Crônicas de Sieghart
2 Colônia de Gosmas 2 — História
Notas iniciais
Aqueles que seriam os primeiros habitantes de Canaban foram felizes ao escolher o local da capital. Ao leste e oeste, montanhas se erguem, barrando todos que não tenham a suficiente determinação ou motivo forte suficiente para atravessá-las a pé. Ainda assim, é preciso pagar o preço da fadiga que acompanha as subidas, descidas e desvios no caminho entre os vales escurecidos pelas sombras das montanhas e florestas e escaladas perto aos picos congelantes quando não há mais caminho por baixo. Ao sul, o Vale do Juramento dificulta qualquer movimento de um grande grupo de pessoas, com seus vai e vêm e partes do caminho em que um passo em falso basta para que aquele desprovido de habilidade ou sorte mergulhe para as fendas sem fundo do vale. De terreno tão acolhedor quanto o das montanhas que se erguem aos lados, não basta muito para que pessoas pouco acostumadas com o local percam o caminho e, por vezes, suas vidas. Ao norte, seguindo o rio que nasce em Canaban, Niphis, chega-se ao Megec, maior vulcão de Vermécia e aquele que dá nome ao reino subordinado a Canaban.
Sem documentos escritos para recorrer, o que resta são as histórias contadas pelos velhos, e ambas as versões contradizem-se em polos opostos – em Megec, diz-se que alguns dos seus subiram o curso do Niphis até seu berço, onde então passaram a viver e eventualmente construíram Canaban. Na capital, o que se conta é que vindos do sul, a maior parte decidiu por fazer da nascente sua casa e outros poucos decidiram seguir para o norte, onde então teriam se deparado com o vulcão e os dragões que lá habitam. Naturalmente, a última história é a mais difundida.
Desafiando quaisquer probabilidades, Canaban, com seu inigualável poderio militar, herança do tempo em que, ainda que protegido pelas montanhas, precisava defender as terras ao lado do rio de todos os outros que buscassem tomá-las para si, formou uma forte aliança com Serdin, a meca da magia. Resultado da amizade entre várias gerações das famílias reais, a união promoveu a troca de informações sobre diversas áreas do conhecimento que cada qual dominava e acabou por cimentar a posição de Canaban e Serdin como dois dos três maiores reinos de Vermécia, rivalizando em poder o primeiro.
A aliança, no entanto, só foi possível graças ao acesso a Megec e seus dragões. Embora invariavelmente descendentes do mesmo sangue, muito teve que ser derramado entre Canaban e o Reino do Vulcão até que fosse feito um acordo: Canaban reconheceria Megec como seu território, protegendo as terras e os habitantes como um dos seus. Em troca, homens de Canaban seriam treinados junto aos dragões. O método, conhecimento guardado por Karkata, Cidade do Vulcão, e seus draconianos, embora ainda protegido pelo Juramento de Alma, passaria a ser compartilhado com outros além dos megecsi.
Os austros, assim chamados pelos megecsi todos nascidos em Canaban, que encontrassem seus pares junto ao Megec passariam a realizar o Juramento de Alma no gigante vale ao sul de Canaban. A promessa, que selaria os segredos ao custo da própria vida caso o conhecedor tentasse quebrar o silêncio, embora fosse feita no vulcão, passou a ser associada ao voo sobre o vale. O primeiro voo, a princípio apenas simbólico, passou a ser conhecido como Juramento dos Draconianos e o vale ao sul de Canaban onde era realizado, antes chamado de Labirinto dos Viajantes, tornou-se Vale do Juramento.
Somente então o céu teria homens e as montanhas separando Canaban e Serdin, embora ainda de travessia dura e por vezes cruéis, poderiam ser atravessadas por draconianos com suficiente habilidade. Os dois reinos finalmente conheceriam uns aos outros o suficiente para surgir entre ambos o desejo de amizade.
Tais eventos ocorreram centenas de anos atrás, talvez milênios.
O caminho que Sieghart segue no momento, porém, é para uma floresta na base de uma pequena serra, onde gosmas se dividem em excesso. Isso causou a morte de qualquer outro animal maior que pequenos insetos de rápida adaptação. Graças à simbiose com as gosmas, em que estas ajudam na absorção de luz em troca da seiva das árvores, as plantas são as únicas a conviverem facilmente com tamanha quantidade delas. A floresta, em um infeliz momento de iluminação dos primeiros habitantes de Vermécia e incrível resistência à mudança dos anos, passou e continuou a ser chamada de Floresta Gosmenta.
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