Crônicas de Uma Não-vida
1 Capítulo 1 - Um Emissário do Inferno
Crônicas de uma Não-Vida
Capitulo 1 – Um Emissário do Inferno.
Era uma noite escura, mais do que o normal, a própria escuridão parecia intensa e o fria o suficiente para congelar a alma do mais caloroso dos humanos.
Um homem corria por uma ruela carregando uma pasta e olhando para trás sempre que possível. Ele aparentava ter 40 anos e possuía algumas marcas da idade sobre sua face assim como alguns fios de cabelo brancos. Usava uma jaqueta, calça e sapatos sociais.
O fim da rua... Está perto agora... Só virar na próxima esquina e andar mais uma quadra e ele estará salvo...
Ouve-se um baque na escuridão.
O homem cai no chão desnorteado derrubando sua mala seu celular e diversas outras coisas. Quando ele levanta a cabeça para ver em que batera, seus olhos se arregalam e todo o êxtase e a felicidade dão lugar ao desespero e ao terror. Ali, na sua frente, estava o pior assassino que o mundo já conheceu. Um metro e oitenta, cabelos brancos , nunca organizados, e olhos negros como a própria escuridão. Jaqueta preta com uma camisa preta sem estampa por baixo e calça jeans rasgada. Empunhava um híbrido entre adaga e espada curta que possuía um brilho roxo escuro em sua mão esquerda. Seu olhar sério indistinguível emanava um instinto assassino que faria até o mais valente e corajoso ser no universo implorar por perdão enquanto se controlava para não fugir de forma irracional devido ao pânico. O mais incrível é que essa face de puro mal aparentava ter dezesseis anos apenas.
– V... você!! – Gaguejou o homem indo para o mais longe possível ainda no chão.
– ..... – O garoto da alguns passos lentos para frente
– O... olha, podemos conversar...
– .... – O garoto se aproxima ainda mais do homem caído no chão
– Eu pago três... não, quatro vezes mais o que estão te pagando!!
O garoto está na frente do homem, e o levanta pelo pescoço com a mão livre.
– Você me da nojo... – Diz o garoto com uma voz levemente rouca e grave.
O homem abre a boca para gritar, mas nem um som sai. A mão do garoto esmaga seu pescoço lentamente e é possível sentir os ossos quebrando aos poucos... Depois os músculos começam a se romper até que a cabeça se desgruda completamente do corpo e cai rolando pelo chão. O sangue que ficou na mão do garoto começa a escorrer rapidamente por entre seus dedos como se até ele sentisse medo de seu toque frio.
O garoto pega a pasta no chão e some.
………………………
Amanhece como acontece todos os dias e a cidade começa a despertar de seu longo descanso noturno, pronta para mais um dia livre dos perigos que guardam a escuridão.
Em um quarto mal iluminado, sem janelas e com apenas uma porta de entrada estava um homem de uns 34 anos. Trajava um terno, calça e sapatos sociais e parecia um pouco impaciente enquanto lia seu jornal. Manchete: “Desaparece Jorge Oliveira, grande empresário da região...”
Click
A leitura foi interrompida por um abrir de porta. Entrava na sala um garoto de 16 anos trajando roupas simples carregando uma mala. O homem abaixou o jornal, fitou o garoto nos olhos e disse:
– Você completou a missão?
– Como o senhor já deve saber – Diz o garoto – Ela foi terminada há algumas horas atrás, assim como o marcado.
– Certo... – Disse o homem desviando o olhar – O dinheiro será depositado dentro de poucas horas.
– E o resto?.
– ... O sangue está em um pote que lhe será entregue ao sair.
– Sangue de mago?
– Sim...
– Certo... Obrigado.
O garoto deixou a pasta na mesa e passou pela mesma porta por onde veio. Na saída, quase esbarrou em um funcionário que vinha em alta velocidade pelo corredor. Porém, no ultimo momento este pulou para trás como se fosse repelido.
Assim que o garoto saiu do lugar o funcionário voltou a se apreçar para dentro da sala.
– Quem era aquele, senhor? – Perguntou o funcionário
– Ele da calafrios não é? Não importa, provavelmente é o único que pode fazer esse tipo de serviço... – Diz o homem mais para si mesmo – De qualquer forma, o que fazes aqui Carlos?
– Senhor! Um grupo inteiro sumiu sem deixar vestígios algum! E temos relatos dos ratos de esgoto. Eles disseram ter visto a inquisição na cidade.
– O que?!! Quantos?!!
– Segundo eles, um só.
– Hm… O que poderia querer a inquisição na cidade com apenas um homem...? Me deixe sozinho por um momento.
– Sim senhor. – Diz o servo se retirando
………………………………………
Uma porta se abre. Um quarto de hotel do centro da cidade, paredes exatamente do mesmo tamanho e brancas sem moldura nem uma. Uma porta na parede leste, uma janela na oeste e uma cama encostada no meio da parede norte com duas cômodas do lado, uma com um abajur e outra sem nada por cima, ambas com duas gavetas. Entrava no quarto o jovem de dezesseis anos que cometera o crime de assassinar o maior empresário da região, embora nem um humano soubesse… Ele fecha a janela e as cortinas e deita na cama para dormir.
Duas horas se passam...
São nove e meia da manhã, a cidade já esta a todo o vapor e a maioria dos seres vivos já havia acordado. A maioria… Porem um alguns animais possuem o habito noturno e aproveitam para caçar a noite, quando sua vítima esta indefesa e distraída. O problema desta técnica é o fato de você também ficar indefeso quando todas as outras criaturas estão ativas... Apenas aqueles que superaram este problema podem se considerar soberanos...
Um soldado da divina proteção encontrara seu alvo. Uma criatura maligna e sanguinária como muitos outros de sua espécie, que vem atormentando a humanidade a tempo de mais… Ela era poderosa, porem estava em seu momento mais indefeso. Ele seguira o rastro da criatura até este hotel, e agora tudo que precisava fazer era terminar o serviço. E tinha que fazer isso rápida e eficientemente, pois se falhasse seria seguido até que algum dos dois vencesse uma batalha longa e cansativa que poderia demorar varias noites.
Pela entrada do hotel passa um homem moreno, bem moreno, embora não chegasse a ser negro. Tinha cabelos castanho-amarelados e bem curtos, utilizava uma calça bege, uma camisa ocre de manga curta, uma jaqueta marrom por cima, um óculos escuro redondo não muito grande e possuía uma grande cicatriz no pescoço.
O homem se aproximou do atendente e disse:
– Bom dia.
– Bom dia...
– Você pode me dizer em que quarto o senhor Joe se encontra?
– Joe... – O atendente digita alguma coisa no computados – O que o senhor quer com o senhor Joe?
– Velho amigo meu... Soube que estava por aqui e resolvi cumprimentá-lo.
– Desculpe senhor, mais ele pediu para não ser incomodado...
O homem fita o atendente nos olhos e diz:
– Você vai me informar o quarto dele, e vai me deixar passar
As pupilas do atendente dilatam e ele responde:
– Sim senhor… Quarto 202.
– Obrigado.
O homem segue pelas escadas até o segundo andar onde localiza o quarto que procurava. Ele gira a maçaneta sem produzir ruído algum e entra no quarto igualmente imperceptivel. Sua presa jazia em sua cama em um sono silencioso, nem mesmo a respiração era possível de se ouvir. Aproximou-se com passos lentos e tirou uma espada prateada de sua jaqueta. Segurando-a com a lamina para baixo ele a desceu rapidamente na região do coração de sua vitima. Porém, quando a lamina deveria atravessar o tórax, não se sentiu nem uma resistência, como se estivesse cortando o próprio ar... Uma hora ele tinha a situação inteira sobre controle, e em outra ele se via completamente desorientado ainda sem saber onde seu oponente está.
– Eu sabia que não seria tão fácil assim derrotá-lo... Afinal, você é o topo da lista dos procurados. – Disse o homem de cabelos castanhos
– Então... Até a inquisição me considera uma ameaça agora?
– Você é um bastardo. Não é querido nem por seus semelhantes. O mundo inteiro o teme e você nunca será querido ou importante para alguém. Você é uma aberração, uma falha do divino soberano e não tem nada para fazer entre os mortais.
Se ouve uma risada seca e sarcástica em um dos cantos do quarto
– Você acha que eu ligo para o que você ou o resto do mundo pensam de mim? Eu sou o que o mundo me fez, e agora ele tem de lidar comigo. Seu deus foi quem me fez assim, jogando todos ao meu redor contra mim. A humanidade foi quem me fez assim, se aproveitando e explorando uma pequena criança inocente. Os meus semelhantes são quem me fizeram assim, me menosprezando, me usando e me descartando quando não sou mais necessário. Pois bem, dizem que tudo que você faz com os outros, um dia se voltara contra você, e eu estou aqui para me vingar... Me vingar de tudo que fizeram contra mim, e nem você, nem ninguém me impedirá.
– Se você realmente busca de forma tão sedenta por vingança – Diz o homem se virando para o garoto que surgira – Por que deixa tão explícita sua localização? Não direi que foi fácil te encontrar, mas não representou nem um desafio. Você sabe o quão odiado é, e no fundo quer que alguém o ache e mande-o para o julgamento final...!
O garoto não esta mais no canto em que estava antes. Estava atrás do homem, segurando uma espada semelhante a uma kataná, porem pequena o suficiente para ser facilmente manipulada com uma mão. Espada esta, que possuía um brilho arroxeado arrepiante. O óculos do homem se quebrou... Ele havia sido cortado, mas não qualquer corte... O corte era milimetricamente perfeito, era reto, era plano, e estava exatamente no meio da ponte que liga as duas lentes, alem de que não acertou o homem.
O homem sorri.
– Acho que peguei um ponto fraco ai... – Diz o homem se virando – Até por que você nem ao menos se importou em usar nomes diferentes quando vai se alojar em algum lugar...
O garoto da uma risada abafada
– O motivo para eu não trocar o nome que uso – O garoto embainha a espada – O motivo para eu encobrir meus rastros – O garoto assume posição de battoujutsu¹ — É que assim eu não preciso ir atrás de ninguém, os idiotas vem até mim para serem mortos.
Mal terminou a frase, o garoto some. Mesmo que por menos de um momento. Ele reaparece na retaguarda do homem novamente, quando se percebe cinco cortes no tórax de seu oponente que não estavam lá...
– Assim vocês me poupam o trabalho de caçá-los para acabar com vocês.
O homem cai de joelhos e se apóia nos braços para não cair, e ao fazer cospe sangue no chão.
– Realmente você é tão forte quanto disseram... – Disse o homem enquanto o garoto pegava uma capa grossa e colocava sobre seu corpo – Antes que se vá, me diga seu verdadeiro nome.
O garoto da uma risada seca e alta
– Bem, como não lhe resta muitos minutos de vida, acho que saber o nome de seu assassino será útil para quando encontrar seu deus. Meu nome é Hiray. Hiray Kyari.
Dizendo isso, o garoto fecha a porta deixando o corpo ensangüentado do homem no chão do quarto.
Continua...
Battoujutsu: Técnica samurai que consiste em sacar a espada e golpear o oponente ao mesmo tempo em um movimento rápido, o qual é praticamente impossível de se defender.
Legenda:
“Frases entre aspas: Pensamentos”
Frases em Itálico: Flash Backs
Fale com o autor