Crux Sancti Patris Benedicti
1 Único
Parado na porta da sala de jantar, eu não podia acreditar no que via. Entendia que minha mãe estava desesperada e era bastante religiosa, ou dizia que era, mas aquilo beirava a loucura.
A mobília havia sido arrastada de forma que apenas uma cadeira estava no meio da sala, e nela Gerard se encontrava atado, rindo de uma forma maníaca. Minha mãe e dois padres estavam em volta da cadeira. Todos se calaram ao me ver.
- O que vocês pensam que estão fazendo? – movimentei o silêncio com um quase-grito, seguido pelas vozes de Gerard e da minha mãe, uma me chamando e outra me expulsando.
No ímpeto de ajudar Gerard, nem esperei a resposta, andei com passos firmes em direção a cadeira, conseguindo desviar da minha mãe, mas sendo parado pelo mais novo dos padres. Gemi em desaprovação.
- Me solta, seu imbecil! – eu tinha uma espécie de trato com Gerard, eu o protegia e ele me protegia, incondicionalmente. Então, mesmo depois de sua mudança drástica em seu comportamento, eu mantive nossa promessa silenciosa.
Minha mãe passou pelo padre e parou em minha frente, suas mãos bem cuidadas seguraram meu rosto e eu pude sentir suas unhas furarem levemente minha bochecha.
- Michael, esse não é o seu irmão, esse não é Gerard. — com a proximidade eu pude notar que seu rosto estava manchado, não só pelas lágrimas e a maquiagem borrada, mas de sangue, perto da boca, e eu sabia a causa e o causador, porque, bem, nos últimos meses vinha acontecendo comigo também.
- Isso é ridículo, mãe. Ele precisa sim de ajuda, mas ela não vai vir desses dois aí. – me mexi incômodo nos braços do padre e ele me apertou mais, pedindo que eu tivesse calma.
- Nos dê uma chance, filho. Não vamos machucar seu irmãozinho. – disse o padre tentando me acalmar e aquilo me deixou mais irritado.
- Mikes, irmãozinho? – a voz cansada de Gerard desviou a minha atenção de tudo e prontamente ela estava nele, em seu rosto suado, em sua respiração puxada, olhos lunáticos e pulsos azulados pela corda. – Você vai me ajudar, custe o que custar, não é? – e um sorriso mínimo de escárnio surgiu em seu rosto.
Foi ai que eu senti o forte cheiro de enxofre na sala.
Crux sacra sit mihi lux
Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Tudo mudou em um curto espaço de tempo.
Gerard se contorcia e gemia na cadeira de forma sobre-humana e eu não pude deixá-lo daquela maneira. Os padres gritavam com ele, aquilo era obviamente desnecessário. A minha respiração ficava ofegante como a de Gerard e cada vez mais o suor se acumulava em minha roupa. Seus olhos estavam vidrados em mim e faziam que eu me sentisse menor, ou pior, um traidor.
Eu estava ficando maluco e aquilo não estava dando certo. Então eu o soltei. Maldição, eu soltei.
O padre mais velho apertava fervorosamente o crucifixo de prata em sua mão, era ridículo que algo tão cheio de luxúria representasse a fé de um religioso. Minha mãe chorava e eu só conseguia me perguntar o porquê daquilo tudo acontecer.
Algo monstruoso, algo que não era meu irmão carregava o corpo de um jovem padre desfalecido, nos encurralando contra a parede. Nem nos filmes eu via alguém quebrar um pescoço com tanta facilidade.
- Então é esse o exercito de Deus. – ele riu e foi possível ouvir o grito de mil almas em sua risada. – Não é por menos que ele é esse verme.
- Não blasfeme contra nosso senhor, bicho imundo! – o padre disse tremulamente. Não soava tão convincente como gostaria. — Ordeno que fale o seu nome!
- Mostrar lealdade agora não vai te salvar, monsenhor. Seus pecados não serão pagos assim. Mas se insiste tanto... Eu sou a Legião, e não largarei esse lar perfeito para mim.
Non draco sit mihi dux.
Todos os nomes que eu poderia pensar, todas as pessoas que eu conseguiria imaginar, nenhuma conseguia sair da minha boca. Atrás do corpo já imóvel da minha mãe, a única coisa que os meus lábios conseguiam formar era o nome dele, mas não ousava chamá-lo; tinha medo.
- Michaaael... – eles cantaram pelo meu nome. – Eu consigo te ver escondido atrás de sua mãe. Aliás, é uma atitude bem covarde, digna de você.
E ele me puxou de trás dela. Tentei me agarrar à minha mãe como pude, mas a única coisa que consegui foi arrancar de sua mão uma medalha.
Vade retro satana
Não abria meus olhos em momento algum. Ele me arremessava contra a parede várias vezes, gritando que o olhasse, mas meu medo era imensamente maior e já não tinha mais força para enfrentá-lo.
Um choro compulsivo tomou conta de mim e Gerard me soltou. Eu imaginei que ele havia voltado e que o demônio tinha o deixado em paz e abri os meus olhos, esperançoso de encontrar meu irmão.
Nunquam suade mihi vana
Fiquei aterrorizado com as feições de Gerard. Estavam transfiguradas de tal forma que nem de longe lembrava o rapaz bonito que ele era. Estava tão focado em seu rosto que percebi que em sua mão estava o mesmo bastão que usou para matar a minha mãe e o padre.
O nome tão preso a força na minha garganta saiu desesperado. Gerard era o nome do meu santo e herói, e seria para sempre, não importava tudo o que aconteceu e tudo o que aconteceria. Eu só queria meu irmão de volta.
Sunt mala quae libas
A última coisa que eu me lembro de ouvir, naquela noite, foi o grito de agonia que várias vozes soltaram. E a última coisa que eu me lembro de ver, antes que tudo ficasse escuro, foi a imagem de uma mulher adornada com o sol abraçando Gerard. Seus pés pisavam a cabeça de uma serpente formada pelo sangue escurecido que escorria do corpo do meu irmão.
Foi a primeira vez naquela noite que eu não senti mais o cheiro de enxofre e uma silenciosa paz invadia todo meu ser. Com o pingo de força que eu ainda possuía, repousei a medalha em meu peito e sussurrei de forma quase muda:
“Ipse Venena Bibas\".
Notas finais
Tradução da oração:
Cruz sagrada seja minha luz
Não seja o dragão meu guia
Retire-se santanás
Não me ofereças coisas vãs
É mau o que tu me ofereces
Beba tu teu proprio veneno.
Muito obrigada.
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