ela no hospital e quando dá cinco horas o meu pai vem e troca comigo, daí os dois passam a noite juntos.

O coração do Urameshi doía, o garoto conhecia bem os pais da amiga, seus "tios" como ele chamava carinhosamente. Eram pessoas esforçadas, batalhadoras, e acima de tudo sempre pensando no melhor para a família Yukimura. O fato do patriarca estar fechando o restaurante mais cedo mostrava que o problema de saúde da matriarca era preocupante.

— Tentei falar pro meu pai que eu podia cozinhar no turno da noite, mas ele falou que sou desastrada demais na cozinha.

— Eu não acho, talvez você só tenha que praticar mais os pratos da sua família. O seu daifuku de morango é muito bom, por exemplo.

— Valeu, Yusuke. — A menina sorriu pequeno, logo olhando para o restaurante à frente deles.

O lugar estava lotado, e o Sr. Yukimura corria de um lado para o outro, terminando alguns pedidos e entregando outros. Porém, nada o impedia de cumprimentar o Urameshi de forma calorosa com um sorriso grande, logo pediu ao rapaz que se sentasse e ficasse para comer.

— Bem, eu vou me trocar e indo, tchau pai. — Keiko falou apressada, subindo as escadas do lugar e indo para o apartamento no andar de cima.

— Ela contou pra você?

— Com certa pressão sim, tio. Ela anda tão mal na escola que me preocupou.

— Nem me fale, e não estou gostando nada de deixá-la sozinha aqui à noite. Sabe Yusuke, a solidão só piora a situação para qualquer um que esteja passando por problemas.

— Sei disso... — O rapaz respondeu, mantendo um sorriso ao lembrar das vezes em que o apoio dos outros o ajudou.

A palavra "ajuda" ecoou em sua mente por um bom tempo, pois enquanto comia observava o homem correr de um lado para o outro. Àquela altura, Keiko já havia ido embora para o hospital, e o Sr. Yukimura ficara sozinho com o restaurante, atendendo clientes, preparando comida e cuidando de outros contratempos.

Yusuke terminou sua comida, e não perdeu tempo em colocar o prato na pia e começar a limpá-lo junto do restante da louça. O Sr. Yukimura o encarou de relance, ficou apreensivo de os outros clientes não acharem aquela atitude correta, e de imediato correu até a pia para falar com o Urameshi.

— Ei, o que está fazendo?

— O senhor precisa de ajuda tio, não adianta negar e ficar fazendo charminho. Eu vou te ajudar.

— Mas, Yusuke, eu não posso te pagar... Não tenho condições...

— Não precisa me pagar. Estou fazendo isso porque é o certo, e por tudo o que vocês já fizeram por mim e pela minha família.

O Sr. Yukimura permaneceu com uma expressão surpresa, sem entender ao certo pelo quê o garoto era grato. Claro, ele e sua esposa ajudavam Atsuko, mãe de Yusuke, quando ela precisava sair ou algo do tipo. Mas não parecia ser apenas aquela gratidão, parecia ter algo a mais naquele gesto.

O Urameshi permaneceu limpando os pratos em silêncio, por vezes ajudando o dono do restaurante a servir os clientes. O mais novo sentia-se bem, melhor que quando saía no soco com os outros meninos, melhor que quando salvava o Ningenkai, ajudar aqueles que lhe eram queridos trazia paz ao seu espírito. Foi assim até às quatro da tarde, quando o Sr. Yukimura começou a fechar o espaço e limpar seu restaurante.

— Obrigado por hoje, Yusuke.

— Ah, não é nada de demais... — O garoto sorriu de canto, terminando de limpar uma das mesas. — Qual é, tio? Quantas vezes você e a tia não me ajudaram com umas enrascadas da minha mãe? É o mínimo.

— E falando na Atsuko, como ela está?

— Bem, fazendo um tratamento pro alcoolismo, foi viajar essa semana pra um retiro espiritual.

— Jura? Que bom. — O Sr. Yukimura se alegrou, ao menos a mulher tentava se ajeitar. — Yusuke, escuta, queria te pedir um favor se não for muito.

— Diz aí.

— Como eu te disse, Keiko está ficando sozinha durante a noite, e isso me preocupa muito.

O Urameshi o olhou curioso, querendo saber até onde iria aquela história.

— Enquanto a minha mulher não sai do hospital, poderia passar as noites aqui com ela?

— COMO É QUE É?!

— Calma, Yusuke! Olha, eu confio em você, sei que não faria nenhuma besteira com a Keiko, e eu... Eu já fui como você, sei que é difícil não ter apoio nenhum.

— Como eu?

— Vem comigo até o hospital, te conto tudo no caminho.

O relógio já batia quatro e meia, os dois foram para a rua onde estava o carro dos Yukimura. Entraram, o patriarca deu partida no veículo, e logo se viram andando nas ruas de Tóquio. Yusuke ia em silêncio, ainda atônito com o pedido daquele que chamava de tio.

— Quando eu tinha sua idade era um baderneiro de primeira. — Começou o Sr. Yukimura. — Geralmente eu aprontava com uma gangue de amigos, se é que posso chamá-los assim. A gente fazia de tudo: quebrava latas de lixo da cidade, arrumava briga com outras escolas, até andei de moto se quer saber.

— Foi mal, mas não consigo te ver assim tio, você é todo certo.

— Mas eu mudei. Tudo por ela.

— Pela tia?

— Sim, a Yumi era meu completo oposto. Era certa, estudava direito, sempre sendo o exemplo da sala. Eu nem sonhava em contar para ela que sentia algo, pra manter minha pose de durão. Só que um dia o pessoal de uma escola rival tentou machucar ela, e quando me contaram não tive outra escolha senão ir acudir ela. Você nem imagina o choque da Yumi, acho que ela pensou que eu fosse machucá-la algum dia.

— Caramba, é tipo aquelas histórias de mocinha e bandido...

— Pois é, só que os pais dela quase infartaram ao saber que cheguei perto da princesa deles. Me proibiram de vê-la, disseram que eu era um inconsequente que traria coisas ruins à filha deles.

— E o que você fez, tio?

— Primeiro, parei com a gangue. Eles quase me mataram por isso, mas eu disse que era o melhor pra mim. É claro que me zoaram, dizendo que eu só estava fazendo isso por mulher. — A última parte foi dita com desprezo, se recordando da dor que sentiu ao levar diversos socos no corpo. — Depois procurei um emprego, e virei garçom nesse restaurante que hoje é meu. Demorou uns três anos, mas os pais da Yumi me aceitaram.

— Peraí, o restaurante não era seu?

O Sr. Yukimura ficou levemente indignado, como que de toda a história a parte que mais impressionou o garoto foi o fato do restaurante não ser seu?

— Não, ele era de um senhor de idade chamado Ataru Suzuki. Ele não tinha filhos, e como cuidei do lugar até o fim ele me colocou em seu testamento... Foi um grande homem por ter me acolhido.

Yusuke absorvia as informações que lhe haviam sido passadas, montava um pequeno quebra-cabeça em sua mente para tentar entender a complexidade do passado do Sr. Yukimura. Por isso sempre recebeu apoio da família, por isso nunca o pediram de ver Keiko, pois era como o pai dela. Um espelho do passado.

Pararam em frente ao hospital, desceram do carro e foram para o quarto andar, onde Yumi Yukimura se encontrava internada no quarto 302. A mulher estava acamada, usava oxigênio para respirar melhor e junto da filha assistia à um programa vespertino de perguntas e respostas, juntas tentavam acertar as perguntas da tela, e riam com os erros cometidos.

— Caham, atrapalho? — Questionou o Sr. Yukimura.

— Satoshi, oi amor... — Yumi disse devagar, sorrindo animada ao ver seu marido, e se surpreendendo com a companhia do mesmo. — Yusuke? O que faz aqui?

— Ele me ajudou hoje no restaurante, não é demais?

— É, é sim... — Keiko murmurou, feliz que o Urameshi se fazia presente na situação. Em seguida, se levantou da cadeira. — Bem, eu vou pegar minhas coisas e já vou indo, senão a enfermeira esgana a gente por aglomerar o quarto.

Com calma, a garota foi em direção à uma pequena escrivaninha onde estava sua bolsa tiracolo, pegou-a e se despediu dos pais com um beijo na bochecha, prometendo arrumar a casa e fazendo suas tarefas. Encerrou Yusuke com curiosidade, vendo o garoto fazer sinal com a cabeça para acompanhá-lo.

— Melhoras tia, e tchau tio! Vê se vocês descansam!

— Muito obrigado, até logo!

Os mais novos saíram andando devagar pelos corredores do hospital, caminhando até o elevador mais próximo. O sol invadia as janelas, os iluminando e os aquecendo enquanto andavam à passos lentos, podiam escutar vozes de médicos falando com pacientes, ou até seus próprios passos.

— Hã, Keiko... — Começou o Urameshi. — Escuta, dá pra gente passar em casa antes? O seu pai pediu pra eu dormir na sua casa, sabe como é, né?

— "Dormir na minha casa"? Você não faz isso desde que a gente tinha uns nove anos. O que aconteceu?

— Ele tá preocupado com você, é só isso.

— Yusuke, tenho quinze anos, não sou nenhuma criança que precisa de vigia.

— Ninguém aqui tá preocupado com você bagunçar a casa, ô criatura. A gente só não quer que você fique tanto tempo sozinha se machucando com os pensamentos.

— Que profundo... — Ela murmurou, em seguida dando uma risada baixa. — Nem parece que foi você quem disse isso.

— Quer parar de implicar? — Ele respondeu revirando os olhos. — Vem, vambora.

A dupla adentrou o elevador, desceram até o térreo e pegaram um ônibus para irem até a casa do garoto. Durante a viagem, Keiko refletir um pouco mais sobre ficar sozinha com Yusuke em sua casa, e o quão estranho era aquilo. Não apenas estranho, mas também o quanto estava ansiosa, afinal não podia negar que sentia algo por ele, e ficarem juntos sem mais ninguém poderia fazer os sentimentos aflorarem.

Droga, precisava de foco.

Pararam depois de nove pontos, desceram e andaram mais um pouco até o prédio de Yusuke, subiram até o terceiro andar, o Urameshi pegou a chave em sua mochila e abriu o apartamento, onde um silêncio pairava no ar e o cheiro de cigarro permanecia, já que abrir a janela para tomar um ar puro era algo que Atsuko nem sempre fazia.

— Quando sua mãe volta?

— Acho que no domingo, o retiro dura uma semana.

— E como vai o tratamento dela?

— Bem, ela teve umas crises de abstinência, chorou e pensou em ir até o bar mais perto, só que toda vez que ela olha pra mim ela desiste...

— O que uma mãe não faz por um filho? — Keiko comentou, sorrindo de canto e observando uma foto antiga onde Atsuko estava com Yusuke e Keiko, abraçando os dois em um aniversário. — Foi minha festa de seis anos, né?

— Huh... Ah, foi sim. — O garoto sorriu ao encarar a foto. — Ela tava feliz porque alguém tinha chamado a gente pra alguma coisa, sem ser um funeral ou sei lá...

— Sua família é bem afastada, não?

— Nem me fala... — Bufou o garoto. — Mas paciência, família é onde existe amor e não o mesmo sobrenome.

— É, você tá certo. — A Yukimura sorriu e se virou para ele. — E então, veio pegar o que?

— Umas roupas, escova de dente, toalha, o necessário. Fica aí que eu já volto.

Keiko se sentou no sofá, há algum tempo que não visitava o apartamento dos Urameshi, e honestamente ele não tinha mudado muito, entretanto haviam ares novos no ambiente. Para a sorte dela, não se sentia mal ou pouco à vontade, as várias vezes em que fora visitar o amigo a fizeram ser parte daquele lar, mesmo que indiretamente.

Yusuke voltou depois de dez minutos, com um sorriso travesso que só ele sabia dar foi dado o sinal para irem embora. Estava escurecendo, precisavam apertar o passo antes que a noite os pegasse pelo caminho. Andaram até o restaurante Yukimura com pressa, com a menina debatendo sobre a prova que fizeram no começo da semana, dizendo o quão fácil estava e xingando o garoto por ser tão desleixado. Ele, por outro lado, ria por ver ela voltando ao seu normal.

Chegaram ao estabelecimento às seis horas, a menina abriu a porta de correr e assim que ambos entraram a trancou novamente. Não demorou para passarem pelas cortinas que davam em direção à escada do apartamento, e após subirem a menina se direcionou à cozinha que ficava à direita.

— Olha, fica à vontade Yusuke, só vou lavar a louça.

— Beleza, acho que vou tomar um banho.

Ao dizer isso, o rapaz pegou a toalha dentro de sua bolsa e tratou de se banhar. A garota, por outro lado, permaneceu pensativa enquanto esfregava a esponja contra o prato que sujara pela manhã. O estado de saúde de sua mãe parecia melhorar aos poucos, e o fato de Yusuke estar lá com ela no pequeno apartamento acalmava mais seus nervos.

Já o Urameshi deixava a água escorrer por seu corpo nu, fazendo ela tirar o peso de seu dia puxado. Não estava acostumado com esse tipo de trabalho duro, e apesar de satisfeito em ter ajudado o cansaço apareceu ao fim do dia. Olhava ao redor do boxe do banheiro, se recordando da infância, na primeira vez em que dormiu na casa dos Yukimura. Foi um dia em que sua mãe precisou fazer hora extra em um antigo trabalho, tinha pouco mais de seis anos, e Yumi Yukimura teve a árdua tarefa em banhar o garoto e a filha, onde ambas as crianças faziam uma guerra d'água e riam com a brincadeira.

Uma lembrança boa que guardava no coração.

Yusuke fechou o chuveiro, secou o cabelo e em seguida o corpo, e ao olhar para a privada percebeu ter esquecido as roupas, portanto enrolou a toalha na cintura e saiu do banheiro, indo em direção à sala.

Sala e cozinha se unificavam, ao pisar no ambiente ele pôde escutar Keiko cantarolar uma antiga canção sobre a lenda do reino da lua, que aprenderam ainda na infância.

— Terei de novo o mesmo carinho?

Será que um dia ele voltará?

— Você lembra dessa música depressiva? E ainda dizem que é pra crianças... — Yusuke murmurou a última parte.

Ao se virar, a Yukimura ruborizou fortemente, podendo encarar o tronco nu do rapaz de quinze anos à sua frente, usando somente uma toalha como roupa. Ela virou o rosto tímido para o lado, não podia se permitir ficar encontrava daquele jeito.

— Ô criatura, será que você esqueceu que não tá na sua casa, hein?

— Ah, qual é Keiko? Vai dizer que a vista não tá boa? — Ele sabia decifrá-la, não tinha como ignorar a timidez dela. E o sorriso... Maldito sorriso travesso que a hipnotizava.

— Yusuke, vai por uma roupa, senão eu juro que atiro o rolo de macarrão da minha avó na sua cabeça. Eu tô avisando!

— Tá bom, tá bom, não precisa ficar virada no Jiraya! — O Urameshi riu, pegou sua bolsa na sala e saiu correndo até o banheiro. — Volto depois dos comerciais.

A Yukimura revirou os olhos, ao mesmo tempo que gravava a vista em sua mente. E que vista.

Ele voltou pouco tempo depois, vestindo uma bermuda verde escuro e uma camiseta verde clara e folgada, o cabelo que sempre ficava para trás com o gel agora estava desgrenhado e formando uma franja na testa dele, como quando o rapaz ficava cansado.

— E então, o que a gente vai jantar?

— Ah, sei lá... Não tô com fome.

— Nem vem com essa. — Yusuke respondeu ríspido enquanto se aproximava da cozinha. — Você não pode ficar pulando refeição assim, vai te fazer mal.

— Tá, tá... — Keiko bufou e inflou a bochecha, levemente revoltada. — O que sugere?

— Tá afim de uma pizza? Trouxe dinheiro, posso pedir pra gente.

— Gosto da ideia. Vai pedindo, é minha vez de tomar banho.

— Ok... — Ele respondeu, e assim que a viu se afastar um pouco sorriu malicioso. — Se você aparecer de toalha igual à mim não vai ser tão ruim, falou?

Um belo dedo do meio dela foi levantado para o alto, enquanto ele ria baixo e apreciava sua provocação.

O rapaz fez a ligação em pouco tempo, enquanto a garota se banhava e tentava relaxar. Lembrava-se da conversa dos médicos com sua mãe, avisavam às Yukimura que tudo se resolveria em breve, que os pulmões dela aos poucos voltavam, e com fisioterapias respiratórias Yumi teria poucas sequelas.

Keiko voltou a cantarolar a cantiga durante o banho, lembrar do amor da Princesa da Lua e do Príncipe da Terra era quase como um conto de fadas, almejava viver uma paixão naquele nível, claro que de forma realista e sem mortes.

Mas já não vivia uma paixão ardente como aquela? Ora, Yusuke, apesar do jeito travesso e das molecagens, era quase que seu príncipe, protegendo-a sempre que possível. Entretanto, isso não significava que era uma donzela em perigo, desde nova sabia ter a língua afiada e se defender, fosse dos valentões ou até mesmo de outras meninas invejosas.

Podia ter a certeza de que sua relação com o Urameshi era na base de cuidados.

— Keiko, não demora muito, a pizza já já vai chegar! — O visitante falou após bater na porta.

— Já tô saindo, calma aí. — Ela respondeu, desligando o chuveiro e se secando.

Vestiu o pijama branco e vermelho que tanto adorava na primavera e no verão, a regata e o shorts sempre a deixavam se refrescar, e como de costume abriria a janela da sala para tomar um ar. Ao abrir a porta e dar de cara com Yusuke, viu o rosto dele corar. Há anos que talvez não se vissem em trajes de dormir.

— Que foi garoto? Nunca te vi desse jeito...

— N-não é nada não. — Yusuke virou o rosto para o lado, desviando seu olhar do corpo de Keiko.

— Tá bem. — Ela respondeu em um tom de voz que ia do desdém à sensualidade em poucos segundos. — Tá afim de assitir uns filmes? Aluguei umas fitas.

— Beleza, só se não for um daqueles filmes melosos.

— Ah, 'cê sabe que eu também não sou a maior fã de filme de romance, peguei esse aqui que lançou esses dias.

— "O Estranho Mundo de Jack"? Parece ser legal...

— É, né? — A Yukimura sorriu. — Vai, coloca aí.

— Tá bem, tá bem. Mas você desce e pega a pizza quando chegar.

— E o dinheiro?

— Tá na minha bolsa, pega lá pra não esquecer.

A garota se aproximou da mala do rapaz, e assim que abriu pegou o que parecia ser dinheiro. Para sua surpresa, o que tinha em mãos era uma foto, com dobras que sinalizavam a necessidade de não perdê-la. Era de um dos primeiros encontros deles no parque, após as semanas do treino de Yusuke com Genkai. Ele a abraçava de lado, e fazia cara de malandro, ela dava risada de alguma bobagem que ele havia dito. Percebeu que estava a um tempo vendo a foto quando ouviu Yusuke chamá-la.

— Tá perdida?

— Ah, foi mal, é que...

Ele logo olhou para a foto na mão dela, e deu um sorriso de canto tímido, lembrando do carinho que tinha por aquela imagem.

— O dinheiro tá dentro da minha carteira, esqueci de falar...

— Yusuke.

— Fala.

— Espera aqui.

Keiko saiu em direção ao seu quarto, vasculhou sua escrivaninha e voltou depois de poucos minutos, tendo um porta-retrato em suas mãos. Era uma foto do aniversário de Kuwabara, todavia não havia o ruivo na imagem, e sim ela e Yusuke no muro da casa do amigo, onde conversavam animados, distraídos do resto, os olhos brilhando por estarem juntos.

— Você tem muitas fotos comigo, mesmo quando estamos longe, você tenta ficar perto de mim... E comigo não é diferente. Eu tento ficar perto de você, sempre! Cada missão, cada luta... Isso me deixa tremendo de medo, pois não quero te perder de novo.

— E você não vai, eu prometo.

Os olhos paralisaram um no outro, fotografando mentalmente os rostos, as roupas, o mundo que havia dentro de suas irises. Foram se aproximando devagar, Yusuke pegando na cintura dela, e Keiko colocando seus braços em torno da nuca dele. Não precisaria de muito para colarem os lábios como já fizeram outras vezes.

Mas não era o momento, e a campainha tocando os tirou do transe.

— A-acho que é a pizza... — O Urameshi comentou, soltando-a e coçando a nuca em sinal de nervosismo. — Você pega ou...

— Eu já volto. — A Yukimura respondeu, pegando o dinheiro e descendo as escadas.

Ele ficou a encarando, percebeu as bochechas esquentando e logo tratou de lavar o rosto, tentando tirar a vermelhidão e o calor que havia vindo naquele instante.

Yusuke a amava, nunca negou isso, todavia evitava expressar os sentimentos, pois não era de seu feitio fazer isso, além do que não aprendeu a dizer em voz alta o que sentia. Talvez fosse o momento de uma nova lição.

— Voltei. — Keiko exclamou, parecendo menos ansiosa. — Pediu de queijo, né?

— Isso, com aquele mato em cima.

— "Aquele mato" é manjericão, Yusuke. — Ela respondeu, revirando os olhos e segurando o riso.

— Bom, o cara da pizzaria entendeu o que eu quis dizer com "mato", então tá de boa.

Ele saiu do banheiro e a acompanhou até a sala novamente, onde a menina já colocava a fita tranquilamente, enquanto a pizza estava no sofá, esperando pelos dois.

Organizaram tudo para evitarem levantar, e quando o filme já estava rodando eles trataram de ir pegando a comida com as mãos, um silêncio confortável pairando entre a dupla, estirados no sofá na maior das folgas, afinal se conheciam desde pequenos, se permitiam ficar naquele estado sem timidez.

Keiko não acreditava na quantidade de pedaços que tinha comido, havia restado duas fatias para o café da manhã seguinte, estava de estômago tão cheio que nem percebeu quando fechou os olhos e dormiu no sofá mesmo. A preocupação com a mãe era tanta que não andava dormindo bem, por vezes dormia tarde e acordava cedo, sem ter um descanso suficiente. Yusuke olhou para o lado, queria comentar o filme com ela, dizer que tinha gostado, mas a única coisa que encontrou foi uma bela adormecida. E que bela.

O Urameshi sorriu de lado ao vê-la tendo paz, decidiu que era melhor que ela descansasse em seu quarto, logo não demorou para pegar a garota no colo e levá-la até seu quarto, deitando-a na cama e procurando um cobertor extra para cobrí-la. Assim que achou, colocou cuidadosamente sobre a Yukimura.

— Eu espero estar cuidando bem de você, como eu prometi... — O garoto sussurrou, beijando a testa da menina. — Boa noite, Keiko.

Ele se virou para sair, mas uma mão segurou seu pulso, impedindo-o de continuar a passada.

— Yusuke, peraí... — A voz baixa da jovem chamou a atenção dele. Ela abriu os olhos devagar, ainda sonolenta. — Você tá cuidando bem de mim, e não acho justo você ficar dormindo no sofá. Vem, deita aqui.

— Cumé?

— Dorme aqui, Yusuke. Sério, deita...

Ela abriu espaço e levantou a coberta. Ele piscou estático por alguns segundos, e com vergonha se deitou do lado da garota. As irises dela ainda transmitiam sonolência, porém havia um ar sedutor perante o rapaz, que retribuía com um olhar tranquilo e também sedutor.

— Ei, muito obrigada por tudo que está fazendo por mim...

— Relaxa Keiko, é o mínimo que se faz por alguém que ama.

Ambos arregalaram os olhos, era a primeira vez que o Urameshi declarava seus sentimentos em alto tom.

— ...Alguém que ama? Quer dizer que o bad boy Yusuke Urameshi tem uma quedinha por mim? — A Yukimura retrucou irônica.

— Pra falar a verdade...

De forma inesperada, ele ficou por cima dela, passando suas pernas pela garota e a prensando, logo sorrindo malicioso.

— ...Amo muito.

Yusuke lentamente se aproximou de Keiko, podendo finalmente sentir os lábios da garota amada. Como adorava sentir o gosto da boca dela, e ela não conseguia negar que beijá-lo lhe trazia boas sensações. Arrepios, calores, desejo de mais um pouco daquilo, tudo que os hormônios adolescentes imploravam vez ou outra.

— Nunca se esqueça de que eu te amo, entendeu ô doidinha?

— Acho que isso tem que ser lembrado por você, seu moleque... — Ela riu.

O Urameshi voltou a se deitar ao lado da Yukimura, com a garota entrelaçando seu corpo no dele e colocando os braços em seu tronco. Ele, por outro lado, afagava os cabelos dela, tranquilizando-a como podia.

— Você sempre será meu motivo de cuidado Keiko... Eu te amo...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!