Crônicas Noxianas
1 Memórias
Notas iniciais
Era uma noite chuvosa. Gotículas escorrem de seu rosto, mas ele não sabe se é a água que cai do céu ou é seu sangue vivo das feridas. Ele está completamente cansado de lutar contra um inimigo impossível de ser destruído. O fim se aproxima em um brilho roxo que começa a lhe envolver. O Bruxo começa a extrair sua alma sem nenhuma misericórdia, rasgando-lhe a carne para purificar a alma com seu sofrimento.
— Agora está tudo diferente de como era no começo, quando as coisas ainda pareciam possíveis de se realizar. Pura ignorância. Nem mesmo meus amigos conseguiram resistir à fúria do Bruxo. Talvez o mau seja mais forte, e a esperança do bem sempre vencer seja apenas uma ilusão criada para continuarmos em um caminho que não leva a nada. Bom, ao menos fiz o que podia para manter minha promessa. —Pensou o Escolhido, já no fim—
Mas antes do Grande Fim, voltaremos nos tempos dourados, no começo da jornada do Escolhido, quando o mundo de Nox era um lindo lugar para se viver e os campos verdejantes inspiravam a paz nos homens, tanto entre eles e a Natureza quanto entres seus irmãos de raça. Isso era antes do Noxianos conhecerem o Mal. Ocorreu 8 luas antes.
Tudo aconteceu em uma cidade em meio a uma .planície calma e verdejante, com a brisa suave a balançar a grama do prado e os animais vivendo suas vidas sem se importar com o amanhã, assim como os humanos que ali viviam. Aquela terra era conhecida como o Prado das Águas Calmas. Era conhecido por ser um lugar místico que sempre manteve a paz dos seus moradores desde que se tem registro. Nenhuma guerra havia conseguido atrair a campina para o Caos. Nox rumorejava que aquele solo era sagrado e protegido pela deusa Aguillar, a Virgem —Deusa da bondade; da paz; das águas; do amor; da proteção e da determinação— desde que foi criado pelas suas aquae, espíritos da água que serviam à Deusa, sempre que necessário. Por isso, a cidade foi criada nas proximidades do curso de dois rios —O Odo e o Agui, sendo que o último teve seu nome dado em homenagem à Deusa — e lá se desenvolveu sobre as graças da água dos rios, que mantinham o solo fértil e propiciavam transporte seguro e fácil para os habitantes da cidade de Moss.
Neste pacato local vive a bela sacerdotisa Sophie, uma jovem que cuidava do templo de Aguillar na cidade. Diga-se de passagem, uma grande responsabilidade para uma jovem de 16 anos, mas ela não tinha alternativa. Antes dela, a sacerdotisa-madre que comandava o templo era Amena, uma senhora de 64 anos dedicada às artes da fé e aos cuidados do templo. Quando Sophie chegou lá, era órfã e foi encontrada por Amena presa em uma árvore próxima ao Agui cercada por dois lobos famintos, enquanto ela consagrava as oferendas dos mossianos nas margens do rio. Apesar de ainda ser inexperiente, Amena protegeu a pequena criança com um feitiço básico de proteção e espantou os lobos com jatos d’água.Com um olhar afetuoso, Amena disse-lhe:
— Acalme-se minha bela criança, nada mais vai lhe acontecer, eu lhe protegerei e cuidarei de você. Agora vamos, prepararei um bom banho e lhe darei algo para comer.
— Obrigada moça —Falou Sophie, soluçando.
Após isso, acolheu Sophie como sua aprendiz. Naquela mesma noite, a bondosa mulher se tornaria a sacerdotisa-madre do templo por ordens da própria Deusa, que se revelou à ela e transmitiu parte de seu poder e conhecimento em magia para Amena, por proteger uma criança indefesa dos perigos e ainda abrigar-lhe com afeto e compaixão. Para validar a decisão a Deusa marcou-a com a imagem de uma lontra —Animal símbolo de Aguillar, por ser dócil e amigável, além de proteger seus filhotes como nenhum outro animal— em seu braço. Nesse dia, a cidade festejou a vinda da Deusa e se encheu de carisma pela nova sacerdotisa-madre.
Porém, agora ela estava morta, e pela sucessão sua aprendiz deveria assumir o comando do templo, mesmo sem a benção da Deusa. Mas Sophie ainda conseguiria a aprovação Dela para cuidar de seu templo. Isso aconteceu 2 meses após o falecimento de Amena.
Era uma tarde incomum, no mês de proteger —O mês dedicado à Aguillar—. O sol parecia sofrer em um fim de tarde amarelo avermelhado, daqueles que mancham a paisagem e lhe dão um tom melancólico. Nesse dia, houve grande agitação na cidade. Um conhecido guerreiro renegado e odiado por todos —Thaos— voltou à cidade em busca de tratamento no templo, pois foi envenenado por dois arqueiros deformados, que o atacaram sem motivo, antes dele matá-los, acertando-o uma flecha no braço e a outra no pé. O povo acompanhou seus passos cambaleantes e ensanguentados xingando-o, mas cautelosos devido a periculosidade já conhecida do guerreiro. Ao chegarem às portas do templo de Aguillar, o guerreiro já estava fraco e com a vista turva. Sophie, sabiamente, acolheu a todos e pediu espaço para o guerreiro respirar. Então, perguntou-lhe:
—Diga viajante, o que busca no templo da deusa Aguillar, a Virgem?
— Fui atingido por flechas envenenadas, você pode me ajudar? Senão eu morrerei! — Falou o guerreiro, com certo tom de desespero, mas que foi encoberto por sua face máscula—
—Claro, meu filho. Não tenha medo, as servas de Aguillar são as melhores em cura de venenos e eu, particularmente, sou muito boa nas artes de cura. — Comentou Sophie—
— Obrigado bondosa sacerdotisa.
— Não ajude esse maldito, Sophie! ... Não gaste seu tempo com ele! ... Não desperdice nossas ervas! ... — Gritou o povo revoltado com furor—
— Acalmem-se! Nossa deusa diz que devemos proteger e sermos bondosos com qualquer um, não importando o que fizeram antes. Sejam corteses e afastem-se para eu poder trabalhar!
Todos sem contestar saíram do caminho da determinada Sophie, ainda desconhecida por eles. Ela deslizou sua delicada mão por entre as prateleiras de ervas —Em busca das mais variadas e coloridas— misturando-as em um frasco, enquanto uma de suas ajudantes triturava um cogumelo no moedor. Por fim, o produto daquela dança ágil e habilidosa das suas mãos, em um frenesi entre a prateleira e o frasco, foi um líquido um pouco pastoso e de cor azul clara. Ela deu ao guerreiro, já definhando no chão e com a boca seca. Ela, suavemente, aconchegou a cabeça de Taos em seu colo e derramou algumas gotas do líquido em sua boca. Ele engoliu com dificuldade. Todos estavam em volta dos dois, apreensivos. O guerreiro fechou os olhos. Tudo parecia ter sido em vão...
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