Para Clark, aquela era a primeira vez que pisava no lugar, embora mamãe tinha uma foto para provar que não era. Na imagem em questão, ele era apenas um bebê, erguido com orgulho pelos braços do pastor. Mamãe e papai estavam ao lado dele, sorrindo, aprovando o gesto. Quando o garotinho perguntou o que ele estava fazendo, mamãe explicou que se tratava de uma apresentação.

-Me apresentaram pra que? — um pequeno Clark de 5 anos, confuso, franziu o cenho de forma adorável, fazendo Martha rir.

-Nós apresentamos você pra Deus — ela explicou pacientemente — nós agradecemos a Ele por sua vida e pedimos que Ele cuide de você e te proteja e que você tenha a oportunidade de conhecê-Lo e segui-Lo.

-Entendi, eu acho — ele balbuciou, ainda com muitas dúvidas na cabeça.

E agora que ele estava dentro da igreja, as coisas pareciam ainda mais confusas. Era um lugar diferente da fazenda e sua casa, com certeza. Havia os assentos, bancos de madeira maciça que se estendiam em duas fileiras, para acomodar quem chegasse. Os vitrais eram chamativos, coloridos, com imagens e cenas que ele ainda não reconhecia totalmente. Havia uma família com um bebê, e alguns homens ouvindo uma espécie de professor. Não sabia o nome deles, mas conseguia associar com coisas que conhecia.

O que com certeza era mais chamativo de tudo era a cruz que ficava na parede atrás do palco. Palco, não, papai tinha dito que o nome correto era altar. A cruz em si era grande e vazia, mas era um tipo de símbolo que se repetia por todo lugar, no palanque em que o pastor explicava as coisas, na capa de alguns dos livros que as pessoas levavam para lá, em colares, e em um dos vitrais das janelas, e é claro, no topo do prédio. Mas esse do vitral era mais curioso ainda, porque tinha um homem de braços abertos nele, como se estivesse grudado ali.

Clark queria muito perguntar quem era e o que tinha a ver com a cruz, e porque ela se repetia tanto, mas achou que seria grosseiro fazer isso enquanto todos estavam tão atentos, ouvindo o pastor explicar as coisas, repetindo um único nome em meio ao seu discurso: Jesus.

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Clark deu um suspiro mais alto do que pretendia, criando coragem, enquanto estava de pé no corredor da igreja, acabando de passar pela porta. O combinado com seus pais tinha sido simples e claro. "Você pode falar com o Pastor Davis sobre o que aconteceu, só não pode contar exatamente o que é. Não sabemos como as pessoas vão reagir, então é melhor guardar segredo, ao menos por enquanto".

-Clark, que surpresa agradável — o mesmo homem da foto de quando ele era bebê, só que um pouco mais velho agora, estava sentado no banco da frente, usou seu tom mais gentil para chamá-lo, vendo que o menino estava claramente abalado — posso ajudar em alguma coisa?

-É, eu... eu... eu precisava falar de uma coisa — ele balbuciou, se aproximando.

-Tudo bem, pode sentar ao meu lado, por favor — o pastor convidou e um Clark de 10 anos, com passos apressados e desajeitados foi até ele, se sentando em seguida — pode me falar.

-Tá bom, é que... — ele suspirou outra vez, de olhos fechados, usando toda a concentração possível para que não perdesse controle dos poderes — sabe quando você sempre achou que fosse de uma forma, mas na verdade, é outra? É que... é como se você estivesse acostumado com a vida de um jeito e de repente, ela muda, e aí, você não sabe mais o que fazer?

-Entendi, crescer é difícil, não é? — respondeu Davis, com uma mão no queixo, pensativo, no que o menino apenas assentiu em concordância, quieto — é exatamente como você falou, tudo está de uma forma e de repente as coisas mudam, e mudanças assustam, isso é assim pra todo mundo, acredite, mas tem uma coisa que não muda, e podemos acreditar nisso.

-O que é? — Clark se virou para ele, cheio de esperança.

-Mesmo se as coisas mudarem, Deus não vai deixar de cuidar de nós — afirmou o pastor, e o jovem apenas franziu o cenho, ainda mais pensativo — bom, eu posso dar um exemplo prático, lembra da história do José do Egito?

-Claro, a srta. Sharon contou muito essa história na escola dominical — ele replicou, conhecendo muito bem a narrativa — ele teve umas mudanças muito ruins.

-Eu sei, e foram coisas que ele não podia controlar, imagina, ser traído pelas pessoas de casa, era difícil de se imaginar — continuou Davis — e depois as outras coisas, mas no fim, mesmo no meio das coisas ruins e as mudanças, as coisas acabaram dando certo, porque Deus estava cuidando dele. E o mesmo vale pra você, Clark, acredite.

-Eu acredito, obrigado — o alívio no rosto do menino era claro, chegando a abraçar o homem mais velho, buscando seguir seu conselho.

Davis tinha certeza do coração bondoso do jovem Kent e de que ele estava no caminho certo.

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Aquele domingo tinha sido agitado para a pequena comunidade. O culto da manhã tinha acabado e todos estavam aproveitando ao máximo o almoço comunitário. Como um dos poucos jovens voluntários a arrumar a bagunça depois da refeição, Clark se ocupou em retirar o lixo e limpar as mesas, enquanto os outros se divertiam com um jogo improvisado de beisebol perto dali.

-Eu agradeço pela ajuda, rapaz, mas ficaria mais feliz se fosse se divertir um pouco — o pastor Davis sugeriu, se aproximando dele.

-Ah não, eu fico feliz de poder ajudar, esporte nunca foi muito o meu forte — Clark deu de ombros — além disso, eu estou pensando em ir logo pra casa, temos prova amanhã e o ensino médio não é nada fácil.

-Eu sei, faz tempo que eu estava na escola, mas eu me lembro — riu Davis, chegando a dar um tapinha amistoso no ombro do garoto, notando o quanto ele tinha crescido fisicamente nos últimos anos — antes de ir, por que não me faz um pouco de companhia, gosto muito das nossas conversas e das suas perguntas.

-Sério? Achei que eu era um pouco irritante — o jovem de 15 anos mordeu os lábios, um tanto constrangido.

-Não se preocupe, curiosidade leva ao conhecimento — sorriu o homem mais velho, muito compreensivo.

-Bom, então eu vou aproveitar a oportunidade e fazer uma pergunta bem curiosa, é uma coisa que eu tava ponderando — Clark seguiu em frente, com coragem.

-Pode falar — pediu o pastor.

-É que, olha, Jesus morreu pra salvar todos, não foi? — o rapaz perguntou, prosseguindo quando Davis assentiu para ele — todos quer dizer, todos desse... planeta? Porque pensa comigo, se tivesse alienígenas, tipo, a gente não tem certeza, nem nada, mas se tivesse, você acha que Ele salvaria um alien, ou talvez os aliens não precisam de salvação porque eles não são tecnicamente humanos?

-Certo, é uma baita de uma pergunta curiosa — riu o pastor — mas eu não a acho tola, é bem pertinente, ainda mais com essas conversas de área 51 e tudo mais, isso realmente enche a cabeça da juventude com pensamentos do tipo, mas se quer saber minha opinião, acredito que Deus criou todas as criaturas, as que conhecemos e as que não conhecemos, ainda assim, Ele escolheu mandar Seu Filho para essa Terra. Pode ser, Clark, que através do nosso planeta, os aliens conheçam a Jesus e eu tenho certeza que Ele salvaria qualquer criatura que acreditasse Nele e O seguisse.

Um sorriso genuíno surgiu dos lábios do rapaz, completamente aliviado com a resposta que tinha ouvido.

-Obrigado — ele se lembrou de responder — faz bastante sentido o que falou.

-De nada, sr. Kent — Davis sorriu para ele, contente em poder acolher suas ideias diferentes e inusitadas.

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Havia um sentimento de conforto e alívio inevitável quando Clark entrou na igreja onde tinha frequentado desde bebê. Sua alegria aumentou ainda mais ao se lembrar do motivo que o trazia de volta até ali.

-Pastor Davis? — ele chamou, sem soltar a mão de Lois, que também estava na expectativa de conhecê-lo.

-Só um minuto — o casal escutou a voz sair do escritório, enquanto o homem se apressou a encontrá-los — Clark, que prazer revê-lo, já faz um tempo.

-Oi, eu sei, eu tenho estado muito ocupado ultimamente — ele respondeu, não mentindo totalmente.

-É claro, por causa dos preparativos do casamento, e tudo mais — o pastor compreendeu — falando em casamento, essa deve ser a Lois, é um prazer conhecê-la, srta. Lane, Clark fala muito sobre você.

-Ele também me falou de você — ela sorriu ao apertar sua mão — então, é, o casamento e tudo que vem com ele, tem ocupado muito a gente, eu estou um tanto nervosa e ansiosa, mas feliz, com certeza, muito feliz.

-Isso é o que mais importa no meio de tudo — Davis apontou, feliz pelo jovem casal — e dá pra perceber o quanto foram feitos um pro outro.

-Obrigada — Lois corou diante do elogio, o que não foi despercebido por seu noivo, que lhe deu um sorriso que claramente dizia "eu vi isso, e não vou esquecer nunca mais".

-Bom, acredito que estão aqui para marcar uma data — o pastor prosseguiu.

-Isso, é claro, tem que ser num domingo — Clark respondeu prontamente — quer dizer, se estiver tudo bem, eu e Lois decidimos sobre esse dia da semana.

-Sim, eu com certeza posso achar um domingo pra vocês — Davis sorriu, indo buscar a agenda.

-Ele realmente é muito simpático — Lois cochichou quando ficaram a sós — não só ele, o ambiente no geral, dá pra entender porque gosta tanto daqui, é aconchegante e tranquilo.

-Não é só isso — Clark olhou para ela — ele me ajudou a entender que eu tenho um lugar aqui, quer dizer, você também faz isso, mas ele foi um dos primeiros a fazer isso por mim, e os ensinamentos, me mantiveram de pé esse tempo todo.

-Ah você e seu coração mole... — ela disse tentando caçoar, mas soando muito mais rendida à sua fofura do que qualquer coisa, o abraçando — por isso, eu te amo tanto.

-Eu também te amo tanto — ele sorriu, a puxou para mais perto e beijou o topo de sua cabeça.

Olhando para cima, Clark viu a cruz vazia, um lembrete perpétuo que, por mais que tivesse poderes e as implicações que vinham com isso, ele podia achar um lugar em meio a todos que habitavam o planeta. Quando ele poderia ter facilmente morrido, foi salvo e acolhido, encontrou amor, família e amigos, estava exatamente onde deveria estar. Não podia pedir uma vida melhor a Deus.


Notas finais
Bom, a inspiração pra essa fic bateu justamente por eu ver o novo filme do Superman. Ele é um dos meus heróis favoritos e sabendo que nos quadrinhos, o Clark frequentava a igreja com os pais, e eu mesma sendo cristã, acabou que esse draft refletindo sobre como ele conciliava fé e sua origem alienígena surgiu. Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!