Cuando te vi

11 Difícil de resistir


Notas iniciais
Boa leitura!

Pra você guardei o amor Que nunca soube dar O amor que tive e Vi sem me deixar sentir Sem conseguir provar Sem entregar E repartir.

German

Eu estava muito preocupado com Vítor.

Desde quarta-feira, quando Angie desmanchou o noivado, ele estava desesperado, tonto, sem saber o que fazer ou como se portar. Meus tios tentavam alegrá-lo, confortá-lo com conselhos.

Eu conversava com ele, levava-o para sair e se distrair, mas nada dava certo.

Na noite anterior ele chegou arrasado ao meu apartamento, levado por Carlos, o motorista da mansão. Confessou que tinha vindo da casa de Angie, que tinha ido lá tentar conversar, mas que ela não o ouviu. Tentara contar com a ajuda da mãe dela, mas parecia ter sido pior.

Deixei que ele desabafasse. Depois repeti o que já tinha conversado com ele na noite anterior, quando ela terminou o noivado e ele me ligou sofrendo, querendo conselhos. Não havia o que fazer no momento, além de respeitar a vontade dela. Quanto mais ele a cercasse e insistisse, ia ser pior.

Mas Vítor não queria ouvir. Dizia que deveria haver um jeito e implorava para que eu o ajudasse, desse uma ideia. Nunca o vi tão perdido. Além de gostar muito dela, ele também não estava acostumado a se ver privado do que queria. Nunca sofreu seriamente na vida e não estava preparado para aquilo. Não sabia nem como reagir.

No fundo me senti culpado por, mesmo que indiretamente, ter parte no seu sofrimento. Eu

sabia que a atração forte entre mim e Angie contribuiu para a decisão dela. Não sei até que ponto, já que ela nunca teve certeza sobre o noivado. Mas de qualquer forma contribuiu.

Deixei que Vítor desabafasse e não dei mais conselhos, pois ele não queria ouvir a realidade naquele momento. Fiz com que comesse algo e o convenci a ficar no meu apartamento. Dispensei Carlos, avisei os meus tios e ficamos no terraço, em volta da piscina, tomando umas cervejas. Ele

falou muito sobre Angie e eu escutei. Por fim ficou exausto e foi dormir.

Fiquei um tempo do lado de fora, afetado por toda aquela história. Não queria nunca ver Vítor tão arrasado e gostaria de poder ajudá-lo, mas no momento não havia muito o que fazer. Ao mesmo tempo pensava em Angie, em como ela devia estar se sentindo. Principalmente com Vítor

cercando-a, sem aceitar o rompimento.

Eu me sentia muito incomodado, pois aquela situação era uma velha conhecida minha. Senti profundamente na pele o que era ter alguém desesperado por você, fazendo loucuras para estar ao seu lado, criando um círculo vicioso e obsessivo que afetava a vida de todos os envolvidos.

Demorei anos para me recuperar daquilo, que afetou minha vida não apenas uma, mas duas vezes. Até hoje, depois de anos, eu ainda sonhava com aquelas duas mulheres, tinha pesadelos, pensava nelas. Mesmo após muita terapia, muita conversa com meus tios, eu ainda me sentia culpado.

Minha mãe e minha namorada Angélica. Duas mulheres que morreram por minha causa.

Levantei e fui me deitar, tentando esquecer aquilo.

Vítor não era como elas. Ele viu como a obsessão por uma pessoa podia trazer estragos, acompanhou tudo ao meu lado. Não faria a mesma coisa com Angie. Logo ele aceitaria o rompimento e seguiria em frente. Era uma questão de tempo. E eu e meus tios estaríamos ao lado dele para ajudálo.

Pensei se a mãe de Angie ficaria ao lado dela. Provavelmente seria mais uma a tentar convencê-la a voltar com Vítor. E talvez conseguisse, se Angie fosse mesmo muito submissa e deixasse sua vontade ser afetada pelas insistências da mãe e de Vítor. Mas isso não me dizia mais respeito.

De manhã, Vítor acordou ainda arrasado, reclamando de tudo, da tipoia que o incomodava e que ele talvez tirasse naquele dia ao ir ao médico, da saudade de Angie, da falta que sentia do trabalho, já que ganhou alguns dias do médico para ficar em casa. Tentei levá-lo na empresa do meu tio, para ver se ele se animava, mas ele preferiu ir para casa e eu o acompanhei.

Na mansão, eu e tia Laurinha fizemos de tudo para distraí-lo, mas o assunto dele era só sobre Angie. Após o almoço, voltei para casa, sem saber mais o que fazer.

Era sexta-feira à noite eu saí para jantar com dois amigos médicos que trabalhavam comigo

na Santa Casa. Era difícil nossas folgas coincidirem e desde que voltei da Alemanha não havíamos nos encontrado. Eu conversava animadamente com Eduardo e Paulo sobre as novidades daquele ano que fiquei fora, quando meu celular tocou. Era tia Laurinha.

– Tia. Aconteceu alguma coisa?

– Oi, meu filho. Desculpe te incomodar a essa hora, mas o Vítor está me deixando louca! Saiu daqui ainda há pouco de táxi, dizendo que ia atrás da Angie, parece que no bar que ela vai todas as sextas. Ele estava transtornado, German. Não foi ao médico hoje e ele mesmo tirou a tipoia. Tinha

bebido bastante. Pelo menos não saiu dirigindo! Mas estou preocupada, pois não atende o celular!

Nem levou o Carlos como motorista.

– Calma, tia. Ele me falou onde fica esse bar lá na Lapa. Vou buscá-lo.

– Você faz isso? O Bernardo fez uma viagem de negócios a São Paulo e nem o avisei, para não preocupá-lo à toa.

– Fez bem. Assim que eu tiver notícias, ligo pra senhora.

– Obrigada, German.

– Não se preocupe.

– Vá com Deus, meu filho.

Ela desligou. Inventei uma desculpa para meus amigos, paguei minha parte da conta e saí.

Infelizmente eu estava em um restaurante da Barra da Tijuca, em uma sexta-feira à noite. Não seria

muito rápido até chegar à Lapa. Lamentei ter ido ali de carro e não com a minha moto.

Xinguei Vítor mentalmente, pois ele estava agindo como um crianção, mimado e imaturo.

Nem se preocupava com a mãe ou com o fato de ainda estar se recuperando de um acidente. Ele

ouviria poucas e boas quando eu o encontrasse. Seu celular tocava, mas ele não respondia. Não perdi

mais tempo tentando e dirigi para a Lapa.

Demorei quase quarenta minutos até parar meu carro no estacionamento lotado do Loretta.

Era uma mistura de bar, restaurante e boate, em uma rua movimentada da Lapa, cheia de bares. Eu já

havia ido umas duas vezes ao Loretta e o que atraía no lugar era a comida excelente, as cervejas

sempre geladas e a boa música. Bandas sempre se apresentavam por lá, todas de alta qualidade.

Não era um lugar cheio de frescuras, mas animado, lotado de jovens e barulhento. Paguei

minha entrada e por fim estava lá perto do bar, pensando como eu encontraria Vítor naquele lugar

cheio de gente. Então ouvi uma música animada tocando no intervalo da banda que se apresentava no

palco, e lembrei de Vítor dizendo que Angie adorava ir ali para dançar com os amigos. Assim, segui na

direção da enorme pista de dança banhada por jogos de luz.

Olhava em volta com atenção, procurando por Angie ou por Vítor em meio a toda aquela

penumbra, com luzes coloridas que se cruzavam, e todas aquelas pessoas dançando. Era difícil

visualizar bem alguém ali, mas fiquei parado, observando todos que passavam a minha volta e os que

dançavam.

Quase que por um milagre eu a vi.

Angie não estava muito distante e dançava sozinha em meio a um monte de gente. Estava com

os braços pra cima, os olhos fechados e se remexia ao ritmo da música. Parecia num mundo só seu,

como se expulsasse seus demônios.

Seus movimentos eram sinuosos, sensuais e ela parecia imersa em um mundo próprio, como

se tudo se resumisse à música e ao ritmo, aos quais ela se entregava.

Senti a garganta seca. Eu nunca a vira tão bonita, seu cabelo longo descendo por seus ombros,

por seus seios, os braços esguios balançando suavemente, seu quadril movendo-se como de uma

sereia a seduzir quem pusesse os olhos nela. A franja suada colava-se em sua testa, assim como

alguns fios em seu pescoço. Sua camiseta preta, de alças finas, marcava os seios empinados e a

cintura fina. Ela usava uma leve saia estampada, que caía suavemente por seu quadril arredondado

até um pouco acima dos joelhos.

Fiquei hipnotizado, parado ali como um tolo sem conseguir me mover ou reagir. Tentei olhar

em volta, ver se Vítor estava por ali, mas não consegui. Minha vontade era a de ir até ela e beijá-la

até perder o fôlego, segurar aquele corpo esguio e curvilíneo contra o meu, saber se seu gosto era tão

bom quanto o resto dela.

A música terminou e começou outra do Aerosmith, mas lenta, romântica. Angie desceu os

braços e foi parando de dançar, enquanto abria os olhos pesados, como se saísse de um devaneio.

Seu rosto era um misto de languidez e até uma certa tristeza. Ela moveu de leve a cabeça ao som da

nova música, enquanto começava a sair da pista e vinha em minha direção, ainda sem me ver.

Parecia distraída, mergulhada em um mundo só seu ou no da música, pois já estava à minha

frente e não parecia enxergar nada. Mas então seu olhar vagueou até o meu e parou. Pude notar o

exato instante que seus olhos se focaram, agora extremamente alertas, fixos nos meus.

Ela parou de supetão, surpresa, muito quieta. Sua respiração tornou-se mais irregular. Seus

lábios pararam levemente entreabertos. Ela e aquela música também me afetavam, como se tudo

tivesse sido feito pra nós dois.

Então me dei conta do ridículo que era meu pensamento. Nunca fui romântico ou sonhador.

Aquela melodia não tinha nada a ver conosco. E eu não estava ali, por ela, mas por Vítor. Consegui

me manter frio, esperando que ela terminasse de se aproximar. O que ela fez com mais alguns passos.

– German... – Parou incerta, parecendo um pouco tonta.

– Angie. — Cumprimentei-a com a cabeça. Praticamente líamos os lábios um do outro, pois o

som era muito alto.

As pessoas passavam a nossa volta, esbarravam. Uma delas empurrou Angie para frente e ela

apoiou as mãos em meu peito, seu corpo quase colado no meu. Fiquei imóvel, sentindo o desejo

percorrer subitamente minha pele. Seus olhos ergueram-se para mim e não se afastou. Entreabriu os

lábios e murmurou:

– Dança comigo.

Era possível sentir o álcool em seu hálito doce. Segurei seus braços com firmeza, afastando-a

um pouco para que não sentisse a ereção incômoda em minha calça e para que eu pudesse

reequilibrar meus sentimentos.

– Angie ... – A música alta impedia que nos ouvíssemos. Pessoas a nossa volta nos empurravam

um para o outro. – Venha comigo ...

Comecei a levá-la para longe da pista de dança, segurando sua mão e trazendo-a atrás de

mim. Contornamos o palco, fugindo da música alta. Havia um lugar menos movimentado ao final do

bar, um pouco escuro, mas mais silencioso. Paramos ali e nos fitamos. Mantive uma distância segura

dela, que falou logo:

– Está... procurando... Vítor?

– Ele está aqui?

– Saiu ainda há pouco.

Eu observei-a com cuidado. A tristeza que notara em sua expressão ao dançar, parecia mais

latente agora. Parecia bem chateada.

– Ele falou com você?

– Sim, German.

– Vítor não tem facilitado as coisas.

– Não tem mesmo. Acho que ele tinha bebido. Foi difícil conversar com ele.

– Ele foi agressivo ou...

– Não. — Ela balançou a cabeça. Incomodada, olhou em volta e afastou o cabelo para trás dos

ombros. Alguns fios continuaram colados em seu pescoço suado. — Apenas não me dá espaço.

Parecia meio tonta e imaginei se não teria bebido um pouco mais por se sentir chateada,

pressionada.

– Eu sei. Já conversamos com ele, mas está parecendo um garoto mimado que não gosta de ser

contrariado. — Falei irritado.

Angie me olhou e acenou com a cabeça:

– Foi isso o que minha amiga Paola disse pra ele. Por fim, ele viu que eu não sairia para

conversar e começou a discutir com Paola, que se meteu entre nós. Os dois nunca se entenderam

muito bem. Aí ela ficou nervosa, disse que era melhor ele ir embora, mas ele estava sem carro, não

podia dirigir. No final das contas, ela falou pra eu esperar aqui e foi levá-lo em casa.

Fiquei aliviado com aquela notícia.

– Que bom. Minha tia estava preocupada, pois ele saiu de táxi e alcoolizado. E Vítor não

atende o celular.

– Não se preocupe. Paola é bem responsável, vai deixá-lo em casa. Vou ligar pra ela e

perguntar onde eles estão.

Concordei com a cabeça. Enquanto ela pegava o celular e ligava, eu a observava. Naquela

hora começou uma lenta música do Elton John, mas só notei superficialmente. Meus sentidos estavam

todos concentrados em Angie.

– Oi, Paola, sou eu. E o Vítor? Entendi. — Angie ouviu um pouco. — Certo. German, o primo dele,

está aqui. Um momento. Quer falar com ela, German?

– Quero. — Ela me entregou o telefone. — Paola, obrigado por estar levando-o para casa.

– Quando ele estiver sóbrio, vai ouvir poucas e boas de mim. — Ela reclamou. — Acredita que

pegou no sono aqui no carro? A sorte é que fui sexta-feira na casa dele e sei o caminho.

– Parece que ele vai ouvir de todo mundo amanhã.

– Diga para sua tia lhe dar umas palmadas! — Sua voz estava mais bem humorada. — Falando

sério, Vítor precisa entender que o noivado acabou. A Angie está arrasada por magoá-lo, ela não quer

fazer isso. Mas ele é um homem. Não pode ficar cercando-a, incomodando-a no trabalho, no lazer, na

casa dela.

– Sei disso.

– Hoje ele só faltou agarrá-la aí no bar! Depois quase chorou. Ela já ia ligar para um táxi e

levá-lo em casa. Mas achei melhor eu mesma fazer isso, assim ele entende mais rápido que não pode

obrigá-la a fazer as suas vontades. — Ela suspirou. — Você está de carro?

– Estou.

– É porque o trânsito aqui está ruim e devo demorar até levar o Vítor e voltar. A Angie saiu

comigo. Se ela quiser ir embora, pode lhe dar uma carona? Nossos amigos beberam e só saem mais

tarde.

Eu fitei Angie. Ela me olhava, prestando atenção. Depois se recostou na parede, pálida,

parecendo cansada.

– Pode deixar, vou cuidar disso

– Obrigada.

– Obrigado a você, Paola.

Desliguei o celular e entreguei a ela.

– Ele dormiu, não é?

– Sim. — Respondi. — Eu disse a ela que a levaria em casa. Quer ir agora?

– Você não precisa se preocupar comigo.

– É o mínimo que posso fazer. Se não quiser ir agora, eu espero.

– Não quero ir. E não precisa me esperar. – Lançou-me um olhar magoado, como se eu tivesse

feito algo errado. – Não sou obrigação sua.

– Eu não disse isso. – Franzi o cenho.

– Cuide de Vítor. Eu sei me virar sozinha. Tchau, German.

Deu-me as costas e já ia se afastando. Segurei seu braço na hora e a virei, sem entender.

– O que houve? Por que está assim?

–Por quê? – Riu, sem vontade, lágrimas surgindo em seus olhos. – Só veio aqui atrás de

Vítor, preocupado com o seu primo com uma desalmada como eu! Não é isso que todo mundo está

pensando? Acha que não percebo que quer correr logo pra longe de mim como se eu fosse uma

leprosa? Então não precisa fingir, tá? Eu to bem. Vou embora com meus amigos.

– Não é nada disso. – Angie tentou puxar o braço, mas eu não podia deixá-la sair assim. Segurei

o outro braço também e fitei seus olhos, revoltado por ver seu estado, magoada comigo. – Angie, você

também bebeu e Paola está preocupada. Só vou te levar para casa.

– Mas eu já disse que não quero! Pode me soltar?

Olhamos fixamente um para o outro, ambos irritados. Mas o desejo também estava lá, quente

e denso, quase como uma energia viva entre a gente. Naquele canto mais escuro, era como se só

existíssemos nós dois.

Quando ela entreabriu os lábios e arfou baixinho, senti a labareda da luxúria me lamber,

quase incontrolável. Recorrendo a todo meu autocontrole, soltei seus braços, sabendo que o melhor

era ficar longe dela mesmo. Mas Angie não se afastou. Surpreendendo-me, deu um passo para frente e

disse com raiva:

– Estou cansada de ser boazinha!

Quando veio mais perto ainda, dei um passo para trás e senti a parede atrás de mim. Antes

que pudesse reagir, Angie me abraçava forte pelo pescoço, ficava na ponta dos pés e colava o corpo

ao meu. Seus lábios macios e carnudos beijaram os meus com paixão, como se tivesse enlouquecido.

Fui arrebatado por meu próprio desejo violento, pelas emoções intensas que borbulhavam

dentro de mim desde que a conheci. Todo meu lado racional foi inibido pela paixão e quando vi eu a

apertava contra mim, minha mão direita em suas costas, a esquerda na nuca, amparando sua cabeça

enquanto enfiava minha língua em sua boca e a beijava faminto.

Meus dedos se perderam em seus cabelos sedosos e apertei seu corpo macio contra o meu,

puxando-a tanto como se a fundisse em mim. Seu gosto me deixou doido, seu cheiro de morango

infiltrou-se em minhas narinas e envolvi minha língua na sua, lambendo-a, sugando-a. O desejo foi

tão intenso que agradeci estar encostado na parede. Encaixei-a em mim, tão duro e excitado contra

sua barriga, tão arrebatado que não conseguia mais soltá-la.

Angie gemeu como uma gatinha, agarrada em mim, suas mãos em meus cabelos, sua boca na

minha. A paixão nos deixou dopados, tão descontrolados que o mundo todo deixou de existir. Era

somente nossa pele queimando, nossas línguas se sentindo, nosso desejo se mesclando. Quando ela

se roçou em mim, tentando ficar mais nas pontas dos pés, meu pau endureceu ainda mais, como uma

barra de ferro. Abri um pouco as pernas e a encaixei ali, gemendo rouco quando sua vagina se

acomodou certinha de encontro ao meu pau.

O desejo avassalador de estar dentro dela me golpeou e a beijei tão ferozmente que meu

coração disparou, a adrenalina percorrendo meu sangue. Minha razão tentava escapar de todo aquele

descontrole, eu sabia que devia parar, mas não conseguia. Parecíamos feitos um para o outro,

perfeitos, completos, unidos. Mas no fundo algo me alertava. Eu devia parar. Eu devia lutar.

Descolei meus lábios e ergui a cabeça, respirando pesadamente, buscando me controlar. Mas

Angie beijou meu queixo, minha garganta, ronronou e mordiscou meu pescoço, entregue e apaixonada.

Suas mãos percorreram meus ombros sobre a camisa, seu quadril roçou o meu. Segurei-a firme, meus

dedos perdidos entre a maciez de seus fios loiros espalhados pelas costas, tentando conter toda

loucura que despertava em mim.

– Angie ... Pare ...

– Não ... – Abriu minha camisa perto da gola com as duas mãos e lambeu o oco entre a

clavícula, como se não pudesse se conter, parar de me beijar e tocar.

Fechei os olhos, lutei comigo mesmo, mas no fim soube que precisava parar. Eu não podia

fazer aquilo com Vítor. Era mais do que um irmão para mim. Abri os olhos e lamentei internamente

quando a segurei firme e afastei-a um pouco de mim. Meu corpo protestou, quase a puxei de volta,

mas consegui fitar seus olhos pesados de tanto desejo e dizer baixo, mas firme:

– Não.

– German ...

Fez menção de me abraçar de novo, seus lábios inchados e vermelhos me fazendo vacilar e

queimar, mas a mantive longe e fui mais duro:

– Eu não quero, Angie. Não quero.

– Você quer ... – Piscou, confusa, obviamente excitada, tudo nela gritando seu desejo por

mim.

– Isso não devia ter acontecido. – Desencostei da parede. Soltei-a e a contornei, me afastando

um pouco, passando a mão pelo cabelo num gesto nervoso.

– Mas aconteceu. German, escute ... – Ela segurou meu braço, olhando-me suplicante. – Eu e

Vítor acabamos. Eu esperava por você. Não é justo ...

– Vítor é um irmão para mim. Sei como ama você, como queria se casar e está sofrendo com

tudo isso. Eu não podia ter tocado em um fio de cabelo seu. – Tentei achar forças na raiva que senti

de mim mesmo. Fitei-a bem dentro dos olhos, todo desejo arrebatador parecendo me consumir com

força total, mas a lealdade a Vítor me contendo. – Como vou olhar para ele agora?

Ela deixou a mão cair, parecendo entender que estava decidido. Corou, piscou, mordeu o

lábio. Disse baixinho:

– Eu também não quero magoá-lo, mas ... Não é justo. – Era quase possível tocar a paixão

com a qual me olhava.

Em volta de nós a música continuava, pessoas passavam e se divertiam, o mundo andava

normalmente. Mas naquele canto, depois de saber como nos fundimos tão bem, o quanto o beijo foi

delicioso, o desejo parecia uma força viva, nos puxando e golpeando. Mas ele não poderia crescer

em meio a uma traição. Angie não estava mais com Vítor, mas eu sabia como ele estava sofrendo,

como a amava. E não poderia traí-lo.

– Isso deve acabar aqui e agora. – Falei sério, decidido. – Vou levar você para casa e ir

embora. E não devemos nos ver mais.

Angie parecia derrotada, como se tivesse muitos argumentos mas não pudesse usá-los. No

fundo, sabia que ela entendia. Nos fitamos, querendo uma coisa e decidindo por outra. E ela disse

baixinho:

– Não precisa me levar.

– Não saio daqui sem você, Angie.

– Vou só na mesa pegar minha bolsa e me despedir do pessoal. — Parecia cansada.

– Tudo bem. Eu aguardo aqui.

Ela passou por mim sem me olhar. Fiquei imóvel, sabendo que tinha feito o certo. Nunca

devia tê-la beijado. Mas Deus me perdoasse, pois eu nunca esqueceria aquele beijo, a sensação de

tê-la em meus braços e sentir seu gosto doce e único. Tentei me controlar, manter a cabeça fria. Era

um homem ligado aos prazeres físicos e não bastasse a atração que despertava em mim, Angie também

mexera com algo mais fundo. Eu precisava de mais tempo para me reequilibrar.

Ela não demorou e logo saíamos juntos.

Depois que nos acomodamos no carro e seguimos pela rua movimentada, um silêncio tenso,

pesado, se instalou entre nós.

– Eu e minha família não aprovamos nem um pouco esse comportamento do Vítor. — Falei

baixo, tentando não tocar no que tinha acontecido entre nós. — Prometo que vamos ser mais duros com

ele.

Angie apenas acenou com a cabeça, quieta, realmente abalada.

– E sua mãe? Como reagiu ao fim do namoro? – Insisti, sem aguentar todo aquele silêncio.

Minha vontade era de arrancar com o carro até meu apartamento, jogar Angie na cama, arrancar suas

roupas e entrar nela, me fartar com seu corpo, amá-la à noite toda. Tentei afastar o pensamento

tentador. E lembrei que ela era virgem. Devia manter tudo aquilo em mente e me controlar.

Ela suspirou, olhando pela janela.

– Muito mal. Eu só vou pra casa para dormir, pois não aguento mais os sermões dela sobre o

quão idiota eu sou por me separar de Vítor.

– E você tem certeza de que tomou a decisão certa?

Com minha visão lateral, notei que virava e olhava para mim.

– Você sabe que sim, German.

– Então, mantenha seu ponto de vista e ignore o resto.

– É o que estou tentando fazer. Mas fica difícil ignorar o Vítor de um lado e a minha mãe do

outro. Eles vão entender que não vou voltar atrás, mas até lá...

– Vai passar. Se o Vítor incomodar você de novo, eu mesmo vou me encarregar dele.

– Vai amarrá-lo ao pé da cama? – Angie sorriu lentamente.

– Se for preciso. — Acabei sorrindo também.

O clima entre nós aliviou um pouco, embora a energia densa e quente continuasse.

– Em que lugar da Taquara você mora, Angie?

Ela explicou e segui em frente.

– Você já tinha ido antes ao Loretta? – Perguntou de repente.

– Poucas vezes.

– Quando?

– Uns dois anos atrás.

– Eu sempre vou lá. É bem provável que eu estivesse no Loretta quando você foi lá.

– E?

– Nada. Só isso. — Ficou pensativa. Quase pude adivinhar seus pensamentos: poderíamos ter

nos encontrado lá antes dela conhecer Vítor. A atração entre nós bem provavelmente seria a mesma.

Mas todo o resto seria bem diferente, sem o peso dela ter sido noiva do meu primo.

– O passado não pode ser mudado.

– Mas o presente sim. — Ela retrucou mansamente.

– É verdade. Você mudou o seu presente quando terminou o noivado.

– Eu gostaria de mudar ainda mais. — Fiquei quieto, com os olhos fixos na estrada. Mas ela

não recuou: — Gostaria de ter conhecido você antes. Ou que você não fosse primo de Vítor.

– Angie...

– Eu sei o que você vai dizer. Já deixou tudo claro. Mas posso falar só uma coisa, German?

Eu sentia que ela me olhava. Mas não a encarei. Precisava me manter firme, sem vacilar. Angie

não esperou que eu respondesse e falou com suavidade e com emoção contida:

– Todo mundo diz que sou uma tola romântica. Tentei mudar e por isso fiquei com Vítor. Mas

quando vi você naquela festa... Não sou de paquerar por aí, como você pensou. É que senti uma coisa

diferente por você. E aí percebi que não dava mais para forçar outros sentimentos. Sei que Vítor é

seu primo e que não tenho a mínima chance. Mas só queria dizer que se algum dia, daqui a um ou dez

anos, você mudar de ideia, eu estarei te esperando.

Cerrei o maxilar, com suas palavras atingindo algum alvo escondido dentro de mim. Fiz o

possível para manter meu pensamento lúcido, procurando não me envolver com o significado de tudo

aquilo. Esperar por mim. Mesmo sem saber se ou quando eu a procuraria, sem pedir nada em troca.

Dez anos!

– Eu não vou mudar de ideia. — Disse o mais friamente que consegui, embora agarrasse o

volante com força, minha vontade sendo outra.

Ela apenas olhou para frente, quieta, suas mãos imóveis em seu colo.

Nunca me senti tão afetado por uma mulher. A cada vez que eu a encontrava, ela parecia

tomar um pouco mais de mim. Agora mesmo eu me sentia horrível, abalado, envolvido. O melhor a

fazer era evitá-la, ficar o mais distante dela que fosse possível. Com sorte tudo voltaria ao normal, e

para ela também.

Quando estacionei em frente ao prédio em que ela morava, em uma tranquila rua da Taquara,

Angie já foi soltando o seu cinto de segurança.

– Eu a acompanho até o portão. — Avisei sem olhá-la.

Saí do carro, dei a volta e abri a porta pra ela. Angie desceu tirando o molho de chaves da

bolsa, parecendo extremamente envergonhada. Caminhamos até o portão gradeado e esperei que ela

o abrisse. Por fim, ela segurou o portão e ergueu seus olhos caramelados até fitar os meus.

– Obrigada por tudo, German. Seja feliz.

– Você também.

E ela entrou rápido, sem olhar para trás. Observei-a sumir dentro do prédio e só então voltei

para o meu carro. Uma sensação pesada apertava meu peito. Percebi que já era a saudade.

Notas finais
@Violeteros_BR beijos Mari