Cruel sedução

3 Afogados em ignorância e egoísmo


Notas iniciais
:0 Admitam, a música combina bem.

Nightcore — Marionette

—Tudo destruído... –Alegou Brasil, abismada. Seu semblante não estava sério, nem mesmo mostrava-se irritado. Em sua face, somente a incredibilidade e o horror tinham espaço.

Em sua mente, imagens da guerra passavam sem parar. Flashes de gritos, tiros, porradas, bombas. Aquelas luzes geladas, aqueles sons duros, fortes, ensurdecedores das granadas que tinham matado milhares. Aquelas que ela mesma ajudara a atirar.

—‘Ta tudo destruído, América.

Ela sabia que Alemanha estava maluco com seu revanchismo; o ódio advindo do medo, da vingança e da fome de seus cidadãos era como uma venda que o impedia de ter noção do que fazia. A ideologia da destruição que ele criara, que sufocava diversas minorias e as exterminava cruelmente, era completamente errada, sem dúvida, e tinha que ser detida.

—Bem, era uma guerra, não é mesmo? –Respondeu a loura ao seu lado, com descaso na voz; olhava para a morena por cima dos ombros esguios, como se ela tivesse algo particularmente estúpido. –Foi o preço a se pagar para acabar com um inimigo maior, pela liberdade mundial. Nós libertamos o mundo do nazismo, tem ideia do quão bravo e corajosos somos por cumprirmos essa missão, Lulu?

No entanto, ela era só mais uma forma de exclusão. Uma maneira escancarada de punir as minorias por estas serem minorias. Um jeito de arrumar um bode expiatório que todos perceberam. Ela era uma forma de exclusão entre as diversas presentes no planeta. Precisava ser detida? Sem dúvida precisava. Todavia, estava longe de ser a única que devia ser abominada, e, no momento, parecia que o nazismo era o vilão mundial, o capeta em pessoa. O único demônio do planeta.

—Mas... destruímos tudo... Olha para a Europa, para Ludwig, para Nihon... Eles... você jogou uma bomba nele, América!...

—E o que você queria que eu fizesse, Luciana? –América virou-se, sem paciência, para a brasileira e começou a caminhar de maneira incisiva na direção da menor. –Deixasse Ludwig? Deixasse o nazismo se espalhar por aí? Você é Nazi, Lu? Não é pró-liberdade?–Ela fez uma cara de preocupada que, embora bastante convincente, Luciana conseguiu perceber o tom de ironia e sarcasmo.

América tratava o Nazismo como se fosse o pior dos problemas do mundo, e o único. Nada mais importava, só vencer a guerra e parar a Alemanha. Todos deviam ajudar, pela liberdade e igualdade do mundo. E claro, estar do lado dos EUA, porque eles eram os supremos senhores da liberdade e igualdade. Eram os donos da razão.

“Todos imaginavam que estavam nadando em razão, porém estavam se afogando com a ignorância”, pensou Luci, pávida com tanta crueldade.

E realmente, os esforços mundiais estava concentrados na batalha da Grande Guerra. Países que nada tinham a ver com o conflito, que tinham problemas internos maiores, estavam envolvidos. E enquanto a Alemanha era tratada como o país louco e, coitado, que precisava ser detido e trazido de volta para a razão, os outros problemas do mundo permaneciam sem solução nem esforço.

—Não!! Claro que não! Mas o mundo tinha vários outros problemas que envolviam o cerceamento de liberdade e você não fez nada para ajudar! A África toda! A América Latina... a Ásia... Você demoniza o Nazismo como se fosse o único problema do mundo, e claro que é um problema gravíssimo, mas eu sei o que você está fazendo! V-você está reunindo todos ao redor de uma ideologia, de um inimigo em comum, com um pano de fundo bonito, de igualdade, mas você não liga para isso!

—Eu sou a América, Luciana, tem noção do que diz? –Ela pareceu surpresa –Sou o país da liberdade!! Sempre luto por liberdade em todo o mundo! Veja bem, não te inspirei quando queria ser livre de Portugal? Ou quando...

—Me inspirou, mas... só porque era conveniente. Não porque ligava para mim. Porque... porque se ligasse, ia intervir nos conflitos da África. Ia reprimir a Europa quando colonizaram os países africanos e roubaram suas riquezas! –Ela acusou, os olhos verdes brilhando de desgosto com o raciocínio que fizera há pouco. Piscou e, quando viu, América tinha agarrado com brutalidade a gola de sua camisa.

—Veja bem como fala comigo, mina. Eu te ajudei!! Ajudei a ganhar liberdade, a fazer sua própria constituição, até mesmo a NOMEAR VOCÊ! [1]

—ISSO NÃO É MAIS VERDADE! –Ela declarou aos berros, sua voz falhando, no entanto.

Ela encarou América. Os olhos antes frios da menina da pele de leite de repente pareciam ter adquirido alguma emoção humana.

—Eu sou mais velha que você, Luciana, mas não tenho tanto poder assim... eu não sei se poderia ir contra a Europa inteira. Não sozinha... não naquelas circunstâncias... como eu poderia tê-los detido se não tinha força para isso ainda?! –Ela falou com sofrimento exalando de cada um de seus poros. Parecia arrependida e sobretudo magoada. –Por que cobra-me um pecado que não é meu? –Ela fitou-a, aquele azul de suas órbes paralisavam-na, descarregando pesar nos ombros da brasileira; pareciam engalfinhá-la, engolir Luciana inteiramente e afogá-la em lamento e anarquia mental.

—Eu... e-e-eu... e-eu...–Gaguejou a jovem nação de cabelos escuros com um remorso súbito.

O que ela estava pensando?? Que fora aquilo tudo?? De onde vieram tais ideais? Brasil agora estava confusa... Tinha acusado América, sua amiga de infância, de hipocrisia? Ela só tinha feito o que estava a seu alcance no momento... não é? A situação dos africanos não devia estar tão ruim, afinal, nem aparecia tanto sobre desgraças na África nos jornais... por outro lado, sobre o nazismo, o jornal falava muito....

—Desculpe, América. Eu n-não o que deu em mim... falei muita besteira... Aposto que... que os Europeus nem foram tão maus assim com os africanos, né? –Ela balbuciou, incerta. A única resposta que recebeu foi um semicerra de olhos –E... E o nazismo era outra coisa, né? M-mas... tinha que ter destruído o Japão tanto assim?

—Foi necessário. Eles eram bem fortes, afinal. –Ela respondeu com secura, porém seus braços afrouxavam o aperto no uniforme de guerra brasileiro.

Após alguns instantes encarando uma a outra, elas desviaram ambas o olhar, América soltou com delicadeza Brasil e esta, por fim, baixou a cabeça, com vergonha de olhar nos olhos daquela que sempre fora seu exemplo, sua amiga, sua paixão de infância.

—Eu sei que você não está acostumada com guerras, Brasil. Mas guerras devastam os países.

—Eu imaginava, só...

—Só não imaginava tanta destruição, eu sei –Ela interrompeu, com um ar de sabedoria na voz, até um pouco de... orgulho? –Mas eu vou ajudar Nihon a se reconstruir. Os Europeus também. Até os Africanos! –Ela sorriu, como se tivesse declarado algo de extremo valor ao mundo.

Luciana ficou quieta, olhando para baixo, sem graça. Sentiu os cabelos ondulados caírem em seu rosto e cobrir-lhe convenientemente a face. Será que ela tinha pensado um monte de besteira? Teria sido corrompida, por um momento, pelos subversivos de seu país? Ou... seria tudo aquilo verdade e ela teimava em não aceitar por comodidade? Porque seria barra pesada questionar os países que regiam o mundo, o país que era sua paixão?

—Vamos, Brasil. Recolha suas coisas –América falou, compassiva agora –Vamos tomar alguma coisa depois. –Virou-se e foi embora.

A mente de Luciana não parava, fervilhante. Ela inteira queria acreditar que aquilo tudo fora um mal entendido, que ela só estava doida por causa dos efeitos da guerra e por isso aquelas ideias loucas conspiratórias apareceram; todavia, uma pequena parte de sua mente sabia. Sabia que ela mesma tinha razão, ela já vira a frieza humana. Não obstante, seus sentimentos pela linda América sufocavam essa parte, cismavam em varrer sua consciência para baixo do tapete de sua mente.

Provavelmente estavam todos, realmente, afogados já, em egoísmo e crueldade ou ignorância e medo. Mas dessa forma, era muito mais fácil para ela. Afinal de contas, como ir contra uma moça sedutora e poderosa como os Estados Unidos da América?

Notas finais
[1]: O primeiro nome do Brasil, depois da declaração da república, copiava o dos EUA, era "Estados Unidos do Brasil". Já antes dessa época, os EUA eram tipo OS TOP que o Brasil tentava copiar. Inclusive aspectos da nossa constituição dessa época foram tirados (adivinhem!) da constituição estadunidense, porque eles eram ponto de referência em muitas questões. Próxima meta: casal femBrasilxUsa. Golpe de 1964. Espero vê-los lá! Beijoooosss PS: CLARO que os EUA não são só esse monstroo aí que eu retratei, ÒBEVIO. Só que nas minhas fics eu gosto de explorar esse lado mais... mau e dominador (IMPERIALISTAAA AAAAHHH) dele. Juro que não tenho nada contra os EUA, mas esse dark side dele é muito legal de desenvolver. Algum dia vou fazer ele mais bonzinho, prometo!! Haha :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!