Não sei se já lhes contei sobre, mas há um estado de iluminação extremo para os fiéis do deus busão: saltar pela porta do meio, também chamada de "porta do equilíbrio supremo entre o bem e o mal". Cheguei a tal conclusão sozinho, diante de minuciosa observação dos atos e omissões dos fiéis e sacerdotes dessa religião cotidiana.

A porta do meio nem sempre existe. Quando existe, é estreita ou não funciona bem. E se funciona, abre raramente. Por muito tempo fomos para a frente, saindo pela frente, entrando por trás. E isso era um símbolo oculto de progressão espiritual que poucos conheciam. Tínhamos que ir para frente para alcançar o paraíso de chegar em casa. Mas os inimigos agiram contra nós, e tudo mudou, tornando-se o contrário. Estamos em tempos sombrios em que entramos pela frente, saindo por trás. Ou seja, já começamos a "avançar voltando". Um símbolo oculto de retrocesso, que apesar de escancarado, muitos não veem. São cegos que veem, mas não veem nada, principalmente se o "nada" em questão for um idoso ou uma grávida em pé. Contra-agimos, porém, e fizemos a porta do meio se abrir cada vez mais. Daí o equilíbrio supremo, que apesar de não tão equilibrado nem supremo assim, dá pro gasto.

A porta do meio geralmente é estreita. Não é qualquer um que pode usá-la. Apesar do que dizem os avisos da literatura sagrada, uma quantidade cada vez maior de fiéis se amontoam em volta dela. Os avisos dizem uma coisa, mas a realidade é outra: muitos dos sacerdotes (conhecidos como "motô") não cumprem a palavra do deus busão como deveriam, a interpretam a seu bel prazer e assim dificultam o acesso à porta do meio para aqueles que dela mais necessitam, aqueles que dela são verdadeiros merecedores: os idosos, as crianças, os deficientes, os sobrecarregados, os que não conseguem passar pra outras portas (e os bons de coração, uma figura mais rara que ônibus vazio com destino à praia em dia de réveillon, mas acho que ainda existem. Eu creio!). Felizes são os que passam por ela, e abençoados serão aqueles que a abrem de coração, ou ao menos intercedem para que ela seja aberta uma vez na vida.

Há, claro, aqueles que claramente não merecem mas passam pela porta do meio. É que muitas vezes se junta o inútil ao desnecessário: os fiéis sempre tentam burlar as vontades divinas, o deus busão é duro, mas generoso, e ninguém é perfeito, nem mesmo ele (culpa da manutenção, mas isso é outra história). Nesses casos poderíamos nos sentir injustiçados e guardar rancor desses irmãos filhos das trevas, ou reclamar com nosso bondoso e demorado deus, mas façamos outra coisa, sim? Em verdade vos digo: devemos seguir o preceito que ele mesmo nos ensina em sua oração: "perdoai a quem nos tenha pisado o pé, nos empurrado ou escutado música sem fone de ouvido". Ou no caso, quem tenha usado a porta do meio sem merecimento. Afinal, todo mundo é filho do deus busão (e quer se afastar dele o mais rápido possível, por motivos óbvios).

Confesso a vós, irmãos e irmãs, que um dia quase saltei pela porta do meio, mas tive medo do que aconteceria comigo. Preferi voltar, saltar por outra porta e manter a integridade do meu ser. Ainda não sou digno, mas graças a essa quase-iluminação estou aqui, lhes contando mais essa verdade sobre o deus busão. A porta do meio continua lá, fechada, abrindo-se por milagre, intervenção divina ou muitos gritos de "abre a porta do meio aê". Quem sabe um dia não passaremos todos por ela?

Notas finais
Esse é um protesto atrasado e que não adianta de nada mas quis fazer em relação à mudança das portas aqui. Antes entrávamos por trás e saíamos pela frente, agora é o contrário. E por que isso é MUITO ruim? 1- O motorista não vê bem a parte de trás do ônibus, o que aumenta o risco de acidentes, seja quando tem alguém ainda subindo, ou ainda pra descer. 2- A maioria das pessoas não veem os idosos/grávidas subindo como antes, já que pra isso seria preciso ficar virando a cabeça, e isso aumentou muito a possibilidade de ignorá-los (muitas vezes existe porta no meio para eles entrarem, mas os motoristas não abrem, fazendo eles irem por trás e ficarem em pé a viagem toda porque ninguém oferece lugar pra eles) Mas não sabemos protestar. Não sabemos. Eu incluso. Por isso fica aí o pequeno protesto, inútil, atrasado e marromeno.