Cuando te vi

9 Sentimentos estranhos


Notas iniciais
Boa leitura!

O que é o amor onde vai dar parece não ter fim uma canção cheirando a mar que bate forte em mim

German

A minha vontade era de ir embora dali.

Eu me sentia estranho, engolfado por sentimentos desconhecidos e intensos, que não faziam parte do meu dia a dia.

Acostumei-me a levar uma vida controlada, harmoniosa, sem grandes mudanças. Alcancei isso com luta, empenho e dedicação, principalmente depois que fui morar naquela casa com meus tios. Antes minha vida era um caos, que mexeu com minha cabeça, que afetou minhas ações e meu pensamento. Assim, eu fugia de emoções fortes e descontroladas. Dois acontecimentos, um antes dos

doze anos e outro aos vinte e três, me deixaram cascudo, preparado para identificar problemas e

evitá-los.

Aquela mulher sentada à mesa de jantar, na minha frente, era problema na certa. Ela despertava em mim esses sentimentos incontroláveis e impetuosos que me faziam ficar em alerta. E era ainda mais perigosa, pois esses sentimentos iam muito além do que eu já senti, pois eram

desconhecidos.

Além de ser noiva do meu primo, portanto proibida para mim, ela também me assustava por despertar esses sentimentos. Por isso eu deveria evitá-la. Queria que minha vida continuasse exatamente do jeito que planejei, sob controle.

Estávamos todos almoçando e Vítor tentava brincar com o fato de não conseguir comer sozinho, já que estava com o braço direito imobilizado. Tia Laurinha e Angie se ofereceram para lhe dar comida na boca, mas ele insistiu em comer com a mão esquerda. Toda hora a comida caía no

prato e ele fazia piadas, causando risadas em todos.

Sentada à minha frente, Angie sorria para Vítor ao seu lado e conversava, mas eu notava que ela estava nervosa. Evitava ao máximo erguer os olhos para mim e, quando isso acontecia, ela corava, arregalava um pouco aqueles lindos e grandes olhos verdes e parecia não saber bem o que fazer.

Eu a afetava da mesma maneira que ela a mim. Seu jeito meio tímido, doce e expressivo me deram a certeza de que ela não era uma garota que gostasse de paquerar pelas costas de Vítor. O que acontecera fora uma atração forte entre nós e ela não estava sabendo reagir bem quanto a isso. Como eu.

Pensei no Clube Voraz, onde Fernanda era uma das donas e eu um sócio há alguns anos. Lá eu havia conhecido muitas mulheres praticantes de práticas sadomasoquistas, que queriam ser submissas. Aprendi a treiná-las, prepará-las. Eu era um dominador naquele meio. E como tal, sentia

imenso prazer quando conhecia uma submissa de verdade. E Angie era uma. Aqueles olhos doces, aquela voz macia, a suavidade natural, fariam dela a submissa perfeita. Imaginei aqueles olhos para mim enquanto eu realizava com ela todos os meus desejos. A luxúria veio violenta e fiz de tudo para

frear meus pensamentos.

Porra, eu tinha que parar de pensar coisas assim. Angie nunca seria minha. Era a mulher mais errada para mim no mundo, noiva do meu primo, virgem, romântica e inocente. Proibida.

Comi e conversei, mais experiente do que ela em esconder meus sentimentos. Mas não via a hora de ir embora dali e fugir de toda aquela tensão que me envolvia quando ela estava perto.

Por mais que eu me controlasse, era difícil manter o olhar longe dela. Eu tentava intimamente

entender o que ela tinha que chamou tanto a minha atenção.

Naquele dia, ela estava bem mais simples do que no dia da festa. Usava os longos cabelos de um loiro brilhante presos em um rabo de cavalo, com a franja lisa caindo sobre a testa. Sua camiseta era amarela, sem mangas, lisa. A calça jeans era justa, mas nada muito sensual. As sandálias eram rasteiras. O rosto estava limpo, sem qualquer maquiagem.

Ela não estava vestida para seduzir. Por que então eu não parava de sentir aquele cheiro suave de morango que eu não sabia se vinha de sua pele ou de seu cabelo? Por que eu reparara logo como os seios dela pareciam firmes e arredondados sob a blusa? Ou como os lábios carnudos eram deliciosamente rosados? E aquelas covinhas encantadoras e bem pronunciadas quando ela sorria?

Estava confuso. Mulheres mais lindas que ela passaram por minha vida. Por que nenhuma mexeu assim comigo? O que Angeles tinha? O que havia naquele olhar que atraía tanto meu, mesmo que eu não quisesse aquilo?

– Bem que você poderia faltar o trabalho amanhã e vir cuidar de mim, querida. — Vítor cutucou Angie de brincadeira.

– Você tem sua mãe. — Ela sorriu para Laurinha. — E sabe que eu nunca falto o trabalho.

– Pois é. Imagino se você amasse o seu trabalho! Viveria naquele tribunal!

– Por quê? — Indagou Bernardo, fitando Angie. — Você não gosta do seu trabalho?

– Gosto. Claro. O Vítor é que fala demais. — Ela respondeu, sem deixar de sorrir, concentrada em cortar sua carne.

– Ela gosta mais ou menos. Vamos, lá, Anjinha, não é nenhum segredo.

– Todo mundo tem que trabalhar e não reclamo do meu. Passei em um concurso bem disputado e ganho um bom salário. Não sei que outra coisa gostaria de fazer. Então, está tudo bem.

– É, nem todo mundo tem certeza do que realmente gosta. — Concordou Laurinha e olhou pra mim. — O German, por exemplo, sempre quis ser médico, não é? Bernardo e Vítor queriam que ele trabalhasse na empresa da família, mas ele seguiu um caminho diferente.

Angie ergueu os olhos pra mim. Pela primeira vez naquele almoço pareceu ter coragem de

conversar diretamente comigo:

– Deve ter sido muito difícil estudar Medicina e se tornar um cirurgião.

– É preciso ter dedicação e não se importar em perder horas de sono. — Respondi.

– Não é só isso. — Continuou minha tia. — German sempre foi muito inteligente e estudioso. Passou numa das melhores faculdades de Medicina do Brasil e se dedicou com afinco. É um neurocirurgião renomado e, com esse doutorado que fez agora na Alemanha, será um dos poucos no Brasil com essa

especialização específica de mecanização cerebral. Os melhores hospitais fazem oferta de trabalho a ele. Já trabalha na Santa Casa e ainda tem seu próprio consultório. Pode trabalhar onde quiser.

Sorri do orgulho dela, mais uma vez agradecido por todo carinho que ela, meu tio e Vítor sempre me dedicaram de forma espontânea. A paciência deles com o menino problemático que foi morar ali tinha modificado a minha vida.

– Se não fosse o apoio de vocês, eu não estaria hoje trabalhando no que sempre quis. -

Reconheci com sinceridade e Laurinha sorriu, toda satisfeita.

Angie me olhava com um misto de admiração e desejo. Era tão puro e claro no rosto dela, que por um momento temi que as outras pessoas na mesa percebessem. Na mesma hora fiquei bem frio e desviei o olhar, mudando de assunto:

– E como vão os negócios na empresa, tio?

Enquanto eu me envolvia em uma conversa com Bernardo, fiz de tudo para ignorá-la. Mas mesmo assim percebia seus movimentos e sua conversa com minha tia e com Vítor.

O almoço acabou sendo torturante, pois não estava acostumado a me policiar tanto no meio da minha família. Se com as outras pessoas eu era um tanto fechado, ali eu relaxava e era eu mesmo, pois sabia que estava seguro, não corria risco. Mas agora Angie estava ali e aquela segurança sumia.

Eu me sentia alerta o tempo todo.

Depois do almoço foi servida uma deliciosa torta de nozes com sorvete de creme. Eu, meu tio e Vítor recusamos, preferindo tomar café. Minha tia e Angie aceitaram.

Não pude deixar de reparar como Angie se deliciou com a sobremesa. Ela comia com prazer, saboreando cada bocado, a expressão de seu rosto demonstrando tanta satisfação, que fiquei quase que hipnotizado. Aquele olhar dourado brilhava de prazer, numa sensualidade latente. A doce e

virgem garota tinha virado uma mulher sexy, cujos lábios carnudos acariciavam lentamente a colher.

Senti meu corpo reagir, enquanto descia os olhos por seu rosto, sua expressão de quase êxtase, sua boca tão sensual. Meu coração acelerou e meu sangue se tornou mais rápido e quente.

Uma ereção incômoda apertou meu jeans e felizmente eu estava sentado.

Quase pude imaginá-la com aquela expressão embaixo de mim, em uma cama. E aquela boca tão carnuda na minha, em meu corpo, saboreando daquele jeito o meu pênis.

Cerrei os dentes, controlando minha respiração e freando meu pensamento. Lembrei que ela não era minha. E que era virgem. E eu nunca desejei as virgens. Não queria a responsabilidade de ser o primeiro, ou de gerar expectativas. Eu gostava de mulheres sensuais, experientes, que sabiam que seria somente sexo. Mulheres fáceis de se livrar.

Vítor fez alguma brincadeira com ela sobre o doce e lembrei dele dizendo que a mãe não deixava que doces entrassem em casa e que ela comia só na rua.

Mais controlado, consegui desviar o olhar. E encontrei os olhos de minha tia concentrados em mim. Fiquei imóvel. Ela parecia ligeiramente chocada, até preocupada. Desviei o olhar como se nada tivesse acontecido, mas tive certeza de que ela percebeu pelo menos parte do que senti por Angie.

Procurei me acalmar. Eu não daria mais um furo como aquele. Não queria que ela se preocupasse, pois nunca foi minha intenção me meter com a noiva de Vítor.

Terminei meu café, sem olhar mais para Angie. Por fim, acreditei que já poderia ir embora.

– Estava tudo uma delícia. Mas preciso ir.

– Fique mais um pouco. — Minha tia me fitou, agora com tranquilidade. — Você está de férias.

Poderia passar um tempo aqui.

– Estou com saudade do meu apartamento, tia. E tenho alguns assuntos para resolver.

– Ah, cara, não vá agora. Pensei da gente jogar uma conversa fora! — Insistiu Vítor.

– Volto amanhã, para ver como você está. E aí, de repente passo a noite.

– E você, Angie? — Vítor se virou pra ela. — Sei que German te trouxe para cá e você deixou seu carro no restaurante. O chofer hoje está de folga, mas se você quiser meu pai te leva mais tarde lá para pegar o carro. É caminho do German, já que ele mora na Barra, mas eu gostaria que você ficasse

um pouco mais.

– Não tem problema, querida. Depois eu levo você. — Concordou Bernardo.

Angie olhou preocupada pra mim.

– Será que você me dá uma carona? Realmente não quero atrapalhar, mas preciso ir para casa. Preciso adiantar um monte de coisa para levar amanhã ao tribunal.

– Tudo bem. — Falei friamente, pois preferia ficar longe dela o mais rápido possível.

Ela corou sem graça, como se percebesse meu tom. Olhou para Vítor e de novo pra mim.

– Pensando bem, eu...

– O German te leva, Anjinha. Não tem problema. Sei que às vezes você traz trabalho para casa e que já está tarde. — Vítor acariciou a mão dela sobre a mesa. — Mas precisa prometer que amanhã passa aqui depois do trabalho para me ver.

– Claro que sim. — Ela sorriu, mas ainda parecia sem graça.

– Então, vamos. — Eu me levantei.

Nos despedimos de todo mundo e saí da sala antes dela, pois não queria ver ela e Vítor trocando beijos e carinhos. Eu já estava do lado de fora, abrindo o carro quando ela apareceu na varanda. Se aproximou em silêncio e segurei a porta do passageiro aberta para ela.

– Obrigada. — Murmurou, ao se acomodar.

Bati a porta e dei a volta. Não a olhei enquanto colocava o cinto e ligava o carro. Ela diss baixinho:

– Olha, se eu estiver incomodando... Acho melhor eu ficar e...

– Deixe de besteira. — Falei puto, mas lutando para controlar meu mau humor. Saí com o carro rapidamente pelo caminho de cascalho que levava até o portão de entrada, que se abriu quando liguei o controle remoto embutido no painel e fechou logo depois.

– Fiz alguma coisa errada? — A voz dela era mansa e indecisa.

– Não.

Ela ficou muito quieta, como se não ousasse nem se mexer. Por fim explicou baixinho:

– Não era uma desculpa para ficar sozinha com você. Eu preciso mesmo ir embora logo.

Lancei um olhar bem sério para ela, que se encolheu um pouco, fitando-me com olhos enormes.

– Eu não disse que era uma desculpa sua. Mas pensei que gostaria de ficar um pouco mais com o Vítor. Afinal ele é seu noivo e acabou de sofrer um acidente.

Ela mordeu o lábio e desviou o olhar. Voltei a me concentrar na estrada, que sempre me acalmava por ser belíssima, rodeada dos dois lados por árvores centenárias. Mas naquele dia a paisagem passou despercebida.

Eu sentia raiva e era de mim mesmo. Mas inconscientemente a culpava por me deixar descontrolado daquele jeito. E por ter permitido que minha tia percebesse.

– Eu estava decidida a almoçar sozinha hoje com o Vítor para desmanchar o nosso namoro. -

A voz dela preencheu o carro e penetrou dentro de mim, com todo significado de suas palavras. — Eu demoro a tomar uma decisão, mas depois que isso acontece, tenho que agir de imediato. Ou não consigo me comportar normalmente. O acidente de Vítor me impediu de tomar a decisão que eu

queria. E não consigo disfarçar ou fingir que está tudo igual. Por isso resolvi vir logo embora e não ficar com ele mais tempo.

Segurei o volante com força, concentrado nas curvas sinuosas da estrada, praticamente vazia naquela hora. Mas todos os meus outros sentidos estavam voltados para ela.

Suas palavras não chegavam a ser uma surpresa pra mim. Hoje mais cedo cheguei a cogitar a hipótese dela se separar de Vítor. Mas o que mais me chocou foi o sentimento genuíno de alívio que me envolveu com aquela notícia. Ela ficaria livre.

E então fiquei revoltado comigo mesmo. Vítor sofreria. E ela ficaria ainda mais distante, pois eu não teria mais que encontrá-la. Finalmente eu poderia me livrar daqueles sentimentos desconhecidos e preocupantes que só Angie despertava em mim. Eu poderia esquecê-la.

– Por que você está me dizendo isso?

– Por que você pensou que sou fria e não me importo com Vítor, que se acidentou.

– Você não deveria se importar com minha opinião.

Angie não retrucou. Resolvi não deixar margens à dúvidas:

– Espero que sua decisão não tenha tido relação com o fato de termos nos conhecido ontem.

Não sou hipócrita em fingir que não houve atração. Houve, mas não faremos nada a respeito. Da minha parte, é um assunto encerrado.

Eu não a olhei para saber sua reação. Sei que ela não se mexeu e continuou olhando para frente. Ficou quieta um momento, como se pensasse sobre o assunto. Por fim, disse suavemente:

– Eu já sabia disso. Mas já tomei minha decisão, independente de qualquer coisa.

Reparei que ela não negou que sua decisão tinha tido relação com o fato de nos sentirmos atraídos um pelo outro. Mas como tudo parecia esclarecido, não insisti no assunto. Com o tempo e a distância, tudo se resolveria.

Eu não queria que Vítor sofresse, mas se Angie não o amava era melhor que tudo acabasse

antes que ele se envolvesse ainda mais. O tempo o curaria. Era o melhor remédio para tudo.

Seguimos todo o resto da viagem em silêncio. Mas nem por um momento deixei de notar sua presença ao meu lado.

Quando parei o carro no estacionamento do restaurante do Recreio, ela já foi tirando o cinto e pegando a bolsa no colo. Ali estava cheio de carro.

– Obrigada pela carona e...

– Vou acompanhá-la até o seu carro.

– Não precisa.

Mas eu já saía e dava a volta para abrir a porta para ela. Angie saiu sem me olhar. Mexeu a cabeça, o rabo de cavalo caiu sobre um de seus ombros e o cheiro gostoso de morango me envolveu.

Era do xampu dela e não de seu perfume.

– Onde deixou seu carro?

– Ali à esquerda.

Eu andei ao seu lado. Paramos em frente a um Fox vermelho e ela já pegava a chave na bolsa.

Abriu a porta do lado do motorista e então se voltou pra mim, erguendo o rosto para me fitar.

Fixei meus olhos nos dela. O alívio que eu havia sentido, pelo fato de que quando ela se separasse de Vítor eu não a veria mais e a esqueceria, havia desaparecido. Em seu lugar eu sentia um incômodo por dentro, um sentimento ruim de que realmente eu poderia não vê-la mais.

O desejo que senti de encostá-la no carro e beijá-la quase chegou a doer. Por um instante

insano tive vontade de jogar tudo pro alto e fazer o que queria. Esquecer tudo e me entregar ao que

ela, e só ela, despertava em mim.

Angie parecia igualmente afetada e respirava irregularmente. Seus olhos brilhavam

intensamente e ela abriu os lábios de leve, como se me convidasse inconscientemente a prová-los.

Dei um passo para trás, recorrendo ao resto de autocontrole que consegui juntar. Ela engoliu em seco, corando terrivelmente.

– Dirija com cuidado. Quer que a acompanhe com meu carro?

– Não... Não precisa. Obrigada.

– Adeus, Angie.

– Adeus, German.

Acho que era a primeira vez que ela dizia meu nome. E talvez fosse a última.

Movi minha cabeça em forma de cumprimento

Ela entrou no carro e fechou a porta. Só então voltei ao meu próprio carro. Esperei que ela se afastasse dirigindo e fiquei um tempo recostado, minhas mãos segurando o volante com força.

Talvez agora eu voltasse a ser o mesmo.

Notas finais
Hoje tem maratona então até daqui a pouco, a cada dois comentários posto um novo cap @Violeteros_BR beijos Mari