Quíron insistiu que a gente conversasse sobre aquilo de manhã, o que foi tipo: Ei,suas vidas estão em perigo mortal. Durmam bem! Foi difícil cair no sono, mas quando finalmente consegui, sonhei com uma prisão.

Eu vi um garoto em uma túnica grega e sandálias agachado sozinho em uma massiva sala de pedra. O teto era aberto para o céu da noite, mas as paredes tinham mais de seis metros altura e eram de mármore polido, completamente suaves. Espalhados ao redor do quarto havia caixotes de madeira. Alguns estavam quebrados e espalhados, como se tivessem sido jogados lá. Havia ferramentas de bronze espalhadas – um compasso, uma serra e várias outras coisas que eu não consegui reconhecer.

O garoto se encostou ao canto, tremendo de frio, ou medo. Ele fora jogado na lama. Suas pernas, braços e rosto foram arranhados como se ele tivesse sido arrastado com as caixas.

Então a porta dupla de madeira se abriu. Dois guardas vestidos com armaduras de bronze marcharam para dentro, segurando um velho entre eles. Eles jogaram o velho no chão, golpeando uma pilha.

- Pai! — gritou o garoto correndo para o velho. O Velho parecia um mendigo, com suas roupas em farrapos, seu cabelo estava raiado de cinza, e sua barba era longa e enrolada. Pelo o que parecia, seu nariz fora quebrado e seus lábios estavam ensanguentados.

O garoto botou a cabeça do homem em seus braços.

- O que eles te fizeram?

Então ele berrou para os guardas logo em seguida sem ter mesmo uma resposta do pai:

- EU VOU MATAR VOCÊS!

- Ninguém vai morrer hoje. — disse uma voz.

Os guardas se moveram para o lado. Atrás deles estava um homem alto com túnica branca. Ele usava um pequeno círculo de ouro em sua cabeça. Sua barba era pontuda como a lâmina de uma lança. Seus olhos brilhavam cruéis.

- Você foi aquele que ajudou o ateniense a matar meu Minotauro, Dédalo. Você virou minha própria filha contra mim.

- Você fez isso... Majestade. — murmurou o homem, olhando bem ele me parecia realmente acabado.

Um guarda deu um chute nas costelas do velho homem. Ele gritou em agonia. O jovem gritou:

- Pare com isso!

– Já que você ama tanto o seu labirinto... – disse o rei, ignorando completamente o jovem. – ...eu decidi deixar você aqui. Esta será sua oficina. Faça-me novas maravilhas. Surpreenda-me. Todo labirinto precisa de um monstro. Você será o meu!

- Não tenho medo de você... — o velho gemeu.

O rei sorriu friamente. Ele botou os olhos no garoto.

- Mas teme por seu filho, não é? Desagrade-me, velho, e na próxima vez que meus guardas infligirem uma punição, será nele!

O rei saiu da sala com seus guardas, e as portas fecharam com uma batida, deixando o pai e o garoto sozinhos na escuridão.

- O que faremos, pai? — perguntou o garoto. – Pai, eles vão te matar!

O velho homem engoliu com dificuldade. Ele tentou sorrir, mas era uma visão horrenda com sua boca sangrando.

- Acalme-se filho. — disse ele com dificuldade, ele olhou para as estrelas. — Vamos encontrar uma maneira...

Uma barra baixou na porta com um fatal BOOM, e eu acordei suando frio... Como sempre.

Depois do café da manhã eu ainda estava pensando no sonho, era completamente, totalmente, realmente, freneticamente, literalmente...

- Sem sentido algum! — disse Haley quando eu lhe contei sobre o sonho.

- Mas foi assustador... — suspirei. — O que acha que significa, Haley?

Seus olhos azuis encaravam o nada, eram olhos tão penetrantes, eu sempre pensava isso quando olhava neles. Eu podia ver as engrenagens e teorias trabalhando através de seus cabelos loiros. Até que ele disse.

- Tenho um mau pressentimento sobre isso. — disse. — Me parece tão familiar com uma história que Benjamin me contou um dia... O Homem que você viu, era Dédalo não era?

Eu assenti.

- Bem... Vamos esquecer isso por enquanto...

Foi nesse momento em que eu avistei Benjamin Chase vindo na nossa direção, ele tinha uma expressão preocupada no rosto, o que me deixou com a expressão confusa no rosto.

- O que deve ser agora? — gemeu Haley.

- Megan! — Benjamin chamou. — Quiron esta nos chamando.

- Para que? — perguntei.

Benjamin deu uma olhada em Haley como se só percebesse agora que ele estava ali.

- Conselho de Guerra.

Oh-oh, isso não era bom. Acho que se pode distinguir pelo nome, não sei o que vocês pensariam, mas eu realmente não tirei aquele pesadelo da minha cabeça. Eu ainda estava tremula. Nós todos nos encontramos na arena de esgrima, o que eu achei bem estranho – tentar discutir o destino do acampamento enquanto Sra. O’Leary mastigava um iaque rosa de apertar feito de borracha em tamanho natural.

Quíron e Quintus estavam na frente da barraca de armas.

Os irmãos de Ares: Clarisse e Jake estavam sentados um ao lado do outro e lideravam as instruções. Hansel e Tyler se sentaram o mais longe que puderam um do outro — ainda acho isso ridículo... — Também estavam presentes em volta da mesa: Emily, a ninfa da floresta. Grover, o sátiro e sua namorada Juniper a outra ninfa da floresta. Beatrice Rosetti, Travis e Connor Stoll, Beckendorf, Lee Flentcher, até Argos, nosso chefe de segurança com centenas de olhos.

Aquilo foi como eu soube que era sério. Argos dificilmente aparecia, salvo se algo realmente grande estivesse acontecendo. Benjamin e eu sentamos um ao lado do outro como os últimos a chegar. Sabia que não era como uma reunião dos líderes dois chalés, pois nem todos os líderes estavam lá, e Jake estava... É claro, obviamente eu sabia o que viria a ser discutido.

– Luke deve saber sobre a entrada do Labirinto. — comentou Grover, já tinha até esquecido que fora ele o sátiro que resgatou Thalia, Luke e os irmãos Chase há alguns anos atrás. — Ele sabia tudo sobre o acampamento.

Emily limpou sua garganta.

– Isso era o que eu estava tentando dizer a vocês a noite passada. A caverna está há muito tempo lá. Luke costumava usá-la. Juniper sabe, não é?

A outra ninfa assentiu.

- Emily me mostrou antes. Mas não deduzimos nada.

Beatrice Rosetti franziu as sobrancelhas para Emily.

- Você sabia da entrada do labirinto e nunca disse nada?

Emily corou em verde.

- E-Eu não sabia que era importante. Só uma caverna. Eu não gosto de velhas cavernas.

Hansel suspirou.

- Ela tem bom gosto.

– Eu não teria prestado nenhuma atenção salvo que... bem, era o Luke. – Ela corou um pouco esverdeando.

Hansel bufou.

- Retiro o que disse sobre bom gosto...

– Interessante – Quintus poliu a sua espada enquanto falava. – E você acredita que esse jovem rapaz, Luke, ousaria usar o labirinto como rota de invasão?

- Claro! — exclamaram Clarisse e Jake juntos.

Eles se entreolharam irritados.

Clarisse voltou-se para Quintus:

- Se ele pudesse colocar um exército de monstros dentro do Acampamento Meio-Sangue, simplesmente aparecer no meio da floresta sem se preocupar com as nossas fronteiras mágicas, nos não teríamos chance. Ele nos venceria facilmente. Ele deve estar planejado isso há meses.

– Ele esteve mandando exploradores para dentro do labirinto – disse Jake. – Nós sabemos porque... porque achamos um.

- Chris Rodriguez – disse Quíron. Ele deu a Quintus um olhar significativo.

- Ah, aquele que... — começou Quintus. — Sim, eu entendo.

– Aquele que está o quê? – perguntei.

Clarisse olhou fixamente para mim.

– O ponto é que Luke tem procurado por um jeito de navegar no labirinto. Ele tem procurando pela oficina de Dédalo.

Eu me lembrei do sonho da noite passada – o velho homem ensanguentado em roupas esfarrapadas.

- O cara que projetou o labirinto. — falei.

- Esse. — confirmou Benjamin. — O maior arquiteto, o maior inventor de todos os tempos. — ele disse isso com um ar meio sonhador. — Se as lendas estiverem certas, sua oficina está no centro do labirinto. Ele é o único que sabia como navegar no labirinto perfeitamente. Se Luke conseguir encontrar a oficina e convencer Dédalo a ajudá-lo, Luke não se atrapalharia procurando por caminhos, ou arriscaria a perder seu exército nas armadilhas do Labirinto. Ele poderia navegar para onde quisesse e quando quisesse, de modo rápido e seguro.

- Você quer dizer... — comecei.

- Primeiro para o acampamento para se livrar de nós. — Jake se ergueu. — Depois... para o Olimpo.

A arena ficou quieta exceto pelo iaque de brinquedo da Sra. O’Leary que fazia SQUEAK! SQUEAK!

Finalmente Beckendorf colocou suas enormes mãos em cima da mesa.

- Um minuto, Benjamin, você disse ‘convencer Dédalo’? Dédalo não está morto?

Quintus grunhiu.

– Eu esperaria que sim. Ele viveu, o quê, três mil anos atrás? E mesmo que ele estivesse vivo, as antigas histórias não dizem que ele fugiu do Labirinto?

Quíron mexeu seus cascos inquietamente.

- Esta é a questão, meu caro Quintus. — disse ele. — Ninguém sabe. Há rumores... bem, há vários rumores perturbadores sobre Dédalo, mas um é que ele desapareceu dentro do labirinto no fim da sua vida. Ele pode ainda estar lá.

Eu pensei no velho homem que vira no meu sonho, estremeci. Ele parecera tão frágil que era difícil acreditar que ele havia durado mais de uma semana, muito menos três mil anos.

- Temos que entrar. — disse Jake. — Nós precisamos encontrar a oficina antes de Luke. Se Dédalo está vivo, nós o convenceremos a nos ajudar, não Luke. Se o fio de Ariadne ainda existe, temos que ter certeza que nunca irá cair nas mãos de Luke.

- Só um momento. — eu me ergui. — Se nós estamos preocupados com um ataque, por que nós não simplesmente explodimos a entrada? Selamos o túnel?

- É por isso que te admiro Megan, grande ideia. — disse Hansel já se levantando. — Vou pegar a dinamite...

- Senta ai garoto-bode. — disse Clarisse. — Não é tão fácil assim, peixinha. Nós tentamos isso na entrada que achamos em Phoenix. Não correu bem.

Benjamin pigarreou.

- O labirinto é uma arquitetura mágica, Megan. — disse ele. — Precisaria de um poder enorme para selar mesmo uma das entradas. Em Phoenix, Clarisse pôs a baixo um prédio inteiro com uma bola de demolição, e a entrada do labirinto só se deslocou alguns metros. O melhor que podemos fazer é evitar que Luke aprenda a navegar no labirinto.

- Teremos que lutar. — disse Lee Fletcher. – Nós agora sabemos onde é a entrada. Nós podemos formar uma linha defensiva e esperar por eles. Se um exército tentar invadir, vão nos encontrar esperando com nossos arcos.

- Certamente, teremos uma defesa. — disse Quiron. — Porém, temo que Clarisse esteja com a razão. As fronteiras mágicas têm mantido o acampamento seguro por centenas de anos. Se Luke conseguir trazer um largo exército para dentro do acampamento, contornando nossas barreiras... nós talvez não tenhamos a força para derrotá-los.

Ninguém pareceu muito feliz com essa notícia. Quíron normalmente tenta ser otimista. Se ele estava predizendo que não teríamos força para aguentar um ataque, isso realmente não era nada bom.

– Nós temos que chegar à oficina de Dédalo primeiro que eles! — disse Jake. – Achar o fio de Ariadne e impedir Luke de usá-lo.

– Mas se ninguém consegue navegar lá – disse, – que chances nós temos?

- Sabemos algumas coisas sobre o labirinto, Benjamin e eu temos lido sobre isso ultimamente. — disse ele.

- Lendo?

- Bem, sim...

- Não é o bastante, Jake. O que tem lá não pode ser resolvido com uma simples benção de Atena. — falei.

- Tem que ser. — disse ele.

- Não pode!

– Você vai me ajudar ou não?

Eu percebi que todos observavam a mim e a Jake como se fosse uma partida de tênis mundial. O brinquedo de apertar da Sra. O’Leary fez EEK! quando ela arrancou a cabeça rosa de borracha dele.

Quíron limpou a garganta.

- Prioridades primeiro. — disse ele. — Nós precisamos de uma missão. Alguém precisa entrar no labirinto, achar a oficina de Dédalo, e impedir Luke de usar o labirinto para invadir o acampamento.

- Todos sabemos quem deve liderar isso. — disse Clarisse. — Meu irmão, Jake Turner.

Houve um murmúrio de concordância. Raramente eu via Jake desconfortado com uma situação... Bem... Aquela vez em que ele contou sobre... Ah, deixa para lá. Enfim, Jake era alguém que raramente se deixava levar pelas emoções.

– Você fez tanto quanto eu, Clarisse – ele disse. – Você deveria ir também.

- Nem pensar! — Clarisse sacudiu a cabeça. — Eu não volto lá!

Travis Stoll riu.

- Uma filha de Ares esta com medo? Ainda por cima Clarisse, amarelando?

Clarisse se levantou, eu achei que ela iria pulverizar Travis, mas ela disse em uma voz trêmula:

- Você não entende nada, moleque. Eu nunca mais vou voltar lá. Nunca!

Ela saiu tempestivamente da arena.

Assobiei.

- Puxa Travis, se você tinha cansado da vida era só falar. — eu disse.

Travis olhou ao redor estupefato.

- Eu não tive a intenção de...

Quíron ergueu sua mão.

– A pobre garota teve um ano difícil. Agora, todos concordam que Jake deve liderar a busca?

Todos assentiram, menos Quintus. Ele cruzou seus braços e encarou a mesa, mas eu não estava certo se alguém mais reparou.

- Muito bem. — disse Quiron. — Jake Turner, é sua vez de visitar o Oráculo. Assumindo que você retorne inteiro, iremos discutir o que fazer a seguir.

Esperar Jake foi mais difícil do que eu mesma visitar o Oráculo. Eu já o escutara dizer profecias duas vezes antes. A primeira vez foi no empoeirado porão da Casa Grande, onde o espírito de Delfos dormia dentro do corpo de uma moça hippie mumificada. Na segunda vez o Oráculo saiu para um pequeno passeio no bosque. Eu ainda tenho pesadelos sobre isso.

Eu nunca me senti amedrontado pela presença do Oráculo, mas eu ouvira as histórias: campistas que enlouqueceram, ou que tiveram visões tão reais que morreram de medo. Isso fazia sentido com o "Assumindo que você volte inteiro." do Quiron.

Eu andei pela arena, esperando. Sra. O’Leary comeu seu lanche, que consistia em cinquenta quilos de carne moída e vários biscoitos caninos do tamanho de tampas de lata de lixo. Eu me perguntei onde Quintus arranjava biscoitos caninos desse tamanho. Eu não achava que você podia apenas entrar na seção de bichos de estimação e simplesmente colocar isso no seu carrinho de compra.

Quíron se aprofundara em uma conversa com Argos e Quintus. Parecia para mim que eles estavam discordando sobre alguma coisa. Quintus ficava sacudindo sua cabeça.

No outro lado da arena, Tyson e os irmãos Stoll estavam apostando corrida com carruagens de bronze miniaturas que Tyler fizera de restos de armaduras.

Eu desisti de andar e sai da arena. Olhei através dos campos para a janela do sótão da Casa Grande, escura e quieta. Por que Hades Jake estava demorando tanto? Eu estava certa que não levara tanto tempo para pegar minha missão.

- Meg. — ouvi alguém me chamar pelo apelido, era Emily.

Ela estava nos arbustos. Era estranho como ela quase ficava invisível quando ela estava cercada por plantas. Ela sinalizou para mim urgentemente.

- O que foi, Emily? — perguntei.

– Você precisa saber: Luke não foi o único que eu vi perto da caverna.

- O que quer dizer?

Ela apontou com o olhar para Quintus.

– O professor de esgrima – ela disse. – Ele estava andando ao redor das pedras.

Meu estômago embrulhou.

- Não pode ser... Quando?

– Eu não sei: eu não presto atenção em datas. Uma semana atrás talvez, quando ele apareceu pela primeira vez.

- O que ele estava fazendo? Ele entrou lá?

A expressão dela estava assustada.

- Não sei, Meg. Ele é assustador. Eu nem sequer o vi entrar na clareira. De repente ele estava ali. Tem que dizer para Hansel que é muito perigoso...

- Emily? Cadê você? — ouvimos Hansel.

- Preciso ir. — disse a ninfa. — Apenas se lembre do que eu disse. Não confie naquele homem!

Ela correu para a arena.

Olhei para a Casa Grande. Sentindo-me mais desconfortável do que nunca. Se Quintus estava tramando algo... Eu precisava do conselho de Jake, ele era uma das pessoas em quem eu mais confiava para essas coisas. Mas onde Hades ele estava? Seja o que for que estivesse acontecendo no Oráculo, não deveria demorar tanto.

Então finalmente eu não pude mais aguentar. Era contra as regras, mas, novamente, ninguém estava vendo.

Corri colina abaixo e cruzei os campos.

Notas finais
*A Parte do primeiro sonho foi pega do livro.