Crônicas Vampíricas - Lâmina De Prata

14 Capítulo 14 - Segunda Chance


Notas iniciais
Capitulo curto, em breve continuação.
Boa leitura!

-Vamos! Vamos! – a velha gritava – Já conheci anões mais rápidos e mais fortes que você! Bata com mais força!

E assim, socos seguidos de chutes e mais socos. Era impressionante como o boneco de palha agüentava.

O Purgatório não era exatamente um lugar ruim. Havia vários campos e florestas, todo tipo de criatura imaginável andava de uma forma pacata e comum, o clima era agradável, parecia um lugar que qualquer viria para recomeçar uma vida.

A vila onde me instalei era bem simples. Casas de madeira e palha eram as moradias mais comuns, havia alguns prédios feitos de pedra. Uma bela fonte estava na praça central, a água era cristalina e saía da terra como se a gravidade a puxasse pra cima.

-Continue! Continue! Mais força nesses braços! Vampiro molenga! – a idosa não perdoava quanto aos xingamentos.

-Pra que isso? – perguntei, ofegante. Cansaço, sono, sede e fome eram algo novo.

-Quanto menos perguntar, melhor será. – ela se aproxima, e bate na minha cabeça com a bengala – Sabe, uma vez veio um vampiro pra cá. Ele também fazia muitas perguntas. Mas hoje está na Terra novamente e com tanto poder que você não pode imaginar.

-Mas você o fez socar os bonecos de palha?

-Até ele implorar para que eu arrancasse seus braços, agora continue.

* * *

-Chega disso! Não agüento mais a dor... – então desabo no chão.

Era madrugada quando resolvo desistir, já se podia ver o céu tomando as cores da alvorada. Uma noite inteira de tortura por bonecos de palha.

Resolvo finalmente olhar aonde que eu ‘’treinava’’, era um lugar amplo com chão de terra e areia, os muros estavam logo ao meu lado e havia uma varanda de onde aquela velha me observava com os olhos estreitos.

-Por que você é tão fraco? Por que desiste com tanta facilidade? Imagino que dor é algo novo, mas não é motivo para se sentar e chorar. – ela inspira fundo, baixando a cabeça – Talvez todos nós estávamos enganados.

Não respondi.

-‘’Rafael, o grandioso filho de Drácula!’’ Sinceramente, grandioso você não é. Um covarde preguiçoso e mimado. Uma vez você mesmo disse ‘’Vampiros fortes são frutos de dor’’. Fruto de dor? Hunf, você deve ter apodrecido então. – ela começa a rir do próprio trocadilho.

-Eu... apenas... não aquento mais... – falo, tentando juntar ar nos pulmões.

-Admiro seu autocontrole. Se fosse outro, já teria tentado me matar depois tantos insultos.

-Não estou com autocontrole, estou com os músculos tão doloridos que é impossível mexe-los. Se quiser desistir de mim, acredite, não será a primeira.

-Imagino como deve ser, imagino o quanto esperam de você. Mas você não consegue, tenta e não consegue. Lamentável. – sua voz diminui e sua expressão se torna sombria – Nada que uma temporada no Purgatório para te transformar no pior ser existente. Poderoso, destemido... demoníaco.

Estar deitado naquele chão de terra cheio de pedras pontudas que parecia mais serem facas e encarar o céu já com os primeiros raios de sol (se é que há um sol aqui), os únicos pensamentos que me ocorriam eram: voltar e terminar aquela Lâmina. Tudo poderia ser impedido se eu tivesse entrado nessa aventura, eu ainda estaria em um colégio caçando meninas para me abastecer delas. Os gemidos de prazer e dor, os últimos suspiros, o frenesi de beber sangue de virgens ou sangue já impuro. Olho para essa época como se fosse distante, parece que meu lado psicopata assassino havia simplesmente sumido.

Naquela época ninguém ousaria me xingar ou olhar torto, todos sabiam o resultado de uma provocação. Meu coração começou a bater pelas pessoas e motivos que me cercaram. A solidão era o que me mantinha naquele caminho maldito.

-Isso... muito bom... é bom que pensamentos se passem nessa cabeça oca – a velha fala como se lesse meus pensamentos – Reflexão é um bom caminho.

Levanto-me, sentindo uma onda de fúria e determinação inundando-me. Aquela antiga fera interior estava ainda sonolenta, em breve, despertará.

-O que quer que eu faça? – falo com firmeza.

Um sorriso brota nos lábios enrugados.

-Continuaremos...

E assim foi.

Por incontáveis tempos fui posto à prova. Desde coisas simples como testes de equilíbrio até demolir prédios com cabeçadas. Sempre com novos insultos e bengaladas constantes. Eu desisti de contar os dias, eu apenas via o sol se pôr e nascer em um ritmo sincronizado e monótono. Apenas o clima era algo que mudava em minha vida, frio cortante a calor escaldante. Era assim e foi assim por muito e muito tempo.

Em um dia, no auge do sol. Estávamos na frente da fonte.

-Uma espada só pode ser feita em seus moldes, se algum pedaço sair, um defeito será criado – a velha começa a falar, encarando a fonte e segurava a bengala na frente do corpo – Isso é o que temo ao seu respeito.

-Não entendo...

-Creio que você seja a espada e seu antigo corpo, o molde. Talvez ele não seja capaz de suportar sua nova alma. Nesse tempo você acumulou poder e experiência, temo por sua vida do outro lado.

A fonte parecia se afundar a medida das palavras, o fundo era apenas escuridão e refletia o um estranho céu estrelado.

-O que vai acontecer se não suportar?

-Você volta pra cá. E ficará nesse circulo vicioso para sempre. Vai enlouquecer até que sua alma deixe de existir.

-E se suportar? – pergunto, notando ansiedade na minha voz.

-Você voltará para lá de uma forma diferente. Não será mais um vampiro, será algo ainda acima dos noturnos, será um demônio perfeito. Notará mudanças na percepção de mundo e talvez algumas físicas. Não se preocupe, tenho certeza que sua amada de olhos azuis lhe receberá de braços abertos.

Não me lembro de ter falado de Bianca para a velha.

-Como sabe de Bianca?

-Por que estranha? Você não sabe meu nome. Sei de muita coisa, vejo muita coisa. E tenho estima por você. Se quiser voltar, a escolha é sua.

-Como eu faço?

-Pule aí na fonte, mas antes... – ela me da uma bengalada tão forte quanto carinhosa – É pra dar sorte. Nos vemos por aí.

E pulo naquelas águas escuras.