Máscaras. Rodopiantes máscaras em um salão luxuoso. Fraques, vestidos longos e de cores vibrantes, rodados e igualmente rodopiantes com a música aparentemente clássica, mas com uma batida folk, moderna, instigante. Ele dançava e dançava sem parar, movimentos sincronizados de braços e pernas, involuntários, com outros com quem fazia par alternadamente, sempre em movimentos circulares, em um transe ao mesmo tempo angustiante e inebriante.

Matheus Heartway acordou ofegante, parecia que o suor escorria de todos os poros de seu corpo. Tomou com tanta pressa a água do copo que deixara sobre o criado mudo, que se engasgou e tossiu alto a ponto de acordar seu parabatai assustado na cama ao lado.

– Teteus, você está bem?

– Pelo Anjo, Blackshadow! – Cof, cof, cof... – Já te falei pra não me chamar assim. – Cof, cof...

– Ihhh... Chamou de Blackshadow é porque está ótimo, então! Sei que está bem quando fica com raiva e me chama pelo sobrenome. – Ele ajeitou o travesseiro com socos e se deitou outra vez, agora emburrado.

– Ah! Não é possível que vocês dois vão começar com esse mimimi sentimental de parabatai outra vez! Eu quero dormir! Porque vocês não casam logo, hein? – Ainda que dividir um apartamento de um cômodo com caçadores de sombras parabatai fosse quase como viver no meio de um casamento de um filme de comédia romântica, essa era uma das menores preocupações do licantrope Felipe Wolfmark, após o desaparecimento de Júlia e Ivo Blackshadow – maiores benfeitores da Praetor Lupus do Brasil – sem deixar rastros.

Além de ter de prestar relatórios toda manhã à Praetor sobre o andamento da missão de encontrá-los, Felipe tinha a obrigação imposta de proteger o filho do casal, porém não contava que aquele jovem Nephilim levaria consigo para todo lugar seu parabatai há pouco tempo reencontrado. Definitivamente ele estava em uma missão diferente de qualquer outra que pudesse imaginar para um membro daquela organização especializada em encontrar recém-transformados em lobisomens ou em vampiros na localidade, além de novos feiticeiros que manifestassem pela primeira vez seus poderes. O que ele precisava naquele momento, pensou, era realmente dormir.

***

Pedro Blackshadow e Matheus Heartway estavam aliviados por ter um lobisomem como aliado, o que agregava uma ótima força de combate, se necessário – ainda que este reclamasse excessivamente, muitas vezes rosnando de impaciência com os dois. Haviam completado 18 anos e esta era a primeira vez que os dois se aventuravam em uma missão. O que Felipe Wolfmark desconhecia, contudo, era que essa “missão” dos parabatai não tinha qualquer permissão do Diretor do Instituto ou era de conhecimento de algum membro do Enclave.

Quando se encontraram na estação da Sé, Felipe teve de aceitar, ainda que contrariado, a condição imposta por Pedro de seguirem viagem apenas se Matheus pudesse acompanhá-los, sem maiores explicações – ele havia sido pego de surpresa pela visão dos dois Nephilins saltando do carro do metrô e correndo, ofegantes, em sua direção, um com uma maletinha, o outro abraçado com uma caixa retangular de madeira, como se fugissem de algo ou alguém.

Mesmo irritado com o ocorrido, e ainda com um olhar de desconfiança que às vezes deixava acompanhar os movimentos do jovem Heartway, o licantrope não pode deixar de admirar as armas próprias de caçadores de sombras – uma adaga de cabo fino, duas lâminas serafins e dois curiosos discos metálicos – que havia notado por baixo da jaqueta aberta de couro de Matheus, fascinado que era por armas de luta. Ele sabia que não eram muitos os que tinham discos como arma de batalha, e imaginava ansioso como seria vê-los em ação.

– Gostou? – Math perguntou. – São feitos de aço reforçado e tenho mais duas versões de prata completamente maciça. – Felipe rosnou e seus olhos brilharam amarelos quando o garoto citou a prata como composição de uma de suas armas.

– Ei, vamos nos acalmar! – Pedro tentou amenizar o clima tenso surgido. – Teteus, o Lobinho está aqui para ajudar. Foi a Praetor Lu...

– Não me chama de Teteus!

– Não me chama de Lobinho!

Os dois gritaram juntos, reclamando do tratamento infantil que Pedro dava a eles, e viraram o rosto um pro outro, entrando em outro carro do metrô que havia chegado, Matheus pisando forte à frente, seguido de Felipe e Pedro correndo logo atrás.

– Fala logo, Pê, para onde estamos indo?

– Santo André.

– Santo An... Por que tão longe?

– Porque vamos nos alojar no apartamento do Felipe, para despistar os outros caçadores, mas também porque precisamos encontrar um feiticeiro que mora lá e que vai nos abrir um portal para Brasília.

***

Enquanto a respiração de Pedro mostrava que já tinha dormido e as reclamações de Felipe cessavam, Matheus fixava o olhar no teto, deitado na cama com as mãos em volta da cabeça. Seus olhos estavam voltados para a madeira sem muitos detalhes de que era feito o forro, mas as imagens que via se formarem nos entalhes eram completamente diferentes: todas as cores, todos os movimentos lentos e precisos dançavam em sua mente com as linhas e traçados da madeira, lembrando ainda fresco o sonho com aquela música inebriante, como se a vida dele dependesse daqueles movimentos circulares, daqueles sons. Há algum tempo ele vinha tendo o mesmo sonho, mas não fazia ideia por que sonhava com aquilo, já que não gostava muito das artes da dança. Na cabeça alguns detalhes ficavam mais visíveis que outros: o tipo de salão, nunca antes visto entre construções mundanas, o tipo de roupa extravagante das pessoas, as marcas demoníacas que alguns deles traziam, raramente reveladas, já que estavam sob as máscaras escondidas.

De repente, os desenhos no forro não eram mais sobre o sonho que vinha tendo. Matheus via outros desenhos que o remetiam ao passado, quando chegou ao Instituto de São Paulo e foi recepcionado pelo Diretor Augusto e pelo seu futuro melhor amigo. Imagens vinham à memória sobre Pedro e ele em aventuras pelas passagens secretas do mosteiro durante quase todas as tardes ou na sala de treinamento, iniciando seus primeiros treinos, maravilhados com a possibilidade de se tornarem heróis da humanidade. Lembrou-se de quando foram marcados pelo símbolo parabatai e formaram uma das ligações mais fortes que um Nephilim poderia ter com outra pessoa, peso e dimensão que sentia agora como consequência de sua escolha em abandonar tudo para seguir seu amigo em uma missão tão repentina. O que jamais esqueceria, entretanto, era o momento em que Pedro foi proibido de vê-lo e foi expulso do Mosteiro por Augusto.

Os anos seguintes foram os mais sombrios para o jovem Heartway. Ele era o caçador de sombras mais novo do Instituto, e apesar de ter outros caçadores para instruí-lo no treinamento das armas e habilidades de caçador de sombras, não era tão fácil quando todos eles eram bem mais velhos e com força e habilidades diferentes das suas, o que o fazia reclamar sempre aos instrutores e sentir saudades de quando treinava com seu parabatai, seus movimentos e habilidades completando-se como uma coreografia perfeita. Além disso, o que sempre o irritava era o fato de Augusto nunca permitir que saísse para as missões por conta de sua idade. Como vou me tornar um herói se o senhor nunca me deixa sair? Lembrava-se de questionar o diretor do Instituto, assim como das risadas dos colegas Nephilins, dando as costas para ele sempre que saíam em uma missão.

Nesse momento a raiva o consumiu profundamente e já não sabia mais se estava no passado ou no presente, pois os sentimentos continuavam exatamente os mesmos. Os olhos encheram-se de lágrimas por achar que a culpa do banimento do amigo fora sua desobediência às regras sobre o acesso e manuseio das armas antigas de caçadores, nas quais fez questão de se especializar depois do ocorrido.

Viu-se com Pedro em sua sela, cada um marcando o outro com uma runa de invisibilidade e outra do silêncio no meio da madrugada, a fim de alcançarem a Sala de Armas Antigas, localizada no subsolo do Mosteiro, sem acordar os irmãos mundanos da Ordem. O que não contavam era com uma rede de alarmes interligados e sensíveis a qualquer abertura das portas das estantes de vidro, onde armas lendárias trazidas da Europa e outras recolhidas de séculos atrás, pertencentes a diversas famílias dos caçadores de sombras do mundo inteiro, estavam guardadas como relíquias históricas dos Nephilins. Lembrava-se do diálogo travado na noite em questão com seu parabatai e algumas vezes a raiva dava lugar a sorrisos de canto de boca involuntários.

***

– Você quer mesmo fazer isso, Pê? A gente vai arrumar um problema...

– Teteus...

– Math!

– Ok, ok. Mathhhhh – enfatizou o amigo com o som da língua entre os dentes – você sabe muito bem que o Arco do Cupido pertence à sua família, portanto é de direito seu. Por que diabos teria que ficar guardado em um museu ridículo de armas antigas, quando a gente precisa tanto dele e outras armas eficazes para combater demônios?

– Mas nós nem podemos sair do Instituto para missões, você sabe muito bem disso!

– Ah, Math! Detalhes! O importante é termos em mãos uma arma lendária, treinar com ela, afinal um dia será sua.

– Não sei muito bem se será minha. Augusto nunca vai permitir que um item de museu caia nas mãos de um Nephilim. Toda aquela política de preservar a história das famílias dos caçadores de sombras, você sabe...

– E qual maneira melhor de preservar a história da sua família do que você ter a arma dos seus ancestrais nas mãos?

– Ah, eu estou bem com a espada dos Heartway. Não deixa de ser uma arma de família e está há duas gerações conosco.

– Mas você nunca ouviu histórias de que aquele arco realmente era do deus Cupido e capaz de queimar toda a maldade do coração de alguém, implantando nada mais que o amor? Fora isso, você precisa relembrar as aulas de História Antiga e Mitologia e perceber que Cupido tinha asas... Asas de anjo! Não é à toa que o arco é marcado com símbolos desconhecidos e as flechas feitas de adamas.

– Então você está dizendo que o deus Cupido na verdade era um anjo?

– Não tenha dúvidas disso! Dom Eliel da Coroa de Espinhos – Pedro enfatizou com um tom irônico, deixando a entender o nome falso de Augusto Blackthorn – pensa que disciplinas mundanas obrigatórias na formação dos monges, na verdade, não nos interessa enquanto Nephilins e que, portanto, não vamos perceber as entrelinhas. Mas a mim interessa, e muito!

– Afinal, todas as histórias são verdadeiras, não é?

– Exatamente isso!

– Eu só não entendo como o famoso Arco do Cupido veio parar com alguém da minha família, não tive oportunidade de perguntar aos meus pais.

De fato, Math estava no Instituto em razão de seus pais terem sido mortos em 2008, em uma luta contra demônios Shax, ótimos localizadores, e demônios Raum, com seus tentáculos longos, de ventanas com espinhos venenosos, que repentinamente apareceram em grande número no Bixiga, bairro tipicamente italiano de São Paulo. Os demônios haviam invadido um casarão na Rua 13 de Maio, provavelmente atraídos pelo movimento e barulho, já que se tratava de um cortiço com várias famílias instaladas, quando os Heartway, que moravam apenas a algumas casas ao lado, notaram a presença demoníaca.

Quando a gritaria começou, os pais de Math entregaram-lhe uma caixa de madeira retangular, de mais ou menos 1 metro de comprimento, com as inscrições Arcus Cupidinis. Colocaram o garoto em uma passagem subterrânea no porão da casa que dava acesso ao metrô, na Estação Brigadeiro, e lhe disseram para procurar o Instituto tão logo conseguisse sair de lá e avisar do ocorrido. A notícia da morte de seus pais veio com pesar pelo Enclave, que havia sido convocado por Augusto assim que o garoto chegou ao Mosteiro de São Bento e relatou o ocorrido, como seus pais recomendaram.

Graças a um feitiço de proteção, solicitado ao feiticeiro de referência do Instituto, e à própria sagacidade de Augusto – que ordenou aos caçadores presentes, após a luta contra os demônios, simular um grande incêndio no casarão e retirarem os corpos de Marta e Rodrigo Heartway, já encontrados mortos juntamente com os outros moradores que ambos tentaram proteger – as autoridades mundanas lamentaram o ocorrido apenas como um triste acidente causado pela superlotação e falta de cuidados com eletricidade, gás e materiais inflamáveis.

***

Matheus voltou a si e olhou para o canto da parede. Em meio à penumbra, lá estava a caixa de madeira, com a mesma inscrição em latim que vira anos antes. Sorriu com o canto dos lábios ao se lembrar de quando Pedro reapareceu no Mosteiro e se repetiu a loucura de irem até a Sala de Armas Antigas, aproveitando que todos os monges estavam auxiliando na celebração da Missa, e mais uma vez tentarem retirar o Arco do Cupido de dentro da estante de vidro. Dessa vez, contudo, tiveram êxito.

Pedro havia desfeito o feitiço de disfarce e colocado o hábito de monge, seguindo com sua maletinha mosteiro adentro, sem levantar suspeitas. Chegou à Sala de Armas Antigas onde Matheus já o esperava, tendo desarmado antes os alarmes de segurança, e os dois destrancaram a porta de vidro da estante onde a caixa com o arco se encontrava e o levaram.

Assim que fecharam a porta da sala, já considerando um crime perfeito a subtração do item do museu particular do Instituto, um monge apareceu na ponta do corredor e gritou desesperado para que largassem a caixa ou avisaria ao Abade. Outros apareceram atrás do monge, atraídos pelos gritos e, em seguida, passando por entre eles, Augusto Blackthorn, ainda retirando as indumentárias próprias da celebração eucarística, mas já com os olhos arregalados ao reconhecer Pedro Blackshadow e notar a caixa do Arco do Cupido nas mãos de Matheus Heartway.

– Parem esses dois, agora! – gritou Augusto no ímpeto do susto que levou. – Vários monges correram em direção a eles, alguns Nephilins com mais rapidez, o que não deu tempo para que os parabatai articulassem um plano, mas apenas corressem para o lado oposto, por instinto – Pedro com sua maletinha e Matheus com a caixa de madeira abraçada contra o corpo – subindo a escadaria que dava em uma porta de acesso à basílica, no térreo.

Explodiram em velocidade, chocando-se contra a porta e assustando fiéis mundanos que ainda deixavam o local após a Missa. Passaram entre a multidão – os demais Nephilins com certo atraso atrás deles, já que tiveram de se marcar com símbolos da invisibilidade para não atrair a atenção dos mundanos além do estrago que os parabatai já tinham causado – e vislumbraram o portão de saída, dirigindo-se a ele e cruzando-o em seguida, em direção à Estação São Bento. Encostaram-se a uma parede da estação por detrás de uma das colunas e tiraram suas estelas, um marcando o outro com o símbolo da invisibilidade rapidamente, quando avistaram, ao mesmo tempo, o carro do metrô em direção à Estação da Sé aproximar-se e várias botas pretas descendo as escadas da São Bento, logo atrás deles. Correram para a porta que havia acabado de se abrir e pularam para dentro do carro, deixando vários colegas caçadores para trás, quando a porta rapidamente se fechou e eles deram de cara com o vidro.

***

Se vocês ainda estivessem aqui eu perguntaria por que isso veio parar comigo. Arcus Cupidinis... Matheus deixou as palavras saírem alto de sua boca e tampou-a rapidamente, receoso de ter acordado Pedro ou Felipe, mas já era tarde.

– Eu sei o que você está pensando aí a noite toda acordado, Matheus! – Pedro Blackshadow falou ao amigo e ambos olharam para o colchão onde estava Felipe, aparentemente sem se mexer, o que era um bom alívio. – Tem uma coisa que preciso te mostrar – ele se levantou da cama, abriu a maleta que trouxera consigo, retirou uma forma retangular pequena, não muito bem identificada na escuridão do quarto, e fez sinal para irem para a varanda do lado de fora.

A forma retangular que Matheus não identificara no escuro agora parecia bem clara nas mãos de Pedro, sob as luzes dos postes que refletiam na varanda: um livro rústico e surrado contendo o símbolo da família Blackshadow em sua capa escura – uma árvore com vários corvos pousados nos galhos – e com as letras L.S. logo abaixo.

– O que significa esse desenho?

Iroko. O Orixá africano tido como a árvore sagrada dos ancestrais; a ligação do tempo passado, presente e futuro. Os corvos sobre seus galhos representam a ancestralidade, homens e mulheres que se tornaram sentinelas e guias do conhecimento, da sabedoria e das ações das gerações posteriores a eles. As letras L.S. significa Livro das Sombras.

– Nossa! Eu nunca soube desse símbolo ou significado. É realmente intrigante e um tanto obscuro, como se tivesse ligação com magia...

– Sim, tem ligação. Meus pais me deram esse livro no meu aniversário de 18 anos, antes de desaparecerem, e disseram que era o legado da família, que eu deveria me empenhar ao máximo para desvendar os segredos ocultos nos fatos ocorridos e feitiços desenvolvidos, que meus bisavós Omala e Akin descreveram. Até agora eu já li boa parte dele, mas o relato que realmente me chamou a atenção, e que pode ser a chave do caminho do Arco do Cupido desde seus antepassados até suas mãos é uma longa luta contra um Demônio Maior chamado Incubus, há cento e vinte anos, na cidade de Salvador, Bahia. Aqui no livro ele é descrito como um Eidolon, um modificador de forma, chefe de uma das legiões dos exércitos de outro Demônio Maior, mais antigo e poderoso: Asmodeus, o pai da luxúria, aparentemente nunca mais visto sobre a terra desde tempos antigos.

– Como isso pode ter ligação com o Arco ou com minha família? Somos descendentes de italianos, nunca tive relatos de algum parente antigo em Salvador.

– Vou te contar a história completa que li neste Livro das Sombras e você vai me entender. Na África, meus bisavós eram mundanos com o dom da visão e isso fez que tivessem um bom relacionamento tanto com caçadores de sombras do Instituto de Osogbo, na Nigéria, como com membros do submundo, especialmente feiticeiros e licantropes, devido aos conhecimentos e rituais de culto ancestral que traziam consigo e que partilhavam entre si, diferentemente dos Nephilins. Como eles prestavam bons serviços ao Instituto e ajudaram a solucionar vários casos de infiltração demoníaca na cidade, devido ao seu amplo e misterioso conhecimento de magia, além da força e agilidade que possuíam, incomuns para outros mundanos, o Enclave de Osogbo fez uma moção para que fossem ascendidos e a Clave aprovou, porém tão logo finalizado o ritual da Ascensão – pedido pelo Instituto à Clave para que fosse feito em frente à arvore de Iroko, em uma floresta nos arredores da cidade, por respeito a tradições culturais mais antigas que a própria existência dos Nephilins –, mais de cem mundanos com armas de fogo, falando uma língua diferente da sua, apareceram no local e os capturaram, além de mais dezoito caçadores de sombras presentes, completamente rendidos pelas armas, que se puseram à frente da Consulesa para que ela fugisse, juntamente com outros caçadores de sombras vindos de Ídris, por um portal aberto no fundo da mata pelo feiticeiro que a acompanhava. Os vinte foram acorrentados e vendidos como escravos a navios negreiros que desembarcaram em Salvador, Bahia, Brasil.

– Pelo Anjo! Então tivemos no país escravos Nephilins?

– Sim, tivemos! Eles, por sua vez, desprovidos de armas e estelas para marcar símbolos na pele que os ajudasse a fugir não tiveram outra opção senão misturar-se aos escravos mundanos e entrar na rotina deles, entre o trabalho forçado e a senzala. Meu bisavô Akin, contudo, era muito bem relacionado com escravos de outras fazendas, sempre sendo mandado pelo senhor de engenho para chefiar carregamentos de vendas de açúcar e produtos agrícolas pela região, o que lhe proporcionava conhecer também famílias donas de engenhos, sendo uma delas chefiadas por um português e sua esposa italiana, recém-chegados ao Brasil, os quais meu bisavô notou de cara serem Nephilins, pelo dom da visão que se manifestara outra vez.

– Italiana! Não é possível que...

– Ela o reconheceu também, porque as cicatrizes das marcas feitas na Ascensão ainda eram visíveis. Desde esse dia ela procurou um modo de comprar sua alforria, juntamente com a da minha bisavó, Omala. Mas não foi preciso muitos esforços, pois poucos anos depois a Princesa Isabel assinou a abolição da escravatura e meus pais recorreram àquela família, pedindo abrigo para eles e para alguns poucos Nephilins que acabaram na mesma fazenda que ele. Quanto aos outros, dispersos por vários lugares do país, nunca mais conseguiu encontrá-los.

– Me diz, Pê! Me diz o nome dessa italiana e seu marido, eu preciso saber!

– Bianca e Carlos Heartway.

Matheus arregalou os olhos e ficou boquiaberto por alguns instantes, considerando inacreditável a história que Pedro estava contando. Então suas famílias já haviam se entrelaçado antes de eles dois se conhecerem no Instituto? Como tal coincidência era possível?

– Você precisa me deixar ler o restante dessa história. – Matheus estendeu a mão em direção ao Livro das Sombras do parabatai, que o entregou sem receios.

– Leia. Você vai me entender. – Pedro entregou o livro ao amigo, que se sentou em banquinho da varanda, próximo à luz forte que um poste da rua próximo emitia. Ele percebeu, em uma rápida folheada, que havia vários relatos antigos e ilustrações representando folhas, árvores, símbolos, receitas, desenhos mágicos, demônios e seres do Submundo. Depois se atentou à página indicada por Pedro e começou a passar os olhos pela história mencionada pelo parabatai, desde o início.

Em uma leitura devoradora, o jovem Heartway compreendeu ligações que nunca foi capaz de fazer sobre sua história com o amigo Blackshadow, além da resposta tão esperada sobre o Arco do Cupido estar na sua família. Na época, Bianca trouxe consigo da Itália mesma caixa de madeira com a inscrição Arcus Cupinidis que ele tinha deixado no quarto de Felipe. Dizia o livro dos Blackshadow que a família de Bianca a presenteara com o arco devido ao casamento, uma peça rara descoberta no museu de Florença, comprado à cifra de seis zeros com esforços de seus pais e avós.

Rezava a lenda, espalhada entre os caçadores de sombras de Roma, que o próprio Cupido havia dado o seu arco e flecha à Cecília Heartway, bisavó de Bianca, mas os pais sempre contaram uma história mais racional. Ela teria encontrado o arco atrás do quadro de Cupido coroado de flores, no antigo templo de Vênus, quando um raio de sol invadiu o lugar e se direcionou sobre o quadro, fazendo brilhar, nas pontas das flechas pintadas dentro da aljava, a adamas angelical por baixo da pintura. Curiosa com o brilho, Cecília averiguou a tela e percebeu que se tratava de uma arma angelical escondida. Fez um leve corte por trás e retirou o arco e a aljava real com as flechas, cuidadosamente. Notou no arco símbolos diferentes dos que o Livro Gray ensinava e levou a arma à Cidade dos Ossos, de onde quase não foi capaz de retirá-la, depois de uma análise um tanto perturbadora dos Irmãos do Silêncio.

Cecília recuperou a arma sob o argumento de que ela a encontrara em um templo consagrado, logo a ela pertencia como arma de direito para completar sua missão de caçadora de sombras. Não esperou até a Clave interrogá-la e passou a arma aos seus filhos, que passariam aos seus netos e bisnetos, sob a orientação de sempre trocarem a posse entre as famílias dos irmãos e mudarem constantemente de país, para que o arco não fosse encontrado. Por fim, o Arco do Cupido desembarcou no Brasil com Bianca Heartway e seu uso foi crucial no enfrentamento do demônio Incubus, história que começou a ser contada por Pedro.

Após Bianca e Carlos instalarem-se definitivamente no Brasil, seus filhos cresceram e os filhos dos Blackshadow também, mas enquanto aqueles evitavam os membros do Submundo, estes últimos interagiam com eles e era o que os mantinham informados e de prontidão contra ataques demoníacos. Foi por conta dessa interação dos filhos com o Submundo que Akin e Omala Blackshadow tiveram notícia do demônio Incubus transformando-se em humano e copulando com mulheres por toda a cidade. O resultado foi o nascimento de vários feiticeiros que, anos mais tarde, tornaram-se suspeitos do desaparecimento de dois dos filhos dos Heartway em Salvador e a morte de uma fada.

Apesar de terem sido reencontrados após a acusação dos feiticeiros, os rapazes não eram mais os mesmos, o tempo todo desligados do mundo ou com olhar fixo no vazio, como se estivessem enfeitiçados. Os Irmãos do Silêncio constataram sangue de fada em seu organismo e a magia dessa raça impregnada em sua mente, nada podendo fazer além de oferecer remédios paliativos.

Foi acidentalmente que Bianca, enquanto polia o arco e as flechas de adamas, feriu um dos seus filhos com a ponta de uma delas, quando se virou assustada com o empurrão que ele lhe dera repentinamente. O rapaz gritou de dor e luz e fumaça saíram de seu ferimento, fazendo-o voltar ao controle de si, antes perdido inexplicavelmente. Bianca logo entendeu que a arma possuía o fogo celestial, capaz de queimar o mal do sangue dos filhos, e enfiou a flecha no peito do outro, que apareceu em seguida estendendo as mãos para o arco que estava com ela, acontecendo o mesmo que ao primeiro. Ela também havia juntado as peças dos últimos acontecimentos e percebeu que a manifestação de Incubus pela cidade e o controle mental dos filhos tinham ligação com o Arco do Cupido, o qual um deles tentara roubar-lhe quando estava controlado pela magia maligna. Na certa a arma poderia destruir o demônio, motivo para ele tanto se empenhar em obtê-la.

Akin e Omala foram consultados por Bianca sobre o ocorrido. Eles reuniram na fazenda dos Heartway os poucos caçadores de sombras que encontraram pela cidade para obter mais informações. As notícias, contudo, eram perturbadoras: outra fada morta e parentes de caçadores sequestrados na região, além de mundanos ligados a eles. Contrataram, então, um feiticeiro de confiança, que estava na cidade antes das manifestações de Incubus, para fazer os rituais de invocação do demônio por meio de um pentagrama circunscrito. Enfurecido, o demônio invocado gritava ao ver o arco nas mãos de Bianca e, vaidoso, gabou-se do seu plano de obter a arma para destruí-la e juntar feiticeiros fortes o suficiente para libertar na terra seu mestre Asmodeus, o demônio da luxúria e da vaidade, chefe de legiões de demônios, uma das quais ele mesmo, Incubus, era general. Assim, não haveria arma capaz de derrotá-lo.

Não demorou muito tempo, o casarão onde estavam foi cercado de feiticeiros, mundanos e caçadores antes desaparecidos, agora semelhantes a zumbis. O feiticeiro que estava dentro da casa estalou os dedos e o demônio foi tragado para dentro do círculo de magia. Carlos e Bianca Heartway imploraram a ele que abrisse um portal e enviaram os filhos a São Paulo com a responsabilidade de protegerem o Arco do Cupido, nunca mais tendo contato com eles. Os Blackshadow também enviaram um de seus filhos para acompanhar os Heartway pelo portal, entregando-lhe apenas o Livro das Sombras da família, para que não deixasse de escrever tudo o que viu e ouviu até aquele momento. A luta que se seguiu foi devastadora e o casarão e a fazenda dos Heartway reduzido a ruínas.

Em São Paulo, após apresentarem-se ao Instituto e contar sobre o ocorrido – exceto que tinham a posse do Arco do Cupido com eles, argumentando que sua mãe nunca lhes contara sobre seu paradeiro – os filhos dos Heartway e o filho dos Blackshadow começaram nova vida na cidade, apesar de terem buscado lugares diferentes para morar. Logo se relacionaram com outros membros do Enclave, casaram-se e tiveram filhos. Duas gerações passaram-se e, com a construção da nova capital do país, os Blackshadow migraram de São Paulo para Brasília, separando as famílias por longas décadas.

***

Matheus fechou o livro dos Blackshadow vagarosamente, com um olhar distante aparentemente reflexivo. Pedro retirou com suavidade o Livro das Sombras de seu colo e colocou mão sobre o ombro do amigo.

– Você entende agora como aquele arco sempre deveria ser seu?

– Arco e flecha são próprios dos Blackshadow, você já me disse uma vez que seus pais os usavam, você também usa... Não teria habilidade com eles.

– Então por isso você preferiu a espada que seu avô forjou, afinal nunca teve contato com o Arco do Cupido...

– Exatamente, preferi a espada, mas depois que você foi banido do Instituto comecei a olhar para o passado e vi como nossos movimentos se sincronizavam mais quando você usava o arco e eu usava armas de embate mais direto. A espada, contudo, sempre foi grande demais para movimentos mais rápidos, então apesar de você achar que ainda a uso, optei pelos discos de aço reforçado, que posso usar tanto como ataque, quando o prendo ao próprio punho, como defesa, em forma de escudo. E para emergências posso lançá-los contra o inimigo, desestabilizando-o.

– Uau! Isso é impressionante. Não vejo a hora de vê-los em ação! E acho que o Lobinho também não, eu percebi o jeito que ele ficou olhando pras suas armas no metrô. – os dois riram e se abraçaram. – É bom ter você de novo ao meu lado, Teteus.

– Cara, é bom te ter ao meu lado também, mas eu juro pelo Anjo que se você me chamar de novo assim eu vou mostrar meus discos agindo na sua cabeça!

Apesar da brincadeira, Matheus queria mesmo mostrar os novos movimentos ao parabatai, mas também queria ter uma conversa séria com o amigo. Sentia que nos últimos meses o laço de parabatai entre eles era o mais forte possível, porém esse laço talvez pudesse estar se transformando em outro tipo de sentimento. Mesmo escondendo isso o máximo possível, eles ainda eram almas gêmeas e ler os sinais corporais e entender o que se passava na mente do outro era só uma questão de tempo.

Pedro era belo aos olhos de Matheus. Era mais baixo que ele, de corpo mais largo, nem gordo, nem magro, pelo menos não era tão magro como o próprio Matheus se considerava. Sua pele tinha a cor de bronze, seu sorriso largo e reluzente, além dos cabelinhos encaracolados. Um dos seus olhos tinha uma marca na pupila similar ao olho de um gato, o que sempre gerou curiosidade ao parabatai e a especulação dos outros caçadores sobre seu sangue ser misturado com o de membros do Submundo.

Math sabia que isso pouco importava, até porque essa característica ajudava o amigo a ter acesso aos lugares que feiticeiros frequentavam, antes de perceberem que, na verdade, ele era um Nephilim.

– Acho melhor você voltarmos a dormir. – Pedro falou ao amigo, afastando-se dele após o longo abraço. – Amanhã, às onze horas, combinamos de encontrar o feiticeiro.

– Certo. Eu vou em seguida, quero ficar um pouco mais aqui.

– Pelo menos vista uma blusa, aqui é muito frio de madrugada. – Matheus estava sem a camisa, apenas a calça de couro do uniforme, e continuou ali na varanda após Pedro voltar para o quarto. – Ele gostava de admirar a lua, agradecendo aos céus por não estar cheia, já que tinha um lobisomem dormindo ao seu lado, e gostava de sentir o vento da noite em suas costelas.

Passado certo tempo, um calafrio e uma sensação estranha tomou o copo de Matheus, ali debruçado sobre o parapeito da varanda, como se sentisse que estava sendo observado. Primeiro ele olhou para o quarto, mas Pedro e Felipe continuavam dormindo, depois olhou para baixo, para a rua, e viu alguém o observando, parado com um capuz e de braços cruzados.

A luz do poste refletiu sobre o rosto da figura misteriosa, exatamente quando um vento forte soprou lançando o capuz para trás, e Math percebeu que era um jovem de traços bonitos assim que os olhos dos dois encontraram-se fixamente. O rapaz desviou o olhar e virou-se para começar a correr pela rua. Matheus não teria nenhuma reação, não fosse pelas escamas notadas em parte da nuca, escondendo-se por dentro do tecido que cobria o ombro do garoto.

Math não pensou duas vezes, entrou no quarto rapidamente pegou seus discos, uma lâmina serafim, a estela e a pedra enfeitiçada. Vestiu apenas uma jaqueta de couro, sem blusa, e saltou da varanda do apartamento – aliviado por ser no primeiro andar do prédio – com a jaqueta ainda aberta. A movimentação afobada pelo quarto fez Pedro e Felipe acordarem repentinamente, sem entender o que estava acontecendo. Apenas quando o viram saltar pela varanda, perceberam que se tratava de algo mais sério, e logo se arrumaram, pegaram armas e o seguiram.

Quando colocou os pés no chão, Math percebeu que não estava calçando nada além de meias brancas, mas não havia tempo para botas de caçador ou qualquer outra coisa do tipo, ou até mesmo para avisar aos dois companheiros que deixara dormindo. Ele tirou as meias rapidamente e seguiu correndo descalço atrás daquele indivíduo suspeito.

Eram aquelas escamas vistas na nuca do rapaz que o perturbara incrivelmente, as mesmas pintadas como detalhes de Incubus, na ilustração da invocação do demônio que constava no Livro das Sombras de Pedro – provavelmente desenhado por seus avós –, as mesmas vistas na nuca e ombro de um dos mascarados com quem dançava em seus sonhos.