Crônicas de Feras
5 Cersei
Notas iniciais
Por um lapso de segundo, Cersei sentiu-se imperdoavelmente tola quando o espelho de sua penteadeira lhe esfregou aos olhos o sorriso bobo que surgira no canto de seus lábios. A leoa respirou fundo por um segundo, os olhos fechados enquanto se colocava de pé com a mão apoiada no encosto da cadeira.
— Mande um corvo para o senhor meu pai… E para mais ninguém, Grande Meistre. — Ela falou em um tom que se dividia entre o triunfante e o hesitante.
Pycelle fez uma reverência sofrida, erguendo o olhar envelhecido para a rainha, e então se retirando para cumprir suas ordens e deixando a leoa sozinha com seus pensamentos. Cersei manteve os olhos felinos na porta, mesmo depois do Grande Meistre a fechar, mexia nervosamente nos próprios anéis parecendo indecisa sobre o que sentir.
Não soube dizer quanto tempo ficou parada encarando o nada, mas ao se dar conta do que fazia, Cersei tratou de arrumar a própria postura, como se pudesse haver alguém a observando. A rainha saiu do quarto em passos decididos, firmes, mas que foram se tornando mais e mais hesitantes enquanto ganhava os corredores. O rei estava em uma reunião com o Pequeno Conselho, quase um ano se passara após o casamento, e os desconfiados lordes do Norte andavam insistentes em suas audiências. Cersei parou a pouco mais de dez passos da porta, podendo ouvir o som abafado de vozes lá dentro. Não conseguia entender porque hesitava tanto… Nas poucas vezes em que ousara interromper o marido em alguma reunião do conselho, ele não a repreendera ou fora agressivo como o pai provavelmente seria… Não, Ned ouvia sua queixa com uma expressão gentil e quase nunca a fazia aguardar para atende-la. Cersei podia notar a impaciência de Lorde Jon Arryn, a Mão do rei, sempre que ela estava por perto quando discutiam assuntos do reino, certamente devia achar que Cersei mandava informações para o pai, em quem ela sabia que eles não confiavam.
“Mas foi isso que você fez”, uma vozinha em sua cabeça alardeou assim que a falta de confiança de Lorde Jon veio à mente. Cersei soltou um suspiro e passou os dedos pelos cabelos dourados, arrumando-os antes de se adiantar para entrar. Não fizera nada demais, o pai era da família, era seu pai, afinal de contas, e aquela fora uma notícia “dela”, nada relacionado ao reino. Cersei parou novamente, agora há pouco mais de três passos da porta, ouvindo as vozes com maior clareza.
“Vossa graça, por favor… Nos dê um Lorde Protetor do Norte! Os Homens de Ferro estão se tornando cada vez mais ousados, sem contar os arruaceiros que Lorde Bolton contrata… Porto Branco sofreu saque em duas praças de comércio, mas os homens estão protegidos pelo brasão do homem esfolado.” A voz insistia, soltando um suspiro um tanto frustrado, mas baixando o tom da voz ao voltar a falar. “Disseram que não foram eles, e as pessoas temem Lorde Bolton agora que não há um Protetor…”
“Lorde Manderly, há um Protetor do Norte. Se os homens de Lorde Bolton estão excedendo suas funções e quebrando a paz do rei, eu tenho certeza de que Lorde Karstark os julgará com justiça.” A voz do marido era séria, aparentemente firme, mas Cersei pode sentir o tremor de preocupação e incômodo vindo dele. Eddard era ligado ao Norte de uma maneira que Cersei não compreendia, e talvez jamais fosse compreender. Ele parecia preferir ser senhor de Winterfell e não dos Sete Reinos, e o desinteresse do seu único irmão vivo pelo posto parecia tê-lo deixado ainda mais preocupado. “Meu irmão Benjen em breve se juntará a Patrulha da Noite, e Winterfell será o assento do príncipe herdeiro. Lorde Karstark…”
“Com todo respeito, vossa graça… Lorde Karstark pode ser um parente distante, mas não é um Stark. Não é um Lorde de Winterfell. O Norte tem votos de lealdade com os Stark… E um Stark precisa governar o Norte. Eu tenho certeza de que o jovem Benjen pode reconsiderar se o senhor falar com ele… É o rei, o irmão mais velho.”, o nortenho insistia, e Cersei se pegou torcendo para que Eddard cedesse aos pedidos dele e nomeasse Benjen como Senhor do Norte. Não que estivesse preocupada com os nortenhos nos desgovernos de Lorde Karstark, mas não queria Winterfell como assento do príncipe herdeiro… Pelos Sete, o que Eddard estava pensando? Seus filhos não iriam para aquele deserto gelado! Não! “Ou pelo menos declare que vosso segundo filho possa se tornar Protetor do Norte, e eu me entenderei com Lorde Karstark sobre o que pode ser feito com Lorde Bolton e os Homens de Ferro.”, um calafrio correu a espinha de Cersei ao ouvir o homem… Uma coisa era ter o primogênito mandado para longe nos anos que antecediam a maturidade… Todos os meninos precisavam fazer aquilo, como Jaime… Mas não ia permitir que nenhum dos filhos fosse mandado para longe dela para sempre, ainda mais para governar o fim de mundo que era o Norte.
Antes que pudesse perceber o que fazia, Cersei venceu a distância que restava, entrando na sala com uma expressão arredia, os olhos indo do nortenho que ela reconheceu como Lorde Manderly, para Lorde Jon, e só então encontraram o olhar confuso e surpreso do marido.
— Cersei… — O rei abriu um sorriso rápido no canto dos lábios e começou a se aproximar dela, enquanto os outros dois se curvavam com as reverências devidas à rainha.
— Ainda nem temos um filho, e meu senhor já esta prometendo o segundo para o Norte? — A voz da mulher era alta e arredia, o olhar felino fazendo os passos do marido cessarem na aproximação.
A rainha cruzou os braços, enquanto o pé batia impaciente e irritado no chão. Seus olhos verdes estavam firmes em Eddard, observando irritada enquanto ele parecia surpreso, e logo depois hesitante. Maldito, maldito nortenho! Por que o pai a obrigara a se casar com ele? Não ia aceitar aquilo! Não entregaria nenhum filho seu a selvagens!
— Podem nos dar um momento, por favor? — O rei pediu, ao que Lorde Manderly e Lorde Arryn deixaram a sala, com certeza com bem menos satisfação do que demonstraram ao acatar o pedido. Cersei manteve os olhos em Eddard, não desviando a atenção em momento algum, e sustentando a postura arredia e o olhar desafiador de quando interrompera a reunião. — Cersei…
— Você não me convencerá disso, meu senhor! Nós ainda não temos filhos, e o senhor já planeja afastá-los de mim! — Seu rosto pálido ficou ligeiramente avermelhado a medida que o sangue ia esquentando. — Já precisava me acostumar com meu primogênito sendo mandado para longe de mim na maior parte de sua vida, e agora devo aceitar perder um filho para o Norte? Será assim que as coisas serão entre nós? Após a cama de sangue vai fazer o que quiser com meus filhos sem nem me consultar? E não aceita…
— Cersei! Pelos Antigos, acalme-se! — Eddard venceu a distância entre ele e a esposa, pousando as duas mãos nos ombros da mulher que ela só não repeliu pelo olhar tranquilo e cuidadoso que ele lhe lançava. — Eu não vou mandar nenhum de nossos filhos para longe de você para sempre. — As palavras dele fizeram Cersei erguer as sobrancelhas surpresa. Se não ia separá-la dos filhos, ia fazer o que?
Depois de quase um ano de casados, Cersei já percebera que era irritantemente difícil ficar com raiva do marido por muito tempo, o que atrapalhava seus planos de odiá-lo pelo que fizera a Jaime. Sempre que Cersei tinha reclamações, ele as contornava com palavras gentis, não era muito bom em galanteios e elogios, e era terrivelmente calado, mas daquela vez não ia se acalmar, não mesmo! Os olhos felinos apertaram um pouco quando percebeu que ele desenhava um sorriso pequeno nos lábios. Do que aquele nortenho desgraçado estava rindo? Ela por acaso parecia estar brincando?
— Uma criança não nascida não vai resolver o problema do Norte. Talvez se meu senhor escolhesse um Protetor do Norte mais forte. — Ela falou assim que percebeu estar em silêncio por tempo demais, a postura ainda um pouco arredia, mas o tom da voz já começando a abaixar.
— O problema não é força, meu amor. O Norte precisa de uniformidade, uma casa que mantenha a ordem através da lealdade e vice versa. — Eddard explicou pacientemente, os olhos cinzentos nos de Cersei, fazendo-a prender-se a eles sem perceber.
— Talvez… Talvez o senhor meu pai possa ajudá-lo com isso. — Acabou sugerindo. Não porque o pai lhe pedira algo, mas ela mesma achava um despropósito Tywin Lannister não fazer parte do Pequeno Conselho. O senhor seu pai era muito mais capaz que aqueles velhos. — Meu tio Kevan é um militar experiente, o senhor meu pai pode lhe dizer… Colocaria os lordes do Norte na linha em nome do rei. — Se conseguisse sussurrar ideias como aquelas para o rei, o pai certamente ficaria bastante satisfeito com ela. — Muito mais eficiente do que prometer os filhos que ainda não temos. — Completou.
Talvez conseguisse mesmo o convencer, afinal não estava falando nenhuma mentira. E confiando em Kevan como Tywin confiava, Cersei sabia que o pai poderia ficar satisfeito com aquilo, dois Lannister governando quase metade do reino, pelo menos em território. Mas seus devaneios foram abaixo ao ver a expressão do marido. O olhar era de recusa, e o sorriso nos lábios era de divertimento.
— O Norte não pode ser governado por um forasteiro, Cersei. É muito grande, e ainda muito selvagem. Os nortenhos seguem costumes diferentes dos sulistas. — O marido argumentou, agora a soltando e indo se servir de uma taça de água. — Os Stark de Winterfell tem mantido a uniformidade do Norte desde a Era dos Heróis. Fomos os primeiros senhores daquelas terras… Os lordes são difíceis de lidar. Os Manderly odeiam os Bolton, mas a maioria das casas também não confia em Forte do Pavor, os Bolton não respeitam os Karstark, os Karstark acham os Mormonts fracos, e os Mormonts não confiam nos Manderly porque eles não seguem os deuses antigos. Lorde Manderly está certo...
— Como pode dizer isso? Se os lordes são assim tão difíceis, que bem há em mandar uma criança para o meio dessa confusão? — Ela o interrompeu aflita. Se ele iria tentar convencê-la a mandar algum dos filhos para lá, estava falhando horrivelmente.
— E quero dizer… Que Lorde Manderly esta certo, é preciso um Stark como Protetor do Norte. Sempre deve haver um Stark em Winterfell. — Eddard completou o que iria falar antes de ser interrompido, olhando para Cersei com um de seus raros olhares de repreensão por ela não tê-lo deixado terminar. — Infelizmente terei que pedir Benjen pra assumir essa responsabilidade. — Ele não parecia nada feliz com aquilo, será que havia algum atrito com o irmão que ele não lhe mencionara?
Seu marido era o homem mais incomum que já conhecera. Ele sempre falava com saudades do Norte, dos irmãos, especialmente de Lyanna, e Benjen que foi o único a lhe restar. Cersei sempre tinha a impressão de que ele era um lobo que ainda não se acostumara a estar longe da toca e da matilha, mas ao mesmo tempo as demonstrações de afeto dele lhe pareciam diferentes do que ela estava acostumada. Se amava tanto o irmão, por que hesitava em fazê-lo um lorde? Aquilo expandiria o nome de sua família. Se o pai fosse rei, ele certamente criaria outros ramos da família Lannister com as senhorias que fossem possíveis, mas Eddard… Cersei não conseguia entende-lo as vezes.
— Isso é ótimo. Os nortenhos ficarão bastante satisfeitos por poderem jurar lealdade a um Stark novamente. — Agora que conseguira o que queria, podia tecer elogios mais uma vez.
A loira desenhou um sorriso curto nos lábios, os olhos verdes sustentando a atenção no rosto do marido. Eddard se encostara na mesa do conselho e também mantinha os olhos nela, um olhar hesitante, mas com uma postura um tanto severa que a fez se retrair um pouco.
— Cersei… Você não pode entrar nas reuniões do conselho da forma como fez hoje. — Ele começou com sua costumeira voz calma e paciente, fazendo Cersei sentir um frio na barriga incomum com a “bronca” que parecia começar a levar. — Minha esposa falando comigo nesse tom na frente dos meus súditos. Se você não me respeita, como eles vão me respeitar?
A leoa engoliu o seco, contendo-se o quanto pode, mas logo abaixando os olhos em sinal de culpa. Não devia se sentir culpada, estava ali defendendo os direitos dos filhos que teriam, aquilo não era desrespeito! Esse nortenho… Com a voz mansa e o olhar inocente demais, não podia confiar nele, tinha que se agarrar à raiva, ele a separou de Jaime!
—Eu o respeito, meu senhor, mas não podia ficar calada diante de tamanha injustiça comigo. — Ela devolveu, cruzando os braços e assumindo uma postura defensiva.
Eddard soltou um suspiro longo e então se aproximo novamente da esposa. O rei a envolveu com seus braços e ela evitou seu olhar, mas não o repeliu, embora tivesse se retraído um pouco quando ele se inclinou para beijar seu rosto. Cersei pigarreou, pousando as mãos delicadamente sobre o peito dele e então erguendo novamente os olhos com um brilho de desafio. Um pensamento se repetia em sua cabeça, não ia se deixar enganar por ele.
— Eu nunca tomaria nenhuma decisão sobre nossos filhos sem consultá-la antes. — A voz dele saiu firme, com uma expressão séria e tão definitiva, que a loira acabou mordendo a língua mentalmente para o que acabara de se prometer. — Mas eu preciso que você espere que eu a consulte para que me dê seus conselhos… Você é uma mulher inteligente, e eu sei disso, mas não posso tê-la interrompendo minhas audiências assim, ou perderei o controle sobre o conselho. Você compreende, meu amor? — Perguntou com a mesma paciência e tranquilidade na voz que a irritavam e ao mesmo tempo, a dobravam.
Pensando logicamente, ela sabia que ele estava certo. Eddard não poderia parecer um rei fraco, afinal já era um rei jovem e com pouco dinheiro. Não havia pensado nisso quando invadiu a sala do conselho, mas também, por que deveria se importar se ele parecia um rei fraco? O pai pediu para ser uma boa esposa… Bom, ela estava sendo, estava… Cersei sentiu uma certa culpa, a mesma culpa de quando pedira para Eddard intervir em favor de Jaime. O marido cedera às lágrimas de uma irmã afastada do gêmeo, que ela interpretara com a intenção de traí-lo, e agora ela novamente o manipulava sem se preocupar se isso poderia prejudicá-lo. Não era a primeira pessoa com quem fazia isso, por que estava se importando?
— Sim, meu senhor. Me perdoe, eu não pretendia prejudica-lo. Prometo que este tipo de comportamento não irá se repetir. — Respondeu polida, e logo em seguida desenhou um sorriso maior para ele, as mãos subindo carinhosas até seu rosto. — Eu aguardarei quando precisar da minha ajuda.
— Obrigado. — O rei sorriu em resposta a ela, os braços se apertando um pouco mais em volta de sua cintura e os lábios buscando os dela. Cersei já tinha começado a correspondê-lo, quando Ned se afastou de repente. — Havia algo mais que desejava falar comigo? Você parecia um pouco ofegante quando chegou. — Perguntou curioso, uma curiosidade que Cersei aumentou ao abrir um sorriso largo, os olhos verdes felinos faiscando.
— Na verdade, sim…
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