Crossroads

2 Capítulo 2 - Gabriela Moraes


O que faz uma garota ser feliz na adolescência? Para algumas pode ser muito bem o fato de ser famosa, para outras, aproveitar a vida, sair, fazer tudo que tem que ser feito, para depois mais tarde, cair em uma vida monótona e desejar voltar aos seus tempos de glória, para outras é ter um belo namorado, lindas roupas e tudo que há de bom, para mim algo que me tire da monotonia do dia a dia, seria o suficiente, mas não algo como festas e ir a vários lugares dar “rolêzinhos” com as amigas, eu quero algo novo, que possa ser só meu e de mais ninguém. Eu quero alguém que me tire disso, que me faça ver o mundo de outra forma, mas eu não consigo achar esse alguém em nenhum lugar que eu vá, mesmo com o trabalho do meu pai que praticamente o força a mudar de cidade a cada três ou cinco anos, eu não consegui achar esse alguém, não importa o lugar, e nem o tempo. Praticamente toda e qualquer garota ficaria com inveja dos lugares que já morei, Madrid, Curitiba e Dallas e mais recentemente, pelo menos onde moro nesse momento, em São Paulo, mas não importa o lugar, eu não o acho, não importa o número de pessoas que eu conheça todas elas são iguais, veem o mundo como se somente elas fossem importantes, nunca se sacrificariam pelos outros, mas ainda assim querem que os outros se matem por elas, sacrificando a tudo e a todos pelo bem delas, e somente delas, não deixando que ninguém mais tenha a felicidade que elas têm. Não posso dizer que sou diferente, claro. Sacrifiquei muitas amizades em troca de várias outras coisas ao longo de todos esses anos, se me arrependo? É claro que não, você nunca pode se arrepender de algo que sabia as consequências e isso é uma dessas coisas, obviamente não é uma coisa boa de ser feita, mas é uma coisa necessária.
Por algum motivo, sinto que sempre que penso sobre mim mesma e vejo quem é a pessoa que estou procurando comparando ela às minhas ações, eu sempre descubro que essa pessoa é exatamente o oposto de quem sou e de quem conheço, um mecanismo de escape, alguém que talvez, e só talvez, possa me salvar desse mundo de desespero no qual vivo. Sobre minha personalidade? Não sinto que exista muita coisa que eu possa falar sobre, não, na verdade existe algo sobre ela, eu sempre me escondo atrás de uma máscara. Desde quando eu faço isso? Sinto que desde que me conheço como pessoa escondo a mim mesma, escondo o meu eu sombrio e que procura desesperadamente por uma salvação, e mostro aquele eu superficial, o eu que é alegre, uma boa garota e que busca sempre o bem dos outros, mesmo nunca ajudando eles em nenhuma ocasião.

Sobre a minha família? Não gosto dela. Ela é exatamente aquela família perfeita de qualquer filme americano, um pai e uma mãe que trabalham, tem tudo, dão o melhor para os filhos, eu e o meu irmão mais novo de quatro anos, dão amor, dão comida, dão casa e roupa lavada. Eu sei que somente isso faria milhares de pessoas somente nessa cidade sentir uma enorme inveja de mim por tudo isso que possuo mal elas sabem que sou eu quem na verdade tenho inveja delas. Elas não têm absolutamente nada, por esse e único motivo podem dar tudo de si pelos outros, por não terem nada sabem que a única coisa que podem dar a alguém é a sua ajuda. Elas são felizes.

A vida tem se resumido a acontecimentos vazios e sem sentido durante 15 longos e dolorosos anos, me fazendo se arrepender de ter vivido todos eles, eu sei muito bem que nunca encontrarei o meu salvador, sei muito bem que viverei uma vida vazia até a minha morte me escondendo nessa morte social, sei muito bem que nada valerá a pena, sei muito bem que tudo o que tenho, sem nenhuma exceção será esquecido assim que eu partir desse mundo, como sei disso? Não importa o quão rico você foi o quão feliz foi a sua vida, pois no final de tudo, nada disso valerá a pena, pois não serei lembrada, morrerei no vazio escuro como mais uma que nada vez para o mundo, só foi mais um encosto.

Mas de uma coisa eu tenho certeza, amanhã será o meu último dia, amanhã será o último dia de uma garota que viveu uma vida sozinha procurando a salvação que nunca irá encontrar. Amanhã eu morrerei. Irei para a escola, me apresentarei, fingirei estar tudo bem para os meus colegas de quem não lembrarei o nome e que provavelmente não vão lembrar-se de mim também, e logo após isso irei dar o fim a minha vida, irei pular da passarela que preciso atravessar para ir a escola, irei jogar a minha vida fora pulando de cerca de 10 metros de altura em plena Dutra. Uma morte rápida.

Tinha terminado de escrever a minha carta, peguei um envelope na primeira gaveta da escrivaninha que ficava posicionada no canto do quarto, coloquei a carta dentro, estava escrita em uma folha de fichário com uma boa letra e possuía cerca de duas folhas, era o suficiente. Levantei-me e peguei o meu pijama que havia separado um pouco antes e que havia deixado encima da minha cama, uma camisa leve e uma calça não muito grande, acho que passava cerca de 10 centímetros do meu joelho, mas que era igualmente confortável, gostava desse conjunto, era bonito, azul com algumas listras brancas, e além de tudo era confortável.

Tomei o melhor banho que pude tomar em toda a minha vida, como se estivesse me limpando de todas as impurezas desses 15 anos de vida, devo ter ficado cerca de 30 minutos no banho, mas pareceu no máximo cinco. Sequei-me, escovei os dentes e abri a porta do banheiro da suíte. Dei uma olhada no quarto, a luz já estava apagada, meus pais já estavam dormindo, olhei bem para eles, nunca mais veria eles dormindo nessa calma que estou vendo, fechei meus olhos e agradeci a eles por tudo que me deram, o problema não foram vocês, vocês foram excelentes, eu que sempre quis o que vocês nunca puderam me dar, me desculpem. Continuei em direção a sala do apartamento que estava com a luz acesa, me irmão estava lá vendo desenho, veio correndo até mim assim que me viu, com um sorriso no rosto, gritando:

– Mana, mana, vamos brincar!

– Não, agora já está tarde, vamos dormir né, Dudu?

– Tudo bem! Mas com certeza iremos brincar amanhã, né?

Fiz um sim com a cabeça, ele pareceu concordar e foi em direção ao quarto dele, mas não consegui me controlar e acabei me ajoelhando e abraçando ele por trás, não poderia mostrar que estava chorando por ele, que nunca mais verá a irmã, que viverá uma vida de possível culpa. Falei:

– Eu te amo, e sempre vou te amar, okay?

Soltei-o logo em seguida, o peguei no colo colocando a cabeça dele de costas para a minha, de maneira que ele não visse o meu rosto. Coloquei-o na cama, dei um beijo na testa dele e fui para o meu quarto, provavelmente essa seria a última vez que eu o veria, senti uma pequena tristeza, isso não me abateria, não tenho nenhum último desejo. Deitei na cama, mas assim que deitei, chorei, chorei a noite inteira. Chorei de culpa e de tristeza, mas sabia que o que faria era a coisa certa.

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Acordei pela manhã com o meu celular despertando, me levantei com o pensamento de que não poderia mostrar que nada estaria errado, troquei para o uniforme que usaria por apenas um dia, minha mãe gentilmente separou ele para mim pela manhã, fui para o banheiro da suíte, meus pais já não estavam mais no quarto, escovei os meus dentes e fui para a sala. Lá estavam eles, felizes por mais um dia, dei o meu bom dia habitual.

– É hoje, campeã. É dia da nova escola. – disse a minha mãe com um sorriso no rosto – Vê se faz amigos, hein?

– Mas tenho que ver quanto tempo vou ficar nessa também. – dei um sorriso, sabia muito bem que seria só por um dia, mas teria que fingir que tudo estava bem – Tomara que pelo menos até o fim do ano dessa vez.

– Sim, se Deus quiser, vai ser pelos próximos dois anos, até você se formar. – respondeu o meu pai, enquanto mastigava uma bolacha de água e sal. – Finalmente consegui ter uma pausa estável no emprego aqui em São Paulo.

Dei um sorriso, peguei duas bolachas para não ficar de estômago vazio, comi as duas rapidamente, em menos de meio minuto praticamente, peguei a minha mochila que estava no canto da sala, coloquei-a nas minhas costas, peguei a chave e disse:

– Estou indo, mais tarde estou de volta.

Eu nunca voltaria. Peguei o elevador e olhei o meu reflexo no espelho, o reflexo de alguém que daria cabo da própria vida cerca de seis horas mais tarde, mas o elevador logo chegou ao seu destino, dei as costas para o meu reflexo e sai pelo hall.

A caminhada para a escola levava menos de 15 minutos, sendo relativamente rápida, praticamente no fim dela eu encontrava o que mais tarde naquele dia seria a minha última visão, abaixei o rosto enquanto passava pela passarela, em menos de cinco minutos estaria na escola.

Eu nunca deveria ter ido para aquela escola, pois lá eu me encontrei com ele, a pessoa que nunca deveria encontrar naquele dia, poderia ter encontrado ele em todos os outros dias, mas não nesses. Lá encontrei o meu salvador.

Continua...