Crônicas De Um Cavaleiro Cego
2 Uma Conversa Com o Mestre Ancião
O cavaleiro cego volta o seu rosto para seu mestre, seus olhos vazios. Podia não enxergar, porém sentia o forte cosmo do velho mestre ancião, um cosmo quente e acolhedor. O cosmo do homem que lhe ensinara tudo. O mestre ancião não tinha sido apenas o seu mentor, tinha sido o seu pai, seu melhor amigo, alguém com quem sempre pode contar.
Por estes e outros motivos, sempre o respeitou muito e, o grande mestre se tornou a pessoa que mais admira na face da Terra. Por ele, pelo mestre ancião, se tornara o Cavaleiro que Athena que era até o dia em que perdera sua visão na difícil luta contra o Cavaleiro Argol de Perseu.
Naquela luta, fora por conta de tudo o que seu mestre havia lhe ensinado durante os seis longos anos de treinamento que conseguira vencer. Seu velho mestre não lhe ensinara a ser apenas um cavaleiro, mas lhe ensinara também outros valores que lhe ajudaram a se tornar a pessoa que se tornou.
Seu mestre além de tudo era como um pai e melhor amigo. Uma das melhores pessoas que a vida lhe deu a chance de conhecer.
Fora por este motivo que, após perder a visão, voltara para os Cinco Picos de Rozan. Tinha a mais absoluta das certezas que, seu velho mestre lhe daria uma solução para seu problema. Seu velho e querido Mestre Ancião saberia o que fazer para que pudesse recuperar a visão.
O Mestre Ancião olha para a fisionomia praticamente sem vida de seu discípulo favorito. E emana seu cosmo caloroso e poderoso, a fim de, mesmo sem palavras, poder consolar o discípulo que tanto ama.
Não apenas consolar, mas, se pudesse, acabaria com a dor de seu discípulo. Conhecia Shiryu melhor do que qualquer outra pessoa no mundo e, mesmo que o Cavaleiro de Dragão não diga uma única palavra, consegue imaginar o que se passa pela cabeça de seu querido Shiryu.
Mas, ele sabe perfeitamente que não pode resolver os problemas de seu discípulo favorito. Que, apesar de ser um Cavaleiro extremamente poderoso, não tem a habilidade de devolver a visão a um ser humano, mesmo que este ser humano seja um Cavaleiro. Este poder, nem a poderosa deusa Athena possui.
O que precisa fazer o seu discípulo entender é que as respostas que ele procura nos outros, jamais encontrará. Todas as respostas que o Dragão procura encontram-se nele mesmo.
Já faz uma semana que seu amado discípulo chegou e, não tiveram esta conversa que tanto precisavam. Shunrei estava sempre ao lado de Shiryu e, esta não era uma conversa que a doce menina precisava ouvir. Além disso, seu amado discípulo, inconscientemente, parecia querer adiar esta conversa, como se no íntimo o cavaleiro da constelação de dragão tivesse medo de escutar as verdadeiras respostas para todas as perguntas que tinha em sua mente e em seu coração.
Porém, não havia mais como adiar este momento. Ele, mais do que ninguém sabe que o momento da batalha da deusa Athena e dos Cavaleiros de Bronze contra o malvado Mestre Ares está cada vez mais próxima.
― Shiryu. – começa o Mestre Ancião – Você retornou a Rozan há mais ou menos uma semana e, neste tempo, mesmo precisando conversar com você, preferi deixa-lo se recuperar tanto físico quanto mentalmente de sua última batalha.
― Sim, mestre. – responde o cavaleiro de Dragão, totalmente à vontade na presença de seu mestre.
― Mas agora, Shiryu, chegou o momento de termos esta conversa, que não pode mais ser adiada.
― Como queira, mestre. – responde novamente o Dragão Cego, totalmente impassível.
― Em primeiro lugar, Shiryu, quero dizer que estou muito orgulhoso de você. Em sua última luta, você demonstrou bravamente não somente que é um verdadeiro Cavaleiro de Athena, mas também que é um homem honrado e que, acima de tudo, valoriza seus amigos e é um verdadeiro companheiro, sacrificando sua visão para salvá-los de um destino cruel.
― Obrigado, mestre.
― Porém não é somente sobre isto que precisamos conversar.
― Eu já imaginava, mestre.
― Shiryu, sei que você voltou para os Cinco Picos de Rozan na esperança de que eu, como seu mestre, poderia ter uma solução ou até mesmo o poder para curar a sua visão.
O Cavaleiro de Dragão sente o Cosmo caloroso e acolhedor de seu velho mestre. Para que mentir ao homem que considera um pai, se esta é a mais absoluta das verdades? Realmente viera aos Cinco Picos Antigos de Rozan na Esperança de que o velho Mestre pudesse curar-lhe ou, ao menos, lhe indicar o caminho para a cura.
― Sim, mestre. – responde finalmente o Cavaleiro de Dragão – Eu voltei aos Cinco Picos exatamente com esta intenção. Acho que o senhor, sendo quem é, tem o poder de me devolver a visão.
Mestre Ancião sorri para seu discípulo. Era exatamente como ele havia imaginado.
― Eu lamento, Shiryu. – diz o velho Mestre – Mas eu não possuo este poder.
Em seu interior, o Cavaleiro de Dragão sente um grande desapontamento. Sua última esperança, seu Mestre, acabara de lhe dizer que não tinha o poder para lhe devolver a visão. Sentia como se estivesse caindo no mais profundo dos abismos, sem a menor esperança de salvação.
Mestre Ancião percebe a aflição de seu discípulo e lamenta muito não poder fazer muito para ajudá-lo. Porém, naquele momento, tinha que deixar toda a aflição de Shiryu de lado para continuarem aquela conversa, pois, apesar de tudo, haviam coisas que o Cavaleiro de Dragão precisava saber.
― Shiryu. – continua o velho Mestre Ancião – Apesar de você ter perdido sua visão na última batalha, não significa o fim de tudo.
― O que o senhor quer dizer com isso, mestre? – pergunta, confuso, o moreno cego.
― Quero dizer que, apesar de você estar cego, você não perdeu seu valor como homem e como Cavaleiro, Shiryu.
― Não compreendo, mestre.
― Shiryu, o valor de um Cavaleiro está muito além dos cinco sentidos deste cavaleiro. Mesmo cego, você pode continuar a ser o Cavaleiro de Dragão poderoso que fora no passado.
Em seu interior, o Cavaleiro de Dragão sente-se totalmente confuso. Como ele pode voltar a ser o que fora no passado sem enxergar? Como ele poderá lutar ao lado de seus amigos, se agora não passa de um peso morto?
― Mas como isso é possível, mestre? – o Dragão cego pergunta, totalmente confuso.
― Você, de forma alguma, perdeu seu valor, Shiryu. Continua sendo o mesmo cavaleiro, o mesmo homem honrado de antes, só que com um sentido a menos.
― Um sentido que a meu ver faz toda a diferença.
― Todas as respostas que você procura, estão dentro de você, Shiryu. Basta apenas você conseguir encontrar o caminho que o levará até elas e isso, só depende de você.
Mesmo sem enxergar, Shiryu sabe que seu mestre está sorrindo, ao lhe dizer estas palavras. O calor do Cosmo de seu Mestre é reconfortante e, ao sentir tal cosmo, algo começa a mexer em seu interior.
Queria desesperadamente encontrar as respostas para todas as suas dúvidas. Queria desesperadamente voltar a enxergar...! Queria, mais do que qualquer outra coisa no mundo, reunir-se novamente com Seiya e os outros...! Mas, ao que estava aparecendo, tinha muitas respostas para encontrar sozinho, antes de tudo isso acontecer.
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