O fim dos tempos havia se concretizado.

As três se viram abraçadas no meio da densa imensidão vazia. Uma Rainha, uma Guerreira, e uma Deusa. Vindas de lugares diferentes, por motivos diferentes, unidas agora pelo instinto mais profundo que existia em cada uma delas: sobrevivência. Estavam tão juntas que seus corações batiam como se fossem um só, disparados e fortes. Uma só respiração rápida. Um único tremor tímido. A vida que conheciam, seus amigos e famílias, suas casas... nada daquilo existia mais.

Uma quarta figura as observava. Uma figura de natureza humana, mas também com algo a mais. Estava ali no meio do nada há tanto tempo que se esquecera de quem foi um dia. Mas ao ver aquelas três ali, ela foi tomada por um sentimento forte de saudades e quis se juntar ao abraço.

A primeira a reparar na figura foi a Rainha. Ela se soltou das outras com um suspiro e os olhos cheios de lágrimas.

— Vó? – chamou a Rainha.

A figura abaixou o olhar e fez que não com a cabeça.

A Guerreira então se afastou também do abraço e deu um passo para trás.

— Você é Deus? – perguntou ela.

A figura ergueu uma sobrancelha e repetiu para a Guerreira:

— Você é Deus?

A Guerreira fez que não com a cabeça de leve, mas então parou e pensou na pergunta e se lembrou de sua jornada e todos que encontrou. Um de seus primeiros aliados fora quem a ensinara sobre a Ordem. Então ela endireitou a postura, encarou a figura nos olhos, e disse:

— Eu sou.

A Deusa não havia saído do lugar. Abraçava a si mesma agora que as outras haviam se afastado, e encarava a figura tristemente.

— Você não é quem eu estou vendo – disse a Deusa.

A figura fez que não. De fato, cada uma das três via alguém diferente. A Rainha via a sua querida avó, com quem morara por alguns anos, a mulher que ela mais admirava. A Guerreira via uma atriz que um dia ela vira interpretar Deus. E a Deusa via seu melhor amigo, cuja morte ela acabara de presenciar.

— Eu sou o que você chama de Tempo, minha Dama – disse a figura para a Deusa. – E o que você chama de Ordem, minha Guerreira – ela desviou o olhar para a outra mulher.

A figura se aproximou da Deusa com cautela, mas ela abaixou o olhar. Quando olhava para a Ordem, via os olhos azuis mais familiares do mundo, da única pessoa que a acompanhou por toda a loucura que foram os últimos séculos. Não aguentava erguer o olhar e se lembrar do fim daquela história. Da mão dele estendida, clamando por ela, e como ela não percebeu a tempo.

— Eu estou aqui há eras e mais eras, tentando consertar meus erros, e me esqueci do que me trouxe aqui em primeiro lugar. Eu sinto que já fui como você – disse A Ordem à deusa. – Ou será que eu era como elas?

Ela se virou para as jovens humanas. Apesar de assustadas, ambas se mantinham de pé e a olhavam nos olhos. Não queriam que ela soubesse que elas tinham medo, alheias ao fato de que ela já sabia.

— Eu conheço vocês – disse a Ordem. – E vocês me conhecem.

— Todos te conhecem – disse a Rainha.

— Se você é a Ordem, deveria estar morta – disse a Guerreira. – Acabamos de presenciar o Fim dos Tempos.

— Que estranho, não é? – disse a Ordem pensativa.

As duas humanas se entreolharam, descontentes com as respostas vagas. Queriam exigir que a Ordem fizesse com que tudo voltasse, queriam ver seus entes queridos e que a vida voltasse ao normal. Mas a Ordem não parecia se importar com elas, só tinha olhos para a Deusa. Como se eles dois estivessem conectados por algo maior.

— Eu sei de tudo, mas não me lembro de nada – disse a Ordem. – Eu imploro, contem-me suas histórias.

A Deusa conseguiu reunir forças para levantar o olhar. Ao ver-se encarando seu amigo, quase desabou em lágrimas.

— Como isso pode ser relevante? – disse a Deusa.

— Como pode não ser? – disse a Ordem. – Se todos somos um, suas histórias são minhas. Sinto sua dor e suas confusão. Deixem-me ajudar.

— Ajudar? Depois de tudo que aconteceu? – chorou a Rainha.

Ela foi para perto da Ordem com passos duros e firmes e empurrou a figura, que já não tinha mais a aparência de sua avó, mas de sua mãe: uma mulher autoritária e bela que a rainha preferia evitar.

— Você é a responsável por isso – acusou a Rainha. – Eu perdi tudo.

— Não perdeu, Majestade – disse a Ordem tranquila. – Você está aqui trazendo com sigo tudo que já foi e pelo qual passou. Todos os lugares em que já esteve e pessoas que já amou estão aqui porque você as trouxe.

— Todos os lugares em que já estive estão destruídos – respondeu a Rainha. – Todas as pessoas que já amei estão mortas.

— Eu sinto muito por isso. Por favor, deixem-me ajudar – disse a Ordem. – Há tanto tempo que eu não falo com ninguém. Contem-me suas histórias.

— Minhas histórias vão morrer comigo. – A Rainha deu as costas a Ordem e se colocou ao lado da Guerreira novamente. Rosto duro. Braços cruzados. Não estava disposta a negociar.

A Guerreira olhou para a colega e então para a Ordem. Dentro dela, todo o medo que não havia sentido em todas as suas últimas batalhas parecia ter se acumulado, prestes a explodir.

— Eu não quero ajuda – disse a Guerreira. – Só me deixe voltar e morrer com os outros.

A Ordem não pareceu surpresa com aquele pedido, mas também não parecia disposta a realiza-lo. Frustrada, a Guerreira ignorou a Ordem e foi até a Deusa. Outrora grandiosa, agora era apenas uma jovem fragilizada. Mesmo assim valia a tentativa. A Guerreira segurou sua mão e se ajoelhou em sua frente.

— Por favor, Dama, me deixe voltar – implorou.

A Deusa a lançou um olhar triste e mordeu o lábio. Mesmo que quisesse concedê-la um fim misericordioso, não podia. Estava impotente.

Ao ver a dor nos olhos da Deusa, a Guerreira começou a chorar.

A Deusa era a única cujas lágrimas que quase lhe enchiam os olhos ainda não havia escapado. Ela nunca quisera acreditar chegaria a esse ponto. Seu último soldado implorando par ser sacrificado.

Mas sempre soube que ninguém resistiria ao Fim dos Tempos.

Nem sua guerreira mais forte.

Nem sua rainha mais sábia.

Nem seu melhor amigo.

Nem ela própria.

— Levante-se – disse a Deusa –, e pare de se humilhar.

A Guerreira segurou o coração partido e obedeceu sua Dama. Fora idiotice implorar. Os deuses não eram grandiosos como se pensava, e essa era uma lição que ela já havia aprendido.

A Deusa se viu mais uma vez em frente à Ordem.

Aquele rosto... os cabelos escuros, a barba curta, a pele clara. Acabara de ver aquele rosto em pânico, gritando o seu nome, e ela o deixara lá para padecer. Jamais se perdoaria, e, honestamente, não achou que viveria o suficiente para contar a história, mas ali estava ela.

— Se é que você quer – disse a Deusa –, eu contarei a minha história.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.