Notas iniciais
Boa leitura!

Rafael é acordado por batidas rápidas e fortes na porta do seu quarto. Ele se levanta ainda sonolento e abre a porta. Era João.

-Arrume-se para o combate.

-O que? Agora? O que houve? – Rafael solta longo bocejo.

-As meninas... e Ethel. Todos sumiram. – sua voz se torna alarmada.

-Vai ver que eles saíram, volte pra cama...

-Não!Escute-me! Eles sumiram, não tem vestígio nenhum, nada.

Rafael pisca os olhos, já retornando a realidade.

-Sem aviso? Simplesmente foram embora?

-Sim. – João estava com o tom de voz confiante e convicto. Falava a verdade. – Pegue seu equipamento, crio que tenhamos uma luta – ele se vira e volta pro seu quarto, pegando suas armas.

O vampiro ainda não tinha entendido as coisas até que um flash de imagens ocorre na sua cabeça. Uma catedral, um padre, demônios, uma cruz e sangue. Estava se concretizando, mais rápido do que se imaginava.

Em menos de minutos, os dois estavam preparados para uma luta. Rafael usava as comuns calças jeans, coturnos e uma camiseta negra. Ele não se deu ao luxo de esconder a cauda ou o braço demoníaco. João usava roupa de caçador, calças grossas e flexíveis, um peitoral de metal negro por baixo da jaqueta. A aljava estava presa nas costas e o arco descansava em sua mão. Tinha olhos castanhos confiantes e os cabelos estavam curtos e bem aparados. Não transparecia medo.

-Não sei por onde começar, demônio. – disse ele – Você deve ter alguma noção.

-Tenho. Sabe de alguma catedral aqui por perto?

-Há uma, abandonada e lacrada. Parece um bom lugar para se invocar algum demônio – ele fala, reflexivo – Fica há alguns quarteirões acima. Nada que uma corrida não diminua nosso tempo.

Ainda sob a névoa da manha fria, a dupla chega em frente à catedral. As grandes torres góticas com sinos e estatuas de anjos no topo, as grandes portas de madeira já com a pintura branca descascada. Várias tabuas e pichações estavam na entrada, parecia tudo antigo, mas algo, algo poderoso ecoava lá do interior. Os jovens se entreolharam, sentiam a mesma coisa em relação ao lugar.

-Me parece algo esquecido há muito tempo. – afirma João.

-Concordo. Mesmo assim, sinto uma energia estranha no lugar. Não consigo sentir cheiro nenhum, está tudo silencioso.

-Sei o que significa é o sinal de que tem algo aqui. Muito esperto, vampiro.

-Você tem alguma dificuldade em pronunciar meu nome? Não gosto do jeito que me chama.

-Sou do tipo que se precisa conquistar, conquiste minha confiança e tenha minha lealdade e amizade.

-Jeito bom de pensar, jeito de um guerreiro pensar.

-Obrigado. E agora, como entramos?

Rafael olha mais uma vez para a fachada, longa e caída aos pedaços, nada convidativa.

-Se esse lugar é o local de ritual. Há guardiões, dado pelo nível da invocação, muitos guardiões.

- O que sugere?

-Bem, humano, que vamos ter que gastar energia para entrar.

João sorri de forma sombria.

A névoa ainda estava no ar, ao invés de se dissolver, se tornava mais densa. Sombras tremulavam em seu interior, como se estivesse vivo. Aos poucos, já se podia ver o que era.

Armados com espadas, foices, machados e outras armas, eles apareceram. Trajavam uma túnica negra esfarrapada com um longo capuz que apenas mostrava o olhar roxo brilhante. Eram zumbis invocados por um necromante, apenas um mago da morte poderia ter feito isso.

-Acho que eles não gostaram dos convidados... – João fala, recuando um pouco e já com uma flecha tensionada no arco, pronto para atirar.

-Daremos um bom motivo para eles não gostarem... – Na mão demoníaca de Rafael, um brilho é emitido da palma. De onde uma lâmina negra e adornada de forma obscura e medieval é expelida, pareceu sair de dentro dele. Mas agora os dois estavam armados e... prontos.

As criaturas não deram trégua. Atacavam sem piedade, prontas para matar. Rafael e João lutavam com fúria, um protegendo o outro. As flechas eram disparadas, e cada zumbi ia caindo. A Lâmina Profana fazia arcos velozes no ar, estocadas, dilacerações e vários mortos-vivos sendo realmente mortos.

Pareciam infinitos, tanto eles quanto o tempo, em minutos que pareceram horas, a carnificina foi instalada. Mas, de nada adiantava fazer aquilo, era preciso entrar na catedral.

Determinado, Rafael livrou-se dos monstros e correu contra as enormes portas de entrada. Cravou a espada entre as duas e fez força, como uma alavanca, para que cedesse e abrisse. Na segunda tentava, abriu. João não precisou ser chamado, parecia já esperando pelo movimento, rapidamente eles entram e lacram a porta.

Por dentro, estava escuro, úmido e empoeirado. Os bancos de madeira estavam todos podres, os pilares tinham todas as figuras gastas e irreconhecíveis. Apenas o altar parecia em bom estado. Havia duas cruzes na qual dois corpos estavam pendurados, algo brilhava no chão, provavelmente um pentagrama para a invocação. Uma garota estava recostada num dos pilares do altar, parecia alegre e acariciava sem parar o abdome. Ainda sim, o mais sinistro era Ethel. Ele usava uma túnica cheia de marcas douradas, a Lâmina de Prata era agora uma adaga ritualística e era mexida de várias formas junto com um cântico que parecia antigo.

Rafael já avançava quando João esticou seu braço e o bloqueou.

-Vamos com calma... – sua voz era sussurrada – Tenho poucas flechas, precisamos nos conter e ir devagar.

-O que sugere?

-Precisamos primeiro da Lâmina, depois libertamos os corpos nas cruzes. Você é mais forte que eu, demônio, e muito mais resistente, vá na frente, te dou cobertura.

Rafael acena com a cabeça e começa a caminhar, indo em linha reta até o altar.

-Vocês não podem impedir isso! – grita a menina do canto – Não podem impedir o retorno do Grandioso Viktor!

Rafael não está para conversa, corre rapidamente com a espada empunhada e tava Ethel com violência, os fazendo rolarem para fora do altar.

-Como ousa nos trair?! – o vampiro grita, furioso.

Ethel continua sem responder.

Eles começam a lutar sem parar, a Lâmina Profana era aparada por movimentos rápidos de adaga. Até que Ethel se distrai e a arma é retirada de suas mãos e arremessada aos pés de João.

-Ele precisa retornar... – Ethel fala, mas de forma distante, não era a voz dele, estava possuído. Assim, seu corpo cai sobre o de Rafael, ficando impedido de maiores movimentos. Apenas sua espada mantinha as garras afiadas longe de sua garganta.

No altar, o brilho vermelho no chão se intensifica, emitindo luz e energia. Em seguida, uma mão enorme, musculosa e com dedos terminados em garras emerge, lutando para que todo seu corpo saísse.

-Impeça-o! – gritou Rafael a João – Use a Lâmina!

João pega a Lâmina em forma de adaga, quando a toca, se torna uma bela flecha de prata, Parecia perfeita em equilíbrio e beleza. Emanava poder.

Ele tenciona o arco e faz mira, já era possível ver parte do ombro da criatura. E atira. Porém... erra. A flecha passa zunindo a milímetros do alvo e crava na parede. E o pentagrama explode em energia, mostrando quem fora invocado.

Viktor, irmão de Rafael, tinha a forma de um demônio. Possuía no mínimo 2 metros de altura e era largo, braços musculosos ao extremo, dentes pontudos sobressaindo a boca. Podia ser gêmeo idêntico de Rafael, mas havia algo malévolo em seu olhar e suas feições eram mudadas por causa de seu aspecto.

-Livre! Finalmente livre! – a risada gutural de Viktor encheu a catedral.

João estava congelado, atônito por saber que foi sua culpa. Sua flecha errou o alvo.

-Ethel, solte nosso convidado... – Viktor prossegue, com a voz ainda gutural – Quero ver meu maninho depois desse tempo.

Ethel parece sair do transe e desmaia, Rafael tira o peso morto e se levanta.

-Vejo que está com saúde irmão, pena que não será por muito tempo...

-Sua confiança ainda é impressionante. Passei muito tempo pensando em como matá-lo, estou bem forte. Será bom...

-Você não conseguirá...

O olhar de Rafael se transforma. Sua cicatriz abaixo do olho aumenta de tamanho, esticando-se até a orelha, outra linha desce de sua testa, formando uma cruz. Seu olho entra em brasa e se torna um Pentagrama.

-Agora conheça a minha forma, irmão – a voz de Rafael estava alterada.

Ele brilha como se fosse entrar em combustão. Seu corpo é tomado por chamas negras e arroxeadas. A pele se sua mão demoníaca aumenta e se entende por todo seu corpo, suas roupas são substituídas por uma túnica de trapos negros que o cobre até os joelhos e cotovelos. Um capuz longo na cabeça e chifres retorcidos no topo da testa.

Palavras em latim são trocadas de forma ofensiva.

Os demônios correm um em direção ao outro e iniciam uma briga voraz. Socos, chutes, golpes de cauda, era violento, ‘’infernalmente’’ violento. Eles voavam por todo o recinto, demolindo qualquer coisa.

João, que até então estava congelado de medo, sai da inércia e vai até as cruzes no altar. Bianca e Isabela estão com vários cortes e muito sangue ainda escorria. Elas foram soltas e colocadas de forma delicada no chão. A outra garota, que estava recostada em um canto, já havia sumido.

O arqueiro pega a flecha cravada na parede e novamente, se prepara para atirar.

Olha para Rafael e Viktor se movendo rapidamente, um erro em tempo, Rafael podia ser atingido e morto. Seria apenas uma chance, apenas uma.

João respira fundo, estava tão tenso quando a corda do arco. Tinha os olhos estreitos e acompanhava os movimentos. Ouviu a voz de seu pai no fundo da mente ‘’Imagine o alvo atingido e caindo, concentre-se, o mundo ao seu redor deve sumir, só a você e sua presa’’.

‘’Só você e sua presa, só você e sua presa’’ Ele repete mentalmente. Fecha os olhos e expira o ar dos pulmões, soltando a flechade discórdia.

Os momentos seguintes foram segundos, porém, longos e agonizantes. No exato momento que Rafael levanta o braço para socar o adversário, o projétil passa por baixo e crava no coração de Viktor. Por centímetros e segundos de diferença, João efetua o disparo que separou águas. Ele acertou.

Viktor cambaleia para trás e cai contra a parede. Sangue espirrava do lugar onde está se coração, sangue negro como piche. Gemidos de agonia saem daquela garganta e em breve param.

Rafael Demoníaco se da conta da situação e se desloca de forma sobrenatural até o altar, onde os corpos das meninas ainda estavam deitados. Com seus poderes, as envolvem em uma capa de luz negra, as fazendo tremularem e sumir.

-Não! Meu amado Viktor não! – a outra garota se revela, segurava a cabeça do amado nos braços, enquanto ele já deslizara para a morte, agora, sem retorno.

Em seguida, Ethel também é envolvido pela capa de luz negra e some. Restava apenas Rafael ainda em sua verdadeira forma, João e a mulher em prantos sob o corpo.

-Quer o coração de seu marido? – diz o demônio vivo – Você o terá...

Em segundos, Rafael está sob o corpo. Levanta sua mão e crava no peito da criatura morta, puxando o coração negro e ensangüentado.

-Aqui está... é assim que se sente, quando perde alguém que amamos. – e entrega o órgão à garota. Os olhos eram assustados e desesperados, então ela corre, até desaparecer passando por uma das portas laterais.

* * *

-Você é assustador na sua verdadeira forma – diz João, sentado nas escadas do lado de fora da catedral – Assustadoramente foda. Vai ter que me ensinar como se transformar nesse bicho.

-Quem sabe um dia... – Rafael, agora na forma comum, fala de forma cansada – As garotas estão em casa, recuperando-se. Providenciarei um funeral a Ethel e aquela menina fugiu, não acabou ainda.

-Não quero imaginar como as coisas serão daqui pra frente. Aquela garota... ela passava a mão sem para no abdome, estaria grávida?

-È uma bela hipótese, pelo menos estamos com a Lâmina, você a pegou, certo?

-Não, achei que você tinha pegado...

-Maldita... – Rafael balança a cabeça, preocupada e incrédulo – Pelo menos, sua flecha foi certeira, belo tiro.

-Obrigado. – João sorri, satisfeito – Depois dessa, quero beber. Vamos maninho?

-Beber?

-É, só para aliviar a tensão.

-Então vamos... maninho.

Os garotos se levantam e descem a rua de forma despreocupada. Pareciam bem comuns, mas sabiam que, não havia acabado. Apenas começou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.