Crossroads
3 Capítulo 3 - Transferida
Notas iniciais
Acordei mais cedo que o normal, às 4:30 da manhã. Escovei os dentes no banheiro do andar de baixo, peguei o uniforme da minha irmã que havia separado na noite anterior e que havia deixado guardado no meu guarda-roupas, para que nenhuma suspeita seja levantada. Troquei para o meu uniforme rapidamente, peguei um pacote de bolachas de água e sal que estava pela metade no armário da cozinha, peguei a minha mochila, e sai. Olhei para o céu assim que sai de casa, ainda estava tudo escuro, ainda faltavam duas horas para o amanhecer. A rua estava vazia, olhei para os dois lados antes de fechar o portão e segui o meu caminho. A ida para o metrô que eu repetia praticamente todos os dias era bem calma, a rua quase não possuía movimentos de pessoas, nem ao menos de carros, além disso, era uma caminhada rápida, de cerca de 10 minutos. Olhei para o relógio, eram 4:40, estava dentro do horário, mas resolvi apertar o passo para o caso dela chegar mais cedo. Peguei meu celular e chequei se não havia mensagens, não existia nenhuma. Liguei para a Lu, e por sorte, ela atendeu rápido:
– Então, eu estou quase chegando no metrô, você está lá já?
– Estou quase lá, não consegui arranjar carona e estou tendo que ir a pé, devo estar lá em uns cinco minutos. – Respondeu ela, parecia exausta.
– Eu estou levando metade de um pacote de bolacha, você não comeu nada, né?
– Ainda não, obrigadinha.
– Okay, seus olhos não estão vermelhos, né? De qualquer maneira, me espere na frente das catracas.
– Estarei esperando, fofo! – E ela desligou, sem dar nem ao menos um tchau.
Cheguei ao metrô não muito tempo depois, indo em direção as catracas, por sorte ela estava lá me esperando já. Vestia uma minissaia colada que dava volume as coxas que ela tinha, mas era até que relativamente grande comparada as outras mini saias, considerando o tamanho padrão. Usava uma jaqueta que cobria quase toda a minissaia, a jaqueta, por estar aberta até a metade, permitia ver em parte a camisa que era usava. Era uma camiseta, realmente, não uma blusa decotada, praticamente, provavelmente deveria ter mangas, era roxa, parecia ter um tecido leve. A roupa que ela usava se adequava bem com o cabelo loiro e longo que ela tinha, e dava destaque as suas longas pernas. Logo que me viu gritou de maneira que praticamente todos em volta ouviram:
– Você demorou, hein! Achei que ia ser esquecida aqui. – Disse isso enquanto batia o pé esquerdo no chão, de maneira furiosa.
– Relaxa, vai, você deve ter chegado aqui não faz nem dois minutos. – Enquanto falava, coloquei a minha mochila no chão e fui abrindo-a, retirei o uniforme dela. – Aqui está, vou esperar você se trocar, depois disso te dou algo para comer.
Ela pegou as roupas e me olhou com um sorriso. Fomos juntos até o banheiro da estação, fiquei cerca de dez minutos esperando ela se trocar, quando ela finalmente saiu, logo disse:
– Pode me dar a bolacha logo?
Abri o bolso frontal da mochila e retirei a bolacha, dando na mão dela, que abriu o pacote com de maneira feroz, e comeu praticamente tudo que restava do pacote em menos de dois minutos, não abrindo a boca para falar sequer uma vez, quase não dando para respirar, quando finalmente terminou de comer, olhou para mim e disse:
– Estou indo, obrigada, maninho!
– De nada, vá para a escola e comece a voltar para casa as vezes.
Ela me deu um sorriso, virou as costas e foi embora. Chequei o relógio, eram 5:30, eu tinha muito tempo ainda, mas não queria desperdiça-lo. Passei pela catraca, e por sorte, a plataforma estava vazia, então pegar o primeiro trem, que por algum tipo de milagre possuía lugares para de sentar foi possível. Coloquei meus fones e comecei a ouvir música.
Cheguei na estação desejada 15 minutos depois, enquanto Raise Your Weapon tocava no meu celular. Olhei para o relógio, ainda eram 5:45, tinha mais uma hora. Caso pegasse o ônibus demoraria somente mais 15 minutos, tendo quase uma hora livre, resolvi andar. A caminhada demorava cerca de 30 minutos, não era das mais longas, mas não era das mais curtas, mas era agradável ver o dia amanhecer. A parte mais difícil de todo o caminho era sem dúvidas a passarela. Os degraus eram relativamente grandes, fazendo que o esforço necessário naquela parte serem dobrados. Chegando lá, aproveitei para observar o Sol nascer, era uma bela cena, mas algo mais a frente me chamou a atenção, uma garota, de belos cabelos morenos, observava o Sol quase como se fosse cair da passarela, mas logo se recuperou e voltou a seguir seu caminho. Apressei o passo para poder passar na frente dela e poder observar o seu rosto. Era uma desconhecida, talvez seja a garota transferida sobre quem soube ontem, mas pouco me importava, ela provavelmente nunca falaria comigo de qualquer forma e eu provavelmente nunca falaria com ela, mas aproveitei a passada para dar uma rápida olhada no rosto dela. Ela era linda. Possuía cabelos longos que serviam muito bem para o seu rosto, que era do tamanho ideal, além disso, usava sombras nos olhos, reforçando eles, mas não deixava toda a atenção ser focada somente neles, pois usava um forte batom vermelho que caia muito bem nela, fazendo com que a pessoa ao falar com ela, focasse em todo o rosto dela. Virei o rosto e segui meu caminho, cheguei a escola as 6:31, por sorte, logo depois do portão ser aberto. Entrei e segui meu caminho pela escola que ainda estava vazia.
A minha escola era de porte médio, para cerca de 500 alunos em cada período, possuindo somente aulas para alunos do fundamental II em diante. O portão levava a uma rampa de cerca de 15 metros, que no final dela, possuía o a sua entrada. Era um pequeno jardim com alguns bancos em volta, tínhamos a recepção e as salas administrativas como a Coordenação e a Diretoria do seu lado esquerdo, ao lado direito tínhamos um teatro com capacidade para cerca de 530 pessoas. As salas de aula ficavam ao lado do teatro, que possuía dois corredores laterais, cada um com cerca de cinco salas, quatro para o sexto ano, duas para o sétimo, três para o oitavo e uma para o nono. Havia também mais nove salas a frente da praça, de frente para a rampa, elas ficavam juntas de um corredor que levava para a quadra e para o pátio, que estranhamente era o único lugar do edifício que possuía banheiro. As salas da frente, ou salas do médio como costumavam ser chamadas, era a que possuía a melhor divisão entre os anos, com três salas para cada ano do ensino médio, o corredor dela também costumava ser o mais movimentado por ser o que melhor possui acesso as dependências da escola. A minha sala era a quarta do corredor, a primeira sala do segundo ano, a sala 2-1.
Entrei na sala, ela estava vazia, aproveitei para me dirigir para o meu lugar, era o último lugar da primeira fileira, a que fica ao lado da parede e é a mais distante da mesa do professor, sendo a mais que fica mais perto da porta. Coloquei a cadeira encostada na parede trás, abri a minha mochila e peguei meu livro, coloquei os meus pés encima da mesa e comecei a ler.
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Já eram quase 6:45 quando a sala começou a ficar cheia, a garota que sentava a minha frente tinha finalmente chegado, me fazendo guardar o livro e retomar a minha postura normal, tirando os pés de cima da mesa. O nome dela era Beatriz, não sabia qual era o sobrenome dela. Ela era amigável, não sendo o tipo popular da sala, se retendo a estudar quando necessário e falar quando necessário, não tinha relatos dela ter namorado ninguém em toda a sua vida, mas mesmo assim, era bonita, possui cabelos castanhos curtos, passando um pouco do ombro, era razoavelmente baixa e não possuía um corpo chamativo. Não tinha nenhuma característica especial. Assim que ela pois a sua mochila sobre a mesa me deu bom dia com um sorriso em seu rosto, sorri de volta praticamente ao mesmo momento em que o professor entrava na sala junto com a aluna nova. Era a mesma garota da passarela.
– Bom dia, classe. Hoje temos uma colega nova. Por favor, se apresente. – O nome do professor era Carlos, ele administrava matemática, possuindo cinco aulas por semana e sendo o professor coordenador da sala. Ela alto e possuía barriga, estava começando a perder os cabelos. Não costumava fazer piadas e mantinha um tom sério grande parte das vezes.
– O meu nome é Gabriela Moraes. Estarei estudando com vocês pelos próximos dois anos. – Ela não era alta, mas também não era baixa, daria cerca de 1,65m para ela, provavelmente seria a medida dela.
– Muito bem, vamos ver onde temos um lugar vago...Ah, ali. — Ele apontava para a terceira mesa da fileira mais próxima da mesa dele, dando uma boa distância entre mim e ela. Perfeito. – Vamos aproveitar que estamos okay com a matéria, vou dar para vocês cerca de 20 minutos para conhecerem a colega nova.
Perfeito, 20 minutos a mais de leitura para mim. Boa parte da classe levantou para ir falar com ela, ou falar com os próprios grupinhos assim que ele se sentou, eu e a Beatriz continuamos nos nossos lugares. Caso tivesse sorte ela não tentaria puxar assunto comigo, me deixando continuar a leitura em paz. Infelizmente não tive essa sorte:
– Paulo, você fez a lição de Biologia? – Biologia era a próxima aula, ele havia pedido essa lição a duas semanas atrás, mas não era muito longa, havia feito ela à séculos.
– Ah não, acabei esquecendo, acho que não dá tempo para terminar agora. – Menti.
– É verdade, agora não dá mais. Vou deixar sem fazer mesmo. – Ela deu um sorriso envergonhado, mas isso não foi o suficiente para parar a investida dela. – Mas e aí, achou o que da garota nova?
– Ela é bem bonita, mas não parece ser do tipo amigável. – Peguei o meu celular e abri o Reddit, queria acabar com a conversa o mais rápido possível para poder voltar a ler o meu livro.
– Ah, eu achei que ela deve ser uma pessoa divertida, gostaria que tivesse um lugar vago por aqui. – Ela suspirou, provavelmente iria preferir a garota nova a mim atrás de você, sei como é. – Tá vendo o que ai no celular?
– Ah, notícias.
– Garoto informado você, hein? Vou te deixar ai em paz. – Ela se levantou e foi falar com uma amiga dela, Melissa, se não me falha a memória. Finalmente poderei voltar à leitura.
Os 20 minutos se passaram rapidamente e as aulas diárias continuaram sem nenhuma maior interrupção, mas acabei notando certas coisas sobre a garota nova. Primeiramente ela tende a interromper toda a qualquer tentativa de conversa que tentam ter com ela, a maior conversa de uma pessoa com ela chegou a durar menos de dois míseros minutos. Pelo menos temos algo em comum. Em segundo lugar, ela não dava a mínima para todos os exercícios de sala e nem para as explicações, mas não é como se ela não entendesse eles, ela parecia entender tudo muito bem, estava desmotivada apenas. Ao sinal do intervalo, peguei a ficha da cantina que tinha em minha mala e segui em direção ao pátio.
O pátio da escola era grande, tinha muito bem a capacidade de comportar todos os alunos do período da manhã de forma exemplar, mas mesmo assim, tínhamos dois intervalos, um para o fundamental, no fim da terceira aula, e uma para o médio, no final da quarta. O pátio por si só deveria possuir cerca de 150m², claro, não sabia o número exato e perímetro não era lá a minha praia. A cantina se localizava na parte traseira do pátio, de modo que para os alunos do médio fosse de fácil acesso ao mesmo tempo que não atrapalhava a ida para a quadra, que era fechada, a cantina em si possuía um bom atendimento e comida de boa qualidade, mas mesmo assim, grande parte dos alunos preferia trazer lanche, como alguma bolacha, do que comprar algo na cantina, o motivo? Os preços altos. Um salgado custava cerca de R$4,50, preço relativamente alto, até mesmo para eventos, mas na minha opinião o preço justificava a alta qualidade. Comprei uma esfiha de frango e um refrigerante, que era incrivelmente barato, cerca de R$2,50. Retirei-me para os jardins logo em seguida.
Mesmo recebendo esse nome o local não era um jardim em si. Se tratava mais de uma ladeirinha de grama. Possuíamos dois, um que era acessado diretamente pelo pátio e chegava a ter mais pessoas e outro que era acessado pela rampa de entrada e ficava na parte de trás das salas do fundamental, ele era relativamente menos frequentado por ser mais longe e por estar na visão dos professores com uma facilidade muito maior, mas havia um ponto cego nele de cerca de 5 metros que era localizado no meio dele, era o melhor local de toda a escola, praticamente não havia nada ali que pudesse te atrapalhar, além disso, como tínhamos bons 30 minutos de intervalo, passava grande parte do meu tempo ali fazendo alguma outra atividade ou só cochilando.
Fui até o local, cheguei a chamá-lo de “Zona VIP” e me sentei, a grama estava razoavelmente confortável, graças a chuva de três dias atrás. Abri o meu refrigerante e apoiei-o em uma escada que levava dos jardins para o estacionamento, localizado na parte da frente da escola na quais os estudantes não tinha permissão para entrar, e comecei a comer o meu lanche.
Não muito tempo depois já havia terminado ele e bebido quase metade do refrigerante, resolvi beber o resto depois. Coloquei os fones no ouvido, coloquei alguma música para tocar e resolvi deitar e dormi, aproveitando que estava cansado por ter acordado mais cedo que o usual. Não consegui nem ao menos três minutos de sono antes dela chegar. A transferida veio me atrapalhar.
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