Crônicas de Feras
19 O Lobo do Sul
Notas iniciais
Em todos os anos em que vivera naquele castelo, o príncipe jamais vira o lugar tão lotado quanto na visita do rei. Todas as casas do Norte compareceram, grandes e pequenas, as nobres e as cavalheirescas, até seu tio Benjen pudera deixar a Muralha por uma noite. O amor e o respeito que os vassalos tinham pelo senhor seu pai, claramente expressas nos olhares, era impressionante. O Norte fora um reino esquecido desde o governo do rei Jaehaerys e a rainha Alysanne, e o estado da Patrulha da Noite estava piorando com o passar dos anos. Eddard investiu tempo considerável em fortalecer e dar suporte aos irmãos negros, ocupou as regiões abandonadas na Dádiva e deixou. A administração responsável do Stark o fizera muito popular fora do Norte, e ainda mais amado em sua terra natal, mesmo que raramente pudesse ir a Winterfell.
Na primeira vez que chegou no Norte o príncipe herdeiro detestou cada pedaço… Era muito frio, tudo parecia seco, morto, e as pessoas lhe lembravam um pouco as descrições de selvagens. Foi horrível, especialmente por causa do primo atrevido. As coisas começaram a melhorar quando guerra chegou… Ele sabia que venceriam, o rei Eddard conquistara Westeros derrotando a dinastia de dragões, não seriam vermes marinhos que iriam derrotá-lo. Aquele tempo, com a mãe e os irmãos por perto, Joffrey começou a preciar o Norte. De repente eles não tinham tantas obrigações, e rainha dava atenção exclusiva aos filhos. Brandon sempre pedia por histórias do Norte, Joffrey sempre pedia histórias de dragões, então Cersei contava a lenda do dragão de gelo que estava adormecido embaixo da muralha. Os príncipes costumavam fingir que a corneta de Joruman estava escondida em algum lugar em Winterfell, e corriam o castelo inteiro em uma caça ao tesouro.
—Demorou todo esse tempo se arrumando? Quem é você, uma princesa?
Joffrey tinha deixado seus aposentos e vagado um pouco pelo castelo antes de enfim chegar as portas do grande salão, onde Brandon o aguardava. Embora o inicio tivesse sido difícil, ele precisava admitir, ainda que somente para si mesmo, que o tempo que passara ali o fizera ter orgulho da grande dinastia que trazia nas costas. Eram os primeiros colonizadores, os primeiros senhores de Westeros, os invasores Ândalos não conseguiram vencê-los, os Targaryen foram massacrados por eles. Não eram numerosos como a Campina, nem ricos como a família da mãe, eram apenas fortes… Mais forte do que todos os outros.
—Eu preciso estar apresentável para os nossos vassalos. — Joffrey devolveu com um meio sorriso.
O príncipe herdeiro aproveitou a oportunidade para se vestir tão majestosamente quanto desejava, no Norte não haviam tantos banquetes e festas para que valesse a pena o esforço. Naquela noite escolhera um gibão cinza, todo enfeitado com detalhes em azul claro e botões de prata. Joias enfeitavam seu pescoço, e um broche de prata com o lobo gigante Stark encontrando o leão Lannister prendia sua capa preta. Brandon usava uma túnica cinza simples, camisa de linho branca, calções pretos e botas. A única jóia que o enfeitava era um anel com o feroz lobo Stark.
—Ok, Lady Joffrey, mas saiba que esta fazendo o rei esperar. — Brandon respondeu revirando os olhos e rindo.
Joffrey deu um peteleco na orelha de Brandon, antes de seguir junto com ele para dentro do salão. O grande salão de Winterfell estava todo enfeitado com o lobo gigante, alguns comuns, alguns com a coroa de bronze acima da figura do animal — o brasão do ramo real da família. Estandartes das famílias nortenhas se misturavam aos montes nas paredes e pilares, assim como lordes, ladys e cavaleiros se espalhavam em suas respectivas mesas pelo salão. Até os clãs da montanha estavam presentes, Joffrey os achava rústicos demais, para não dizer selvagens, mas pudera comprovar sua lealdade no campo de batalha. No estrado principal, o rei se encontrava bem ao centro com Jon do seu lado esquerdo. Joffrey ficou satisfeito ao ver Daemon isolado ao lado de Arya, a princesa ficara entre ele e o jovem lorde de Winterfell. Os príncipes cruzaram o salão lentamente, cumprimentando cada um dos vassalos que se levantavam para parabenizar Joffrey pelo desempenho no campo de batalha. O príncipe herdeiro sentou a direita do pai, e Brandon logo ao seu lado.
—Peço perdão pelo meu atraso, meu rei, eu estava…
—Tudo bem, Joff, eu também perdi a tarde me despedindo. — Eddard o interrompeu com a sugestão de um sorriso no rosto, que acabou por se transformar em um sorriso de fato, ao ver a expressão surpresa do príncipe.
—O senhor sente muita falta daqui, não é? — O pai era, sem sombra de dúvida, a maior razão para ele gostar do Norte. O amor do rei pelo país o fizera se empenhar em achar alguma familiaridade com o país.
—Nós somos Starks, filho. Podemos sair do Norte, mas o Norte nunca sai de nós. — O burburinho do salão abafava aquela conversa, mantendo íntimas as palavras trocadas entre pai e filho. — Pense nas batalhas que você lutou ao lado deles. Aconteça o que acontecer, você sempre poderá confiar nesses vassalos, nunca se esqueça disso.
Joffrey assentiu com a cabeça, e chegou a abrir a boca para responder, mas foi interrompido pela chegada dos servos que apresentavam os pratos para que ele escolhesse. Os príncipes se serviram da mesma coisa que o rei, assado, pão e queijo apimentado. Joffrey tomava vinho, e Brandon aproveitava a permissão que recebera para beber cerveja.
—Joffrey… Joffrey!! — A voz de Arya foi mais alta que o burburinho, tirando o mais velho do cochicho entretido que estava tendo com Bran sobre Lorde Bolton. — É verdade que tinha gigantes? Jon esta mentindo, não esta?
—Gigantes? — O príncipe abriu um sorriso maldoso nos lábios, olhando da irmã para o primo, mas o olhar curioso de Brandon o fez desistir de estragar a história. -Sim… Nós vimos três ou quatro… Mas as catapultas deram conta deles. — Respondeu com um ar orgulhoso.
—Nós molhando as pedras com piche e atiramos com fogo… Foi uma boa ideia, meu príncipe. — Jon acrescentou, esticando a cabeça por trás de Arya.
Joffrey abriu um sorriso polido para o primo, erguendo sua taça e fazendo um gesto breve com a cabeça, em agradecimento ao elogio. Ainda achava Jon impertinente, mas se você conhecia seus verdadeiros aliados no campo de batalha, lutar contra o exército selvagem tinha aberto seus olhos para o primo. Jon queria um ataque mais direto, mas Joffrey insistiu em usar a artilharia pesada primeiro… O primo acreditava que o rei pra lá da muralha mandaria apenas uma pequena parte da força para receber o golpe, e os atacaria quando tivessem gastado tudo nos primeiros. Jon estava certo… E quando viram os giantes, Joffrey teve certeza de que era o fim, os portões não iam a gigantes, mesmo jogando piche e fogo quando se aproximassem da entrada, a artilharia já estava sem flechas, gasta em milhares de selvagens. Lorde Stark lutou como um lobo, saiu liderando soldados nortenhos e irmãos negros pelo portão, enquanto Joffrey ajustava pessoalmente as coordenadas das catapultas, e gastava todo o piche que tinham nas bolas de pedra. Quando o exército selvagem se encontrou com o exército nortenho, os gigantes ja estavam no chão, se contorcendo enquanto queimavam e derrubando os aliados que corriam ao seu lado. Os selvagens pareciam não ter fim, como uma praga impossível de matar… Milhões, haviam dito, mas Joffrey não tivera dimensão daquilo até aquele momento. Por um segundo, o príncipe hesitou, enquanto sor Brynden e Lorde Danys Mallister, Lorde Comandante da Patrulha da Noite, insistiam que ele deveria cavalgar para o sul. Não valia a pena arriscar o príncipe herdeiro em uma batalha contra selvagens… Joffrey chegou a mandar que preparassem seu cavalo, mas em vez de seguir sul, seguiu norte, acompanhado do contingente que comandava pessoalmente. Jon lutava contra o Magna de Thenn, quando jogou sua espada matando o selvagem que estava prestes a transpassar o príncipe com uma lança. Lutando juntos ainda tiveram dificuldade, mas enquanto o selvagem desarmava Jon com dificuldade, Joffrey transpassou seu coração e lhe cortou a cabeça. O exército de selvagens foi massacrado, e os que restaram fugiram. Jon lhe exaltou pelo feito, e embora Joffrey concordasse que fora o campeão daquela batalha, achava que o primo reivindicaria a glória para si.
—Não teria conseguido sem sua ajuda, Lorde Stark. — Devolveu depois de beber um gole generoso de sua taça.
—Um brinde! — Lorde Karstark disse em voz alta, abafando o burburinho da conversa. -Aos lobos Starks, os reis do Norte, os senhores de Westeros… Que reinem por mil anos!
Joffrey quase revirou os olhos com aquele puxa saco, certamente começaria a contar uma história de como eram parentes. Aquilo o entediava, mas o clamor dos demais vassalos, iniciando em coro “Stark! Stark!” até melhorou um pouco o seu humor. O banquete seguiu com mais brindes e algum entretenimento. Cantores tocaram sobre a conquista do pai a Westeros e sua vitória contra os Homens de Ferro, e finalizaram com outras mais recentes, sobre o Lobo do Norte e o Lobo do Sul. Teria se estendido noite adentro, não fossem começar os preparativos para voltar na manhã seguinte.
Antes de ir para a cama, Eddard chamou os dois filhos aos seus aposentos, deixando tanto Joffrey quanto Brandon um pouco ansiosos. O rei usava apenas um robe e calções, tomava cerveja enquanto recebia feliz a brisa fria que entrava pela janela. Os príncipes pigarrearam para anunciar a própria chegada, e fizeram uma reverência quando o homem se virou para eles.
—Não vou segurá-los muito tempo, precisamos descansar pra amanhã. — Começou enquanto caminhava até os filhos, fazendo sinal para as poltronas próximas a lareira. -Os chamei aqui para conversar algo muito importante… Casamento.
Joffrey ainda não tinha se sentado quando o pai começou a falar, mas a menção ao compromisso foi o bastante para o príncipe cair sentado na poltrona, uma expressão nenhum pouco animada com aquele assunto. Passara anos de sua vida ali, estudando, treinando, e agora que finalmente voltaria a corte ele já queria amarrá-lo? Joffrey cruzou os braços, olhando para o pai com uma expressão nada feliz, enquanto aguardava para ver se ele já decidira com quem iria casá-lo.
—Não é muito cedo, meu rei? O senhor tem muitos herdeiros, acho que podemos nos dar ao luxo de escolher com mais cuidado a futura rainha. — O príncipe herdeiro já começou argumentando em sua defesa.
—Não estava falando do seu casamento, Joff. — Ned falou com uma expressão quase divertida. -Lorde Tywin ofereceu a mão de Daemon em casamento para Arya. — Pode perceber que o pai ainda não parecia totalmente confiante com aquela proposta, e Joffrey certamente não tinha gostado daquilo.
—Se este é o caso, Arya não deveria estar aqui para falar sobre isso? — Brandon perguntou, esticando-se um pouco na poltrona.
—Não precisamos incomodar Arya com um pedido recusado. — Joffrey falou com firmeza.
—Ainda não dei nenhuma resposta, Joffrey. — O tom de Ned fora ainda mais firme, fazendo o filho se encolher um pouco. -Daemon é um bom rapaz, um bom partido. O noivado ainda se estenderia por mais um ano ou dois, e eles permaneceriam na corte conosco. — O rei listou todos os pros em cima dos quais tinha meditado.
—Arya é mais velha, meu senhor… Das gêmeas. — Joffrey falou novamente, erguendo os olhos felinos para o pai. -Os filhos de Daemon viriam primeiro que os de Jon na sucessão. — Com certeza não queria sua irmã casada com Daemon Lannister, e sabia que Arya também não concordaria com aquilo.
—Suas irmãs já estão ficando na idade, Joffrey. E como você mesmo disse, eu tenho muitos herdeiros, você e Brandon me darão netos antes que eu parta desse mundo, espero. Então não precisamos nos preocupar com isso. O reino esta em paz, e em paz temos que mantê-lo. — Desconfiava que aquelas palavras eram muito mais de Lorde Arryn, e que o rei tentava se convencer, do que propriamente dele.
Se ser irmão de Daemon diante da lei já era desagradável, imagine permitir que o avô finalmente colocasse sangue real em sua linhagem. Achava o avô ambicioso demais, do tipo a se preocupar. Ele só jurou aliança ao pai quando a guerra estava ganha, e ainda assim se permitia ser arrogante. Não gostava nenhum pouco do jeito como ele olhava para o pai, assim como não gostava nenhum pouco do jeito como Daemon olhava para ele.
—Então parece que a decisão esta tomada… — Joffrey falou a contra gosto. Não era como se fosse desafiar o pai assim tão diretamente, mas com certeza impediria aquilo.
—É o que parece… — Eddard parecia cansado, e soltou um suspiro conformado com a postura mal humorada que o filho adquirira.
—Se não se importa, meu senhor, o dia foi muito longo… — Joffrey se levantou e prestou uma reverência, trocando um olhar furioso com Brandon enquanto esperava o pai lhe liberar.
—Esta bem, pode ir… Conversamos mais sobre isso quando chegarmos a Porto Real. — Eddard disse sentando-se na poltrona ao lado de Brandon.
—Obrigado, meu senhor. Boa noite. — Tão rápido desejou boa noite, ele se retirou dali para os seus aposentos, mas não sem fazer uma parada antes para ver o que Arya achava daquilo...
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