Crônicas de Vidas Passadas
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O ardor era grande, mal conseguia manter meus olhos abertos, meus sentidos estavam embaraçados, a dor ameaçava roubar-me novamente a consciência. Lágrimas vertiam de meus olhos. Podia escutar a voz de Chantal, mas não podia precisar o que dizia. Tudo estava confuso.
- Emily, conte-me exatamente o que aconteceu! – pude distinguir claramente as palavras da jovem. Um meio sorriso desenhou-se em meu rosto, era descaso meu, desgosto talvez, apenas cerrei meus olhos. – Emi! Não me ignore... — seu tom era hostil, não tive forças para responder e adormeci.
Não sei ao certo quanto tempo “repousei”, mas quando despertei a jovem estava a manipular ervas em um canto do recinto, olhei a minha volta e reconheci, era o quarto de Chantal, não lembro como fui parar lá, lembro-me apenas de ser questionada sobre o que havia acontecido comigo, o que acontecido, não gostava da idéia de recordar aqueles fatos...
- Acordou?! – disse a garota voltando-se para mim. – Pode contar-me agora o que aconteceu? Conte-me Emi, sabe que pode confiar em mim. – não pude encará-la, sentia-me envergonhada pelo que acontecera, sei que não tive culpa, mas na sociedade em que vivo não é esperado que uma serva seja inocente, ainda mais quando está em jogo a honra do senhor e da senhora, nada poderia fazer para me defender, o mais provável naquele caso seria que me expulsassem dali, ou quem sabe entregassem-me... Balancei a cabeça querendo afastar esses pensamentos tão pessimistas.
- Por favor, deixe-me quieta... — pedi num fio de voz, ignorava até aquele momento que pudesse estar tão mal.
- Sabe que não posso deixar que isso passe por alto, você foi surrada!- baixei meu olhar, estava impossibilitada de encarar os orbes inquisidores da filha dos senhores. – Conte-me logo o que aconteceu.
Nesse momento tentei levantar-me, só então tive ciência do quanto estava ferida, uma dor aguda transpassou todo meu corpo e senti-me tonta. Voltei a posição inicial.
- Chantal... De nada adiantaria contar o que me aconteceu, é passado e nada pode ser feito a respeito.
- Mas preciso saber! – disse decidida.
- Se faz tanta questão, ele forçou-me... – respirei fundo, as cenas vieram a minha mente com imensa violência e vivacidade, era ainda muito recente, ela tomou uma de minhas e com uma compressa embebida na emulsão de ervas. – Ela soube, sua ira foi grande...
- Fala de meus genitores!- sentenciou a sensata Chantal, não havia emoção alguma em suas palavras, apenas confirmei com gesto. – Descanse Emily.
Obedeci tão prontamente seu pedido, estava esgotada apesar de ter acordado há pouco. O que se passava pela cabeça dela era um mistério, mas temia que ela se ressentisse de alguma forma contra mim. Crescer ao lado dessa garota fez com que me apegasse a ela. Porém isso era perigoso, eu era apenas uma serva, apesar de considerá-la tanto...
Continua
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