Capítulo 15 – Jennifer Wagen

A estação não ficava muito longe daquela que estávamos, mas nosso passo exausto não colaborou muito com o tempo. Eu estava completamente dolorida de todas as pancadas que recebi durante as últimas vinte e quatro horas, fora uma dor de cabeça infernal. Dimitri estava quase dormindo em pé e Amy se entretinha comendo um antebraço como se fosse uma coxa de gauga frita. Realmente nojento, mas não vou ser eu que vai falar isso para ela e arriscar virar o próximo petisco.

Essa estação era tão grande quanto a primeira que passamos. Feita com as mesmas escadas metálicas e disposição da sala cercada por vidros estilhaçados, agora com ares melhores devido a ventilação, dentro da qual todos nós dormirmos. Eu tentei dormir, mas algo em Amy não me deixava em paz.

Amy permanecia em pé olhando em volta, tirando meus cabelos de sua motosserra e falando apenas com os lábios como se conversasse com fantasmas em uma língua obscura. Talvez ela houvesse entrado em algum estado onde ela não estava dormindo, mas ao mesmo tempo não estava acordada e que muito me assustava.

— Talvez a febre dela tenha piorado... — sussurrei enquanto passava a mão na única mecha de cabelo que sobrevivera intacto da nossa luta.

Outra coisa que me intrigava enquanto eu revirava minha mochila atrás de munição era o fato de Amy ter um medo como ponto fraco quando na verdade era ela que devia provocá-los.

— Eu sabia que tinha deixado algumas aqui. Eu sempre deixo — disse quando encontrei foi um clip de cinco tiros Herrenvolk na bolsa lateral da mochila — Bem... é melhor do que nada... — Eu morri de dó quando olhei meu bebê com a madeira cortada perto do guarda-mato, felizmente a chapa de aço que segura a munição no interior do rifle suportou a maior parte do estrago, mas agora não iria demorar para enferrujar.

— Tá difícil dormir hoje? — Disse Dakota ao meu lado, com a aquela linda carinha toda estrupida.

— Nossa, nem me fala.

— Tá se cagando de medo, né?

— Então maninha, você nunca aparece sem motivo, então acelera aí que eu tenho mais coisa pra fazer — bufo esperando as típicas indiretas de Dakota.

— Estou vendo... — ironizou — Não é nada, eu só estava com dó daquela menina — Ela apontou para a Açogueira que se ajeitava agora abraçando sua motosserra — Olha como ela cuida bem daquela ferramenta mesmo dormindo, parece alguém que eu conheço. Uma menina que gosta mais de ferramentas do que de pessoas, não te lembra alguém?

— Imagina! — rio do comentário absurdo — Até parece que nunca ouviu falar dela. — Bem... Você tem dó de todo mundo...

— E você não é diferente... — Ela aponta para Dimitri.

— Mas ele é uma besta humana que não faria mal a uma mosca! Ela aterroriza as pessoas, todos morrem onde ela aparece! Nem tem como comparar, maninha.

— E da onde você acha que ela aprendeu a aterrorizar, “manona”, de alguma ferramenta? — Sua voz é de ironia e desgosto — Se tem focinho de gauga, cor de gauga e anda que nem um gauga...

— Talvez ela já tenha sido, mas, com certeza, não é mais...

— E o que te faz ter tanta certeza, Jenny?

— Ela é só mais um animal que enlouqueceu depois de perceber como esse mundo é cruel... Não seja inocente, Dakota... Talvez morrer não foi o suficiente pra você aprender isso?

— Por que você pensa nas pessoas como animais?

— Por que todas são animais: Malditos escravos de seus próprios corpos, algumas mais inteligentes que outras, mas as deixe algum tempo sem satisfazerem seus instintos e as máscaras de civilidade e racionalidade cairão assim que tiverem a primeira oportunidade de matar, trair, mentir, roubar, foder, não importa. No final das contas não é a mente que controla o corpo, mas o corpo que controla a mente. Isso me dá tanta raiva! Tanto ódio! — Então deixo meus ombros caírem cansados — Mas no final a natureza sempre vence....

— Sei... Os caçadores te ensinaram bem... Mas você não é nada diferente disso, certo?

— Certo... — Disse envergonhada e enraivecida comigo mesma.

— Eu só não entendo uma coisa: Se todo mundo é assim por que você se reprime tanto? Por que você insiste em odiar todo mundo?

— Porque isso não é o certo, Dakota!

— Ah! E você é alguma salvadora?! Uma messias que vai se sacrificar para purificar o mundo da maldade com mais morte e crueldade?! Não foi isso que nossos pais nos ensinaram, Jenny! — ela retrucou — Eles nos ensinaram que devemos ser bondosas e compreensivas com os outros por que eles são tão humanos quanto nós!

— Não! Isso foi o que eles TE ensinaram! Porque eu não tive ninguém pra me ensinar nada! Ou você não lembra que eu fui a filha abandonada?! Aquela que ninguém ligava! A única coisa que eu aprendi foi a não ser uma trouxa como você! — rosnei para ela olhando no fundo do seus olhos, mas logo abaixei minha cabeça admirando triste o desenho na lâmina da minha faca quando uma lágrima a molhou — A única coisa que aprendi é que se você quer alguma coisa tem que estar disposta a pagar o preço! E eu não odeio todo mundo...

— Você ainda o ama, né? — Ela me olha com olhos de dó como se não tivesse ouvido o que eu acabara de dizer.

— Claro que amo — lágrimas surgiram e minha garganta começou a dar um nó.

— Por que você está fazendo isso, Jenny? O que você irá fazer? Vingá-lo? Ele não iria querer isso... Ele só queria seu bem, não faça o sacrifício dele ser em vão.

— Você não entende... Eu não conheço vida sem o Will ele era a coisa mais próxima de família que eu já tive. Era ele que se dedicava a mim e era a quem eu podia me dedicar sem machucar meu orgulho. Era ele que me tornava uma pessoa cada vez melhor. Você lembra de mim antes de nós começarmos a namoramos.

— Sim, você já fez muita merda.

— Agora só o que me sobrou foi tirar a vida de quem tirou a minha ou morrer tentando. — Minha mão fechou firme no cabo da minha faca e o meus dentes rangeram.

— E você acha que isso vai mudar alguma coisa? Não seja inocente, — essa frase, em sua voz sempre calma e espaçada, me atingiu como um tiro — Jenny, você viu o poderio de quem você está perseguindo. Você realmente acha que só vocês três vão dar conta de matar mais do que alguns piões?

— Eu não sei, mas vamos mandar o recado a seja lá quem for.

— Depois não vai falar que eu não avisei — Dakota se levantou e lentamente andou até a escuridão, quando parou e falou olhando por cima do ombro — Ah... e lembre-se: quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.

— Você nunca leu Nietzche.

— Mas você leu, sabe o que significa — e Dakota sumiu na escuridão.

— Eu sei muito bem o que significa.

— Então você já virou um monstro... um muito pior que a Amy — Ecoaram tristes as paredes do metrô.

...__________...

Quando acordei já era possível ver a luz vindo da entrada do metro e ouvir os ensaios dos “gritos de socorro” da nossa amiga maneta. Meu pescoço doía junto do meu estômago que implorava por comida. O ronco de Dimitri denunciava que ainda estava dormindo, mas nada vinha de Amy, então quando esfreguei os olhos notei que ela não estava mais lá.

— Dimitri! Acorda!

— Só mais um pouco... — o russo protestou sonolento se virando para dormir novamente.

— Acorda! — chuto sua perna — A Amy sumiu.

— O quê?! — Ele estala os olhos levantando-se num pulo.

— Pega o crucifixo agora!

Dimitri corre para pegá-lo, mas ela não aparece. Demoramos alguns minutos para decidir se deveríamos procurá-la ou não, mas como ela era a única chance que tínhamos de recuperar a Woman O’War caminhamos pra dentro do metrô novamente.

Não demoramos muito para achar Amy dormindo de pé dentro da escura sala de faxina ainda agarrada a sua motosserra. Batendo o crucifixo na porta, Dimitri a acordou e ela se pôs de pé rapidamente, mas se recusou a sair do quarto quando notou que fora dele estava claro. Eu tentei puxá-la, mas com um movimento rápido com o braço ela me jogou no chão.

— Amy! — rosno enquanto Dimitri me oferecia ajuda para me levantar — Eu consigo levantar sozinha! — Me levanto sacando Valquíria fazendo com que Amy abrisse seu sorriso assustador me desafiando, mas logo guardo a arma ao perceber que estava descarregada.

— Eu acho que ela não gosta muito de luz... — Apontou o pseudo-russo.

— Sério? Nem tinha notado, capitão óbvio! — ironizo enquanto Amy concorda com um balançar de cabeça voltando para sua expressão de sono — Beleza o que vamos fazer com esse estorvo?

— Acho que o jeito é esperarmos até o anoitecer.

...________...

Enquanto esperávamos o escurecer, Dimitri e eu voltamos para os túneis do metrô. Com certa dose de paciência e um amplo vocabulário de xingamentos eu consegui ensinar para ele quais insetos eram melhores para alimentação e quais poderiam ser venenosos. Assim que percebi certa consistência na coleta de Dimitri eu voltei para dar manutenção em minhas armas.

Eu estava limpando as peças de Come-Quieta quando Dimitri voltou com minha mochila cheia de insetos grandes. Eu terminei de remontar minha pistola e me juntei a Dimitri. Estávamos sentados em torno da mochila conversando e devorando os insetos ao passo que tentavam fugir quando começamos a ouvir barulhos estranhos na sala onde Amy estava.

— Você ou eu? — Dimitri perguntou já se tirando de lado.

— Deixa que eu vou ver. — Bufei.

Quando abri a porta da pequena sala onde nossa psicopata de estimação estava eu fui atacada por um cheiro escatológico que me fez piscar e prender a respiração por alguns segundos.

— Amy, você tá passando mal de novo?

Assim que voltei a abrir os olhos eu via Amy segurando uma pedra onde provavelmente estava amolando uma faca que agora se encontrava no chão. Amy estava olhando para sua mão e, ao perceber que eu estava lá, olhou para mim esticando o braço para me mostrar o membro que tremia descontroladamente.

— Você não vai melhorar nunca estando com fome. O Dimitri trouxe insetos vem co... — Assim que ela foi se levantar sua perna bambeou e a levou a chão — Dimitri me ajuda aqui! Ela tá passando mal! — Pedi enquanto a ajudava a levantar.

Dimitri veio correndo, a carregou até um lugar onde havia luz e deitou-a no chão. Amy tentou lutar mais já estava muito fraca. Eu observei o interior da sala e notei em um dos cantos uma poça escura de onde provinha o cheiro fétido. Ela estava vomitando novamente e mais do que antes.

— Dimitri, pega o cantil e esmaga o máximo de insetos possível, agora! — instrui.

— O que ela tem? — Ele perguntou enquanto me entregava o cantil.

— Ela deve estar morrendo de fome e estava vomitando. Ela deve ter pego alguma doença comendo aquele corpo podre. — Respondi me ajoelhando e pondo a cabeça de Amy em meu colo para dar-lhe água. Com um beliscão em seu braço me aliviei — Pelo menos ela não está desidratada.

— Como você sabe? — Indagou o russo que deveria estar mais concentrado em esmagar insetos.

— Primeiros socorros e técnicas de sobrevivência, aprendi tanto nos exploradores como nos caçadores. Se a pele demorasse para voltar à posição original ela estaria desidratada. Me passa os insetos. — Ele me deu uma pasta que lentamente pus na boca de Amy em pequenas porções intercaladas com goles de água. — Não é à toa que nós tivemos uma chance lá na outra estação, ela já estava fraca. Eu só não entendo como ela não percebeu que a carne havia apodrecido.

— Bem, ela fede a carne podre, talvez não tenha distinguido o cheiro dela do corpo — Apontou Dimitri.

— Faz sentido... Quando recuperarmos minha caminhonete nós vamos dar um banho em você e trocar essa roupas — Digo para Amy que estalou os olhos assustada e começou a comer mais lentamente tentando não chamar nossa atenção na esperança de que a esquecêssemos — Não adianta se fazer de santa por que eu não vou esquecer — Amy revira os olhos cansada e revoltada.

..._______...

Dimitri foi mais uma vez buscar insetos para Amy que os comeu até dormir mais uma vez agora em meu colo, mas logo se pôs em posição fetal assim que tocou na motosserra colocada por Dimitri ao seu lado.

A Açogueira dormiu até o pôr-do-sol quando acordou com uma energia praticamente infinita. Ela corria para cima e para baixo se pendurando nas tubulações do teto, rindo, provavelmente por não estar mais com dores na barriga. Dimitri, por outro lado, estava muito quieto, sentado no chão apenas olhando seu pequeno e estranho revólver que tremia tanto quanto a arma do rapaz do laboratório do Sr. Jonhson.

— Tá nervoso? — pergunto.

— É tão óbvio assim? — ele responde — Eu não entendo como vocês parecem estar tão calmas, a Amy tá até se divertindo, o que é bastante preocupante...

— Preocupante é pouco...

— Mas eu não sei se consigo eu... eu nunca matei nada antes.

— Se você quiser, eu deixo você ficar aqui...

— Ficar aqui? Fazendo o que? EU perdi sua caminhonete e EU vou recuperá-la — Lágrimas saiam de seus olhos — Eu preciso aprender a me responsabilizar pelo que eu faço.

— Isso mesmo, grandalhão. — Eu sorrio com uma mistura de dó e orgulho — Agora enxuga essas lágrimas porque nós já vamos subir e eu não vou passar vergonha do lado de nenhum marmanjo chorão — Ofereço minha mão para levantá-lo e ele aceita — Toma — Entrego BFF para ele.

— Você vai me deixar usar a sua escopeta? — ele fica surpreso.

— Vou, você não vai conseguir matar nada com esse revólver minúsculo, e também porque eu quero usar a munição da sua submetralhadora pra carregar a Come-Quieta.

— Por que você dá nomes pra suas armas?

— Porque eu gosto delas. Você tem sete cartuchos contando o que já está no cano, infelizmente eu desperdicei os outros com a nossa amiga ali. É só mover a peça de madeira para frente e para trás para pôr um cartucho novo no cano, entendeu?

— Entendi.

— Tá preparado?

— Não. Você tem um plano?

— Quase.

— Como assim quase? Eles têm quase um exército lá em cima!

— E nós temos a Amy. Vamos. — Disse pondo minha faca em Herrenvolk.

...__________...

Assim que a noite atingiu sua hora mais escura nós saímos do metrô. Eu observo que ambos os prédios estão iluminados, porém apenas aquele que ficava do lado da rua onde estávamos tinha uma luz constante, provavelmente lâmpadas. Sabendo disso e sem ouvir barulho de motor eu supus que eles deveriam estar usando baterias para se iluminar, enquanto do outro lado havia apenas uma fogueira.

Eu expliquei para Amy e Dimitri meu plano e silenciosamente cruzei para o outro lado da rua junto do russo. Subimos as escadas para o interior do prédio e nos escondemos atrás da porta que dava para o interior da sala. Lá dentro havia quatro homens dormindo e dois acordados que “montavam guarda” jogando baralho em uma mesa no lado oposto da porta.

— Exatamente como eu pensei — sussurrei — tem menos homens aqui. Não dispare a não ser que seja extremamente necessário.

Eu segurei Herrenvolk firme com minha bochecha quase tocando o cano, respirei fundo e corri o mais rápido que pude para dentro da sala. Apenas parei quando estava com minha baioneta fincada no pescoço de um dos homens na mesa. O outro tentou sacar uma pistola que estava em sua cintura, mas, levantando minha perna, consegui disparar Come-Quieta sem tirá-la do coldre.

Depois de tirar Herrenvolk do pescoço do primeiro me virei e vi que os outros três homens estavam acordando enquanto um quarto já apontava um revólver para mim. Dimitri surgiu batendo na mão do homem armado usando BFF como um bastão. O revólver foi jogado longe e um segundo movimento com a escopeta acertou a cabeça do alvo deixando-o inconsciente.

Eu corri novamente com meu rifle em punho para proteger Dimitri de mais um assaltante que a acabara de levantar armado com uma pistola. O impacto da baioneta entrando em seu peito foi tamanho que o jogou ao chão. Os dois últimos já estavam de pé e, enquanto Dimitri enfrentava o mais próximo dele, eu rapidamente virei meu rifle para direita o suficiente para que a coronha acertasse o rosto do próximo fazendo o primeiro gritar de dor.

O gritador, que ainda estava no chão sangrando tentou apontar sua arma para mim, mas com um chute foi desarmado. A esse ponto minha cabeça se movia freneticamente tentando manter minha atenção nos dois homens. O segundo quando se recuperou, com seu nariz já sangrando e provavelmente quebrado, recebeu mais uma pancada na lateral da cabeça quando eu segurava meu rifle pelo cano.

Todos já estavam neutralizados, mas o grito dado durante a luta havia deixado os assaltantes do outro prédio em alerta. Eu e Dimitri nos deitamos para não sermos vistos enquanto eu ajustava a mira na procura da fonte de energia que iluminava o outro prédio. De fato, era como eu havia imaginado, eram baterias da carros que alimentavam as lâmpadas. Eu conhecia aquela associação de baterias das aulas nos exploradores e sabia que se acertasse uma delas toda a energia seria cortada.

Assim que disparei todas as luzes se apagaram e todos começaram a disparar a esmo contra nós dois que nos arrastamos para fora da sala. Foi quando todos os tiros parados e o riso psicótico de Amy ecoou pelo prédio junto do ronco de sua motosserra. Quando estávamos atravessando a rua para ajudar Amy gritos e tiros se juntaram a melodia macabra que ela estava regendo. Era possível ver jorros de sangue atingindo o teto.

Já dentro da sala eu e Dimitri nos deparamos com uma sala cheia de sangue, corpos e membros decepados enquanto Amy partia ao meio um pobre infeliz que tentou se proteger jogando os braços na frente do corpo. Ela sorria com o rosto repleto de sangue como quem estava tendo o melhor dia de sua vida enquanto se deliciava com os gritos e o rosto de pânico de sua última vítima.

Assim que ela terminou e o silêncio voltou eu percebi certa movimentação atrás de uma porta no fundo da sala onde estávamos. Meus olhos estalaram assustados quando vi a ponta da metralhadora que ficava na caçamba da minha caminhonete.

— Todos pro chão!

Eu gritei logo antes de uma chuva de balas atravessar a parede abrindo buracos por todos os lados. Eu tapei meus ouvidos com as mãos e virei a cabeça para ver que Dimitri e Amy faziam o mesmo. Assim que os tiros pararam eu silenciosamente me deslizei até ficar de pé ao lado da porta. Eles estão desperdiçando minhas balas! E usando minha arma contra mim! Não bastava só roubar minha caminhonete?! Eles vão pagar muito caro por isso.

O cano da arma começou lentamente a sair da porta. O atirador iria sair para checar se ainda tinha alguém vivo. Eu tirei minha faca de Herrenvolk e a empunhei esperando o momento certo para atacar. Assim que comecei a ver o corpo saindo pela porta o atirador me viu e se virou para me atacar. Felizmente, para mim, o longo cano bateu em minha cintura. Esse assaltante era diferente dos outros. Ele era grande como um armário e gordo como um barril, mas forte o suficiente para carregar minha arma sozinho com ajuda de cordas que apoiava no ombro.

Por instinto eu fechei meu braço esquerdo travando o cano da arma sobre minha axila dizendo:

— O que adianta ter uma arma grande se não sabe usá-la? — sorrio sarcástica fincando minha faca em sua barriga.

O gigante gemeu de dor, mas, quando comecei a mover a faca visando aumentar o rasgo assim como os caçadores faziam para desviscerar um animal abatido, um soco atingiu meu rosto me jogando alguns metros para trás. Quando recuperei meus sentidos estava olhando para o cano negro e raiado da arma. Ele rosnava com uma barba nojenta prestes a puxar o gatilho no momento que Dimitri se choca contra seu ombro o fazendo colidir contra a parede esburacada e abrir uma cratera ao lado de minha cabeça. O russo aproveitou a desorientação do gigante para acertá-lo com um soco direto na lateral do rosto o fazendo bater a cabeça na parede mais uma vez.

Ainda deitada eu lentamente saquei Come-Quieta e apontei para o gigante, mas eu estava muito desorientada e Dimitri muito próximo do alvo para me permitir um tiro claro.

A luta de Dimitri não durou muito uma vez que seu próximo golpe foi segurado pela enorme mão do nosso oponente que terminou jogando Dimitri de costas para o meio da sala. Essa era minha oportunidade e eu não a desperdicei. Três tiros atravessaram seu peito o fazendo cair morto na frente da porta.

Dimitri ainda carregando BFF veio até mim e se ofereceu para me ajudar a levantar. Eu aceitei a ajuda:

— Obrigada — eu disse com minha mão na cabeça tentando amenizar a dor.

— Sabe Jenny, você precisa parar de proteger seu corpo com a sua cara!

— Eu só não te dou na cara porque você salvou minha vida! Você acha que essa é a melhor hora pra gracinha?!

— Nossa, desculpa...

— Cadê a Amy?

O som da motosserra é seguido de um grito estridente e tiros provindos de dentro da sala. O grito era o mesmo da maneta que tentou matar Dimitri quando caímos na armadilha.

Dimitri e eu entramos na sala com armas apontadas e nos deparamos com Amy prestes desferir um golpe contra um homem e a mulher que já conhecíamos.

— Chega, Amy, nós vamos precisar deles! — Amy olhou para mim abaixando sua arma quando rapidamente saca seu cutelo para parar um tiro. O homem que disparou fica amedrontado e frustrado quando o cutelo se abaixa revelando o sorriso macabro de Amy — Ora, ora, ora... Se não é nossa amiga maneta — Digo abaixando Come-Quieta.

— Sua puta! Foi você que arrancou meu braço — Ela e o homem apontaram suas pistolas para mim.

— Sim, fui eu, mas não é com você que eu quero falar, é com ele — aponto para o homem enquanto ponho minha faca de volta em meu fuzil — Eu quero propor uma saída pra vocês, mas primeiro entreguem suas armas.

— Nós não vamos entregar bosta nenhuma, sua vaca — Grita a maneta disparando inutilmente suas três últimas balas.

— Eu posso pedir para a Açogueira tirar as armas de vocês, mas eu temo que ela não se limitará às armas.

A maneta olha para o líder que com um movimento de cabeça sinaliza para ela colaborar. Ambos põem suas armas no chão e as chutam para mim e são recolhidas por Dimitri.

— Qual é a sua proposta?

— Simples, é o seguinte você responde minhas perguntas e eu deixo vocês pegarem uma moto e fugirem.

— Nós não vamos te falar nada, sua vaca! — Diz a maneta despertando meu ódio eu estava prestes a sacar minha pistola quando o homem gritou.

— Cala a boca, Evelin! Essa é a única chance de sairmos daqui vivos! — Ele gritou assustando a mulher. Por mais que fosse um assaltante, ele era um homem sensato.

— Finalmente, alguém com cérebro! Você devia se espelhar mais no seu chefe, maneta — tripudiei.

— E que garantia temos que você está falando a verdade? — Ele estava claramente irritado, mas tentava manter a paciência. O olhar da maneta era de total respeito e submissão para aquele homem que tinha o rosto repleto de cicatrizes.

— Onde estão as motos?

— No subsolo.

— Dimitri vá buscar uma moto, abasteça-a e ponha lá fora. — O líder percebe minha boa-fé, não confiava em mim, mas não tinha muita escolha.

— Onde está minha caminhonete?

— Junto das motos

— Estamos procurando um caminhão de guerra com símbolos Draug, tudo indica que eles passam por aqui, me diga por onde eles passam exatamente e com que frequência.

— Eles usam a estrada principal que divide as ruínas. — Eu devia ter imaginado é um veículo muito grande para passar pelas vielas — Passam por aqui uma vez a cada duas semanas sempre durante os sábados.

— Excelente... Amy, escolte-os até lá embaixo... se fizerem alguma gracinha mate-os — Me viro de costas e saio da sala para observá-los pelo vão do prédio.

Amy ficou desapontada com o desfecho nada apetitoso do meu interrogatório, mas eu estava tão feliz. Agora eles sabiam com quem estavam se metendo e provavelmente espalhariam a notícia pelas terras arrasadas. Eu corria o sério risco de virar uma lenda! Algo que seria ótimo para a minha reputação e provavelmente me protegeria de ataques futuros, pelo menos de assaltantes.

Meu ego nunca esteve tão inflado quanto agora. Eu nunca havia feito pessoas realmente perigosas obedecerem a minhas imposições e a sensação era de um êxtase tão intenso que eu mal conseguia segurar minha respiração acelerada e meu coração disparado enquanto mantinha minha pose superior ao vê-los partir seguindo para o Norte.

A medida que eles desapareciam no horizonte a minha preocupação mudava lentamente para a nova ameaça que nós teríamos que enfrentar. Os canalhas que mataram Will eram muito mais perigosos que meros ladrõezinhos de estrada e sem dúvidas muito mais bem armados. Sendo assim, se eu queria ter alguma chance de mandar todos para o inferno sem ir junto no processo, uma emboscada deveria ser montada, algo muito conveniente para uma caçadora.

Dimitri dormiu em um velho colchão no chão depois de arrastar todos os corpos para aquilo que um dia havia sido banheiro e os trancá-los lá. Eu, diferente do russo preguiçoso, passei o resto de noite em claro planejando a emboscada. Amy me fez companhia, se é que se pode dizer que alguém que finge te escutar enquanto se alimenta de braços, pernas e vísceras é uma companhia, até que a exaustão e a tristeza que lentamente se reapoderaram de mim me fizeram dormir junto do crepúsculo.

Eu tenho aliados, eu tenho informação, eu tenho um plano. Agora, eu poderei vingar o meu Will e então voltar para casa.