Cuida de mim
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A chuva já cessava quando Sophie avistou o Meu Chalé — que tinha tudo, menos aspecto de um simples chalé como o nome dava a entender. Naquele momento, agradeceu a Deus por vislumbrar nos próprios pensamentos a imagem de uma cama quente em meio àquela imponente construção, pois era o que mais parecia precisar no momento.
Apesar de já não estar mais sendo molhada por gotas de chuva, Sophie sentia um frio que ia do pescoço até a ponta do dedo. Nem mesmo o casaco impermeável que Benedict havia insistido em colocar nela parecia amenizar aquela sensação ruim, que só cresceu quando tocou a si mesma e percebeu que estava ardendo em febre.
— Ai. Meu. Deus. — Ela pensou alto enquanto sentia a alma desfalecer.
A última coisa que queria ao reencontrar o seu amor, ainda que ele não a tenha reconhecido, era ficar doente. Mas parecia que o corpo queria o que queria, e ela sequer se sentia com forças para lutar por si mesma dado ao dia longo que acabara de viver.
— Você está bem?
Seus pensamentos foram interrompidos por ele. Já com a carruagem parada na frente da casa, ele estava olhando-a com piedade e ela percebeu como ele estava estupidamente lindo com aquele olhar de preocupação e os cabelos e as roupas todos molhados. Parecia uma obra divina, um anjo, exatamente da maneira que ela lembrava quase toda noite antes de dormir. Um anjo que inclusive tinha acabado de salvá-la de uma fatalidade.
— Droga, ele deve ter percebido que estou doente.
— Estou sim. — Ela mentiu, mas percebeu que não convenceu nem a si mesma com a voz rouca que usou.
Ele respondeu com um grunhido de descrença.
— Não precisa mentir para mim, Sra. Beckett. Meus criados podem cuidar de você. Venha. — Ele finalizou com um olhar sério e direto, estendendo a mão para ajudá-la a descer da carruagem.
Ela teria dado mais emoção ao momento em que novamente tocou na mão dele, algo que um dia pensou que nunca mais faria, se ele não tivesse arregalado os olhos de maneira assustadora quando o fez.
— Você não tá nada bem. — Ele pontuou com um quê de desespero na voz. — Nunca senti alguém tão quente em minha vida. E olha que eu tenho sete irmãos.
E antes mesmo dela pensar em minimizar a própria doença para despreocupá-lo, o sentiu empurrando-a pela cintura escada acima.
— Sr. Crabtree! Sra. Crabtree! — Ele bateu de forma forte na porta logo que a alcançou, mas ninguém respondeu. Observou as janelas e suspirou forte até olhá-la no olho e observar de maneira desapontada. — Acho que eles não estão aqui.
— Sr. Bridgerton. — Ela começou pousando a mão em seu peito de maneira a tentar acalmá-lo, o que capturou ainda mais atenção dele. Mas antes mesmo dela pensar em falar que ele poderia ficar calmo, seus expressivos olhos a alcançaram de uma maneira inigualável e sua mente girou de uma maneira elétrica em todos os acontecimentos do dia.
Benedict Bridgerton estava à sua frente. Ele a tocara duas vezes. E não só o tocara, mas a salvara e agora parecia genuinamente preocupado com a sua saúde, seu bem-estar. Bem-estar esse que poderia ter sido corrompido para sempre se ele não tivesse interrompido o estupro que ela quase sofreu.
De repente, o mundo pesou em seus olhos e a próxima coisa que ela sentiu foi os braços dele envolvê-la e, quando percebeu, chorava copiosamente em seus braços. De algum modo, ela não precisava verbalizar por qual motivo chorava, pois ele parecia ouvir o que ela sentia e já a consolava ternamente.
— Eu já entendi que você é uma mulher forte, Sophie, mas você pode me deixar cuidar de você hoje depois de tudo que você passou. E você pode ficar tranquila que eu jamais vou deixar que qualquer violência como aquela ocorra a você de novo. — E após apertar um pouco mais o abraço, ele finalizou passando as mãos em sua testa de uma maneira desajeitada dentro do abraço. — Eu estou aqui, querida.
— Era possível amá-lo mais? — Ela pensou e isso só a fez chorar mais, porque nunca mais poderia ter mais do que aquilo dele, o homem que mais amou na vida.
Seus pensamentos foram interrompidos, assim como o macio abraço, por um calafrio que correu pelo corpo dela de modo que até ele pareceu sentir e o fez, com um curioso pesar, se afastar.
Apesar de toda a situação lamentável, quando a abraçou, Benedict sentiu como se tê-la em seus braços parecesse a coisa mais certa que já tinha experimentado na vida, mas afastou o pensamento incomum informando que daria um jeito de fazê-los entrar na casa.
Dois minutos depois, a porta se movimentou e Benedict, que portava um robusto castiçal com velas acesas abriu alas para que ela entrasse.
— Infelizmente, meus criados não estão em casa. Devem ter ido visitar a filha que mora aqui perto.
— Tudo bem. — Respondeu Sophie ainda parecendo zonza de febre e agora também de cansaço. — Vou para a ala de criados e…
— Você não vai a lugar algum. — Ele disse de maneira firme, o que a fez despertar por um segundo e encará-lo. — Embora meus criados tenham ótimas instalações, você está doente e é minha hóspede. Ocupará um dos quartos principais — E como se lesse seus pensamentos, ele interrompeu a intromissão dela. — sem qualquer protesto.
Ela o encarou descrente.
— Mas eu sou uma criada e eu sei cuidar de mim mesma.
— Eu não tenho dúvidas disso. — Ele agora se aproximava um pouco mais dela e tomou a bolsa da mão dela com a única mão livre antes mesmo dela pensar em protestar de novo e começou a subir as escadas. — Mas não quer dizer que você não mereça que alguém cuide de você.
Ela o seguiu apavorada só de pensar na possibilidade dele cuidando dela. Aquilo jamais deveria acontecer. Se acontecesse, ela estaria arruinada porque o amor que sentia por ele iria crescer e ela jamais iria poder fazer nada por aquele sentimento. Seria uma tortura.
— Sr. Bridgerton, você realmente não precisa se preocupar comigo. Eu…
Seus protestos foram interrompidos por um excesso de calafrios, que só demonstrava que a frase que ela tentava dizer, que estava bem, era falsa. Ele sorriu com uma satisfação de quem sabia que estava certo, que venceu aquela batalha, mas ela não deixaria isso ocorrer sem dar uma última cutucada.
— Você não deveria estar sorrindo assim por conta da doença de uma pessoa. Você não sabe se eu sou uma paciente difícil, sim?
E entrando no jogo dela, ele deu um riso sem-vergonha antes de responder.
— Então quer dizer que finalmente aceitou que será minha paciente? — E vendo-a enrubescer pela invertida, ele abriu a porta do próprio quarto e completou. — Justo então, sr. Beckett, que você tome o aposento como seu leito.
***
A provocação parecia ter cessado após ela tomar o quarto para si e ele começar a iluminar as velas do local. E não porque algo mudava a cada minuto entre eles de uma maneira gostosa mas melancólica, mas porque seu corpo parecia cada vez mais rebelde com aquela febre.
Preocupado, ele rapidamente acendeu a lareira do local e havia arrumado roupas dele mesmo — absurdamente largas para ela — para que ela tirasse aquelas vestimentas ensopadas e pediu que, quando voltasse, ela já estivesse na cama.
Ainda que não quisesse obedecê-lo, era como se seu corpo implorasse por roupas secas e aquecidas e, quando ele voltou, de roupa também trocada, ela já estava toda enrolada sob os cobertores, mas ainda tremendo de frio.
Um olhar de preocupação o tomou ao se aproximar e sentar perto da cama.
— As roupas lhe serviram?
— Sim. Estou cogitando me enrolar nelas também, já que esse frio parece não passar.
— Sra. Beckett, você deve tá muito febril. — E logo se explicou. — O quarto tá bem aquecido. O que eu posso fazer para ajudá-la agora?
Relutantemente, ela explicou. Não queria que ele tivesse trabalho com ela, mas sabia que ele não sossegaria enquanto fizesse algo por ela. Ele e aquele ternos e hipnotizantes olhos. Maldito olho que só fazia com que ela se apaixonasse ainda mais.
— Acho que seria bom termos toalhas para colocar na minha testa, para regular a temperatura do meu corpo logo que essa friaca da chuva passar. E água também para beber.
Ele assentiu como um soldado exemplar.
— Eu acredito que você vai encontrar uma jarra para colocar água no…
Ele a olhava concentrado, de uma maneira hipnotizante, mas agora também engraçada.
— O que foi? — Ela perguntou de repente confusa ao ver o quanto parecia que ele achava aquilo tudo adorável e ele a tocou nas mãos. O terceiro toque entre eles naquele dia.
— Eu sei onde ficam as coisas no meu chalé. O nome já diz, é meu. — Ele explicou resolutivo e ela de repente corou, como se tivesse feito algo errado.
— Desculpa, mas é que…
— É, eu sei que em geral as pessoas nunca sabem onde está nada em suas casas, mas eu gosto de ter a sensação que me viraria sozinho se precisasse... — E antes de se levantar para ir buscar tudo, ele concluiu com um sorriso simpático. — Como é o caso agora.
— Isso é bom. — Ela respondeu com o melhor sorriso que conseguia dar enquanto sentia o corpo em rebuliços, não sabia se por Benedict ou pelo frio, e o observou sair do quarto com um sorriso igualmente satisfeito no rosto. Acordou alguns minutos depois com a voz dele chamando-a.
— Desculpe acordá-la. — Ele pediu já colocando uma toalha molhada sob a testa dela. — Mas não queria fazer nada sem sua permissão.
E então ele se afastou com um sorriso satisfatório, olhando para a toalha em sua testa como se fosse uma obra de arte. Como se cuidar dela fosse uma obra de arte.
— Espero que isso lhe ajude. A água está aqui também. — Ele completou empurrando um copo em suas mãos. — Beba.
— Você sabia que ninguém nunca mandou tanto assim em mim quando eu estava doente? — Ela o provocou após beber a água e ele revirou os olhos de uma maneira divertida.
— Você não me parece ser uma paciente fácil, embora seja minha primeira paciente.
— Acho que não sou uma pessoa fácil, Sr. Bridgerton.
E ele sorriu como se aquela afirmação fosse de alguma forma agradável enquanto sentava na poltrona ao lado dela.
— A vida seria um saco se todos nós fossemos pessoas fáceis. Eu não sou um homem fácil, mas sou feliz em ser quem eu sou, ou em quem descubro ser.
— E quem você se considera ser? — Ela provocou e por alguns segundos viu que aquela pergunta o pegou.
— Sabe, eu acho que poderia me definir como o número dois. Por muitos motivos e não apenas por ser o segundo filho de uma família bem grande, mas… — ele pensou e a encarou bastante antes de continuar — por algum motivo eu sinto que isso pode mudar em breve.
A hesitação em continuar ocorreu quando ele a olhou e, de repente, viu tudo. Sabia que ela era a próxima coisa que o mudaria por inteiro. A única pessoa, bem, depois da mulher misteriosa, capaz de mudar tudo. De algum modo, aquele apontamento pareceu uma verdade cada vez mais absoluta conforme ele a olhava.
— Eu não acho que o definiria como o número 2, Sr. Bridgerton. — E então ela se corrigiu, pois sentiu que aquele momento não demandava tanta formalidade. — Benedict. Você me parece saber bem e aceitar bem quem é. Nós sempre podemos mudar e nos reencontrar em uma coisa ou outra, mas acho que você já sabe que é um homem bom e quais são seus valores e crenças. Isso por si só já faz de você um 1, não um dois.
E balançando positivamente a pontuação de Sophie, ele respondeu.
— Vamos ver se eu sou um enfermeiro número 1, então? Que tal você tentar descansar? — E observando-a revirar os olhos, ele resolveu provocá-la. — Deus, como você é teimosa. — E ao vê-la rir pela ousadia do apontamento, ele concluiu. — Mas também acho que você é uma mulher número 1, Sophie.
***
Após a conversa profunda, como se quisesse finalmente deixá-la descansar, Benedict pegou uns papéis e decidiu desenhar qualquer coisa. Acabou focando em rabiscar as mãos dela enquanto pensava que o dia havia sido cansativo e mais cansativo ainda estava sendo pensar em Sophie.
Ela era uma mulher agradável, graciosa e sua engenhosidade parecia capturar cada vez mais o pensamento de Benedict. Fazia tão pouco tempo que eles haviam se conhecido, talvez horas, mas ela já soava tão única aos seus olhos.
Mas a inquietação não era só pensar no quanto Sophie inconscientemente parecia mexer com ele. O que parecia tirar a paz de Benedict era perceber que ela parecia nunca ter sido cuidada na vida de modo que, mesmo após ser abusada, ela resistia de primeira às tentativas dele de cuidá-la.
Poucas vezes na vida ele havia ficado doente e, por isso, nunca tinha parado para pensar no desamparo, que pelo pouco que ela contava parecia acompanhá-la. Pensar naquilo o assombrava e pesava, como se seus privilégios de algum modo fossem um peso.
Tentou deixar o pensamento de lado ao concluir que, com aquele privilégio que possuía, poderia pelo menos cuidar dela. Amá-la, assustou-se de primeira ao pensar, mas de repente finalizou o raciocínio sabendo que ela merecia, sim, ser amada, e que ele já sentia que seria fácil fazer isso, que seria um prazer amá-la. Acabou dormindo feliz com o raciocínio, ainda que desconfortável naquela poltrona, enquanto a observava dormir.
Foi despertado da própria soneca pela voz feminina de Sophie, que parecia presa em um sonho. Pelo menos era um bom sonho, ele divagou.
— Estou tão feliz em te rever. — Ela dizia em meio a um sorriso. — Senti falta de dançar com você e agora poderemos fazer isso no seu jardim. Que tal?
Após uns poucos segundos, ela se mexeu de modo que a toalha em sua testa escorregou para parte dos olhos, mas nem aquilo o tirava daquele profundo sonho.
— Eu te amo tanto! — Ela concluiu de uma maneira que o pegou de surpresa, abraçando um travesseiro como se fosse uma pessoa colada a ela. E então seguiu dormindo com um sorriso no rosto pelo restante da noite, ou pelo menos até o momento em que Benedict finalmente se rendeu ao sono e também voltou a dormir.
Acordaram quase que ao mesmo tempo, quando o sol começava a iluminar parte do quarto de Benedict.
Estou no quarto de Benedict, sendo cuidada por Benedict, Sophie pensou se afundando naquela cama enorme e confortável. Era tão gostoso, bom ser cuidada, mas ela sabia que não poderia se acostumar com aquilo, que jamais seria sua vida e que não poderia se apegar a ele, aos carinhos dele, pois seria as duas coisas que ela jamais teria.
Pensar aquilo fez com que lágrimas nascessem nos olhos dela, mas antes que elas escorressem seus pensamentos foram interrompidos pela voz dele.
— Está se sentindo bem?
Ao correr o olho pelo quarto, viu que ele estava semideitado na poltrona ao lado da cama. A roupa amassada de quem dormiu ali mesmo, mas ainda era uma maravilhosa visão. A visão que teria se eles tivessem uma vida juntos.
Seus pensamentos românticos foram atropelados por um rubor então. A vira sonhar, sonhar com ele mesmo. Deus, queria se enterrar em um buraco ali mesmo.
— Um pouco. — Foi tudo que ela conseguiu responder ao perceber que ainda existia febre ali, mas sem calafrios, e continuou para não parecer rude. — E você, dormiu bem?
— Só um pouco, pois cochilei aqui mesmo, mas é bom acordar sabendo que você tá um pouco melhor.
Ele levantou e sem hesitação, apesar da camisa surrada, pegou na testa dela para ver se a febre havia sumido. Com a conclusão de que ela não parecia mais febril, sorriu intimamente perto demais dela, o que a fez ruborizar.
— Tá tudo bem? Fora a falta da febre.
— Tá sim.
— Então por que você enrubesceu?
Ela o observou de maneira atrevida antes de responder.
— É que não é de protocolo um homem a essa hora no quarto com uma mulher que não é esposa dele. Pode ser um pouco constrangedor.
E ele então se afastou.
— Ah, desculpa. É que…
— Não precisa pedir desculpas, sr. Bridgerton. Esse quarto é seu, aliás.
— É, mas…
— Eu só espero não ter feito nada constrangedor.
E então foi a vez dele enrubescer. Lembrou dela falando que amava alguém e, de alguma forma, sentia ciúmes de quem quer que fosse o felizardo a ter o coração dela, de já ter tido a sorte de tomá-la para dançar, curiosamente como ocorreu com ele e a mulher misteriosa.
— E aparentemente fiz. — A voz dela quebrava os pensamentos dele. — Quem tá enrubescendo agora é você.
— Não foi nada demais. — Ele explicou. — Você falou um pouco durante o sono, mas nada comprometedor. Parecia uma lembrança feliz.
E antes que ele visse a cara dela tomando 50 tons de vermelho, a porta do quarto fora aberta e um casal adorável de pessoas mais velhas que eles tomou o aposento.
— Meu Benedict! — A mulher disse quando ele se levantou e foi abraçá-la.
— Por que não avisou que viria? — O homem perguntou.
— Eu não planejava vir, mas ocorreram umas coisas.
E então todos viraram seu olhar para Sophie.
— Oi. — Ela disse de uma maneira um pouco tímida. — Vocês devem ser Sr. e Sra. Crabtree. Meu nome é Sophie Beckett.
E então os dois viraram o olhar para Benedict.
— Tivemos uma intercorrência em uma festa horrível que eu fui e a Sra. Beckett ficou doente, de modo que eu achei melhor que ela ficasse aqui e fosse cuidada aqui, embora eu apenas tenha dado água e toalhas molhadas a ela.
— Você foi um ótimo enfermeiro, Sr. Bridgerton. — Ela concluiu com simpatia. — Estou me sentindo um pouco melhor e já posso…
Mas quando ela ensaiou se levantar, a Sra. Crabtree a interrompeu.
— Não pode nada, mocinha. Você vai ficar aqui e eu vou trazer o café para vocês dois. — E então ela se virou com seriedade para Benedict, capturando de maneira única e impositiva a atenção dele. — E você vem comigo.
— Tudo bem. — Ele apenas concluiu e os três saíram, mas não sem antes ele, já da porta, falar com ela.
— Volto em um minuto. E a propósito, queria que você me chamasse de Benedict, — ele hesitou, mas deu um sorriso e concluiu antes de sair pela porta. — Sophie.
E um sorriso tomou o rosto dela de maneira engraçada até eles retornarem. O casal Crabtree trazia a comida e Benedict vinha junto, sob os protestos da Sra. Crabtree por ele beliscar a comida desde as escadas.
O casal a serviu, num banquete que mais parecia para três pessoas, e logo os deixou a sós. Benedict, como se aquilo fosse algo normal, passou a comer ao lado da Sophie, que paralisada o observava com descrença.
— Você não está com fome? — Ele questionou enquanto devorava um pedaço de bacon.
— Senhor… — Ela falou de um modo franco, mas ele interrompeu.
— Benedict. Já falei para me chamar de Benedict.
Ela engoliu em seco. Não sabia como não amar mais e mais aquele homem quando ele mesmo após vê-la como criada — ainda que sem reconhecê-la — ainda a tratava como uma semelhante, como nem ela mesma conseguia se ver por boa parte da vida.
— Benedict. Você não precisa mais ficar aqui se não quiser. Eu posso comer sozinha.
Ele a olhou de maneira fingida como se ela tivesse proferido algum palavrão.
— Tá dispensando minha companhia?
— Não é isso, sen… Benedict. É que aposto que você tem algo melhor a fazer que tomar café na companhia de uma serviçal.
— Aqui você não é uma serviçal. E se fosse, eu não teria o menor problema com isso. É seu trabalho, e ele é honesto. Além do mais, — Ele falou bem mais para si mesmo que para ela. — mesmo tendo, sim, coisas a fazer, não há outro lugar que eu gostaria de estar agora.
E com um sorriso no rosto após essa afirmação, os dois se puseram a alimentar a barriga e a vontade que cada um deles tinha de conhecer e reconhecer um pouco mais um ao outro.
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