Crônicas de um Mundo Irreal
21 "Você chutou a minha cara!"
unter desceu de cima do pombo quando viu a nave tipo tempestar chegando. Assim que pousou no topo do prédio soldados desceram em formação, trazendo consigo um garoto maltrapilho de cabelos longos e pijamas. Era ele, o único humano que recebeu a amizade de Hunter e foi sujo o suficiente para pisá-la como a uma barata.
—Aqui está o sujeito. – Disse formalmente um dos soldados. Hunter não conseguiu identificar qual deles falou, porque todos pareciam cópias idênticas uns dos outros. Urgh, que estranho. O garoto tentou não pensar naquilo. Queria se vingar logo e sair daquela cidade esquisita.
—Eu lhe sou muito grato por sua cooperação. – Sorriu, mas só por conveniência.
—Vai se retirar, agora que o tem?- Perguntou outro soldado.
—Claro. – Respondeu, juntando as mãos num gesto simpático. – Eu sou um garoto de palavra.
Os soldados voltaram para a nave tempestar do mesmo jeito que saíram, sem emitir nenhum som que não fosse o chacoalhar leve dos equipamentos. ******* estava caído no chão, desmaiado. Hunter virou-o para cima. Haviam marcas de choro em seu rosto. Francamente, o que ele tinha se tornado?
Hunter soltou um “pru” e o pombo maior junto com todos os outros alçaram vôo. Ele já tinha carregado o traidor para cima do pássaro. Quando estavam há uns duzentos pés de altura, Hunter deu tapas em seu rosto. ******* relutou em abrir os olhos. Mais tapas. Ele finalmente acordou. E, assim que viu o rosto do garoto, pulou para a direção oposta, quase caindo no solo instável que era as costas do pombo.
—V-você...? – Disse ******* Espantado.
—Sim. EU! – Gritou o outro. – Hunter Pigeon, o Menino Pombo!
—Espera, — perguntou – Por que está se apresentando para mim? Somos amigos.
—“AMIGOS” O ESCAMBAL! DEIXAMOS DE SER AMIGO HÁ ANOS!
—Mas por quê?
—VOCÊ OUSA PERGUNTA O PORQUÊ!?
***
Jason e Moon tinham o pombo gigante na mira. Depois de quase morrer de tanto pedalar para subir uma ladeira, o garoto tinha finalmente conseguido posicionar a catapulta de forma perfeita. Quer dizer, inicialmente eles haviam parado ali porque Jason já não aguentava mais dar um passo que fosse. Moon estava quase se oferecendo a pedalar quando notaram o maior dos pombos gigantes levantar voo e depois disso planar num campo de vista perfeito para disparo.
***
—VOCÊ CHUTOU MINHA CARA! – Gritou Hunter, deixando exposto o seu rancor.
—Mas o quê? – Perguntou o outro, sem entender nada.
—Aaah meu amigo, não ouse se fazer de desentendido! Sabe muito bem do que estou falando!
—Hã... Me desculpe, Pigeon, mas eu realmente não me lembro.
—COMO NÃO!? – Gritou, se aproximando do outro com as mãos na cabeça, como se aquilo lhe causasse dor.
—Er... Eu simplesmente não me lembro.
—Ah é? Então vou fazê-lo se lembrar: Nós estávamos na sétima série. Eu tinha te emprestado a borracha e, quando fui pedir ela de volta, VOCÊ CHUTOU A MINHA CARA!
—Hm... – O garoto parou por um segundo, esforçando-se para lembrar de todos os momentos que passou junto do amigo naquela época. – Ah sim. Eu me lembrei. Mas meu pé nem encostou em você.
—NÃO INTERESSA! As bactérias que estavam na sola do teu tênis voaram no meu rosto! E só o fato de ameaçar já é ofensivo o suficiente!
—Hã... Cara, eu não sabia que tinha sido tão perturbador para você... Foi só uma brincadeira, me desculpa.
—AHAHAHA, agora é tarde demais, seu idiota! Vou me vingar! E para começar a festa vou atolar essa cidade em titica de pombo!
—Ei, espera aí, a cidade não tem nada a ver com...
—CALE A BOCA! Eles vão sofrer por terem abrigado um sujeito traidor e destruidor de amizades seladas com dedo mindinho como você! – Hunter enfiou a mão dentro de seu casaco e a tirou com um detonador em mãos.
— O que vai fazer?
—Não é óbvio? Vou explodir todos estes pombos e então vai voar titica de pombo para tudo quanto é lado. – Riu Hunter. Estava prestes a apertar o botão do dispositivo quando o pássaro sacudiu de forma brusca e um cheiro podre e forte começou a se espalhar. Olhou ao redor procurando pelo lugar de origem com sua visão pru. Ali! Um garoto e uma garota operavam uma catapulta que mais parecia um projeto de nerd.
—MALDITOS!
***
Jason conseguiu ver o detonador nas mãos de um dos caras em cima do pombo maior.
DROGA. Seja o que aquilo fosse, tinha que fazer algo naquele instante.
—Moon, por favor, coloque uma das esferas no compartimento de lançamento.
—Tá. – A garota sumiu e atrás da catapulta e depois voltou. – Pronto.
—Ótimo. – Jason foi até a caixa preta e de tamanho mediano que ainda estava coberto por um lençol. Girou a chave do trinco que havia nela e abriu as pequenas comportas. Era uma máquina medidora de força. A almofada vermelha que servia de alvo estava surrada. – É HORA DO SHOW, PÔ! – Respiro fundo. Concentrou toda sua força em seu punho direito e... – BIIIRL!
No mesmo instante em que atingiu a almofada e o visor mostrou o nível de soco maior que novecentos, a esfera voou pela “colher” da catapulta e acertou o pombo com força. A ave se desestabilizou por um momento, mas em seguida retomou o equilíbrio. Não tinha sido o suficiente. O cara em cima do pombo devia ter notado, pois segundos depois outros dois pombos miraram neles e começaram o bombardeio.
—Não vamos aguentar! — Reclamou Moon.
—Temos que tentar até acabarem as esferas! – Gritou Jason. – Vamos conseguir!
Ambos conseguiram resistir e continuaram atirando de volta, mas nenhum dos outros tiros conseguia acertar novamente o pombo maior.
—DROOGA! – Esbravejou Jason. Sua esperança estava morrendo e começava a finalmente pensar que não poderia vingar Onix. Malditos pombos. Isso até ver uma luz verde podre do outro lado da cidade subindo ao céu em direção ao pássaro.
***
—AHAHAHAH! IDIOTAS! – Gritava Hunter para o garoto e a garota lá embaixo. É claro que eles não o ouviam. – Gastaram toda sua munição para nada! Ninguém consegue me pegar quando estou montando pombos! – Ele voltou seus olhos para o outro garoto. – E agora, vou finalmente completar minha vingança.
—Mas espera aí. – Interrompeu *******. – Se você explodir todos os pombos, inclusive esse, não vamos morrer nós dois? É alto demais aqui.
Hunter pareceu perceber aquilo apenas naquele momento.
—Hm... ARGH... DANE-SE! VOU LEVÁ-LO JUNTO COMIGO! – Ele afundou o dedo com força, mas esse por sua vez não acertou o botão. Um novo tremor inesperado o impediu. Hunter olhou em volta em quanto tentava se equilibrar. O tiro, seja lá de onde tivesse vindo, havia acertado seu pombo na cabeça, mais especificamente entre olhos. Droga. Era o fim. Todo garoto que era criado por pombos sabia que a fraqueza deles era a parte que dividia os dois olhos. A ave soltou um “pru” de desespero e então desmaiou, caindo a toda velocidade em direção ao chão. Hunter ia ser arremessado contra um prédio com a força do movimento quando sentiu um braço segurando sua gola. Era seu antigo amigo.
—Não morra antes de ir para a cadeia, seu idiota. – Disse o outro, se segurando numa das penas do pássaro. Por um instante ele pareceu o mesmo de antigamente.
E sem motivo algum, Hunter abriu um sorriso de canto. Claro, no instante em que percebeu ele fecho a cara novamente.
***
—ACERTARAM! – Pulou de alegria o garoto, junto com Moon. – ACABARAM COM ELES, FINALMENTE!
Depois de acalmarem os ânimos, Moon perguntou:
—Quem será que atirou do outro lado? Alguém da prefeitura? Ou seu amigo nerd? Ele tinha outra catapulta?
—Eu não faço a menor ideia, mas seja quem for, tem minha gratidão e creio que a do resto da cidade inteira.
***
Ver o pombo cair trouxe um pouco de nostalgia ao coração de Edon. Por algum motivo, todos os outros pombos – cerca de um trinta – também despencavam do céu. A ponta do canhão VaiCry ainda estava esfumaçando e o cheiro ainda estava forte, mas ele pouco se importava. Tinha vingado Onix. Por Jason e por ele mesmo também. Agora todos os pombos começavam a explodir em toneladas de titica, um atrás do outro, sobre a cidade. Nem mesmo isso fazia diferença. O conforto em seu coração era imensurável e além do mais, Nonsen City era feita de pessoas incrivelmente fortes e anormais, era capaz de passar por aquilo sem problema algum.
Fale com o autor