Crônicas da Overwatch
4 A aranha
Notas iniciais
Uma hora antes
—Sua missão é simples- disse a voz na escuridão. -Vá até a casa do alvo, e elimine-o. Atire em quem ou no que precisar; o que importa é que o senador esteja debaixo de sete palmos de terra.
—Entendue. Considere-o morto.
Embarcando em seu vôo para o Brasil, a francesa revisava sistematicamente as instruções de seu superior. Um tiro. Uma morte. Sem testemunhas. Apesar de ser sua primeira missão, Widowmaker não estava tensa; pelo contrário, o recondicionamento que sofreu fez questão de eliminar qualquer emoção que pudesse ter.
—Você será acompanhada por outro agente mais experiente, que fará o serviço caso você falhe.- acrescentou a mesma voz, pelo comunicador.- Mas temos certeza que não falhará, não é mesmo?
—Oui, monsieur.- Mesmo que não pudesse ver na escuridão do jato, sentia que havia mais alguém além do piloto no veículo. Isso se confirmou quando uma voz fria e arrastada também disse sim, senhor com um certo desagrado no "senhor". Olhando para um canto, teve a sensação de ser olhada de volta, então resolveu descansar. Eles tinham uma longa viagem pela frente.
Algumas horas depois
A mansão do senador Meirelles era realmente grande, quase uma fortaleza. Ele era uma figura importante, um dos poucos políticos honestos no país, e era exatamente isso que fazia dele um alvo. Os seguranças rondavam o terreno, espantando qualquer visitante indesejado... mas uma certa aranha ia passar por suas defesas.
—Cinco guardas na ala oeste- relatou o outro agente.— Seis na sul, seis na leste, apenas três na norte.
Um dos guardas, que vigiava a ala norte, teve uma desagradável surpresa quando a assassina de roupa colada lhe acertou um chute no rosto. Nocauteado na hora, seu sangue sujou o salto da agressora. Widow, ou Amélie, como era chamada antes de entrar para a Talon, usou seu arpéu para subir o muro, que do outro lado abrigava uma queda bem alta até o mar.
Cruzando essa distância, aterrissando numa ponte, percebeu outro guarda se aproximando. Correu até ele, dando-lhe uma coronhada, soltou um pouco do arpéu e com a corda, enforcou-o. Esgueirando-se, subiu numa torre, aparentemente para observar as estrelas, e após pôr uma mina venenosa no corredor que levava ao topo, armou seu rifle.
—Prepare-se. O alvo vai cruzar a porta da frente em dois minutos— disse a voz arrastada. Widowmaker pôde ver um carro chegando no portão da frente, e dele saiu um homem de terno branco.
—Que desagradável será para limpar o sangue antes do funeral- pensou Amélie. Mirando cuidadosamente, ela o viu parar. Sua cabeça estava na mira...
—Vá— murmurou a voz- atire.
Ela ia atirar quando Meirelles disse algo para o segurança, algo que ela não pôde ouvir... mas a torre estava perto o suficiente para que ela ouvisse duas vozes estridentes gritando:
—PAPAI!
Ela tirou o olho da mira e observou quando duas pequenas crianças foram correndo até o senador e pularam em seu colo, ao que ele respondeu abraçando-as e afagando suas cabeças. A expressão no rosto da francesa era de surpresa, e indecisão.
—Por quê está hesitando?- o outro agente perguntou, indignado.- Atire, agora!
Vendo o carinho que aquelas crianças recebiam e davam ao pai, Amélie teve uma pequena recordação... de quando seu coração batia mais forte, quando... Gérard ainda estava vivo.
Eles estavam passeando num parque, de mãos dadas. Já eram noivos, e Amélie viu uma família passar, sorridente, brincando com um bebê.
—Um dia- ele lhe disse- teremos um desses para cuidar, Amélie.
—Eu espero que sim.- respondeu ela, com um sorriso feliz...
—ATIRE!
A voz raivosa a tirou de seus pensamentos, e no susto ela atirou...
...e errou.
De imediato, todos olharam para a torre. O senador correu para dentro da casa com as crianças, enquanto os seguranças atiravam contra ela.
—Vá atrás dele, agora— sibilou o agente- ou terei que fazer eu mesmo.
Ela correu, pulando da torre e usou o arpéu. Disparou outra mina de veneno na direção dos tiros, e enquanto subia pelo cabo, viu Meirelles e as crianças correndo por um corredor, cujo trajeto era decorado por uma parede de vidro. Disparando no modo de assalto, ela errou, e quebrou as janelas; permitindo que eles entrassem num quarto.
Porém, Widow percebeu por meio de seu visor infravermelho que ele não tinha proteção nenhuma. Então simplesmente arrombou a porta, encarando o político.
—Você veio pra me matar, não é?- ele perguntou, com irritação.
A mulher nada respondeu.
—Se vai fazer isso, faça logo. Mas não machuque meus filhos.
Essas palavras ficaram na mente dela. Em sua cabeça, que pessoa pensaria numa criança nessa situação? Achou difícil de entender, mas ainda assim era um ato corajoso... não se preocupar com si mesmo sob risco de morte.
Ela mirou o rifle, no modo de longo alcance. Pelo rádio, o agente falou:
—Faça. Agora.
Foi na mesma hora que uma voz disse:
—Moça, não machuca o papai. Por favor.
—A gente gosta muito dele...- completou outra.
Widow tirou os olhos da mira, para ver que ambos os filhos do senador estavam na frente dele, cobrindo-o. Um menino e uma menina, cerca de cinco anos. Eles estavam bem na frente dele, de modo que se ela atirasse, a bala os mataria também. Sua mão tremia, a arma começava a pesar. Ela voltou à mirar...
—Mate-os!- repetiu seu parceiro.
Com o dedo no gatilho, ela hesitou... e puxou.
A bala errou por metros, acertando um vaso no canto do quarto.
—Je ne peux pas le faire... (Não posso fazer isso.)- ela murmurou, caindo de joelhos.
Olhando para cima, viu o homem de pé, surpreso com sua atitude. As crianças agarradas à ele como se não houvesse amanhã. Então ela ouviu pelo rádio o agente falando:
—Widowmaker não vai matar o alvo... creio que o recondicionamento precisa ser reforçado. Assumo daqui, comando.
—Entendido. Widowmaker, saia da área da missão... Reaper vai cuidar disso.
Levantando-se, com um peso nas costas, ela quebrou a janela e fugiu na mesma hora que os guardas entraram. Parando na borda do muro da mansão, viu Meirelles olhando para ela, com as crianças ao seu lado, e os homens atrás deles. Voltando rapidamente para a nave, olhou para uma tela, que mostrava, no momento, o quarto onde falhou na missão. Até que, do nada, atrás de todas as pessoas, uma fumaça preta começou a surgir.
Quando Reaper começou, ela não conseguiu olhar, enquanto apenas ouvia.
Os tiros.
Os gritos.
O choro das crianças... que foi silenciado.
Ela não pôde conter uma lágrima, enquanto o ceifador saía de cena, com todos os corpos no chão. E enquanto a nave decolava, ele nada pôde ver atrás da falsa apatia da francesa.
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