Crônicas Piratas - Eles Estão por toda Parte!
1 Uma Espada de Ouro Maciço
Em uma manhã de novembro, Harriet Bell ouve ruídos estranhos vindos do convés do navio de seu pai, o Guilória. Descendo para ver do que se tratava, constatou com o cenho franzido que apenas uma pessoa fazia todo esse alvoroço, e parecia ser um aristocrata de outras terras. Com muito esforço ela tentou não ser vista, porém, foi em vão. O camarada, que tinha um forte sotaque francês, a abordou. “Ora, ora, mademoiselle veio cumprimentar-me. Não sabia que era tão linda.” Palavras que transbordavam veneno eram acompanhadas de uma ameaça, no entanto, Hurst não podia permitir que algo acontecesse a sua futura noiva. “Deixe a senhorita Bell em paz, Barthelemy.” O barão francês não recuou, ao contrário, abriu seus lábios num meio sorriso odioso e dirigiu-se ao intrépido homem do mar que ousou desafiá-lo. “Ou o que, cão inglês?” Não que Lady Bell amasse o capitão George Hurst com todas as suas forças, mas ele não merecia ser tratado daquela maneira, e ela temia o que Monsieur Barthelemy poderia fazer com seu pai. “Monsieur, rogo-lhe, não faça nada com ele. Por Deus, diga o que quer e será teu!” Ela não teve coragem de olhar para seu pai ou seu noivo, entretanto, podia imaginar que não estavam nada satisfeitos. Tão logo a espada de Joffrey Barthelemy encontrava-se no pescoço de Lady Harriet, até que uma bala de canhão quase arremessa o repugnante barão para longe.
Gritos entrecortados, sufocados por uma cantoria vinda do navio que despontava no horizonte, de onde o canhão foi atirado; navio este sob o nome de Salvatierra, sua cor era de um vermelho vivíssimo, com detalhes em dourado, remetendo ao sangue derramado nas águas e o ouro que tanto almejavam
Yo-ho! E mais um se foi!
Melhor tomar cuidado
Melhor olhar pra trás
Não quer se despedir de sua vida
Meu rapaz!
“Aye! Isso é forma de tratar uma dama?” Quem fez esta pergunta cordial foi o Capitão do Salvatierra, McColough, que em meio a canção praticamente cuspida de seus rapazes, meteu-se no navio do Governador “E uma dama tão atraente, hm? Qual é seu nome, doçura?” Harriet simplesmente lança-lhe uma expressão de ‘Agora não é hora disso’ e, captando a mensagem, o pirata chuta o braço de Barthelemy, fazendo-o largar a espada, e assim o Capitão a segura, causando mais uma comoção no navio. Claro que o sangue de Hurst ferveu ao ver o McColough dirigir-se a sua dama de forma tão descortês e, engolindo a seco, contentou-se em apenas agradecê-lo por tê-la salvo. “A educação obriga-me a agradecer-lhe, mesmo que cortar-lhe o pescoço seja mais aprazível.” Até Harriet ficara boquiaberta com a confissão do nobre Hurst, e o pirata salvador fez questão de responder, com a mesma classe. “Minha educação obriga-me a agradecer, mesmo que minha vontade seja atirá-lo do navio.” Os dois homens do mar então iniciaram um duelo; Harriet e seu pai, fingindo estar assistindo atenciosamente ao espetáculo, atiram Barthelemy ao mar, sem dificuldade alguma.
O benevolente capitão do Salvatierra fez um pequeno corte no rosto de seu oponente, que jurou vingança, porém, antes que mais alguma coisa pudesse ser dita, todos perceberam que mais alguém estava à bordo do Guilória, o que deu margem a um comentário do pirata. “Parece que temos uma festa aqui... Quero meu convite de volta.” O tripulante intruso era a temida pirata originalmente espanhola – mas que fez do mundo seu lar – Calina Cisneros Tejedor, trazendo consigo uma espada de ouro maciço; Aproximando-se de McColough, a jovem mulher disse, em tom provocador “Creio que isto lhe pertence...” Como o capitão confirmasse, ela levou a dita espada ao pescoço bronzeado de seu velho conhecido. Harriet, surpresa com a presença de outra mulher – não menos dama do que ela própria – em seu navio, que achava ser seguro, resolveu chegar mais perto para observá-la e quem sabe, travar conhecimento. Tejedor sentiu que havia alguém atrás de si, e virou-se; sorriu ao ver Lady Bell, embora fosse mais um riso irônico. “Desculpe a invasão, milady, prometo que me vou assim que acertar umas contas com meu colega aqui.”
“Não tenho pressa... Mas creio que lhe interessará algo para beber. Imagino que terá uma longa jornada a percorrer e precisará de disposição. Fique à vontade para explorar nossa adega.”
“Eu adoraria uma bebida!” Intrometeu-se Bill McColough, levantando uma mão e tomando sua espada com a outra, isso fez com que as duas moças o olhassem e revirassem os olhos. Assim sendo, o pirata intrometido, a pirata invasora e a dama esperta fizeram seu caminho até a adega, e enquanto isso, Cisneros Tejedor contou a eles como embarcou na pirataria. Quem interessou-se verdadeiramente pelo relato dela foi o valoroso Hurst, que seguia oculto o trio e oculto queria permanecer, e precisava admitir que seu interesse não era puramente profissional. Ao sentarem na mesa redonda de madeira de carvalho é que comentam o que acabaram de ouvir e percebem com um sobressalto que George Hurst juntou-se a eles, porém o recebem com amabilidade, principalmente – e surpreendentemente – Capitã Tejedor. “Nunca vi nada parecido com isso...” Murmurou McColough com um meio sorriso, típico dele, e apenas Lady Bell o ouviu. “Precisa sair mais vezes de seu navio...”
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