Crossroads - The Dark Hunters Chronicles
20 Doce Mili
Mili: Oi, Youth! Quanto tempo!
A menina estava na porta do apartamento de Youth, que tinha ido recebê-la. Ele, porém, não esboçou reação, mantando apenas a expressão incrédula no rosto.
Youth: Mili? O que veio fazer aqui?
Mili: Bem, eu arrumei um tempinho livre... Aí, resolvi te procurar.
O jovem olhou nos olhos de Mili de forma pouco amigável, deixando implícito que de fato se importava. A menina porém não se incomodou, pois sabia o que ele estava pensando. Ambos ficaram quietos por um momento até que Tyto quebrou o silêncio.
Tyto: Bem... Eu vou deixar vocês mais à vontade.
Mili: Obrigada, Tyto.
Tyto: De nada, foi um prazer. Até mais.
O silêncio voltou após a ida de Tyto. Sem ter muito o que contrariar, Youth fez as cortesias para sua visitante.
Na prefeitura, Reddar aproveitava um momento de paz em seu escritório. Separou uma porção de tempo para pensar nos últimos acontecimentos e concluiu que estava em uma situação de certa forma interessante. Enquanto observava documentos, o telefone tocou, e Reddar prontamente atendeu o chamado.
Reddar: Alô.
?????: Oi, Reddar-san! Como está?
O ruivo imediatamente reconheceu a voz.
Reddar: Ah, olá. Eu estou bem. E como vai o senhor?
?????: Já não disse para não me chamar de senhor.
Reddar: Ah, perdoe-me. É força de hábito.
?????: Tudo bem. Diga, que vai ter de bom na Virada?
Reddar: Estamos nos empenhando em fazer uma comemoração.
?????: Ah, muito bom. E o garoto? Como ele está?
Reddar: Está falando do Youth?
?????: O próprio. Já apareceu alguém procurando por ele?
Reddar: Ainda não... Mas a possibilidade ainda persiste ao meu ver.
?????: Muito bem então. Quando a treta começar, me avise.
Reddar: Pretende se envolver?
?????: Não exatamente. Quero ver como você se sai com um problema desse naipe.
Reddar: Hmph... Parece até que você vê a guerra como um tipo de espetáculo...
?????: De certa forma é, não?
Reddar: ...
?????: Bem, eu liguei para te desejar um feliz 2101. Agora falta ligar para as muitas outras cidades restantes...
Reddar: É, ponha muitas nisso... Mais uma vez, eu agradeço a toda ajuda que você se dispôs a dar.
?????: Sem problema, meu caro. Feliz Ano Novo!
Reddar: Igualmente.
Reddar pousou o fone no gancho, suspirou e falou para si mesmo.
Reddar: Cada maluco, viu...
Catorze horas e vinte e dois minutos. No apartamento, Mili e Youth conversavam. Na verdade, a conversa era quase unilateral; a menina fazia várias perguntas e o jovem respondia com custo.
Mili: Então aquele menino, o Kaze, está aqui também... Por curiosidade, qual foi sua reação ao vê-lo?
Youth: Eu tive um ataque de fúria. Fui obrigado a ficar aqui como punição.
Mili: Eu imaginei. Mas sabe, quanto mais cedo você deixar isso de lado, melhor será.
Youth: Uma coisa dessas não se esquece tão facilmente.
Mili: Youth...
Youth: Você não sabe como é se sentir incompetente... Não sabe como é se achar incapaz de cumprir seus objetivos...
Mili achou melhor não encarar tais respostas de frente. Ela não queria deixar Youth mais irritado e fazê-lo causar mais problemas como consequência.
Youth: Às vezes, eu não me sinto parte da causa dos Estados Unidos. É como se eu estivesse ligado ao país por acaso. Na verdade eu me acho diferente de um americano comum...
Mili: Pode ser que você seja diferente. Mas sabe, se você faz parte dos Estados Unidos ou não, basta uma decisão sua... E uma pilha de documentos para cidadania estrangeira.
Youth deu uma risada discreta.
Youth: Às vezes eu esqueço que a burocracia existe mesmo em tempo de guerra. É mesmo impressionante...
Outra vez, Mili não respondeu. Ela se limitou a observar Youth por alguns segundo em silêncio. Depois, ela se manifestou com um grande sorriso.
Mili: Eu já sei o que vou fazer. Vou me dedicar a melhorar o seu humor.
Youth: Como assim?
Mili: É isso aí. Vou dar um jeito de te deixar mais animado. Você anda muito pra baixo; precisa ser mais firme.
Youth: Olha só, não precisa...
Foi então que a garota não resistiu e deu uma gargalhada contida.
Mili: Ai, desculpa, Youth! Eu tava brincando!
Youth: Hã?
Mili: Até porque, se eu bem te conheço, acho que você não ia gostar de me ver grudada em você o tempo inteiro... De qualquer forma, desculpa.
O jovem não queria demonstrar, mas estava muito contente de ter Mili por perto. Apesar do que ela disse, de certa forma, Youth sentia falta da menina; sentia falta de um amigo de confiança.
A noite chegava e todos em suas residências se preparavam para a comemoração. O clima também ajudou, tornando a nevasca ausente na presente data. A prefeitura seria o lugar do evento e tudo já estava pronto.
Kaze: Oho, é isso aí! "Missione completa, signori"!
Tyto: Beleza. A propósito, com tanta festa, como vai lidar com as finanças, Reddar?
Reddar: Fazendo o de sempre — Comércio, serviços e ajuda de custo.
Darius: Sim. Contudo, eu temo que a cidade precise crescer ainda mais.
Tyto: E por acaso os americanos irão deixar?
Reddar: Se nós resistirmos aos ataques deles, sim. Pra ser franco, antes eu achava impossível, mas agora eu acho que temos ótimas chances.
Kaze: Olha só, o vermelhinho tá otimista hoje. Se bem que isso não chega a ser novidade, considerando que eu estou por perto agora.
Reddar: Heh... Até parece. Bem, já está na hora. Vamos nos arrumar para a festa.
Youth havia caído no sono, vencido pelo imenso tédio. Mili, sabendo através do jovem que haveria uma comemoração na cidade, pensou que seria uma oportunidade de conhecer Omsk de maneira discreta. Ela também sentia vontade de levar Youth para fora de seu apartamento para entretê-lo e tê-lo como guia, mesmo que o jovem não tenha demonstrado intenção de sair. Quando terminou de se aprontar, ela se aproximou de Youth e o cutucou.
Youth: Mmm...
Mili: Youth, acorde!
Youth despertou, esfregou os olhos e voltou sua atenção a Mili.
Youth: Por quê me acordou? E por quê está vestida assim? Por acaso vai à festa?
Mili: Nós dois vamos. Portanto vá se arrumar.
Youth: Eu falei pra você que estou aqui sob ordem. Não posso sair daqui.
Mili: E você vai ficar aqui mofando?
Youth: Qual o problema? Além do mais, você sabe que eu não ligo muito para festas.
Mili: É porque você foi forçado a ficar encerrado o tempo todo. Mas agora não tem porque ser assim.
Youth: Hmph... Só sei que eu recebi uma ordem, e eu vou obedecê-la.
Mili: Ah, vamos, Youth! Não é possível que você vá ter um problema em desobedecer uma ordem boba dessas, ainda mais em véspera de Ano Novo!
Youth: Pois eu acho o contrário.
A menina viu que seu esforço não estava dando o resultado esperado. Ela parou, pensou um pouco e tornou a falar.
Mili: Quando eu soube que você havia parado aqui, eu me senti satisfeita...
Youth: Como assim?
Mili: Porque eu pensei que você achou um lugar seguro onde te tratam bem e te respeitam. E com isso minhas preocupações acabaram.
Youth: Você estava preocupada comigo? Não acredito...
Mili: E eu não acredito que você está duvidando de mim.
Youth: ...
Mili: Me diga, o líder daqui é legal, certo?
Youth: Bem... Ele tem sido gentil comigo.
Mili: Pra mim, é o bastante. Agora, vá tomar banho e não esqueça de lavar atrás das orelhas. Eu quero você cheiroso, ouviu bem?
Youth: (E eu me perguntava por que eu não sinto falta de uma mãe...)
Vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. A comemoração estava intensa. Na mesa principal estavam Reddar, Kaze, Tyto e outros convidados importantes.
Kaze: Aí, xará! Esse doce aí é meu!
Tyto: Nada disso! Você já comeu, agora é a minha vez de provar!
Mas, quando Tyto foi comer o doce, percebeu que ele não estava mais em sua mão. Simplesmente desapareceu.
Tyto: Ué... Cadê o meu doce?!
Kaze: Nham nham... Descendo a minha goela.
Tyto: Quê?! Como você...
Kaze: Hehehehehe...
Tyto: Desgraçado!
Reddar: Ei, vocês dois! Dá pra terem mais modos à mesa?
Kaze: Desculpa... Aliás, onde é que o Darius se meteu? Ele nem apareceu depois de ter ajudado com a festa...
Reddar: Ele deve ter algo importante para fazer. Garanto que ele virá daqui a pouco.
Kaze: Hm... Sei não, ele não parece ser do tipo festeiro. Bem, o lado bom disso é que sobra mais comida, bebida e mulher pra mim. Hehehe!
Reddar: Que típico...
Tyto: (Meu doce... Como foi que aquele miserável pegou o meu doce?!)
Mili caminhava na direção do edifício da Prefeitura puxando Youth pelo braço. Quanto mais próximo o prédio, mais intensa era a tensão do jovem.
Youth: Mili, é melhor voltarmos... A gente já andou bastante...
Mili: Ah, que é isso! A noite apenas começou!
Youth: A prefeitura está cheia de gente... Eu não me sinto muito bem no meio de uma multidão...
Mili: Não se preocupe, eu estou aqui com você.
Os dois adentraram o local da festa e Mili começou a exibir simpatia, retribuindo os cumprimentos das pessoas sempre com um sorriso no rosto. Algumas imaginavam quem era ela, pois nunca a tinham visto na cidade. O devaneio delas foi interrompido por um berro de Reddar.
Reddar: Pessoal! Contagem regressiva!
Ouviu-se um coro ritmado, contando os segundos. Em seguida, uma grande e feliz comemoração tomou conta de todo o lugar. O ano finalmente acabou.
Kaze: Ué, cadê os fogos?
Reddar: Não temos fogos.Estamos no meio de uma guerra, esqueceu?
Kaze: Ih, é verdade, nem me liguei. Que mancada...
Reddar: ...
Kaze: Bem, o jeito então é acabar com essa guerra pra termos fogos no próximo fim de ano. Outro bom motivo pra ficar por aqui!
Reddar não conseguiu conter o sorriso ao ouvir seu "amiguinho" dizer tal coisa. Por mais que parecesse idiota, o ruivo notava que o garoto demonstrava honestamente seu desejo em ajudar.
Kaze: Bem, se me der licença...
Dizendo isso, o garoto de cabelo espetado se enfiou no meio da multidão e se pôs a dançar com a primeira menina que viu. A mesma se surpreendeu, mas resolveu corresponder ao gesto do rapaz.
Reddar: Heh... Ele não perde tempo mesmo, não é Tyto?
Reddar olha para o lado e vê que Tyto também não estava mais por perto.
Reddar: Nem você, né...
A festa se desenrolava com toda a euforia e dava sinais de que duraria por toda a noite. Enquanto isso, Mili e Youth conversavam num canto isolado.
Mili: Ai ai... Eu queria ficar aqui mais um pouco.
Youth: Mas eu quero ir embora. Não me sinto bem aqui.
Mili: Ah, fazer o quê, né... Mas fora isso... Feliz Ano Novo, Youth.
Mili deu um abraço em Youth, que lentamente correspondeu com o mesmo gesto. Porém, Youth não pôde deixar de reparar na expressão descontente no rosto da menina. Remoendo-se de tristeza, ele a olha nos olhos.
Youth: Volta pra lá, vai.
Ele então virou as costas e se foi, despertando lembranças na mente da menina. Em meio à melancolia, ela se tocou de que não ia perdê-lo de novo, e isso era bom. Por ora, ele podia ir. Ela se pôs a caminhar para a festa, certa de que Youth tinha sido útil o suficiente.
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