Passaram-se quatro dias desde que Pedro tinha ido com a comitiva da Praetor Lupus para o Quartel General da organização. Ele não podia reclamar do bom tratamento que estava recebendo, afinal o local parecia um SPA, com piscina de natação – onde o caçador passava a maior parte do tempo –, quadra de esportes e dormitórios limpos e bem arrumados, localizados no prédio adjacente à construção principal, que era o centro de comando do QG.
Eram quatro da tarde quando Lino Rufus apareceu no ginásio de natação e comunicou ao caçador que estava sendo requisitado na sala do Comando Geral. A presidência do Comando era mantida pelo Praetor Thomas Lobos, o qual mantinha uma reputação de durão no Submundo, razão pela qual Pedro não se animou muito com a ideia de ser requisitado, afinal ainda tinha receio pelo livro de sua família.
Ele adentrou a sala, seguido do licantrope que o convocara antes, mas ainda inseguro sobre o que o comandante geral poderia querer com ele. À sua frente viu o Praetor sentado à mesa central, Malthus e Louis acomodados em cadeiras no canto esquerdo e, à sua direita, Felipe Wolfmark, que já havia levantado em sua direção para cumprimentá-lo.
– Pedro! Que maravilha ver que está bem na Praetor!
Felipe apertou sua mão, mas esqueceu dos protocolos internos e logo lhe deu um abraço. Thomas fez um breve ruído limpando a garganta, com a mão fechada em frente à boca, claramente incomodado com o abraço. Mesmo com a situação atípica ocorrida com o licantrope, o QG tinha regulamento militar a ser seguido pelos membros.
– Oh, desculpe... – Pedro ficou ereto e logo se afastou de Felipe com outro aperto de mãos. – Quer dizer que você já está totalmente recuperado? Fico feliz de ver que conseguiu se sair bem.
– Consegui, graças à ajuda do Irmão Jacob...
– E a sua predisposição genética à cura, enquanto licantrope, é claro! – Thomas fez questão de corrigir o rapaz, afinal não gostava que seus membros demonstrassem condições de fraqueza na sua própria raça. Os danos que a prata causava já eram suficientes. – Mas vamos a assuntos mais diplomáticos... Malthus? – O Praetor deu a palavra ao líder da CLAD.
– Muito bem, já entramos em contato com o Instituto e informamos que você partirá hoje mesmo. Augusto queria mandar alguma comitiva te buscar, mas não queremos mais caçadores por aqui, assim como pedimos a ele que deixasse Felipe livre para chegar aqui como quisesse. Então, acho que estamos encerrados quanto à questão do acordo feito. Você pode ficar até o fim do dia, mas antes do anoitecer terá que partir.
Pedro aceitou e compreendeu perfeitamente as condições. Agradeceu ao Praetor pela hospitalidade e pediu permissão para se retirar. Felipe fez sinal que o acompanharia e ambos se retiraram da sala. Quando a porta se fechou atrás deles, Louis foi o primeiro a comentar, seguido por risos de Malthus e Lino, mas Thomas pediu que deixassem o assunto sobre os dois para lá. Havia um clima de desconfiança sobre a amizade do caçador com o licantrope, entretanto o Praetor sabia que a disciplina do Regimento era o melhor método para controlar a língua.
– Eu soube de alguns acontecimentos por meio das meninas, lá na enfermaria. – Os amigos voltavam para o prédio do alojamento, quando Felipe pediu que Pedro o acompanhasse a uma espécie de área central com banquinhos e um jardim entre os prédios, onde se sentaram para conversar. – Só me faça entender uma coisa, Pedro: no fim das contas o Lucas fugiu, foi isso? Me diga se pretende fazer alguma coisa...
– Na verdade, ele não fugiu. Se bem saquei a Mag, ela deu um jeito de tirar ele da Cidade do Silêncio. Não seria a primeira vez que ela é invadida para um resgate, você deve ter ouvido as histórias...
– Ah! Eu ouvi, sim! E agora? Eles vão ser procurados como fugitivos?
– Talvez sim, talvez não... Na verdade, a preocupação maior do Lucas deve ser a Corte Seelie, eles querem a cabeça dele. Por outro lado, eu confio no julgamento da Mag, ela vai controlar o irmão e protegê-lo de outra investida de Incubus.
– E o que mais te preocupa?
– Eu vi os fantasmas dos meus antepassados naquele dia na caverna, digo, aqueles vários espíritos e suas energias inebriantes... Meu bisavô disse que eu deveria procurar os demais Blackshadow da família e os unir e acho que essa é minha nova missão agora.
– Eu posso te ajudar... Se você aceitar, é claro. Foram longos dias em busca dos seus pais e acho que devo isso a eles, já que fracassei em minha missão, no final das contas.
– Poxa, Felipe, não pense de maneira tão negativa. Sem você eu estaria morto. Agradeço todos os dias por você ter sobrevivido, porque não aguentaria o peso de sua morte em meu lugar.
– Quanto a isso, Pedro, você pode saber que fiz e faria de novo por você, porque eu... eu... – O garoto gaguejou tentando encontrar coragem nas palavras.
– Fala, rapaz!
– Olha... – Felipe suspirou como se fosse dizer algo de que talvez se arrependesse depois. – Eu quase morri lá, sabe... Quando acordei do coma ontem, não te vi por perto, achei que tivesse acontecido algo terrível durante aquela batalha. Então eu percebi o que tava sentindo, só podia ser isso...
– Sentindo o quê? Só podia ser o quê? Descobriu alguma sequela grave da magia do sangue das fadas, foi isso?
– Não! Não é isso, Pedro... Escuta, vou ser direto. Aceita sair comigo? – Felipe viu o caçador empalidecer. Certamente ele não esperava por um convite desses vindo de um homem, muito menos um licantrope! Afinal, com aquele jeito agressivo e durão deles de ser, quem imaginaria algo do tipo? Estereótipos que às vezes as pessoas carregam na mente.
Pedro não sabia ao certo o que responder. Pensou na proposta e se sentiu estranho por estar ainda considerando o pedido. Acaso não deveria simplesmente recusar o convite, como qualquer garoto o faria? Mas não se sentia qualquer garoto; Felipe também não era qualquer garoto. Lembrou-se das vezes que o chamava de Lobinho e ria ao vê-lo ficar com raiva disso; lembrou-se do incômodo que sua relação com seu parabatai causava ao licantrope, sempre resmungando da intimidade dos caçadores. Agora tudo fazia sentido, mas mesmo se não fizesse arriscaria encarar o desconhecido.
– Aceito, mas com uma condição. – Pedro sorriu com ar travesso para o garoto.
– Qual condição? – Felipe ficou surpreso com a resposta. Não esperava que o caçador aceitasse, mas também não perderia a oportunidade.
– A condição é que o primeiro encontro seja agora. – Pedro não deixou brecha para o rapaz resistir. Segurou em sua nuca e o beijou, um beijo em movimentos rápidos e quentes, um desafio à disciplina do QG. Mas não podiam ser vistos, beijarem-se assim, em um jardim entre os prédios mais movimentados da Praetor, era um risco.
– Espera! – Felipe colocou a mão separando seus lábios dos dele.
– O que foi? Alguém nos viu? – Pedro olhou para os lados procurando algum olhar reprovador para eles, mas por sorte o jardim não era muito frequentado pelos licantropes, no horário de expediente.
– Não é isso! – Felipe riu com o fato de o caçador estar mais preocupado com as regras da Praetor do que ele próprio. – Você já conhece meu quarto?
– Você é um perigo, Lobinho! – Pedro correu para as escadas laterais do alojamento assim que terminou a frase.
– Não me chama de Lobinho! – Felipe apertou os dentes, deixando aparecer sisos lupinos, mas era certo que tinha entrado na brincadeira e logo correu atrás do Nephilim.
***
Depois de uma semana ocupada pelos feridos, a enfermaria do Instituto de São Paulo estava vazia. Luana Heronstairs tinha passado por lá, checando se não havia deixado alguns de seus pertences, especialmente uma presilha que gostava de usar para prender a franja para trás e que não encontrava de jeito algum. Precisava ser rápida, pois o trem para Santo André costumava demorar em dia de domingo e ela tinha certeza que ninguém abriria um portal só para chegar lá, ainda mais se dependesse de Augusto.
– Você não vai se atrasar? – Matheus tinha entrado na enfermaria sem dar sinal da sua presença.
– Pelo Anjo! – Maíra bateu a cabeça no estado de um dos leitos com o susto. Estava verificando se a presilha não estava por baixo das camas.
– Oh! Me desculpe! Achei isso aqui no batente da porta do meu quarto. É seu? – Ele abriu a mão e mostrou justamente a presilha que a garota procurava.
– Ai, obrigada! Seu fofo! – Ela foi até ele e pegou a presilha, dando um beijo em seu rosto em seguida. Matheus ficou com as bochechas muito vermelhas de vergonha, de tão branca que sua pele era, mas antes que pudesse falar algo, Luana já estava de saída.
– Ei! Espere! Então é isso, você pega sua presilha me dá um beijo no rosto e vai embora?
– Hããã... Bem, depois de passar a noite no seu quarto, achei que você estaria menos inseguro.
– Eu sou sempre inseguro. – Ele foi em direção à garota e a beijou, seus lábios tocando-se macia e calmamente. – Vamos. Eu te acompanho até a estação.
Matheus e Luana estavam se encontrando a três dias, mas sempre fora do Instituto, especialmente porque desde que os olhares e sorrisos foram correspondidos após a saída de Pedro para a Praetor, os sentimentos entre os dois pretendentes acabaram se acelerando rápido demais e os demais caçadores começavam a desconfiar de seus sumiços repentinos ao longo do dia.
Aparentemente o afastamento do parabatai deixara algum espaço para que a atenção de Math se voltasse às investidas da garota: um toque proposital de mãos na enfermaria, um livro caído algumas vezes no chão perto do rapaz, até quando ela se candidatou para ir à cozinha com ele pegar as refeições dos caçadores ainda internados. Talvez os demais tenham ouvido alguns barulhos de pratos caindo no chão, e mesas se arrastando, mas ninguém nunca provas concretas disso e apenas soltavam indiretas...
Aquele dia, contudo, era diferente. Matheus recebera a notícia de que Pedro estaria de volta ao anoitecer e sabia que o recente romance com Luana não poderia ser escondido. Decidiu, então, que levar a garota à estação, ainda que andando pelos corredores do Instituto sob um feitiço de disfarce de monge, mas isso era uma demonstração explicita – imaginava ele – sobre o que estava acontecendo entre os dois; e não foi difícil perceberem.
– Ora, ora! Irmão Raphael e irmão Leonel – Ryo disse ao ver os dois passarem pelo corredor em frente à sala de estar em que estava com Mayara, ambas também sob os disfarces de monges. A dupla logo parou na porta e olhou desconfiada. – Ou deveria dizer Matheus e Luana, a nova namorada?
– Nós não somos... Ah! Esquece. – Math puxou Luana pela mão, o que pareceu mais estranho ainda, visto que, para os olhos dos monges mundanos, eram dois homens de hábito e mãos dadas a desfilar pelo Mosteiro até a saída.
– Você não vai junto com ela e esquecer o próximo sábado, não é mesmo? – Ryo tinha corrido até o corredor e falado alto, na tentativa de fazer seu apelo ser ouvido por Matheus.
***
Me encontre na Praça Alexandre de Gusmão,
fundos do Parque Trianon.
Rápido, está escurecendo! Ass.: Pê.
A mensagem tinha chegado literalmente batendo asas, em forma de um origami de passarinho, que se desfez em fogo rosa assim que Math acabara de ler, o que fez que ele e Luana Heronstairs dessem um salto para trás com o susto provocado pelas faíscas, torcendo para que ninguém por perto tivesse visto aquilo. Eles estavam se despedindo na estação quando a mensagem-pássaro pousou discretamente no braço de Math, que logo reconheceu a magia do objeto. Mais do que isso, após vê-lo em chamas rosas, teve certeza de que só poderia significar uma coisa: seu parabatai estava com a feiticeira suspeita de invasão da Cidade do Silêncio e provavelmente em perigo, mas as coisas não eram tão dramáticas assim como ele costumava criar em sua mente.
– Então, mensagem do seu parabatai, hãn?! – Luana havia lido o pedido de encontro escrito no bilhete, antes de ele se desfazer. – Você pretende dizer... Você sabe... Dizer sobre nós para ele?
– Hããã... Que estamos saindo? Claro que sim!
– Isso é bom! – Luana deu um belo sorriso e ajeito a presilha na franja, que começara a cair. – Então te vejo sábado, ok? Estarei no Instituto para o ritual das meninas. – Ela o abraçou e outra vez se beijaram longamente, enquanto o trem parava barulhento ao longo de toda a plataforma da estação.
O metrô tinha ido em sentido diverso ao trem de Luana. Para chegar ao parque, era preciso descer na estação Trianon-Masp, em frente ao Museu de Arte de São Paulo. Math agradeceu a Raziel pelos mundanos terem inventado o metrô e ficou imaginando, enquanto o se aproximava da estação que desceria, como era possível seus ancestrais terem andado por tantos lugares apenas confiantes eu seu condicionamento físico – ou em portais, diga-se de passagem. As portas do vagão se abriram e Math apressou-se pelas escadas, logo alcançando o parque, que fica em frente ao museu, muito próximo à estação, na Avenida Paulista.
Enquanto caminhava por dentro do parque, procurando a praça indicada por Pedro, Matheus pensava sobre os últimos dias transcorridos e, principalmente, sobre Luana e a maravilhosa noite dos dois em seu quarto, escondidos dos olhos de todos que especulavam sobre seu relacionamento. Math achava tudo aquilo novo, inclusive o fato de levar Luana até uma estação sem usarem disfarce algum era novidade, ao mesmo tempo em que era deliciosamente empolgante de se fazer. Estava descobrindo o amor! Faltava apenas descobrir como contar isso ao Pedro sem que risse da sua cara ou ficasse com raiva... Ele realmente não conseguia imaginar – na verdade, imaginava, mas sempre o pior, então preferia achar que não conseguia – a reação do parabatai sobre isso.
Quando alcançou a praça, Pedro deu um assobio de algum lugar que Math não identificou no primeiro momento, mas logo a atenção do rapaz foi captada. Seu parabatai estava encostado na grade de uma construção arredondada e com uma abóboda, que lembrava um templo grego em miniatura, e acenou de longe. Matheus seguiu até lá e Pedro o puxou para um banco próximo, onde era possível ver um rapaz sentado, aparentemente familiar, e uma mulher ao seu lado, com cabelos lisos e pontas coloridas mudando de cor. Mag Lyn.
– Espera, parabatai! – Math segurou o amigo pelo braço. – Você vai se encrencar com Augusto e até a Clave se eles souberem que você anda se encontrando com ela! O que está acontecendo aqui?
– Relaxa, Math! A Mag está aqui porque pedi ajuda a ela e temos um trato.
– Um trato? – Matheus procurava falar cada vez mais baixo, pois já estavam ao alcance do banco em que estava a feiticeira.
– Sim. Nós temos. Ou não temos, Pedro? – Mag Lyn tinha se virado subitamente e respondera o rapaz.
– Math... – Pedro se voltou ao amigo buscando explicar. – Eu não posso deixar o livro da minha família nas mãos da Clave. Há coisas que meus pais, e até meus ancestrais, gostariam de me transmitir por meio dele, então não vou me desfazer de uma relíquia familiar tão fácil assim, apenas por “determinação de cúpula”. Mag me propôs refúgio para estudarmos o livro juntos, porque ela também se interessa na magia e na combinação de energias contida nele. Por outro lado, tenho o total apoio dela para mais uma missão a que me propus: encontrar os demais membros perdidos da minha família.
– Com a minha ajuda também, não se esqueça disso. – O rapaz ao lado de Mag virou-se e Matheus logo o reconheceu. Felipe Wolfmark, o licantrope.
– Você não tinha acabado de retornar à Praetor? Agora está aqui com um caçador? – Math pareceu mais preocupado com o também amigo Felipe do que tentando repreendê-lo de alguma forma. Não sabia exatamente como o comandante dele interpretaria ele estar outra vez em missão ao lado de um caçador, entretanto uma não oficial.
– Retornei sim, Matheus... Mas vim de lá outra vez por conta do seu parabatai.
– Como assim? O que está havendo?
– Math... – Pedro precisou tomar a palavra outra vez. – tenho algo para te contar.
– Não, espera... Eu também tenho, acabei esquecendo com essa surpresa toda. Eu... Calma, você primeiro.
– Que isso, gente! – Pedro riu com a confusão toda na cabeça do amigo. – eu e o Felipe... Bem, a gente está saindo. Era isso que queria contar e sem rodeios.
– Nãaaao! Sério isso? – Matheus pareceu incrédulo e se manteve boquiaberto. – Mas você... vocês... São gays?
– Ah! Para que delimitar tanto assim as coisas! – Felipe coçou a cabeça, um tanto sem graça com a colocação. – A gente está saindo. Ponto.
– Ok, ok! – Math deu um suspiro. – eu também preciso contar algo... Eu estou saindo com a Luana Heronstairs.
– A intrometida de Santo André? Jura? – Pedro não podia perder a oportunidade.
– Eu jurava que você era apaixonado pelo seu parabatai. – Felipe emendou a fala do caçador.
– Eu vou me abster e ficar só observando! – Mag Lyn segurou uma mecha de cabelo em frente aos lábios, tentando esconder o riso, que ficou roxa, cinza cintilante e depois azul turquesa.
– Nossa! Vocês me tiram do sério! – Math levou a mão à cabeça e continuou. – Pois bem, eu já deveria esperar o sarcasmo do Pê, a malícia do Felipe e a... a... E nada da Mag além de cores! – os três riram enquanto Matheus parecia furioso.
– Te acalma, homem! – Pedro colocou a mão sobre o ombro do parabatai, que sentiu um tremor passar pelo corpo. – Vai ficar tudo bem, te desejo sorte!
– Espera, isso é uma despedida? Você ainda nem me contou o que foi feito daquele feiticeiro maluco e também ainda nem te contei sobre o ritual parabatai da Ryo e da Mei próximo sábado...
– O ritual delas será sábado agora? Sério?
– Seríssimo, Pê! Augusto já autorizou e o Irmão Jacob vai presidir o acontecimento.
– Sinto de verdade, mas não poderei comparecer... Minha missão me aguarda, não posso perder mais tempo. Aliás, eu não seria louco de pisar mais naquele Instituto; não até eu ter desvendado todos os segredos do Livro das Sombras dos Blackshadow. – Pedro fez uma pausa e se lembrou de que ainda precisava responder ao amigo sobre o feiticeiro. – Em relação ao Lucas, posso dizer que a Mag Lyn tem cuidado dele o suficiente para que não cause problemas...
– Ah, isso é certo! – A feiticeira jogou a mecha colorida de cabelos para trás e continuou. – Lucas está mantido sob o regime de prisão domiciliar e fiz um acordo com ele de que somente o liberaria da mágica que o aprisiona se ele aprendesse todo o necessário para a proteção contra o demônio Incubus, ou qualquer general de Asmodeus, e se comprometesse a caçar comigo o nosso pai e outros Demônios Maiores que ameacem o equilíbrio deste mundo. Como você pode perceber, Matheus, os Nephilins não são os únicos com o ideal de limpar a Terra do mal infernal. – Ela sorriu e apontou o indicador direito para cima, soltando faíscas cor de rosa; puro exibicionismo, como de praxe para uma feiticeira poderosa e bela.
– Espero que a Clave realmente entenda esse compromisso de vocês, porque até o momento vocês têm sido procurados como foras da lei.
– Não se preocupe com isso! – Mag Lyn passou por entre os rapazes, deixando apenas as costas à vista deles. – Podemos apenas desaparecer e aguardar duas ou três gerações de vocês passarem, então não haverá mais lembrança do que aconteceu; apenas um registro histórico tão absurdo, que até a raça de vocês pensará que se trata de uma lenda. Pensando bem, eu sou uma lenda! – A feiticeira sorriu e bateu palmas tão alegremente que seus cabelos mudaram as cores de suas mechas, formando um arco-íris tão bem elaborado, que parecia ter sido pintado artisticamente com um pincel.
– Isso é realmente algo perspicaz. – Agora Felipe que tomou a palavra, mas os parabatai não sabiam se seu comentário havia sido sobre o que Mag acabara de dizer ou sobre o arco-íris surgido em suas mechas, das quais os três rapazes não conseguiam tirar os olhos. – Entretanto, me pergunto se você também conseguirá escondê-lo das fadas, afinal vivem tanto quanto vocês...
– Isso sim será um desafio... Um desafio para o qual o Livro das Sombras da família Blackshadow nos preparará muito bem, graças à ajuda do seu... seu namorado? Bom, do Pedro, quero dizer.
– É... do Pedro está de bom tamanho. Pedro Blackshadow enfatizou o final da frase da feiticeira. – No mais, deixemos o tempo correr... Falando em tempo, acho que é hora de partirmos. Parabatai, eu...
– Não diga nada, Pê. Apenas me abrace. – Math avançou com braços abertos e olhos lacrimejantes, abraçando aquele que sempre fora mais que amigo, mais que irmão. Uma alma divida ao meio que havia reencontrado suas partes por um breve momento, mas que agora precisava outra vez se dividir... E partir.
Pedro deixou escapar um pequeno soluço, junto com as lágrimas. Ele sabia que aquilo não era um adeus, mas temia pelo que o futuro reservaria aos dois dali em diante. Toda aventura era um risco para um Nephilim; e risco de morte... Ele se afastou lentamente de Math e ambos tocaram as faces um do outro, fixando o olhar mutuamente nas escuras pupilas, como se desejassem que naquela escuridão sempre houvesse a luz daquilo que os unia. Então, a mão de cada um deles deixou a face do outro que tocava. Primeiro a de Pedro, por último a de Matheus, e eles abaixaram os olhos.
– Espere. Sei que é totalmente atípico o que vou fazer... – Pedro retirou o anel de sua família do anelar direito e o encaixou no esquerdo de Math, que engoliu seco.
– Parabatai, por favor, não... Você pode se casar um dia, sabe como são essas coisas de troca de anéis de família...
– Então me prometa que será meu padrinho e o trará de volta para mim. Enquanto esse dia não chegar, essa será a promessa eterna de que sempre retornaremos um para o outro, não importa as aventuras em que nos metamos.
– Então, ao menos me permita retribuir o gesto. – Math também retirou o anel dos Heartway do seu anelar direito e o encaixou no anelar esquerdo de Pedro. – Que meu coração esteja sempre com você para que se lembre dessa promessa.
– Ele estará, parabatai. Que você possa transmitir um pouco da nossa história às meninas, Ryo e Mei, para que compreendam o poder da runa que vai uni-las. – Pedro segurou as mãos sobre o lado esquerdo do peito, aproximando o anel recebido de sua marca de parabatai. Math, por sua vez, tocou a mesma marca que ia sobre o seu pulso direito e a acariciou.
– Vamos, Pedro! O Felipe já está pronto para atravessarmos! – Mag havia aberto um portal tão lindo e reluzente e rosa, que Matheus ficou imaginando como ela havia conseguido alterar a cor daquilo que sempre conhecera enquanto azul, mas não questionaria uma feiticeira com mais de mil anos; ao menos era o que ela dizia ter. Felipe recuou alguns passou e segurou no ombro de Pedro, como se o confortasse, enquanto o conduzia para perto do portal.
– Não esquecerei também de fazer o possível para achar outros de sua família, Math. – Pedro complementou sua promessa ao amigo, como últimas palavras. – Deve haver algum Heartway que ainda não foi encontrado depois de gerações de nossas famílias espalhadas. Você sabe, os Heartway e os Blackshadow sempre andaram juntos no passado e outra vez assim o vão fazer.
– Eu sei que sim, Pê. Eu sei que sim... Mal acabara a frase e o portal se fechara abruptamente, deixando um jato de vento e faíscas rosa contra o rosto de Matheus. O local havia ficado completamente escuro e o único brilho era o do anel que Pedro lhe dera, refletindo a luz da lua crescente surgida no céu, que dava destaque para a forma da árvore com os corvos em suas folhas.
“A árvore que Deus planta, não há quem possa arrancar.”
Palavras do Livro das Sombras, entoadas por Pedro para vencer o inimigo, que ainda estavam nítidas na memória de Matheus. Algo para se lembrar de que a essência que os ligava não era intensificada por causa de um rito ou emergia apenas em perigosas aventuras.
Era uma essência que atrelava suas almas e isso os tornava um só para sempre. Math fechou os olhos, segurando forte o anel, e repetiu a si mesmo. Para sempre.
Fale com o autor