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2 Capítulo 2
Ao passar pela porta automática, entrei em um pequeno, mas elegante, saguão de entrada. Um carpete vermelho brilhante cobria todo o compartimento, valorizado pelo belo candelabro de prata que iluminava quase todo o recinto. Havia um balcão curto do lado direito, onde um homem conversava com um dos funcionários do prédio. Havia, ainda, duas portas ao redor, dois elevadores e, no final do corredor, uma grande escada com pisos de mármore. Me dirigi ao balcão e notei que conhecia o homem que estava interrogando o funcionário. Era o delegado Silva. Ele costumava acompanhar os casos que a minha equipe ajudava a resolver. Ele ouviu os meus passos e virou:
— Ahh Borges, finalmente! Por que você demorou tanto? – questionou.
— O de sempre, Silva. A porcaria desse trânsito de Belém. Além do engarrafamento, não tava encontrando um lugar bom pra estacionar.
- Sei como é. Em todo o caso, o corpo está no segundo andar. – disse-me ele, dispensando o funcionário com um movimento da mão, me levando até um dos elevadores e apertando o botão para subir.
-Vocês mexeram na cena do crime?- perguntei, enquanto as portas do elevador se abriram quase que instantaneamente ao apertar do botão.
-Não, senhor!Seguimos direitinho o protocolo – respondeu-me, ao entrarmos no elevador. Ele apertou o número 2 no discador de andares.
— Certo. Alguma informação sobre a vítima?Quem chamou a polícia? – questionei. Segundos depois, o elevador parou com um pequeno estanco e suas portas se abriram já no segundo andar.
O corredor era amplo e mantinha a mesma delicadeza e beleza do hall de entrada. Pequenas lâmpadas ornamentadas iluminavam as paredes brancas bem pintadas, o chão com o tapete vermelho igual ao do saguão e duas portas que tinham no andar, além das do elevador.
— A vítima, segundo os depoimentos dos vizinhos e documentos encontrados, é Isabella Ferreira, 25 anos, 1.65 cm, caucasiana, mora sozinha e tinha uma relação muito amistosa com todos. Quem nos chamou foi a Sra. Flichter, vizinha da vítima, que afirmou ter ouvido gritos no apartamento ao lado do seu- me informou, ao chegarmos a uma porta de madeira bem polida, com a identificação 2B folheada a ouro na parte superior e um distinto olho mágico um pouco abaixo.
— Ok. Diga aos seus subordinados que minha equipe está a caminho e não quero que atrapalhem a investigação. – ordenei.
— Sim, senhor Borges!- falou Silva- Estarei lá embaixo esperando pela sua equipe e assim que eles chegarem, eu os trago pra cá.
— Certo – falei, tocando na oval e dourada maçaneta, e girando-a.
Antes de tudo, têm algumas coisas que você precisa saber sobre mim. Eu faço parte de uma equipe de perícia criminal chamada “Crime sob Investigação — Brasil”. Não é um trabalho fácil, mas acho que já me acostumei. Na verdade eu sou o chefe da perícia e meus ajudantes, Meg e Paulo, se juntam a mim nas mais absurdas e improváveis cenas de crimes do Estado, para que assim possamos resolvê-los.
Eu posso parecer ingênuo à primeira vista, talvez meus cabelos, lisos e bem penteados, a barba bem feita (sim, um homem tem que se cuidar pô... Depois de certa idade então) e os meus olhos pretos passem essa impressão. E essas rugas que têm se intensificado na minha testa e os cabelos brancos na minha cabeça tem mostrado que eu tenho experiência no que faço. Ou também mostram que eu sou um pouco estressado, mas isso tem a ver com o fato de o meu salário atrasar bastante, logo o estresse aumenta assim como as rugas e cabelos brancos. A minha equipe costumava atuar exclusivamente a serviço do estado, mas eles congelavam tanto nossos salários que há alguns anos resolvemos trabalhar sob serviços privados também. Qualquer coisa, você pode nos contatar, é claro. Mas por favor, não confundam. NÓS NÃO MATAMOS OK? Muitos pensam que nós damos dicas de como cometer o crime perfeito, não fazemos isso. Pelo menos não costumamos. Claro que se o preço for atraente demais, como poderemos dizer não, não é? (afinal a realidade brasileira tá tensa)... Então não, eu não sou nem um pouco ingênuo, mas gosto que os outros pensem que sou... Mas enfim, voltando ao caso em questão.
Abri a porta e entrei. Apesar do luxo do prédio o apartamento de Isabella era simples, mas confortável. Inicialmente, encontrei um ambiente relativamente claro, já que as lâmpadas estavam fracas e as cortinas alaranjadas cobriam as duas janelas ao redor, evitando que o mínimo de luz viesse lá de fora. Notei que estava em uma sala de estar. Um sofá branco de couro de três lugares se encontrava alinhado ao carpete marrom, que cobria o chão somente daquele compartimento. Uma pequena mesa de vidro quadrada, entre o sofá e uma televisão LCD de 42 polegadas, embelezava o recinto. A porta principal não tinha sinal de arrombamento, a sala de estar estava organizada e aparentemente limpa. Segui à direita por um estreito corredor que levava à cozinha. O local estava mais claro que o anterior, graças à grande luminária revestida de vidro, presa ao teto, que estava acesa. As lajotas brancas, com pequenos desenhos de losangos pretos no centro, estavam lisas e sem manchas visíveis. A geladeira e o fogão, ambos prateados, estavam tão limpos quanto os outros móveis. Ao redor da pia, havia um secador de louças vazio e uma fruteira com algumas laranjas e bananas. O que aconteceu por aqui deve ter sido apenas no segundo andar- pensei. Voltei à sala de estar, onde uma escada no canto esquerdo levava ao andar superior. Subi e cheguei a mais um corredor estreito e com luz precária. Andei até uma porta branca aberta e encontrei a vítima. Ela estava deitada de bruços em cima de uma cama de casal rodeada por sangue fresco, seu corpo nu estava pálido e possuía grandes cortes irregulares. Seus cabelos longos e loiros cobriam seu rosto e parte das costas. Deveria ter sido esfaqueada, pensei. Enquanto fotografava o estado do corpo, fui interrompido pela chegada de Meg e Paulo.
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