Crônicas da Alabarda - A Primeira Ceia

7 A Morte como um aprendizado ou um sorvete de baunilha


Notas iniciais
Esse capítulo, destacando-se dos outros, é centrado em diálogos maiores, quebrando a estrutura anterior da narração. É uma proposta diferente de se contar a história, e gostaria de saber se ela funciona melhor ou pior! Obrigado pela atenção, boa leitura!

O fim de semana trouxe uma carga inesperada de disposição para Ava. A forma como o Sol encontrava de, sorrateira e furtivamente, invadir sua cama pelas poucas frestas que ela permitia se manterem a divertia ao mesmo tempo que perturbava. Aceitava a luz, mas existia por detrás de seu silêncio e seu rosto branquíssimo uma predisposição para a noite.

– Eu espero que você goste de sorvete de baunilha, porque só tinha desse sabor — Margô estendeu o sorvete. Estavam ambas num banco de madeira na praça do bairro de Ava.

– É meu favorito — Ava assegurou enquanto aceitava o presente.

Margô estimulava muito menos medo e desconforto sem o macacão e as luvas de borracha. Usava um vestido rendado de seda claro que definitivamente não parecia ter saído do seu armário. Seu rosto não era nenhum pouco enfeitado como o de Ava, que apreciava recursos que omitissem a real brancura de sua pele.

– Que bom, porque na verdade tinha um de menta também, mas sinceramente, quem gosta de sorvete de menta? E imagina tomar isso depois de ter escovado os dentes!

Ava sentiu o pelo do braço arrepiar diante da hipótese, mas começou a rir em seguida.

– Taí, essa é a famosa risada inglesa.

– Hm! — Ava fez uma interjeição enquanto ainda digeria a primeira tascada no sorvete, engolindo e então prosseguindo — Você é francesa, não é mesmo?

– Do interior. Mas meus pais são ingleses — Apressou-se em corrigir.

– O que eles foram fazer na França?

– Eu era muito pequena para perguntar isso. De qualquer forma, não foi uma estratégia inteligente. Você sabe, com a invasão nazista e tudo mais.

Ava interrompeu sua degustação e ficou calada encarando Margô. A reação óbvia seria rir e admitir aquilo como um gracejo, mas não era a intenção da jovem. Queria poder absorver o máximo que fosse possível de informações sobre ceifadores e estribos.

– Sabe como a morte apareceu para mim? A vila em que morávamos ficava entre um acampamento alemão e a praia da Normandia. O caminho foi aproveitado como atalho pelos militares alemães. Casas saqueadas, fogo, boom!

Ava não ousava interromper o discurso de forma alguma, mas se pegava muito apreensiva com aquela história.

– Meus pais me esconderam numa urna quando entraram lá em casa. Nossa, que nostálgico. Estou lembrando agora, sabe? Tinha um poço de água que eu ficava encarando quando menor. Não conseguia enxergar o final daquilo e por mais que deduzisse que tinha água, a escuridão que não esclarecia nada me intrigava profundamente. Desculpa, foco. Eu sei. A morte me apareceu como um cadáver. Conveniente para o cenário. Ele olhou para mim, o rosto bobo, os olhos caídos... Tá, os olhos não estavam em direção a mim, estavam despencados. Mas o rosto se virou na minha direção e fez um sinal de silêncio com o dedo. Depois que meus pais foram mortos, num sobressalto saltei da urna e empurrei o homem que tinha atirado neles pela janela. O cadáver atrás dele tinha se erguido, desestabilizando o homem. O resto eu nem saberia te descrever.

– Eu sinto muito? — Ava falou, mas com uma tonalidade interrogativa.

– Não precisa me vir com essa, já faz muito tempo.

Ava pôs a mão sobre a mão de Margô, que tinha ansiosamente se voltado para o sorvete.

– Não sei o que te dizer. Mas lamento sinceramente que isso tenha se dado com você. Quantos anos tinha?

– Nove? Eu não lembro — Diante da expressão desconfortável de Ava, a menina de olhos esbugalhados logo agiu e puxou-a para cima — Vamos, tem um lugar por aqui que eu gosto muito.

Começaram a caminhar.

– Hoje você deve ter o quê? Cento e cinquenta anos? Como viveu tanto?

– Nós, assessores, estabilizamos nosso crescimento no nosso auge físico. Parei de crescer depois de um período. Como tenho essa aparência jovem, me viro bem, mudo de identidade e nome em dadas épocas e vou estudando, vivendo numa comunidade hippie, pescando... Eu não reclamaria da vida que levei. Mas eu também não preciso de mais nada.

– Entendo o que quer dizer — Ava concordou.

– Entende? Haha, é a primeira vez desde que me lembro que alguém não simplesmente falou "que bobagem, ainda há muito para se viver". As vezes você olha para o seu passado e sente que tudo que era para ser vivido já foi. E no meu caso, te garanto que já! É como se depois a vida simplesmente estagnasse e dela não viesse mais nenhuma grande emoção, qualquer catarse que seja. Todo clímax já foi experimentado a muito tempo. Muitooooooo tempo — Estendeu a pronúncia da palavra para brincar com sua nova amiga.

– É, eu sei.

– Que bobagem! Você tem só vinte anos! Ainda há muito para se viver — Ambas riram da ironia.

– Você nunca pensou em se matar? Quer dizer, tendo passado por tanta coisa e já estando satisfeita com o que presenciou...

– Um assessor não consegue se matar. É impossível.

Ava duvidou.

– Nem, sei lá, me explodindo, me picando em pedacinhos? Como essa imortalidade funciona na prática?

– Eu nunca vi ninguém se explodir para saber — Margô redarguiu, seu sorvete pela metade enquanto seguiam a trilha que agora se erguia num aclive — Mas já tentei me afogar e eletrocutar. Nenhuma mutilação muito sofisticada, mas imagino que a morte seja mais precavida que esses métodos.

– Existem outros? — Ava surpreendeu Margô com a forma direta com que perguntou.

– Existem. Mas não nos comunicamos. Não são muitos. Não existe um grupo de apoio de "ceifadores da morte anônimos".

– Eu aceitaria um desses — Ava confessou enquanto entravam nas imediações de uma construção ancestral que regia aquele parque, já aos pedaços, tijolos chorosos penando para se desmontar. Subiram as escadas até que chegassem ao topo do forte, onde não havia ninguém e a vista estava radiante — É certo falarmos tanto sobre a morte com um Sol desses? Com um céu desses?

– A morte não é só escuridão. A vida, na prática, é que aplica sombras sobre as situações. Morte é muitas coisas. Quando falo da Morte como uma pessoa, não é tão simples. Não é um indivíduo. É uma força da natureza que evoluiu junto com a humanidade para obter os resultados que precisa. É algo triste? É. Mas nossos próprios organismos são programados para deixar de produzir células tão eficientes passados os anos, as décadas. É algo necessário para a perpetuação da vida.

– Nossa, quando te vi da primeira vez não achei que fosse tão filosófica e contemplativa — Ava se debruçou sobre o guarda-corpo da guarnição.

– Eu não sou. Tudo isso é só discurso que eu fui aprendendo. Não achei que um dia seria eu a vir dar lição para uma assessora. Sou praticamente uma das últimas — Margô imitou Ava — E não tenho hábitos de líder ou professora. Estou mais para um sapo. Mas justamente porque tinha aprendido todas essas considerações, me sinto grata de poder finalmente compartilhá-las.

– É por isso que você estuda biologia? Para entender mais da morte? — Ava indagou.

– Será? Tento não ficar decifrando minhas escolhas. Eu quero ir pelo instinto — Fez um gesto com a palma da mão voando como se fosse um pássaro e deu um sorriso sossegado — Acabaria com a magia se eu me entendesse mais do que o óbvio. Deixa isso para um analista metido. E você? Porque faz direito?

Ava sabia o porquê.

– Boa pergunta. Acho que eu gosto da ideia de justiça, defesa dos menos favorecidos, de melhor o sistema. E também, muita gente que não sabe o que quer vai pra direito.

– Mas também não fica até o final. E sei que você está trabalhando numa dissertação teórica para a classe do doutor Abernardt.

– Wow, você realmente fez o dever de casa. O professor é um advogado renomado e se eu for bem solícita posso conseguir trabalhar junto com ele num futuro próximo nos casos que advoga. É o que mais quero, afinal nada como a experiência prática.

O Sol bailava. As coisas pareciam estar em harmonia, o dia em concordância com o canto dos pássaros, a lua viria discordando do choro das cigarras.

– A visão daqui é única. Sempre quis mostrar para alguém — Margô observou Ava com uma intensidade que só seus olhos gigantescos poderiam promover — Obrigado por ser esse alguém.

Havia muita sombra nela. Da mesma forma, muita sombra em Ava. Como criaturas como aquelas, praticamente noturnas, podiam coexistir com os canários e os humanos. Não poderiam. A Morte não escolhia sem propriedade.

– Quando eu vou aprender algo, afinal, sobre o que significa ser uma ceifadora da morte? Ou assessora, isso soa mais bonito.

– Está sentindo o peito arder?

– Não.

– Entendo, normal. Você não está ainda habituada a essa sensação.

– O que quer dizer? Seu peito arde? — Ava tinha terminado o sorvete. Deixou cair no chão o que restava do palito melado de açúcar.

– Arde. Queima. Implora. Quer saber quando você vai aprender algo? Hoje. É por isso que está tão ensolarado, para equilibrar com o quão escuro vai ser o que vai vir a seguir. Você vai matar pela primeira vez.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Não deixem de comentar!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.