Crow on Ice
1 Lâmina
Sasuke tinha os olhos pretos, profundos feito uma mina de carvão. Eram olhos sedutores e misteriosos, mas eu podia ver uma selvageria escondida.
Na primeira vez que eu o vi, ele usava uma camisa social, de tecido caro, até os pulsos, com calças jeans e Oxford. Pareceria uma combinação estranha em outra pessoa, mas ele tinha cara de modelo da Calvin Klein. Eu duvidava que Sasuke ficasse feio vestindo um saco de estopa. As coroas se assanharam pra cima dele, obviamente interessadas naquele jeito de milionário. Mas, se realmente era, ninguém sabia.
Eu não sabia bem o que pensar. Ele era educado, gentil e sabia conquistar as pessoas. O trabalho na secretaria da escola ficou mais fácil depois da contratação dele, e as nossas vendas de cursos aumentavam a cada um daqueles sorrisos. Ninguém conseguia dobrar a vontade de ferro de Uchiha Sasuke.
Mas havia algo naqueles olhos que me fazia pensar que tudo era uma máscara.
Era nessas coisas que eu pensava, grampeando meus papéis, quando o telefone particular de Sasuke tocou. Ele pediu licença e o atendeu, mas não disse nada.
— Quinhentos — falou ele de repente para o telefone.
— Você tem noção do que está me pedindo? Isso não vai sair barato.
Cada frase era pontuada por uma pausa, onde provavelmente a outra pessoa estava falando. Comecei a grampear mais devagar.
— Você sabe que eu sou o melhor.
— Tudo bem.
Eu o espiei através da cortina dos meus cabelos e ele me encarou de volta, sorrindo abertamente.
— É, tudo bem. Pode entrar em contato com o outro. E, quando a bomba cair no seu colo, não me chame para limpar a bagunça.
— Quinhentos. Não tem negociação.
Ele fechou o telefone e me olhou, como se me desafiasse a perguntar. Eu tentei segurar minha boca.
— Você é duro de negociar — soltei.
O sorriso de resposta foi uma lâmina.
❄
Em casa, eu penteava meus cabelos úmidos. As coroas implicavam com a cor rosa, mas minha chefe achava moderno e me deixava manter. Penteei cada mecha suavemente, deixando-o escorrer até a cintura, enquanto pensava na conversa de Sasuke ao telefone.
O que ele estava negociando?
Por mais que eu quebrasse a cabeça, a única opção plausível parecia ser a prostituição. Ele era bonito o suficiente para isso, e eu conhecia várias mulheres que com certeza pagariam para tal. Ino, por exemplo.
Mas eu não tinha certeza se essa teoria explicava a parte da “bomba”.
Terminei com meus cabelos e me deitei. O sono demorou a vir.
❄
O despertador tocou cedo no dia seguinte. Como sempre, eu não queria levantar, mas o desejo já havia perdido para a razão sem que eu precisasse pensar nisso. Amarrei o cabelo, escolhi um livro infantil da prateleira e fui até o hospital pediátrico.
— Bom dia, senhorita Haruno.
— Bom dia, Matsuri — respondi, no automático, entrando no hospital e indo direto até o quarto que eu já conhecia.
Focalizei o rosto da minha irmã, tentando não encarar os tubos intravenosos. Os olhos dela estavam fechados. Eu já esperava por isso. Mesmo assim, o desapontamento foi uma agulhada.
— Oi, menina. Eu trouxe seu preferido hoje. — Peguei o livro e, ignorando meu leve tremor, comecei a ler.
❄
— Seu desempenho está caindo, Sakura.
Minha cabeça estava erguida. Meu rosto, maquiado. A roupa limpa e passada.
— Eu sei o que está acontecendo na sua vida, querida. Mas você não pode deixar isso afetar todo o resto.
— Eu sei, Tsunade-sama.
— Você sabe que aqui na escola nós temos o apoio de um profissional de saúde mental. Por que você não procura ele?
— Não — respondi num reflexo. — Eu vou ficar bem, não se preocupe.
Tsunade me encarou com uma expressão que dizia com todas as letras: “ainda estou preocupada”. Forcei um sorriso.
— Quando você chega ao fundo do poço, o único caminho é para cima, não é?
Minha chefe me olhou como se não tivesse certeza da resposta. Mesmo assim, fui dispensada, e soltei um suspiro de alívio assim que saí da sala.
Sasuke me olhava, os olhos negros feito uma mina de carvão. Eu me recompus.
— Bom dia, Sasuke.
Ele olhou o relógio.
— Tomando esporro cedo.
Minha expressão se fechou um pouco.
— Não foi um esporro.
Ele sorriu como quem se desculpa, mas não me afetou. Sentei em minha mesa e tentei parecer bem disposta, calorosa.
— Não está enganando ninguém com essa pose de durona.
Sasuke parecia sentir uma espécie de satisfação pessoal em me alfinetar sobre meu comportamento. Acho que o fato de eu ser a única mulher que não se derretia diante do sorriso dele o incomodava. Eu não poderia me importar menos.
— E você não está enganando ninguém com essa máscara — eu disse, e minhas palavras pairaram no ar feito gelo.
Era a primeira vez que eu citava minhas desconfianças em voz alta. Uma pequena chama de contentamento se acendeu quando vi o sorriso dele escorregar no rosto. Mas Sasuke se recuperou no segundo seguinte.
— “Ninguém” é um exagero da sua parte.
Minha respiração saiu com um som estranho. Voltei-me para ele, tentando não perder nenhum deslize de expressão facial.
— Você está confirmando o que eu disse?
Não houve nenhum deslize. Ele apenas riu, e apertou o botão para abrir a porta da escola. Karin entrou.
— Sasuke-kun! Que bom te ver, querido! Sempre com essas camisas sociais, já não disse pra exibir esses músculos que eu sei que você tem?
Comecei a digitar as notas fiscais, meu cérebro mergulhando em um estupor enquanto eu lutava para ignorar a conversa dos dois.
❄
— Não sabia que você era adepta a esse tipo de leitura, Sakura.
Estávamos fechando a escola, e ele me viu carregando o livro da minha irmã.
— Não sou — respondi, fria. Ajeitei meu cabelo de qualquer jeito atrás da orelha enquanto pegava as chaves.
Ele esperou, mas eu não estava disposta a continuar a conversa. Tranquei o portão.
— Então?
— Não é da sua conta — rebati. O meu humor no fim do dia geralmente era desagradável. Aliás, eu não gostava que as pessoas se intrometessem em meus pequenos segredos.
— Desculpe, Elsa — disse ele com voz de riso, e eu fiz uma careta.
— Boa noite, Sasuke.
❄
Eu coloquei a roupa na máquina. Fiz meu jantar, comi mecanicamente e limpei toda a cozinha. Arrumei a roupa para o dia seguinte. Passei a escova devagar no cabelo, e o movimento era calmante. Lentamente, as camadas de gelo se derreteram, formando poças de emoções incontroláveis, até eu transbordar.
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