Crossroads - The Dark Hunters Chronicles
32 O Meio
Um sentimento de frustração e vergonha tomou conta da mente de Youth. Perder aquela batalha causou uma sensação de impotência, o que fez o jovem remoer a raiva constantemente no período em que ele permaneceu no hospital. Quando Tyto apareceu para comentar que Kaze o tinha salvado, Youth se sentiu ainda mais perturbado, pois agora ele estava em dívida com uma das pessoas com quem menos tinha afinidade.
Tyto: Cara, tenta não se preocupar muito com isso. Você sobreviveu e está aqui; isso é o que importa.
Youth: Não! Tudo está errado! Nada disso deveria acontecer! Eu deveria ser capaz de detê-los, eu deveria ser capaz de derrotá-los! Mas no final de tudo, eu acabo precisando de ajuda!
Tyto: Não força a barra, cara... Você fez o que pôde.
O loiro percebeu que o Youth não queria conversar, já que não respondeu. O jovem se levantou da cadeira ao lado do leito, e se dirigiu à porta de saída do quarto.
Tyto: Me avisa quando estiver a fim de conversar.
Após sair do quarto, Tyto se deparou com Reddar, que estava esperando-o.
Reddar: E então?
Tyto: Não quer falar. Tá deprimido.
Reddar: Mais ainda?
Tyto: É. Sabe o que mais? Me arrisco a dizer que a raiva dele por Kaze só aumentou.
O garoto de cabelo espetado havia terminado de ajudar a organizar as imediações da prefeitura e havia resolvido procurar algo para comer. Ele subiu um lance de escadas e já ia se dirigindo à copa quando avistou Mili em uma sacada. Ela parecia pensativa.
Kaze: Ei, ruivinha linda! Tudo legal?
A jovem se virou para ele ao mesmo tempo em que passava a mão no rosto. Ela realmente não parecia feliz, então o garoto resolveu lhe fazer um pouco de companhia.
Kaze: Que houve? Teve algum problema com Youth?
Mili: Além da enfermeira ter me impedido, ele me dispensou quando eu tive a chance de ficar com ele. Parece que ele quer ficar sozinho...
Kaze: Na deprê de novo, é? Aff... Uma hora ele vai ter que saber lidar com essas coisas. Mas, bem, talvez seja melhor deixar ele quieto mesmo. Assim, ele se acalma e começa a colocar as ideias em ordem.
Mili: Pois é. Era mais ou menos isso que eu estava fazendo. Por que os Estados Unidos não esperaram mais um tempo para eu tentar cumprir minha missão?
Kaze: Porque, com o tempo que estava levando, você não iria conseguir.
Mili: O que?
Kaze: Você sabe do que estou falando. Se eles não conseguiram levar Youth de volta à força, eles resolveram tentar na base do “jeitinho”. Sabiam que você teria mais afinidade com ele; isso ficou bem claro até pro pessoal aqui de Omsk nesses últimos dias. Então, eles te mandaram aqui, esperando que você o conquistasse de uma forma mais profunda... Só que a lebrezinha ruiva aqui tava deixando a tartaruga ganhar, né?
A garota corou de vergonha, e ficou ali, sem olhar nos olhos de Kaze, quando de repente um grunhido vindo da barriga do garoto cortou o silêncio.
Kaze: Opa! Tenho que fazer a minha bóia. Até mais, gatinha!
Após o garoto de cabelo espetado ir embora, Mili resolveu que era hora de ver Youth novamente. Ela desceu o lance de escadas e se dirigiu à porta de saída do edifício.
Reddar: Ele está mais apático que o normal.
Em sua sala, Reddar acabava de mexer o açúcar diluído na xícara de chá que estava prestes a beber. Do outro lado da mesa, Darius, que escutava atentamente e também apreciava uma xícara de chá, respondeu.
Darius: Ele está com o orgulho ferido, ao que parece. Estou muito curioso a respeito do desempenho dele.
Reddar: Por quê?
Darius: Acho que desde que ele chegou aqui, ele não tem lutado de maneira mais... Compenetrada. Creio que falta determinação da sua parte. Ele é filho de um chefe de estado; certamente teve o melhor dos treinamentos.
Reddar: Faz sentido...
Darius: Tu te lembras de quando fomos investigar o atraso dos caminhões de suprimentos na véspera de Natal? Ele foi atingido por um paralelepípedo no peito. Pensas mesmo que alguém como ele se deixaria ser atingido dessa forma tão facilmente?
Reddar: Tem razão. Mas não podemos esperar que ele passe a ter vontade de nos ajudar de uma hora para outra.
Darius: Por isso temos que motivá-lo.
Reddar: E como pretende fazer isso?
Darius: Nós damos um jeito. Ah, lembrei-me de um detalhe que gostaria de compartilhar contigo. É sobre o Kaze.
Reddar: O que ele fez dessa vez?
Darius: Quando ele interferiu na batalha do Youth, ao invés de lutar, ele ficou parado por um tempo. Ele deu a entender que sabia do ataque vindouro.
Reddar: Não seria novidade, os ouvidos dele podem...
Kaze: EU OUVI MEU NOME?!
Reddar e Darius tomaram um grande susto com o berro e a presença totalmente inesperada do manipulador de vento e fogo no recinto. Ele virtualmente apareceu do nada, já sentado na mesa do Reddar.
Darius: D-De onde surgiste, mentecapto?!
Kaze: Da barriga da minha mãe, oras. Sabe como é; meu pai bebeu, minha mãe bebeu, bateu a vontade, aí os dois puseram um par de chifres na namorada dele e...
Reddar: Não se faça de engraçadinho! Como entrou aqui?! Por acaso faz teleporte também?!
Kaze: Cara, modéstia à parte, eu sou um sujeito mágico. E mágicos não revelam seus truques.
Reddar: Tá legal, já fez o seu showzinho; agora, caia fora!
Kaze: Hah! Não mesmo. Eu tava na cozinha preparando um sanduíche de boa e vocês me chamaram. Agora, aguentem, ué.
Darius já tinha se arrependido de ter mencionado o nome do Kaze na conversa, mas já que ele estava ali, ele ponderou se era possível ele prestar alguma ajuda. Reddar, porém, já imaginava que isso poderia acabar em um fiasco.
Kaze: Vocês estavam dizendo que Youth se finge de fraco, é?
Darius: Não é exatamente assim, mas a linha de raciocínio é algo do tipo.
Kaze: Ah, qual é... Por que vocês acham que ele está escondendo o jogo?
Darius: Talvez esteja desmotivado.
Kaze: Então, deixe-me falar com ele...
Reddar: Não, Kaze... Isso não é boa ideia. De todas as pessoas daqui, você é a que ele menos gosta.
Kaze: Ele não pode ficar com vergonha da gente pro resto da vida, meu chapa.
Reddar: Mas é melhor deixá-lo por enquanto. Eu preciso que vocês me deem licença agora. Tenho assuntos para resolver.
Kaze: Mas...
Reddar: Agora!
Contrariado, Kaze saiu do local e Darius o acompanhou. Este ainda tratou de repreendê-lo.
Darius: Não poderias tu causar menos estardalhaço? Tu deixaste o senhor Reddar desconfortável.
Kaze: E por acaso, ele tem conforto em ver os companheiros dele morrerem?
Aquela pergunta pegou Darius de surpresa. Por causa da expressão ainda jovial do garoto, ele não sabia dizer se o garoto estava falando sério ou se estava de brincadeira outra vez. Como se Darius tivesse perguntado qual era o sentido daquilo, Kaze deu-lhe uma resposta.
Kaze: Parece que há gente aqui que precisa aprender a lidar com seus próprios sentimentos. E não é só o Youth.
Darius nada respondeu, só olhava com espanto para Kaze, enquanto este meramente sorria.
Kaze: Ih, rapaz, me esqueci do meu sanduíche! Até mais, cara!
Assim, Kaze se foi, deixando Darius bastante intrigado. Ele não podia evitar em se questionar quais eram as verdadeiras intenções daquele garoto. Em sua mente, provavelmente ele não era bom apenas em manipular elementos naturais.
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