Crossroads
1 Capítulo 1 - Paulo Scharwz
Eu nem ao menos posso me considerar alguém decente e digno da amizade e da compaixão das pessoas, não importa aonde eu tenha ido nesses meus 15 anos de vida, não consigo parar de odiá-las por mais que tentem todas não são nada além de lixo capitalista aos meus olhos, eu as odeio. Eu ainda sigo uma rotina imposta para mim pelos meus pais adotivos, eles nem ao menos devem sentir algo por mim, provavelmente só devem ter me adotado pelo fato da minha irmãzinha ser o bebezinho ideal aos olhos de qualquer adulto que procura um bebê para a adoção, mas, como infelizmente somos irmãos, não podem nos separar, eu sou o que restou no pacote de Ruffles, aquela batata pequena que você quer jogar fora, mas não pode, isso sou eu, Paulo Schwarz, 15 anos de idade, filho de pais alemães, mortos em um acidente de carro 13 anos atrás, vivendo uma rotina de ódio e repulso com essa família que nem ao menos sentiria a minha falta caso eu morresse. Sinceramente? Eu nem ao menos tento manter um contato social com as pessoas mais, falo com elas quando necessário e nada, além disso, provavelmente elas devem me enxergar como algum tipo de antissocial vagabundo, ou algum delinquente, eu nem ao menos me importo com isso mais, você liga para o destino da garrafa de água que você joga no chão? Então, por que eu deveria ligar para o que o mais nojento lixo pensa de mim.
Eu vou para uma escola, sou obrigado a isso por quem tenho o desprazer de chamar de pais, eles ao menos pagam para mim uma escola particular de nível mediano, a cerca de 45 minutos da minha casa, na qual sou obrigado a ir de ônibus e metrô lotado todos os dias, enquanto o anjinho da minha irmã é levada na sua escola preparatória de alto nível no carro do meu pai, a escola dela são a 15 minutos a pé de casa, mas o bebê não pode nem ao menos andar um pouco, pois isso machucaria o tesouro deles, mas o filho mais velho que é obrigado e acordar as 5:30 da manhã, e andar em um transporte público completamente lotado e nojento, eles não tem dó.
Vou para a escola de segunda a sexta, entrando as 6:45 e saindo de lá às 12:30, e obviamente, demoro mais 45 minutos para chegar em casa e cozinhar o meu próprio almoço, pois fico sozinho com a minha irmã praticamente toda a tarde, ela sempre fala para eles que eu fiz o almoço dela, então tenho que ter a preocupação de levar sempre um conjunto de talheres a mais todos os dias, se eles ao menos suspeitassem o que ela anda comendo por ai duvidaria que continuaria recebendo esse tratamento de princesinha. Eu nem ao menos suporto ela, enquanto me preocupo em fazer todos os meus deveres escolares e estudar para o vestibular, que se possível, passarei no lugar mais distante daqui para nunca mais ter que voltar para essa casa, a maior preocupação dela é tirar uma foto nova de perfil para o Facebook e ficar mandando mensagens para alguma amiga da qual ela provavelmente vai vir falar de como a amiga dela é duas caras depois de quatro dias, será que ela nem ao menos se toca de que eu não ligo para os problemas de uma garota de 14 anos como ela, a qual, diferente do irmão, teve tudo o que quis dos pais e é adorada por tudo e todos por ai.
- Rabugento, eu vou sair com aquela vaca da Marina hoje para ir em uma festa de uns amigos nossos, pode falar para eles que eu estou na casa da Clara? Ela já falou que se ligarem lá ela vai confirmar que eu vou passar a noite lá
Jesus Cristo, ainda são 14:30 e você já vai sair? Se eu pudesse contar toda a verdade para eles, se eu pudesse contar sobre as várias vezes que você foi em festas sei lá onde, se eu pudesse contar sobre as fotos dela pelada na Internet, que pelo menos não mostram o rosto dela, se eu pudesse contar sobre as várias vezes que você voltou as três da manhã bêbada, mesmo sendo menor de idade, e sobre como tive que escovar seus dentes e limpar seu hálito, e ainda fingir que você estava gripada acordando mais cedo, esquentando água e passando na sua testa, mas eu não posso. Pois mesmo eu odiando você por todo o tratamento privilegiado que recebe, você continua sendo minha única família original, você continua sendo a minha irmã, Luana Schwarz.
- Vou avisá-los, e pelo amor, some com aquilo da sua gaveta, uma hora ou outra eles vão achar. E vá para a escola amanhã, se quiser, me espera na estação da Barra Funda à 5 horas que eu deixo seu uniforme com você.
- Obrigadinha, mesmo sendo assim você continua sendo um bom irmão.
Ela se foi, praticamente o meu último resquício de vida social acabou de sair pela porta, eu sei que ela deve voltar amanhã, ela sempre volta, mas esse nem ao menos é o maior dos meus problemas. Provavelmente, assim como foi das últimas vezes eu tenho que convencer a Clara a falar que a Luana foi passar a noite lá, terei que parar os meus estudos para ir até a casa dela, eu não aguento essa garota, por algum motivo, aparentemente na primeira vez que ela me viu quando veio aqui em casa deve ter me visto estudando, e por algum motivo se “apaixonou” por mim, obviamente ela é só uma garota interesseira e sem valor cultural nenhum, mas, mesmo assim, a mãe dela gosta de mim, e eu gosto da mãe dela. Escritora renomada e com vários sucessos traduzidos em várias línguas, ela é uma das maiores escritoras sobre política da atualidade, ela basicamente possui uma excelente visão política e uma ótima capacidade de me ajudar nos estudos, sempre aproveito as oportunidades de convencer a Clara para melhorar ainda mais os meus estudos e me aproximar ainda mais do meu objetivo, acho que minha irmã deve ter notado a minha admiração pela mãe dela, Anna Guimarães, e por isso me faz ir a casa dela convencer ela toda a vez, o lado bom é que são menos de quinze minutos de caminhada daqui, o que não é muito longe. Obrigado, irmã.
Foi uma boa caminhada, se tem algo no qual eu ainda sinto prazer é em caminhar, sinto que por depender de mim, e só de mim, eu consigo ser livre, eu consigo ser quem eu quero ser. Toquei a campainha assim que cheguei o Cruize não estava na garagem, sinal de que a mãe dela não se encontrava, mesmo já tendo vindo aqui tantas outras vezes, eu ainda me surpreendo com o tamanho da casa, mesmo sendo um sobrado, possui um amplo jardim, com uma garagem com capacidade para três carros, logo que toquei a campainha, Clara veio a minha presença, logo que me viu pareceu bastante feliz com a visita, me convidando para dentro logo em seguida, a casa também era relativamente grande e agradável, sendo bem ampla, com um pequeno hall de entrada, ele se prolongava para a sala, a qual era relativamente pequena, mas agradável, logo em seguida estava a escada para o segundo andar da casa, segui Clara pela escada, indo em direção até o quarto dela, ela entrou primeiro, entrei em seguida e fechei a porta, ela começou a falar:
- A Lu me ligou hoje, falou que iria sair e que era para eu falar que ela estará dormindo aqui essa noite. Veio aqui para isso, não é? Para ter certeza que eu não vou falar para os seus pais que ela não está aqui, que foi em algum lugar, que ela não é santinha que eles pensam que é, mas você sabe que eu nunca falaria nada disso para eles, mas mesmo assim veio. Estava com saudades, não era?
Não, não estava com nenhuma saudade de você, vaca interesseira, eu senti que deveria vir e vim apenas isso. Você pode ter se apaixonado por mim, e eu posso ter aceitado os seus sentimentos, mesmo eles não sendo recíprocos pelo simples fato de que não posso recusar pedidos feitos à mim e graças a isso começamos a namorar, apenas senti que devo visitar a minha namorada, ainda mais quando ela não se cansa de aceitar pedidos da minha irmã e fazer favores para ela.
- Isso, exatamente, estava morrendo de saudades de você, me desculpe por ter usado minha irmã como uma desculpa para vir até aqui te ver.
- Você não precisa de desculpa nenhuma para vir até aqui, amor, você só precisa vir, sabe que estarei aqui para você quando precisar. – ela dizia isso enquanto ia se aproximando cada vez mais de mim, com o corpo e o rosto cada vez mais pertos do meu – Minha mãe não estará em casa até às 19 horas hoje, quer aproveitar?
Ela começou a me beijar, os lábios dela eram simplesmente perfeitos, redondos e com um excelente tamanho, pelo menos de alguma coisa valia vir até aqui pelo menos duas vezes por semana, e uma dessas coisas era a Clara, ela podia ser quase insuportável, mas ela gostava de mim, e conseguia me dar uma sensação de conforto e segurança que não conseguia sentir em nenhum outro lugar. Ela foi me empurrando cada vez mais em direção ao chão, até chegar o ponto em que estava deitado e ela ficou sobre mim, foi aproximando o rosto, sem sair de cima de mim, até chegar ao ponto de estarmos com os rostos relativamente perto, ela se aproximou com a boca do meu ouvido e disse bem baixo:
- Hoje é por minha conta.
~//~
Sai da casa da Clara por volta das 19:00, já estava realmente escuro, mesmo com ela insistindo para eu passar a noite lá, e a mãe dela falando que não seria problema nenhum, não me senti no clima para isso, tinha que voltar para casa o mais rápido possível para não levantar suspeitas, mesmo sabendo muito bem que eles não estariam antes das 22:30 em casa, mesmo assim, tive certeza de chegar antes, essa caminhada de 15 minutos por algum motivo estava parecendo mais longa do que o habitual nessa noite, mas o clima estava bom, caso fosse uma sexta-feira e eu fosse maior de idade provavelmente estaria em algum bar bebendo cerveja, mas esse não é o caso, eu tenho que ir para casa, tenho que ter certeza que os meus “pais” vão achar que a Lu está na casa da Clara, eu posso não gostar deles, ter sido tratado como um encosto e minha irmã ter tudo de bom, mas eu pelo menos tenho que ela tenha uma vida boa.
Cheguei em casa não muito depois, escrevi um mero bilhete sobre a localização da minha irmã, tomei meu banho, preparei a janta para mim e meus “pais”, que a esquentariam mais tarde, terminei toda a tarefa de casa que tinha que realizar e me preparei para dormir, ainda eram 21:18, mas teria que acordar cedo amanhã para levar as roupas da Lu até a estação, teria que acordar mais ou menos às 4:30 para conseguir me arrumar e estar na estação às 5 horas, mesmo assim, chegaria na escola mais cedo que o comum, peguei algum livro que comprei recentemente e não tive a oportunidade de ler ainda, 1984 de George Orwell e o coloquei na minha mochila. Peguei o celular para dar uma rápida checada no meu Facebook para ver se alguém tinha me mandado algo, não tinha nada, mas uma coisa me chamou a atenção, um dos meus colegas de classe, um dos quais não devo ter trocado nem ao menos vinte palavras com ele durante dois anos tinha postado algo, cerca de nove palavras, mas que foram o suficiente para ter a minha atenção, era basicamente: “Gente, amanhã teremos uma aluna transferida na nossa sala!” Pelo jeito teremos alguma coisa de bom acontecendo, finalmente.
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