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4 Capítulo 4


Na verdade, têm algumas coisas que você precisa saber sobre a Meg. Ela trabalha comigo há cerca de cinco anos. De fato é meio mandona de vez em quando, mas muitos na unidade criminal ficam impressionados com a sua inteligência e com os seus negros cabelos ondulados, que lhe caem até os ombros e lhe dão um ar de inocente. Mas aqueles que lhe conhecem há mais tempo percebem em seus bonitos olhos castanhos, certo ar perigoso e perspicaz... Então não, ela não é nada inocente, apesar de eu achar que ela goste que os outros pensem que ela seja.

Era quase dez da noite e o transito era praticamente nosso. Estava em uma velocidade incrível quando Meg, depois de pegar uns doces esquecidos no canto esquerdo da porta, falou:

- Essas com cara de inocentes são as piores. Provavelmente o cara devia ser casado e a esposa a matou — a janela aberta fazia com que o vento embaraçasse seus cabelos de uma maneira quase que sensual.

- Vocês mulheres julgam muito... Umas as outras então – respondi, dobrando em uma rua estreita e escura. Tentando me concentrar na rua e não nos cabelos da Meg e no fato dela mesmo ter cara de inocente.

Outra coisa que você precisa saber é que é proibido o relacionamento entre funcionários no “CSIBR”. Mas eu não era cego... Ela era muito atraente. Depois de mais umas curvas, cheguei a uma rua mais clara e parei em uma casa bege com uma calçada alta.

- Obrigado Pedro- disse Meg, pegando os últimos doces do carro, me dando um beijo na bochecha e saindo. Esperei ela entrar em casa e parti.

Mais alguns minutos depois, estava em casa. Depois de sair do carro e abrir o portão, subi a rampa frontal para estacioná-lo no pequeno pátio. Tomei um rápido banho e esquentei um frango que tinha na geladeira, ainda pensando sobre o caso. Quando terminei de jantar, resolvi ligar para o delegado Silva.

-Delegado, aqui é o Pedro Borges da criminalística. Desculpe o horário, mas como você sabe, eu sou o responsável pelo caso Isabella Ferreira e queria uma informação.

— Pode perguntar, eu estou com o relatório deste caso aqui comigo.

— A moça tinha namorado? – perguntei

— Pelo o que os vizinhos disseram, ela era uma moça bastante reservada e não sabiam muito da sua vida pessoal e nem se namorava, nunca viram nenhum rapaz entrar na casa com ela.

— Obrigado, delegado. – agradeci e desliguei o celular.

No outro dia, cheguei mais cedo ao trabalho do que o normal. Não tínhamos um nome, somente digitais e DNA. Então resolvi ir ao segundo andar falar com o Gregório, o nosso decifrador de DNA, mas encontrei a sala vazia. Estranhei, mas não dei tanta importância e fui até o legista, Frederico, no andar seguinte.

Ele confirmou a causa da morte com perfurações no pulmão esquerdo, fígado e baço. Isabella sangrou até morrer. E o tamanho do ferimento confirmou a faca como arma do crime. Perguntei se havia lesões de estupro e ele confirmou que a vítima havia feito sexo por vontade própria.

Fui tomar um café na cafeteria do próprio edifício, no último andar, e acabei esbarrando com Paulo, Gregório e Meg conversando.

— O que você está fazendo aqui? – perguntei ao Greg, depois de pegar um café pra mim.

— Relaxando um pouco. — ele me respondeu, tomando um pequeno gole do seu próprio café.

— Relaxando? Nós temos um caso pra resolver! – falei um pouco alto, sentando a mesa que eles estavam.

— Ta, não precisa gritar. Só pra que você saiba, os computadores estão com problema, parece um vírus... – Ele me respondeu.

— Vírus? Você só pode tá brincando! Nós praticamente temos o assassino em nossas mãos, tirando o fato que não temos nenhum suspeito, temos evidências importantíssimas e o computador não funciona! Só no Brasil mesmo. — eu o interrompi, derramando boa parte do meu café na mesa.

— Nem te conto, mas parece que a greve de ônibus vai ser amanhã e boa parte dos funcionários não tem carro, como você Pedro. – Meg disse, pegando a mesma flanela preta do dia anterior e limpando a sujeira que eu tinha feito.

- É Pedro, dificilmente trabalharemos enquanto estiver rolando essa greve. Sem buzão, não rola- disse Paulo, bebendo um grande gole do seu suco de laranja. – Mas nós podemos discutir mais algumas coisas que eu e Meg pensamos ontem à noite.

— Vocês se falaram ontem à noite depois que eu te deixei em casa? – me direcionei a Meg ao perguntar, esperando que a minha voz estivesse equilibrada

- Ahh- Meg hesitou, bebendo seu chá.

- Sim, na verdade eu liguei pra ela e nós chegamos a algumas possibilidades interessantes- disse Paulo terminando seu suco, sorrindo sinicamente pra mim. – Algum problema Pedro?

- Não... Quer dizer... Eu só acho que se vocês... Ahn... Tiverem resultados possíveis vocês... Ahn... Deveriam me comunicar, afinal eu sou o chefe da equipe- gaguejei.

Existem umas coisas que você precisa saber sobre o Paulo. Ele trabalha há cerca de sete anos comigo. Seus olhos escuros e cabelo baixo ajudavam a aumentar seu porte atlético. A pele negra se sobressaia nas roupas que geralmente lhe pareciam apertadas. Um cavanhaque costuma ornamentar seu rosto e quando sorrir parece bobo demais. Mas aqueles que são atenciosos percebem que esse sorriso costuma ser cínico, um cinismo que mostra saber a verdade... Então não, ele não é nem um pouco bobo. Apesar de eu achar que ele goste que as pessoas pensem que ele seja.

- Você tá estranho seu Borges – disse Gregório, rindo.

- Que estranho nada, eu to indignado! Temos que resolver esse caso – disfarcei. – É melhor verificarmos se alguém pode consertar os computadores o mais rápido possível.

- Nós pensamos nisso, claro, mas o cara disse que vai demorar no mínimo três dias pra ajeitar. – disse Gregório.

-Pelo menos, é o tempo em que a greve também termina- se animou Paulo.

- Tá certo, então não vamos poder fazer nada hoje! – exclamei, com uma cara azeda estampada em meu rosto. – Mas quando esses computadores já estiverem em bom estado, continuaremos. Até lá espero que essa greve acabe. Vocês podem ir, mas pensem sobre o caso. – falei me levantando pra ir embora.

— Beleza! –responderam Paul e Greg.

— Sr. Borges! – chamou Meg. – Nos vamos resolver esse caso, é só ter paciência ok – sorriu Meg. — Tchauzinho!

- É. Eu sei. Todo brasileiro deve ter uma base extra de paciência, não é? – disse, forçando um sorriso, me retirando de vez da cafeteria. – Até!

- Que legal – falei sarcasticamente, descendo até o subsolo, pegando meu carro pra voltar pra casa.